A Escolha
Nicholas Sparks
CAPA

SUMRIO

NICHOLAS SPARKS

...

AGRADECIMENTOS

PRLOGO

PARTE UM

CAPTULO 1

CAPTULO 2

CAPTULO 3

CAPTULO 4
              4/627




CAPTULO 5

CAPTULO 6

CAPTULO 7

CAPTULO 8

CAPTULO 9

CAPTULO 10

CAPTULO 11

CAPTULO 12

CAPTULO 13

CAPTULO 14

PARTE DOIS
              5/627




CAPTULO 15

CAPTULO 16

CAPTULO 17

CAPTULO 18

CAPTULO 19

CAPTULO 20

CAPTULO 21

CAPTULO 22

EPLOGO
Nicholas Sparks
              A Escolha
                   Traduo
Ivar Panazzolo Jnior
...
        Copyright  2007 by Nicholas Sparks
      Copyright  2012 Editora Novo Conceito
             Ttulo original: The choice
           Todos os direitos reservados.
  Esta  uma obra de fico. Nomes, personagens,
lugares e acontecimentos descritos so produtos da
  imaginao do autor. Qualquer semelhana com
    nomes, datas e acontecimentos reais  mera
                    coincidncia.

               1 Impresso - 2012

               Produo Editorial
              Equipe Novo Conceito

         Traduo: Ivar Panazzolo Jnior
  Preparao de Texto: Denise Cristina Morgado
Reviso de Texto: Flvia Taveira de Atade Mazzo e
               Enymilia Guimares
      Diagramao: Nhambikwara Editorao
               Capa: Douglas Lucas
                                                   8/627


Este livro segue as regras da Nova Ortografia da Ln-
                   gua Portuguesa

          Dados Internacionais de Cata-
                 logao na Publicao
                 (CIP) (Cmara Brasileira
                 do Livro, SP, Brasil)
   ____________________________________________
      Sparks, Nicholas
    A Escolha / Nicholas Sparks ; traduo Ivar
Panazzolo Jnior. -
    Ribeiro Preto, SP : Novo Conceito Editora,
2012.
    Ttulo original: The choice.
    ISBN 978-85-63219-29-9
    1. Fico norte-americana I. Ttulo.
    11-06226 CDD-813
    ___________________________________________
                                                9/627




Rua Dr. Hugo Fortes, 1885 - Parque Industrial
                 Lagoinha
       14095-260 - Ribeiro Preto - SP
     www.editoranovoconceito.com.br
Agradecimentos
Bem, serei honesto. s vezes acho difcil escre-
ver agradecimentos pela simples razo de que a
minha vida, como autor, foi abenoada com um
tipo de estabilidade profissional que me parece
ser rara nos dias de hoje. Quando penso nos meus
primeiros romances e releio os agradecimentos
em obras como Uma carta de amor ou O resgate,
vejo nomes de pessoas com quem ainda trabalho
hoje. Eu no somente estou com o mesmo agente
literrio e editor desde que comecei a escrever,
como tambm trabalho com os mesmos as-
sessores de imprensa, agentes cinematogrficos,
advogados especializados em entretenimento, de-
signer de capas e vendedores, e um dos
produtores foi responsvel pela maioria das ad-
aptaes para o cinema de meus livros. Alm de
ser maravilhoso, me faz sentir como se existisse
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um recorde a ser quebrado quando agradeo a es-
sas pessoas. Mesmo assim, cada um deles merece
a minha gratido.
     Claro, preciso comear, como sempre,
agradecendo  Cat, minha esposa. Somos casados
h dezoito anos e temos uma bela vida juntos:
cinco filhos, oito cachorros (em pocas difer-
entes), seis residncias diferentes em trs estados
diferentes, trs funerais muito tristes de membros
da famlia, doze livros publicados e mais uma
obra de no fico. Tem sido como um re-
demoinho desde o comeo, e no consigo ima-
ginar ter todas essas experincias com qualquer
outra pessoa.
     Meus filhos - Miles, Ryan, Landon, Lexie e
Savannah - esto crescendo aos poucos, e, alm
de am-los muito, tambm me orgulho de cada
um deles.
     Theresa Park, minha agente no Park Literary
Group, no  apenas uma das minhas melhores
amigas, mas uma amiga fantstica. Inteligente,
                                               12/627


encantadora e gentil, ela  uma das maiores
bnos da minha vida, e eu gostaria de
agradec-la por tudo que fez.
      Jamie Raab, minha editora na Grand Central
Publishing, tambm merece minha gratido por
tudo o que realiza. Ela faz anotaes a lpis nos
originais que lhe envio, na esperana de fazer
com que eles fiquem melhores, tanto quanto pos-
svel, e eu me sinto feliz por ter acesso a sua
sabedoria intuitiva quando o assunto  romance
literrio. Alm de tudo, eu tenho a sorte de poder
cham-la de amiga.
      Denise DiNovi, a espetacular produtora de
Um amor para recordar, Uma carta de amor e
Noites de tormenta,  a minha melhor amiga em
Hollywood, e anseio bastante pelas visitas aos
sets de filmagem pela simples razo de que
teremos uma oportunidade de visit-la.
      David Young, o novo presidente da Grand
Central Publishing (bem, ele no  mais to novo
assim, eu acho), no apenas se tornou um bom
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amigo, mas tambm uma pessoa que merece
meus sinceros agradecimentos, sobretudo pelo
hbito desagradvel que tenho de lhe enviar os
manuscritos no ltimo minuto possvel.
Desculpe-me.
     Jennifer Romanello e Edna Farley so as-
sessoras de imprensa e amigas, e eu adoro trabal-
har com elas desde que Dirio de uma paixo foi
publicado, em 1996. Obrigado por tudo o que vo-
cs fazem!
     Harvey-Jane Kowal e Sona Vogel, que
fazem reviso e edio, sempre merecem meus
agradecimentos por encontrarem os "errinhos"
que inevitavelmente surgem nos meus livros.
     Howie Sanders e Keya Khayatian, na UTA,
merecem meus agradecimentos pelo sucesso que
tive nas adaptaes para o cinema. Reconheo
tudo o que vocs dois fazem.
     Scott Schwimmer sempre cuida de mim, e
percebi que o considero um amigo. Obrigado,
Scott!
                                          14/627


     Muito obrigado a Marty Bowen, o produtor
responsvel pela verso para o cinema de
Querido John.
     Obrigado tambm a Flag, por mais uma
     capa maravilhosa.
                                           15/627


     E, finalmente, obrigado tambm a Shannon
O'Keefe, Abby Koons, Sharon Krassney, David
Park, Lynn Harris e Mark Johnson.




                         Para a famlia Lewis:
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Bob, Debbie, Cody e Cole.
           Minha famlia.
Prlogo
Fevereiro de 2007
Histrias so nicas, assim como as pessoas que
as contam, e as melhores histrias so aquelas
cujo final  uma surpresa. Pelo menos, lembrava
Travis Parker, era o que o seu pai dizia quando
ele era criana. Travis lembrava-se da maneira
como seu pai se sentava na cama ao seu lado,
com a boca curvada em um sorriso quando o ga-
roto implorava por uma histria.
      - Que tipo de histria voc quer? - pergun-
tava seu pai.
      - A melhor de todas - respondia Travis.
      Geralmente, o pai dele ficava sentado por al-
guns minutos em silncio, e seus olhos se ilu-
minavam. Ele colocava o brao ao redor de Trav-
is e, com uma voz impecvel, comeava a contar
alguma histria que frequentemente deixava
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Travis acordado por um bom tempo, mesmo de-
pois que seu pai j havia apagado as luzes.
Sempre havia aventura, perigos, emoo e jor-
nadas que aconteciam dentro e nas redondezas da
pequena cidade litornea de Beaufort, na Caro-
lina do Norte, o lugar onde Travis Parker cresceu
e que ele ainda chama de lar. Estranhamente, a
maior parte daquelas histrias inclua ursos.
Ursos-cinzentos, marrons, pardos... seu pai no
era muito apegado  realidade dos hbitats nat-
urais dos ursos. Ele se concentrava em cenas com
fugas alucinadas pelos baixios arenosos, fazendo
com que Travis tivesse pesadelos com ursos-po-
lares enfurecidos nas praias de Shackleford.
Mesmo assim, independentemente do quanto as
histrias o assustavam, ele inevitavelmente per-
guntava: "O que aconteceu depois?".
     Para Travis, aqueles dias pareciam ser os
vestgios inocentes de outra era. Ele estava com
43 anos agora e, ao parar seu carro no estaciona-
mento do Hospital Geral de Carteret, onde sua
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esposa havia trabalhado nos ltimos dez anos,
pensou novamente nas palavras que sempre dizia
ao pai.
      Ao descer do carro, apanhou as flores que
havia trazido. Na ltima vez que falara com a es-
posa, haviam discutido e, acima de tudo, ele
queria se desculpar e fazer as pazes. Ele no tinha
iluses de que as flores melhorariam as coisas,
mas no estava certo em relao ao que mais po-
deria fazer. No  necessrio dizer que ele se sen-
tia culpado pelo que havia acontecido, mas outros
amigos, tambm casados, garantiram-lhe que a
culpa era a pedra fundamental de qualquer bom
casamento. Significava que havia uma conscin-
cia trabalhando, que havia bons valores sendo
considerados, e o melhor a fazer era evitar
quaisquer razes para se sentir culpado, sempre
que possvel. s vezes, seus amigos admitiam
fraquezas em determinadas reas, e Travis perce-
beu que o mesmo poderia ser dito sobre qualquer
casal que ele j conhecera. Supunha que seus
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amigos haviam dito aquilo para fazer com que se
sentisse melhor, para lembrar-lhe de que nin-
gum  perfeito, de que ele no devia ser to duro
consigo mesmo. "Todos cometem erros", diriam
eles, e, embora ele assentisse, como se concor-
dasse, sabia que eles nunca entenderiam a situ-
ao pela qual estava passando. Eles no teriam
condies de fazer isso. Afinal de contas, eles
ainda tinham suas esposas dormindo ao lado to-
das as noites; nenhum daqueles casais havia se
afastado por trs meses, nenhum deles se pergun-
tava se o seu casamento algum dia voltaria a ser
como antes.
     Ao cruzar o estacionamento, pensou nas
duas filhas, no seu emprego e na esposa. No mo-
mento, nada daquilo lhe reconfortava. Sentia
como se estivesse fracassando em praticamente
todas as reas da sua vida. Ultimamente, a feli-
cidade parecia to distante e inalcanvel para ele
quanto uma viagem pelo espao sideral. Mas nem
sempre se sentiu assim. Houve um longo espao
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de tempo durante o qual se lembrava de ter sido
muito feliz. Mas as coisas mudam. As pessoas
mudam. A mudana  uma das leis inevitveis da
natureza, cobrando tributos sobre a vida das pess-
oas. Cometem-se erros, arrependimentos surgem,
e tudo o que havia sobrado eram repercusses
que tornavam algo to simples como se levantar
da cama uma coisa quase extenuante.
     Balanando a cabea, ele se aproximou da
porta do hospital, imaginando-se como a criana
que havia sido, ouvindo as histrias de seu pai.
Sua prpria vida havia sido a melhor de todas as
histrias, pensava. O tipo de histria que deveria
ter acabado com um final feliz. Ao estender a
mo para abrir a porta, sentiu a onda familiar de
memrias e arrependimentos.
     Somente mais tarde, depois de deixar as
memrias tomarem conta de si mais uma vez, 
que ele se permitiria imaginar o que aconteceria a
seguir.
Parte um
Captulo 1
Maio de 1996
- Me diga mais uma vez por que eu concordei em
ajud-lo com isso - disse Matt, que, resmungando
e com o rosto vermelho, continuava a empurrar a
banheira de hidromassagem em direo ao
buraco em forma de quadrado recm-cortado no
lado mais distante do deque. Os ps dele escor-
regavam, e ele podia sentir o suor lhe escorrer da
testa para os cantos dos olhos, fazendo com que
eles ardessem. Estava quente, quente demais para
o comeo de maio. Extremamente quente para
fazer isso, com certeza. At mesmo Moby, o ca-
chorro de Travis, estava escondido sob uma som-
bra, arfando, com a lngua dependurada.
      Travis Parker, que estava empurrando a
pesada caixa com Matt, encontrou foras para
resmungar. - Porque voc achou que seria
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divertido - disse ele. Abaixou os ombros e deu
mais um empurro; a banheira - que devia pesar
quase 200 quilos - avanou mais alguns centmet-
ros. Nesse ritmo, a banheira talvez chegaria ao
seu devido lugar... na semana seguinte.
    - Isso  ridculo - disse Matt, apoiando seu
peso na caixa, pensando que o que eles realmente
precisavam era de uma tropa de mulas. Suas cost-
as o estavam matando. Por um momento, imagin-
ou que a sua cabea iria explodir pelas orelhas,
lanando destroos em ambas as direes, como
os foguetes feitos com garrafas que ele e Travis
costumavam disparar quando crianas.
    - Voc j disse isso.
    - E no tem graa - resmungou Matt.
    - Voc disse isso tambm.
    - E no vai ser fcil instalar isso.
      - Claro que vai - discordou Travis. Ele se le-
vantou e apontou para as palavras impressas na
caixa. - Est vendo? Bem aqui, "fcil de instalar".
- Do lugar em que estava, sob a rvore frondosa,
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Moby, um bxer puro-sangue, latiu como se con-
cordasse, e Travis sorriu, parecendo estar
bastante satisfeito consigo mesmo.
      Matt praguejou, tentando tomar flego. Ele
detestava quando Travis assumia aquela postura.
Geralmente gostava do grande entusiasmo de seu
amigo. Mas hoje, no. Definitivamente, hoje no.
      Matt pegou um leno que estava no bolso de
trs. O leno estava encharcado de suor, e havia
deixado suas calas num estado lastimvel, com
os fundilhos encharcados. Ele enxugou o rosto e
amarrou o leno ao redor da cabea com um mo-
vimento rpido. O suor escorria pelo tecido em
direo ao seu tnis, pingando como uma torneira
quebrada. Ele olhou para aquilo fixamente, como
se estivesse hipnotizado, antes de sentir que o te-
cido do tnis absorvia aquilo, causando-lhe uma
sensao suave e pegajosa nos dedos do p. Algo
completamente inusitado, no ?
      - Pelo que me lembro, voc disse que Joe e
Laird estariam aqui para nos ajudar com o seu
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"pequeno projeto", e que Megan e Allison viriam
preparar alguns hambrgueres, e que tomaramos
umas cervejas, e que, ah, sim, que instalar este
troo levaria no mximo umas duas horas.
     - Logo eles estaro aqui - disse Travis.
     - Voc disse isso h quatro horas.
     - Talvez eles tenham se atrasado.
     - Talvez voc nem tenha ligado para eles.
     - Claro que liguei. E eles vo trazer as cri-
anas, tambm.  srio.
     - Quando?
     - Logo, logo.
     - Aham - respondeu Matt. E enfiou a
bandana de volta no bolso. - E, por falar nisso,
caso eles no cheguem logo, como voc imagina
que ns dois conseguiremos colocar esta coisa no
buraco?
     Travis minimizou o problema com um
aceno ao virar-se novamente para a caixa. - Dare-
mos um jeito. Por enquanto, pense no progresso
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que j fizemos at agora. J estamos quase na
metade do caminho.
     Matt fechou a cara novamente. Era sbado -
Sbado! Seu dia reservado para descanso e diver-
timento, sua chance de escapar do trabalho, o dia
de folga que ele fez por merecer depois de cinco
dias no banco, o tipo de dia de que precisava.
Pelo amor de Deus, ele era um gerente de em-
prstimos e financiamentos! O trabalho dele en-
volvia movimentar papis, no uma banheira de
hidromassagem! Poderia estar assistindo ao jogo
de beisebol entre o Atlanta Braves e o Brooklyn
Dodgers! Poderia estar jogando golfe! Poderia ter
ido  praia! Poderia ter ficado na cama com Liz
at tarde antes de ir  casa dos pais dela, como
faziam quase todo sbado, em vez de acordar ao
raiar do dia e fazer um trabalho braal por oito
horas ininterruptas debaixo do sol escaldante que
castigava o sul dos Estados Unidos...
     Fez uma pausa. Quem ele estava querendo
enganar? Se no estivesse ali, definitivamente
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iria passar o dia na casa dos pais de Liz, e, hon-
estamente, essa era a principal razo pela qual
concordara em ajudar Travis. Mas a questo no
era aquela. A questo era que ele no precisava
daquilo. No precisava mesmo.
      - No preciso disso - disse ele. - No
preciso mesmo.
      Travis pareceu no escutar o que ele
disse. Suas mos j estavam pousadas sobre
a caixa, e ele estava se posicionando nova-
mente. - Est pronto?
      Matt abaixou o ombro, contrariado. Suas
pernas estavam tremendo. Tremendo! J sabia
que precisaria de uma dose dupla de Advil para
aliviar as dores que sentiria na manh seguinte.
Ao contrrio de Travis, ele no ia  academia
quatro vezes por semana, nem jogava squash,
nem saa para correr e tambm no ia mergulhar
em Aruba, nem surfar em Bali ou esquiar em
Vail como seu amigo fazia. - Isso no tem graa,
sabia?
                                               29/627


    Travis piscou para ele. - Voc j disse isso,
lembra-se?


     - Uau! - comentou Joe, levantando uma so-
brancelha enquanto andava ao redor do permetro
da banheira de hidromassagem. Naquele mo-
mento, o sol estava iniciando sua trajetria des-
cendente, com raios dourados refletindo na gua
da baa. Ao longe, uma gara decolou do meio
das rvores e graciosamente voou por cima da
gua, dispersando a luz. Joe e Megan, com Laird
e Allison, haviam chegado alguns momentos
antes, trazendo as crianas, e Travis estava
mostrando o lugar a eles. - Est uma beleza!
Vocs fizeram tudo isso hoje?
     Travis fez que sim com a cabea, com uma
cerveja na mo. - No foi to ruim - disse. - Acho
que o Matt at gostou de fazer fora.
     Joe deu uma olhada em Matt, que estava es-
parramado em uma espreguiadeira ao lado do
                                              30/627


deque, com um pano encharcado em gua gelada
ao redor da cabea e at mesmo da barriga - Matt
sempre teve alguns quilos a mais - parecia estar
cansado.
     - D pra ver.
     -  muito pesada?
     - Igual a um sarcfago egpcio! - disse Matt.
- Aqueles feitos de ouro, que s podem ser movi-
mentados com guindastes.
     Joe riu. - As crianas j podem entrar nela?
     - Ainda no. Acabei de ench-la, e vai de-
morar um pouco at que a gua esquente. Mas o
sol vai apressar as coisas.
     - O sol vai esquentar a gua em alguns
minutos! - assegurou Matt, com a voz lamuriosa.
- Em alguns segundos!
     Joe abriu um sorriso. Os trs, juntamente
com Laird, se conheciam desde o jardim de
infncia.
     - O dia foi difcil, Matt?
                                            31/627


     Matt tirou o leno que estava ao redor da
sua cabea e lanou um olhar duro para Joe. -
Voc nem imagina. E obrigado por aparecer na
hora marcada.
     - Travis me disse para vir s cinco. Se eu
soubesse que vocs precisavam de ajuda, teria
vindo mais cedo.
     Matt lentamente fixou o olhar em Travis.
Realmente detestava o amigo s vezes.
     - E como est Tina? - perguntou Travis,
mudando de assunto. - Megan est conseguindo
dormir?
     Megan estava conversando com Allison na
mesa, do outro lado do deque, e Joe deu uma
rpida olhada na direo em que elas estavam. -
Um pouco. Tina no est mais tossindo e est
conseguindo dormir  noite novamente, mas s
vezes penso que Megan no est mais progra-
mada para dormir. Pelo menos no desde que
teve a menina. Ela se levanta mesmo que Tina
                                              32/627


no tenha feito barulho algum.  como se o siln-
cio a despertasse.
     -  uma boa me - afirmou Travis. - Sempre
foi.
     Joe virou-se para Matt. - Onde est Liz? -
     perguntou.
     - Ela vai chegar a qualquer momento - re-
spondeu Matt, com uma voz macilenta que pare-
cia emanar de um cadver. - Passou o dia na casa
dos pais.
     - Que lindo! - comentou Joe.
     - Seja legal. Eles so boas pessoas.
     - Acho que me lembro de uma vez que voc
disse que, se tivesse de escutar mais uma das
histrias do seu sogro sobre o cncer de prstata
que ele teve, ou escutar a sua sogra tagarelar
sobre Henry ser demitido mais uma vez - mesmo
que no tenha sido culpa dele -, voc enfiaria a
cabea no forno e ligaria o gs.
     Matt se endireitou na espreguiadeira com
certo esforo. - Eu nunca disse isso!
                                               33/627


      - Disse sim - Joe piscou quando Liz, a es-
posa de Matt, se aproximou da casa, com o
pequeno Ben andando com passos hesitantes a
sua frente. - Mas no se preocupe, no vou contar
isso a ningum. Os olhos de Matt estavam agita-
dos, olhando de Liz para Joe, e de volta para Liz,
tentando perceber se ela havia ouvido alguma
coisa.
      - Oi, pessoal! - cumprimentou Liz em voz
alta, com um aceno amistoso, trazendo Ben pela
mo. Ela foi em direo a Megan e Allison. Ben
soltou-se dela e foi atrs das outras crianas que
estavam no quintal.
      Joe viu Matt respirando aliviado. Ele sorriu
e baixou o tom de voz. - Ento, voc usou os
sogros de Matt para convenc-lo a vir aqui?
      - Talvez eu tenha usado esse argumento -
Travis deu um sorriso torto. Joe riu.
      - O que vocs esto falando a? - perguntou
Matt, desconfiado.
                                                34/627


    - Nada! - disseram os dois, ao mesmo
tempo.


      Mais tarde, depois de o sol ter se posto e to-
dos terem jantado, Moby se deitou aos ps de
Travis. Enquanto ouvia o barulho das crianas
brincando na gua da banheira, Travis sentiu uma
onda de satisfao tomar conta de si. Este era o
tipo de tarde que ele adorava, desfrutada ao som
de risos compartilhados e conversas bem-
humoradas. Em certo momento, Allison estava
conversando com Joe; no momento seguinte, es-
tava conversando com Liz, e depois com Laird
ou Matt, e assim por diante, com todos que es-
tavam sentados ao redor da mesa do quintal. Sem
pretenses, sem tentativas de impressionar, nin-
gum tentando menosprezar ningum. Sua vida,
ele pensava s vezes, se parecia com um comer-
cial de cerveja, e, na maior parte do tempo, ele se
                                               35/627


contentava em simplesmente curtir aquela
sensao boa.
     De vez em quando, uma das esposas se le-
vantava para dar uma olhada nas crianas. Laird,
Joe e Matt, por sua vez, resumiam suas habilid-
ades paternas em tempos como estes a simples-
mente levantar suas vozes periodicamente, na es-
perana de acalmar as crianas ou impedi-las de
se provocar ou de se machucar acidentalmente.
Uma das crianas abria um berreiro ocasional-
mente, mas a maioria dos problemas era
resolvida com um beijo rpido em um joelho es-
folado ou um abrao to agradvel de se observar
a distncia quanto deveria ter sido para a criana
receb-lo.
     Travis olhou em volta da mesa, feliz por
seus amigos de infncia terem se tornado no
somente bons maridos, mas por ainda fazerem
parte da sua vida. As coisas nem sempre ter-
minavam assim. Aos 32 anos, ele sabia que a
vida s vezes se parecia com um jogo de azar, e
                                               36/627


havia sobrevivido a mais do que apenas alguns
acidentes e quedas, alguns dos quais deveriam ter
causado ferimentos bem mais srios do que os
que sofreu. Mas no era s isso. A vida era im-
previsvel. Outras pessoas que ele havia con-
hecido j tinham morrido em acidentes de carro,
se casado e divorciado, se viciado em drogas ou
lcool, ou simplesmente se mudado para outro
lugar, para longe daquela pequena cidade, e seus
rostos j comeavam a se apagar da sua memria.
Quais eram as chances daqueles quatro - amigos
desde que estavam no jardim de infncia - con-
tinuarem em contato depois dos 30 anos, e ainda
passarem os fins de semana juntos? A probabilid-
ade era pequena, ele pensava. Mas, de algum
modo, depois de estarem juntos durante a ad-
olescncia, com todos os seus problemas com
acnes, garotas e a presso dos pais, e depois de
frequentarem quatro faculdades diferentes com
objetivos de carreira distintos, todos eles, um por
um, voltaram a viver em Beaufort. Eles se
                                                37/627


pareciam mais com uma famlia do que com um
grupo de amigos, inclusive tinham expresses em
cdigo e experincias compartilhadas que nin-
gum que no fizesse parte daquele grupo con-
seguiria entender plenamente.
     E, milagrosamente, as esposas se davam
bem tambm. Elas tinham histrias diferentes e
vinham de diferentes partes do estado, mas o
casamento, os filhos que tiveram e as infindveis
fofocas que permeavam a vida das pequenas cid-
ades americanas eram mais do que suficientes
para mant-las conversando regularmente ao tele-
fone, criando uma intimidade como a que existe
entre irms que no se veem h muito tempo.
Laird foi o primeiro a se casar. Ele e Allison tro-
caram alianas no vero seguinte a sua formatura
na Universidade de Wake Forest; Joe e Megan
entraram na igreja um ano depois, aps se apaix-
onarem durante o ltimo ano do curso que faziam
na Universidade da Carolina do Norte. Matt, que
havia estudado na Universidade Duke, conheceu
                                              38/627


Liz em Beaufort, e eles se casaram depois de um
ano. Travis foi padrinho dos trs casamentos.
     Algumas coisas haviam mudado nos ltimos
anos,  claro, especialmente por causa dos novos
nascimentos naquelas famlias. Laird no podia
mais andar de mountain bike a qualquer hora. Joe
no podia mais se unir a Travis em alguma
viagem de ltima hora para esquiar no Colorado
como costumava fazer antes do casamento, e
Matt j havia desistido de tentar acompanh-lo na
maioria das coisas. Mas no tinha problema. Eles
ainda estavam disponveis para outras atividades,
e entre eles - e com planejamento antecipado -
Travis ainda conseguia aproveitar bastante os
seus fins de semana.
     Perdido em pensamentos, Travis no havia
percebido que a conversa tinha parado em algum
ponto.
     - Perdi alguma coisa?
     - Eu perguntei se voc andou falando com
Mnica nos ltimos tempos - repetiu Megan, com
                                               39/627


um tom de voz que deixava implcita a
mensagem de que Travis estava encrencado.
Todos os seis, ele pensava, se interessavam um
pouco demais pela sua vida amorosa. O problema
com as pessoas casadas  que elas pareciam
acreditar que todas as outras pessoas que con-
hecem dever se casar tambm. Assim, todas as
mulheres com quem Travis namorava eram sub-
metidas a uma avaliao sutil, mas incisiva, espe-
cialmente por Megan. Ela geralmente era a lder
do grupo em momentos como esse, sempre tent-
ando descobrir o que despertava o interesse de
Travis em uma mulher. E Travis,  claro, adorava
retaliar aquilo com as prprias provocaes.
      - Faz algum tempo que no falo com ela -
disse ele.
      - Por que no? Ela parecia ser uma pessoa
legal.
      Ela tambm era um pouco mais neurtica do
que a mdia, pensou Travis. Mas a questo no
era aquela.
                                               40/627


     - Foi ela quem terminou o namoro, no se
lembra?
     - E da? Isso no significa que ela no queira
que voc ligue.
     - Eu achei que ela realmente no quisesse.
     Megan, Allison e Liz olhavam fixamente
para Travis, como se ele fosse simplesmente in-
gnuo. Como sempre, os rapazes pareciam estar
gostando daquilo. Esse tipo de conversa surgia
regularmente nas noites em que eles se reuniam.
     - Mas vocs estavam brigando, no ?
     - E da?
     - Voc j parou para pensar que ela pode ter
terminado com voc simplesmente porque estava
com raiva?
     - Eu estava com raiva tambm.
     - Por qu?
     - Ela queria que eu fizesse terapia.
     - Ah, deixe eu adivinhar... voc disse que
no precisava disso.
                                               41/627


     - S vou precisar fazer terapia no dia em que
eu levantar a minha saia e tricotar luvas para
neve.
     Joe e Laird riram, mas as sobrancelhas de
Megan se levantaram. Megan, como todos
sabiam, assistia ao programa de Oprah Winfrey
quase todos os dias.
     - Quer dizer que voc acha que homens no
precisam fazer terapia?
     - Eu tenho certeza de que no preciso.
     - E se considerarmos a questo de maneira
geral?
     - Como no sou especialista no assunto, no
tenho como falar a respeito.
     Megan se recostou na cadeira. - Eu acho que
Mnica talvez saiba de alguma coisa. Se voc me
perguntar, acho que voc tem algum problema
com relacionamentos.
     - Ah, ento no vou perguntar.
     Megan inclinou-se para a frente. - Quanto
     tempo durou o seu namoro
                                              42/627


mais longo? Dois meses? Quatro meses?
      Travis pensou na pergunta. - Eu namorei
      com Olvia por quase um ano.
      - Acho que ela no est perguntando sobre a
poca em que estvamos na escola - riu Laird.
Ocasionalmente, seus amigos gostavam de faz-
lo andar sobre brasas, por assim dizer.
      - Obrigado, Laird - disse Travis.
      - Amigos so para essas coisas.
      -Voc est fugindo do assunto - insistiu
Megan.
      Travis tamborilou os dedos na mesa. - Acho
que... no lembro.
      - Em outras palavras, pouco tempo para se
lembrar.
      - O que posso dizer? Ainda no conheci
nenhuma mulher que possa se comparar a vocs.
      Apesar de estar escurecendo, ele percebeu
que Megan ficou contente com aquelas palavras.
Aprendeu, h muito tempo, que elogios eram a
melhor defesa em momentos como esses,
                                              43/627


especialmente porque geralmente era sincero.
Megan, Liz e Allison eram timas. Todas tinham
bom corao, eram leais, generosas e com
bastante senso prtico.
      - Bom, fique sabendo que eu gosto dela -
afirmou Megan.
      - Ah, sim, mas voc gosta de todas as mul-
heres com quem eu namoro.
      - No  bem assim. Eu no gostava de
Leslie.
      Nenhuma das esposas gostava de Leslie.
Matt, Laird e Joe, por outro lado, no se im-
portavam nem um pouco com a presena dela,
especialmente quando estava de biquni. Era
definitivamente linda e, embora no fosse o tipo
de mulher com quem ele iria se casar, eles se di-
vertiram muito enquanto o namoro durou.
      - S estou dizendo que voc deveria ligar
para ela - insistiu Megan.
      - Vou pensar no caso - disse ele, sabendo
que no faria nada daquilo. Ele se levantou da
                                            44/627


mesa, buscando uma rota de fuga. - Algum quer
outra cerveja?
     Joe e Laird levantaram suas garrafas ao
mesmo tempo, e os outros recusaram. Travis foi
em direo  caixa trmica antes de hesitar em
frente  porta de vidro da sua casa. Ele correu
para dentro e mudou o CD, prestando ateno nas
notas das novas msicas que soavam pelo jardim
enquanto voltava para a mesa com as cervejas.
Naquele momento, Megan, Allison e Liz j es-
tavam conversando a respeito de Gwen, a mulher
que cuidava dos seus cabelos. Gwen sempre tinha
boas histrias, muitas das quais versavam sobre
as preferncias ilcitas dos moradores de
Beaufort.
     Travis bebia sua cerveja em silncio, ol-
hando para o rio.
     - No que voc est pensando? - perguntou
Laird.
     - Nada que seja importante.
     - O que ?
                                              45/627


      Travis virou-se para ele. - J percebeu que
algumas cores acabam virando nomes de pessoas,
enquanto outras no?
      - Do que voc est falando?
      - White e Black. Como o Sr. White, o dono
da loja de pneus. E o Sr. Black, nosso professor
da terceira srie. Ou at mesmo o Sr. Green, do
jogo Detetive. Mas nunca ouvi falar de algum
chamado Sr. Orange ou Sr. Yellow.  como se
algumas cores dessem bons nomes, enquanto out-
ras iriam simplesmente parecer meio bobas. Voc
entende?
      - Acho que nunca pensei sobre isso.
      - Tambm no. Pelo menos, nunca havia
pensado nisso at agora. Mas  meio estranho,
no ?
      - Acho que  - Laird finalmente concordou.
      Os dois homens ficaram em silncio por um
momento. - Eu disse que no era nada
importante.
      - , disse sim.
                                               46/627


     - Eu estava certo?
     - Pode ter certeza de que estava.
     Quando a pequena Josie comeou o segundo
berreiro em menos de quinze minutos - j eram
quase 9 horas -, Allison a pegou nos braos e en-
carou Laird com aquele olhar, aquele que dizia
que era hora de ir para casa e colocar as crianas
na cama. Laird nem se incomodou em discutir e,
quando se levantou da mesa, Megan deu uma ol-
hada para Joe, Liz fez um sinal para Matt, e Trav-
is percebeu que a noite havia chegado ao fim. Os
pais acham que mandam, mas, no fim das contas,
so os filhos que do as ordens.
     Ele imaginou que podia ter conseguido que
um dos seus amigos ficasse, e poderia at ter con-
seguido que um deles concordasse, mas j havia
se acostumado ao fato de que seus amigos viviam
de acordo com uma agenda diferente da sua.
Alm disso, ele desconfiava que Stephanie, sua
irm mais nova, iria lhe fazer uma visita mais
tarde. Ela viria de Chapel Hill, onde estava
                                                47/627


cursando um programa de mestrado em bioqum-
ica. Embora sempre ficasse na casa dos pais
deles, geralmente chegava animada aps a
viagem e a fim de conversar, e seus pais j estari-
am dormindo quando ela viesse. Megan, Joe e
Liz se levantaram e comearam a limpar a mesa,
mas Travis lhes disse que deixassem as coisas ali.
     - Deixem a limpeza comigo. Eu cuido disso
mais tarde.
     Alguns minutos depois, os adultos estavam
carregando dois veculos utilitrios e uma
minivan com seus filhos. Travis acenou da
varanda da frente quando os carros saram pela
rua.
     Depois que seus amigos foram embora,
Travis voltou para onde estava o aparelho de
som, escolheu o CD Tattoo you, dos Rolling
Stones, e aumentou o volume. Pegou outra
cerveja antes de voltar para a sua cadeira, colo-
cou os ps sobre a mesa e se reclinou. Moby
sentou-se ao seu lado.
                                               48/627


      - S eu e voc por um tempo - disse ele. - A
que horas voc acha que Stephanie vai chegar?
      Moby olhou para o outro lado. Se Travis
no dissesse as palavras "caminhar", "bola", "dar
um passeio" ou "venha pegar um osso", Moby
no se interessava muito pelo que ele dizia.
      - Voc acha que eu devo ligar para ver se ela
j est a caminho?
      Moby continuou olhando fixamente para o
outro lado.
      - Foi o que pensei. Ela no tem hora certa
para chegar aqui.
      Ele bebeu sua cerveja sentado e olhou para a
gua do rio. Por trs dele, Moby ganiu. - Quer ir
pegar a sua bola?
      Moby se levantou to rpido que quase der-
rubou a cadeira.
      Aquela msica, ela pensava, era a gota-
d'gua em uma das semanas mais miserveis de
toda a sua vida. Msica alta. Certo, 9 horas no
sbado  noite no  algo to ruim, especialmente
                                                49/627


porque ele obviamente tinha companhia, e 10
horas no eram um grande problema tambm.
Mas s 11 da noite? Quando ele estava sozinho e
brincando de jogar bola para o cachorro pegar?
     Do deque no seu quintal, ela podia v-lo
sentado, usando a mesma bermuda que havia
usado o dia inteiro, com os ps na mesa,
lanando a bola e olhando para o rio. No que ele
estaria pensando?
     Talvez ela no devesse ser to dura com ele,
devia simplesmente ignor-lo. Era a casa dele,
no era? O rei do castelo e tudo mais. Ele podia
fazer o que quisesse. Mas aquele no era o prob-
lema. O problema era que ele tinha vizinhos, in-
cluindo ela, e ela tambm tinha seu castelo, e os
vizinhos deviam ter um pouco de considerao
entre si. E, para falar a verdade, ele havia passado
dos limites. No somente por causa da msica.
Sendo honesta consigo mesma, gostava da
msica que ele estava escutando e geralmente
no se importava com o volume ou o tempo pelo
                                              50/627


qual ele resolvia deixar o aparelho de som ligado.
O problema era o cachorro dele, Nobby, ou seja
l qual fosse o seu nome. Mais especificamente o
que o cachorro dele havia feito  sua cadela.
      Ela tinha certeza de que Molly estava
grvida.
      Molly, sua linda e doce collie puro-sangue,
descendente de uma linhagem premiada - a
primeira coisa que ela havia comprado com o
prprio dinheiro depois de terminar a residncia
do seu curso de assistente mdica na Eastern Vir-
ginia School of Medicine, e era o tipo de ca-
chorro que ela sempre quis -, havia engordado
consideravelmente durante as ltimas semanas.
Mais espantoso do que isso, tambm, ela perce-
beu que os mamilos de Molly pareciam estar
crescendo. Ela podia senti-los sempre que Molly
rolava no cho para que ela lhe acariciasse a bar-
riga. E estava andando mais lentamente tambm.
Juntando todos aqueles indcios, Molly estava
definitivamente a ponto de parir vrios filhotes
                                                 51/627


que ningum no mundo iria querer. Um bxer e
uma collie? Inconscientemente, ela franziu a testa
enquanto tentava imaginar a aparncia dos fil-
hotes, antes de finalmente forar o pensamento a
sair da sua mente.
      Ela tinha certeza de que fora o cachorro
daquele homem. Quando Molly estava no cio,
aquele cachorro havia praticamente vigiado a
casa como um detetive particular, e era o nico
cachorro que ela vira andando pela vizinhana
durante vrias semanas. Mas ser que seu vizinho
consideraria colocar uma cerca ao redor do seu
quintal? Ou manter o cachorro dentro de casa?
Ou pelo menos cercar um pedao do quintal para
que o cachorro no tivesse de ficar dentro da
casa? No. Seu lema parecia ser "meu co deve
ser livre!". Isso no a surpreendia. Ele parecia
viver a prpria vida de acordo com o mesmo
lema irresponsvel. Quando saa para trabalhar,
ela o via correndo e, ao voltar para casa, ele havia
sado para andar de bicicleta, remar o seu
                                             52/627


caiaque, andar de patins ou jogar basquete com
um grupo de crianas da vizinhana na rea ci-
mentada em frente a sua garagem. H um ms,
ele colocou seu barco na gua, e agora estava
praticando wakeboarding tambm. Como se j
no praticasse esportes o suficiente. Deus no
permitia que aquele homem fizesse hora extra no
trabalho, e ela sabia que ele no trabalhava s
sextas-feiras. E que tipo de empresa permite que
voc saia para trabalhar todos os dias usando
jeans e camiseta? Ela no fazia ideia, mas sus-
peitava - com uma satisfao cruel - de que
provavelmente exigia que ele usasse avental e
crach.
      Bem, talvez no estivesse sendo totalmente
justa. Provavelmente era um cara legal. Seus
amigos - que pareciam normais e tinham filhos -
pareciam gostar de estar em sua companhia, e
sempre vinham at a casa dele. Ela percebeu que
j tinha at mesmo visto um daqueles casais na
clnica antes, quando uma das crianas apareceu
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com o nariz entupido ou uma infeco no ouvido.
Mas o que dizer de Molly? Molly estava sentada
perto da porta dos fundos, com o rabo abanando,
e Gabby sentiu certa ansiedade ao pensar no fu-
turo. Molly ficaria bem, mas o que aconteceria
com os filhotes? O que aconteceria se ningum
os quisesse? Ela no conseguia se imaginar
levando-os para o canil ou para a Sociedade Pro-
tetora dos Animais, ou seja l qual fosse o nome
que davam quela instituio nessa cidade, para
serem mortos. No tinha coragem de fazer
aquilo. No faria aquilo de jeito nenhum. No
permitiria que fossem assassinados.
     Mas, mesmo assim, o que ela faria com os
filhotes?
     Era tudo culpa dele, e ele estava sentado ali,
no seu deque, com os ps em cima da mesa,
agindo como se no se importasse com nada que
estivesse acontecendo no mundo.
     No foi com isso que ela sonhou quando viu
a casa pela primeira vez, no comeo do ano.
                                              54/627


Embora no estivesse em Morehead City, onde
seu namorado Kevin morava, o lugar ficava logo
do outro lado da ponte. A casa era pequena e
tinha quase meio sculo de existncia, e definit-
ivamente era o tipo de casa que precisava de uma
boa reforma de acordo com os padres de
Beaufort, mas a vista ao longo do rio era es-
petacular, o terreno era grande o bastante para
que Molly pudesse correr por ele, e, acima de
tudo, ela tinha condies de pagar. Com um pou-
co de dificuldade, devido a todos os emprstimos
que tivera de fazer para pagar seus estudos, mas
os agentes de financiamentos geralmente eram
compreensivos quando os clientes eram pessoas
como ela. Pessoas instrudas e profissionais.
     No como o "Sr. meu co deve ser livre" e
"eu no trabalho s sextas".
     Ela inspirou profundamente, lembrando
novamente a si mesma que o homem poderia ser
um cara legal. Ele sempre acenava para ela
quando a via chegar do trabalho, e ela se
                                                55/627


lembrava vagamente de que ele havia deixado
uma cesta com queijo e vinho para lhe dar as
boas-vindas quando ela se mudou para aquela
casa, h alguns meses. Ela no estava em casa,
mas ele deixou a cesta na varanda, e ela prometeu
a si mesma que enviaria um bilhete de agradeci-
mento, um bilhete que nunca chegou a escrever.
     O rosto dela estava novamente se franzindo
inconscientemente. Era muita pretenso querer
ter superioridade moral. Certo, ela tambm no
era perfeita, mas aquilo no era apenas por ter es-
quecido de escrever um bilhete de agradeci-
mento. Era por causa de Molly e do cachorro
vagabundo daquele homem e os filhotes indeseja-
dos, e aquele momento era to bom quanto
qualquer outro para discutir a situao. Ele estava
acordado, obviamente.
     Ela desceu do seu deque e comeou a andar
em direo s cercas vivas que separavam as
duas casas. Uma parte dela desejava que Kevin
estivesse ali com ela, mas isso no seria possvel.
                                               56/627


No depois da discusso que eles tiveram
naquela manh, que comeou aps ela mencionar
casualmente que uma de suas primas iria se cas-
ar. Kevin, entretido com a seo de esportes do
jornal local, no havia dito uma palavra em res-
posta, preferindo agir como se no a tivesse es-
cutado. Qualquer comentrio relacionado a
casamento deixava o rapaz mudo como uma
pedra, ainda mais nos ltimos tempos. Ela ima-
ginava que no deveria ficar surpresa com aquilo
- eles namoravam h quase quatro anos (um ano
a menos que a sua prima, ela sentiu vontade de
dizer) e, se ela sabia uma coisa a respeito do seu
namorado, era que, quando Kevin achava determ-
inado tpico desagradvel, era quase certo que
ele no diria nada a respeito.
      Mas Kevin no era o problema. Nem o fato
de que ultimamente sua vida no era exatamente
como ela havia imaginado. E no foi a semana
terrvel na clnica tambm, na qual pacientes
vomitaram nela trs vezes - trs vezes! - somente
                                              57/627


na sexta-feira, o recorde da clnica, pelo menos
de acordo com as enfermeiras, que nem se es-
foravam para esconder seus sorrisinhos irnicos,
repetindo alegremente aquela histria. Ela tam-
bm no estava enraivecida por causa de Adrian
Melton, o mdico casado que gostava de toc-la
sempre que eles conversavam, deixando a sua
mo em contato com ela um pouco alm do que
ela considerava aceitvel. E ela certamente no
estava brava por ter passado por tudo aquilo em
silncio, sem conseguir dizer nada que a fizesse
se sentir melhor.
      Nada disso, aquilo tinha a ver com o "Sr.
festeiro" se transformar em um vizinho respon-
svel, algum que iria admitir o fato de que com-
partilhava a responsabilidade de encontrar uma
soluo para o problema. E enquanto ela est-
ivesse lhe falando sobre aquilo, talvez pudesse
mencionar que estava um pouco tarde para ele es-
tar com a msica tocando to alto (mesmo que
                                              58/627


ela gostasse da seleo), apenas para que ele
soubesse que ela falava srio.
     Conforme Gabby marchava pela grama, o
orvalho lhe umedecia as pontas dos dedos dos
ps protegidos pelas sandlias, e os reflexos
prateados do luar refletiam no gramado. Tent-
ando decidir exatamente por onde comear, ela
nem chegou a perceber aquilo. A cortesia dizia
que ela deveria ir at a porta da frente e bater,
mas com a msica naquele volume, ela duvidava
que ele conseguiria ouvi-la. Alm disso, queria
acabar com aquilo enquanto ainda sentia a ener-
gia do seu nervosismo e a disposio para encar-
lo.
     Mais  frente, viu uma abertura por entre a
cerca viva e foi em direo a ela. Provavelmente
era a mesma pela qual Nobby havia se esgueirado
para se aproveitar da pobre e doce Molly. Ela
sentiu seu corao apertar novamente, e desta vez
se esforou para manter aquele sentimento vivo.
Era importante. Muito importante.
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      Concentrada daquela maneira em sua mis-
so, no percebeu a bola de tnis que voava em
sua direo a toda a velocidade, assim que at-
ravessou a folhagem. Ela conseguiu, entretanto,
perceber o som distante - bem distante - do ca-
chorro galopando em sua direo, um segundo
antes de ser nocauteada e cair no cho.
      Deitada de costas no cho, Gabby percebeu,
um pouco entorpecida, que havia estrelas demais
em um cu muito brilhante e desfocado. Por um
momento, ela se perguntou por que no con-
seguia tomar flego, e depois, rapidamente, ficou
mais preocupada com a dor que lhe atravessava o
corpo. Tudo o que ela podia fazer era continuar
deitada na grama e piscar cada vez que seu corpo
latejava.
      Em algum lugar bem longe, ouviu uma bal-
brdia de sons, e o mundo lentamente voltou a
entrar em foco. Ela tentou se concentrar e perce-
beu que no era realmente uma balbrdia; estava
ouvindo vozes. Ou, melhor dizendo, uma nica
                                             60/627


voz. Parecia que a voz estava perguntando se ela
estava bem.
     Ao mesmo tempo, ela gradualmente perce-
beu uma sucesso de brisas quentes, fedorentas e
ritmadas bem prximas a sua bochecha. Ela pis-
cou mais uma vez, virou a cabea ligeiramente, e
deu de cara com uma cabea enorme, peluda e
quadrada logo acima de si. Nobby, concluiu ela,
atordoada.
     - Ahhhh... - ela gemeu, tentando se sentar.
Quando se moveu, o co lambeu seu rosto.
     - Moby! Deixe a moa em paz! - disse a
voz, parecendo estar mais prxima. - Voc est
bem? No tente se levantar ainda.
     - Estou bem - disse ela, finalmente con-
seguindo se levantar at estar sentada. Respirou
fundo duas vezes, ainda se sentindo um pouco
tonta. Nossa, pensou, isso realmente doeu. No
escuro, sentiu que havia algum agachado ao seu
lado, embora mal conseguisse perceber suas
feies.
                                                61/627


     - Lamento muito - disse a voz.
     - O que aconteceu?
     - Moby a derrubou por acidente. Ele estava
correndo atrs de uma bola.
     - Quem  Moby?
     - Meu cachorro.
     - Quem  Nobby, ento?
     - O qu?
     Ela levou uma mo at a tmpora. - Deixe
pra l.
     - Voc tem certeza de que est bem?
     - Tenho, sim - disse ela, ainda um pouco
tonta, mas sentindo que a dor estava diminuindo
at se tornar um latejar mais distante. Quando
comeou a se levantar, sentiu seu vizinho
colocando uma mo em seu brao, ajudando-a a
ficar de p. Ela se lembrou das crianas mais
novas que via na clnica, que tinham dificuldade
para ficar eretas e manter o equilbrio. Quando fi-
nalmente percebeu que estava de p, sentiu que o
vizinho soltou seu brao.
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     - No foi uma das melhores boas-vindas,
no ?
     A voz dele ainda parecia distante, mas ela
sabia que no era o caso, e, quando o olhou no
rosto, percebeu que estava olhando para algum
que era pelo menos 15 centmetros mais alto do
que ela, com seu 1,73 metro. No estava acos-
tumada com isso. Ao inclinar a cabea para cima,
percebeu as mas do rosto protuberantes e a pele
bem-cuidada dele. Seu cabelo castanho era ondu-
lado, naturalmente cacheado nas pontas, e os
dentes dele quase brilhavam de to brancos. De
perto, era bonito - muito bonito - mas ela sus-
peitava que ele tambm soubesse daquilo. Per-
dida em pensamentos, ela abriu a boca para dizer
algo, e depois a fechou novamente, percebendo
que havia esquecido a pergunta.
     - Quero dizer, voc chegou aqui para me
fazer uma visita e foi atropelada pelo meu ca-
chorro - continuou ele. - Como eu disse, sinto
                                              63/627


muito. Geralmente ele presta mais ateno. Diga
oi, Moby.
     O cachorro estava sentado sobre as patas
traseiras, relaxado e contente, e, naquele mo-
mento, ela repentinamente se lembrou do motivo
da sua visita. Ao seu lado, Moby levantou uma
pata para cumpriment-la. Era muito fofo - e ele
era fofo, mesmo para um bxer - mas ela no ia
se deixar seduzir por aquilo. Foi esse vira-latas
que, no contente em nocaute-la, tambm havia
arruinado a vida de Molly. Ele provavelmente de-
via ter sido chamado de bandido. Ou, melhor
ainda, de tarado.
     - Voc tem certeza de que est bem?
     O jeito como ele perguntava fez com que ela
percebesse que esse no era o tipo de con-
frontao que queria, e tentou se lembrar do que
estava sentindo enquanto cruzava o gramado e
passava pela abertura da cerca.
     - Estou bem - disse, com a voz rspida.
                                             64/627


     Por um momento, os dois se olharam sem
dizer nada. Finalmente, ele apontou com o poleg-
ar por cima do ombro. - Quer se sentar no deque?
Estou s ouvindo msica.
     - Por que voc acha que quero me sentar no
deque? - vociferou ela, sentindo que comeava a
tomar o controle da situao.
     Ele hesitou. - No  porque voc veio fazer
uma visita?
     Ah, sim, pensou ela. Por causa daquilo.
     - Mas eu... acho que podemos ficar aqui
perto da cerca viva se voc quiser - continuou
ele.
     Ela levantou as mos para interromp-lo,
ansiosa para dar um fim naquilo tudo. - Eu vim
aqui porque queria falar com voc...
     Ela parou de falar quando ele deu um tapa
no prprio brao. - Eu tambm - disse ele, antes
que ela pudesse recomear. - Estou querendo ir
at a sua casa para lhe dar as boas-vindas 
                                              65/627


vizinhana em carter oficial. Voc encontrou a
cesta que deixei na sua varanda?
     Ela ouviu um zumbido perto da sua orelha e
espantou o inseto que voava por ali. - Sim. Obri-
gada - disse ela, ligeiramente distrada. - Mas
queria realmente falar sobre...
     Ela parou novamente de falar quando perce-
beu que ele no estava prestando ateno. Em
vez disso, ele estava abanando o ar entre eles. -
Tem certeza de que no quer ir at o deque? Os
mosquitos so implacveis aqui perto dos
arbustos.
     - O que eu estou tentando dizer  que...
     - Tem um na sua orelha.
     Ela levantou a mo instintivamente.
     -Na outra.
     Ela deu um tapa na prpria orelha e viu que
havia uma mancha de sangue em seus dedos. No-
jento, pensou ela.
     - Tem outro bem na sua bochecha.
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     Ela abanou novamente, tentando se livrar do
enxame que crescia  sua volta. - O que est
havendo?
     - Como disse, so esses arbustos. Eles se re-
produzem na gua, e a umidade  sempre maior
na sombra...

    1.   Tudo bem - concordou, cedendo. - Po-
         demos conversar no seu deque.

     Logo depois eles estavam longe das folha-
gens, andando rpido. - Eu odeio mosquitos, e 
por isso que deixo algumas velas de citronela
acesas na mesa. Geralmente  o suficiente para
afast-los. A coisa piora bastante durante o vero.
- Ele andava prximo a ela, deixando apenas es-
pao suficiente para que no trombassem um
com o outro acidentalmente. - Acho que no nos
apresentamos formalmente ainda. Sou Travis
Parker.
     Ela sentiu uma pontada de incerteza. No
estava ali para fazer amizade, com certeza, mas a
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cortesia e os bons modos prevaleciam, e, sem
perceber, respondeu a ele. - Sou Gabby Holland.
     -  um prazer conhec-la.
     -  claro - ela tentou cruzar os braos ao
dizer aquilo, mas inconscientemente levou uma
das mos at o seu quadril, onde uma dor chata
continuava a latejar. Dali, a mo subiu at a sua
orelha, que j comeava a coar.
     Olhando para ela, Travis percebeu que es-
tava irritada. Sua boca estava curvada levemente
para baixo, com os msculos tensionados, como
ele j havia visto em muitas de suas ex-namora-
das. De algum modo, sabia que aquela raiva era
direcionada a ele, embora no fizesse ideia do
porqu. Alm de ter sido atropelada pelo ca-
chorro,  claro. Mas aquela no era exatamente a
razo, decidiu. Ele se lembrava das expresses
que fizeram a fama da sua irm mais nova,
Stephanie - aquelas que mostravam um acmulo
de ressentimentos no decorrer do tempo, e era as-
sim que Gabby parecia estar agindo agora. Como
                                              68/627


se ela estivesse se sentindo assim h um bom
tempo. Mas as similaridades com a sua irm
acabavam a. Embora Stephanie houvesse cres-
cido e se transformado em uma linda mulher,
Gabby tambm era atraente, mas de maneira que
no era to perfeita. Seus olhos azuis eram um
pouco espaados demais entre si, seu nariz era
um pouco maior do que deveria ser, e seu cabelo
ruivo era sempre difcil de domar, mas, mesmo
assim, aquelas imperfeies davam um ar de vul-
nerabilidade  sua aparncia naturalmente
agradvel, e que a maioria dos homens achava
atraente.
     Em meio ao silncio, Gabby tentou organiz-
ar seus pensamentos. - Eu vim aqui porque...
     - Um momento - interrompeu ele. - Antes de
comear, por que voc no se senta? Eu j volto.
- Ele foi em direo  caixa trmica, mas se virou
no meio do caminho. - Quer uma cerveja?
     - No, obrigada - disse ela, desejando poder
acabar com aquilo. Recusando-se a sentar, ela se
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virou, esperando poder confront-lo quando ele
passasse por ali. Mas ele voltou rapidamente e
sentou-se na cadeira, reclinando-se e colocando
os ps em cima da mesa.
     Irritada, Gabby continuou em p. Aquilo
no estava saindo da maneira como ela havia
planejado.
     Ele abriu a cerveja e tomou um gole. - No
vai se sentar?
     - Prefiro continuar de p, obrigada.
     Travis apertou os olhos e os protegeu com
suas mos. - Mas eu nem consigo v-la direito -
disse ele. - As luzes da varanda esto brilhando
muito forte por trs de voc.
     - Eu vim aqui para lhe dizer...
     - Pode dar alguns passos para a direita? -
perguntou ele.
     Ela soltou um bufado impaciente e andou
para a direita.
     - Melhor agora?
     - Ainda no.
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      Naquele momento, estava quase contra a
mesa. E jogou as mos para cima, exasperada.
      - Talvez voc devesse simplesmente se sent-
ar um pouco.
      - Tudo bem! - concordou. Ela afastou uma
das cadeiras e se sentou. Ele estava fazendo com
que tudo aquilo sasse completamente do
controle.
      - Eu vim aqui porque queria conversar com
voc... - comeou ela, imaginando se deveria ini-
ciar pela situao de Molly ou pelo que o senso
comum dizia sobre ser um bom vizinho.
      Ele levantou as sobrancelhas. - Voc j disse
isso.
      - Eu sei! - disse ela. - Estou tentando falar,
mas voc no me deixa terminar!
      Ele percebeu que ela o encarava com raiva,
mas ainda no sabia o que a havia deixado irrit-
ada daquela maneira. Depois de um segundo, ela
comeou a falar, de maneira um pouco hesitante,
como se estivesse esperando que ele fosse
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interromp-la novamente. Ele no o fez, e ela
pareceu encontrar seu ritmo, as palavras saindo
cada vez mais rpido. Ela falava sobre como
havia encontrado a casa e sobre o quanto ficou
animada com a descoberta, e sobre como ter a
prpria casa era um sonho que ela sempre tivera,
antes de o assunto desviar para Molly e a forma
como os mamilos da cachorra estavam ficando
maiores. No incio, Travis no fazia ideia de
quem seria Molly - o que dava uma qualidade
surreal quela parte do monlogo - mas, con-
forme ela continuou, ele gradualmente se deu
conta de que Molly era a collie de Gabby. Ele a
havia visto algumas vezes levando a cachorra
para passear. Depois daquilo, ela comeou a falar
sobre filhotes feios e assassinato, e, estran-
hamente, sobre nem o "doutor mos em mim",
nem o fato de vomitarem sobre ela ter alguma
coisa a ver com o que ela estava sentindo, mas,
honestamente, tudo aquilo fazia pouco sentido
at que ela comeou a fazer gestos em direo a
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Moby. Foi aquilo que permitiu que Travis
somasse dois mais dois e percebesse que ela
acreditava que Moby havia sido o responsvel
pela gravidez de Molly.
     Ele queria dizer que Moby no havia feito
aquilo, mas ela estava contando tudo com uma
energia to forte que ele achou melhor deix-la
terminar antes de protestar. Naquele momento, a
histria que ela contava havia entrado em um
ciclo, repetindo-se. Alguns fragmentos e mo-
mentos da vida dela continuavam a aparecer,
pequenos pedaos que pareciam desconexos e
distantes uns dos outros, juntamente com ex-
ploses de raiva aleatoriamente focadas nele.
Parecia que ela estava falando h mais ou menos
vinte minutos, mas Travis sabia que no poderia
ter durado tanto. Mesmo assim, no era fcil re-
ceber tantas acusaes de ser um mau vizinho
vindas de uma estranha, e ele tambm no
gostava do jeito como ela falava a respeito de
                                             73/627


Moby. Moby, em sua opinio, era o cachorro
mais perfeito do mundo.
     s vezes ela fazia uma pausa, e, naqueles
momentos, Travis tentava responder, sem con-
seguir. Mas aquilo tambm no funcionou,
porque ela imediatamente voltava a vociferar.
Em vez disso, ele escutou, e - pelo menos nos
momentos em que ela no o estava insultando ou
o seu co - pressentiu sinais de desespero, at
mesmo confuso em relao ao que estava
acontecendo em sua vida. O cachorro, mesmo
que ela no percebesse, era apenas uma pequena
parte do que a incomodava. Ele sentiu uma onda
de compaixo por ela e percebeu que, de vez em
quando, assentia com a cabea, apenas para dizer
a ela que estava prestando ateno. s vezes ela
fazia uma pergunta, mas, antes que ele pudesse
responder, ela a respondia por ele.
     - Ser que os vizinhos no devem considerar
as prprias aes?
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     - Sim, claro - ele comeou a dizer, mas ela
conseguiu falar antes dele.
     - Claro que sim! - gritou ela, e Travis viu
que estava concordando novamente.
     Quando a situao finalmente abrandou, ela
estava olhando para o cho, exausta. Embora sua
boca continuasse com a mesma curvatura, Travis
imaginou que havia visto lgrimas, e pensou se
deveria lhe oferecer um leno de papel. A caixa
de lenos estava dentro da casa - longe demais,
ele percebeu - mas ele se lembrou dos guardana-
pos que estavam perto da churrasqueira. Ele se
levantou rapidamente, pegou alguns e os trouxe
de volta  mesa. Ofereceu-lhe um, e, depois de
hesitar um pouco, ela o aceitou. Ela enxugou o
canto dos olhos. Agora que havia se acalmado,
ele percebeu que ela era ainda mais bonita do que
ele havia pensado  primeira vista.
     Ela tomou flego, um pouco trmula.
     - A questo  a seguinte: o que voc vai
fazer?
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     Ele hesitou, tentando saber a que ela se
referia, exatamente. - Em relao a qu?
     - Aos filhotes!
     Ele conseguia ouvir a raiva dela comeando
a ferver novamente e levantou as mos na tent-
ativa de acalm-la. - Vamos comear pelo
comeo. Voc tem certeza de que ela est
grvida?
     - Claro que tenho! Voc no ouviu o que
acabei de dizer?
     - Voc j a levou a um veterinrio?
     - Sou assistente mdica. Passei dois anos e
meio em uma escola especializada e mais um ano
fazendo residncia. Sei dizer quando algum est
grvida.
     - Em relao a pessoas, tenho certeza de que
sabe. Mas  diferente com cachorros.
     - Como voc sabe?
     - Tenho muita experincia com ces. Na
verdade...
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      Ah, sim, aposto que tem, pensou ela,
interrompendo-o com um gesto.
      - Molly est andando mais devagar, os
mamilos dela esto inchados, e ela est agindo de
forma estranha ultimamente. O que mais poderia
ser? - Honestamente, todo homem que ela con-
heceu acreditava que ter um cachorro quando cri-
ana o tornava especialista em assuntos caninos.
      - E se ela estiver com alguma infeco? Isso
poderia causar um inchao. E se a infeco for
forte, ela pode estar com dores tambm, o que
poderia explicar a maneira como est agindo.
      Gabby abriu a boca para falar e, depois, a
fechou, percebendo que no havia pensado na-
quilo. Uma infeco poderia causar inchao nos
mamilos - mastite ou algo assim - e, por um mo-
mento, ela sentiu uma onda de alvio percorrer-
lhe o corpo. Ao considerar a ideia mais a fundo,
entretanto, a realidade voltou com fora total.
No era um ou dois mamilos, mas todos eles
                                                 77/627


estavam daquele jeito. Ela torceu o guardanapo,
desejando que ele a escutasse.
      - Ela est grvida e vai ter vrios filhotes. E
voc ter de me ajudar a achar pessoas que os
queiram. Eu no vou lev-los para o canil.
      - Tenho certeza de que Moby no fez isso.
      - Eu sabia que voc ia dizer isso.
      - Mas voc deveria saber que...
      Ela balanou a cabea furiosamente. Aquilo
era um comportamento tpico. A gravidez era
sempre um problema feminino. Ela se levantou
da cadeira. - Voc vai assumir uma parte da re-
sponsabilidade sim. E eu espero que voc per-
ceba que no vai ser fcil encontrar casas para
eles.
      - Mas...
      - Mas que diabos foi aquilo? - perguntou
Stephanie.
      Gabby havia desaparecido por entre as cer-
cas vivas. Alguns segundos depois, ele a viu en-
trar em casa pela porta de vidro. Ainda estava
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sentado na cadeira, sentindo-se um pouco estu-
pefato, quando percebeu sua irm se
aproximando.
     - H quanto tempo voc est aqui?
     - H um bom tempo - disse ela. Ela viu a
caixa trmica perto da porta e pegou uma cerveja.
- Por um segundo, achei que ela fosse socar voc.
Depois achei que ela iria chorar. E depois, pare-
cia que ela queria socar voc de novo.
     - Foi mais ou menos assim que aconteceu -
admitiu. Ele esfregou a testa, ainda processando a
cena.
     - Estou vendo que voc continua encantando
suas namoradas.
     - Ela no  minha namorada.  minha
vizinha.
     - Melhor ainda - Stephanie se sentou. - H
quanto tempo vocs namoram? Olha,  impres-
sionante - observou Stephanie. - Eu no achei
que voc tivesse essa qualidade.
     - Que qualidade?
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     - Voc sabe. Fazer algum odi-lo to rapi-
damente.  um dom raro. Geralmente  preciso
conhecer melhor a pessoa antes de chegar a esse
ponto.
     - Muito engraado.
     - Eu tambm acho. E Moby... - ela se virou
para o cachorro e apontou-lhe um dedo re-
provador - voc no devia fazer essas coisas.
Moby abanou o rabo antes de se levantar. Ele foi
at ela e esfregou o focinho em suas pernas. Ela
empurrou a cabea dele, o que fez com que Moby
se esfregasse nela com mais fora.
     - V com calma a, seu cachorro velho.
     - No foi culpa de Moby.
     - Foi o que voc disse. No que ela quisesse
ouvir,  claro. O que h com ela?
     - Ela s estava irritada.
     - Eu vi. Demorou um pouco at que eu con-
seguisse perceber o que ela estava falando. Mas,
para ser honesta, foi divertido.
     - No seja m.
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      - Eu no sou m - Stephanie se recostou,
avaliando seu irmo. - Ela  bonita, voc no
acha?
      - Nem percebi.
      - Claro, tenho certeza de que no percebeu
nada. Aposto que foi a primeira coisa que voc
percebeu. Eu vi o jeito como estava de olho nela.
      - Que coisa, no? Voc est a todo o vapor
hoje.
      - Eu deveria estar. A prova que fiz hoje foi
horrvel.
      - O que significa isso? Voc deixou alguma
questo em branco?
      - No, mas tive de pensar muito em algumas
delas.
      - Deve ser timo ser algum como voc.
      - Com certeza. Eu tenho mais trs provas na
semana que vem.
      - Coitadinha. Ser eternamente uma estudante
 muito mais difcil do que ter um emprego de
verdade para ganhar a vida.
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     - Olha quem est falando! Voc estudou por
mais tempo do que eu. O que me lembra... como
voc acha que nossos pais vo se sentir se eu dis-
sesse a eles que queria ficar mais uns dois anos
na faculdade para completar meu doutorado?
     Na casa de Gabby, a luz da cozinha se
acendeu. Distrado, Travis levou um momento
para responder.
     - Acho que eles vo aceitar isso sem prob-
lemas. Voc os conhece.
     - Eu sei. Mas ultimamente eu tenho a
sensao de que eles querem que eu encontre al-
gum e me case.
     - Pode entrar para o clube. Faz anos que
tenho essa sensao.
     - Sim, mas  diferente para mim. Eu sou
mulher. Meu relgio biolgico est em contagem
regressiva.
     A luz da cozinha na casa vizinha se apagou.
Alguns segundos depois, uma luz se acendeu no
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quarto. Ele imaginou se Gabby estava se pre-
parando para dormir.
     - Lembre-se de que a mame se casou com
21 anos - continuou Stephanie. - E voc nasceu
quando ela tinha 23. - Ela esperou por uma res-
posta, mas no obteve nada. - Mesmo assim, veja
o que aconteceu com voc. Talvez eu devesse
usar seu caso como argumento.
     Ele absorveu as palavras dela lentamente e
franziu as sobrancelhas quando elas finalmente o
atingiram.
     - Por acaso voc est me insultando?
     - Eu tentei - disse ela, com um sorriso
malandro. - S estava testando para ver se voc
estava prestando ateno em mim ou na sua nova
amiga da casa ao lado.
     - Ela no  minha amiga - disse ele. Travis
sabia que estava agindo na defensiva, mas no
conseguiu evitar.
     - Ainda no - disse a sua irm -, mas estou
com uma sensao engraada de que ela ser.
Captulo 2
Gabby no tinha certeza de como se sentia depois
de sair da casa do vizinho, e tudo que ela con-
seguiu fazer depois de fechar a porta foi se apoiar
contra ela enquanto tentava recuperar seu
equilbrio emocional.
      Talvez ela no devesse ter ido at l, pen-
sou. Aquilo certamente no havia melhorado as
coisas. Ele no somente no se desculpou como
chegou at mesmo a negar que seu co fosse re-
sponsvel pelo que aconteceu. Ainda assim,
quando ela finalmente se afastou da porta, perce-
beu que estava sorrindo. Pelo menos ela havia
feito alguma coisa. Foi firme e disse a ele exata-
mente o que iria acontecer. Foi necessrio cor-
agem para fazer aquilo, disse a si mesma.
Normalmente no era muito boa em falar o que
pensava. No quando dizia a Kevin que os planos
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que ele tinha para o futuro com ela pareciam ir
apenas at o prximo fim de semana. Ou quando
estava com o Dr. Melton, a respeito do que ela
sentia quando ele a tocava. Nem mesmo em re-
lao a sua me, que sempre parecia ter opinies
formadas sobre como Gabby poderia ser uma
pessoa melhor.
     Ela parou de sorrir quando avistou Molly
dormindo em um canto. Uma rpida olhada foi o
suficiente para lembr-la de que as coisas no
haviam mudado, e que talvez - talvez! - ela po-
deria ter conseguido algo melhor se o tivesse
convencido de que ajud-la era seu dever. Ao re-
lembrar o que havia acontecido naquela noite,
sentiu uma onda de constrangimento tomar conta
de si. Sabia que havia falado demais, dito coisas
que no se conectavam direito umas s outras,
mas, aps ser atropelada por aquele cachorro,
havia perdido o foco, e sua frustrao a deixou
completamente incapaz de parar de falar. Sua
me a teria repreendido com muito prazer se
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tivesse visto aquilo. Gabby amava a me, mas es-
ta era uma daquelas senhoras que nunca perdiam
o controle. Aquilo enlouquecia Gabby; por mais
de uma vez, durante sua adolescncia, ela teve
vontade de segurar a me pelos braos e balan-
la, apenas para poder ter uma resposta es-
pontnea. Claro, aquilo nunca funcionaria. Sua
me simplesmente permitiria que ela a continu-
asse balanando at que Gabby se cansasse, e de-
pois alisaria o cabelo e faria algum comentrio
enfurecedor, como: "Bem, Gabrielle, agora que
voc j terminou com o seu show, podemos dis-
cutir isso como duas damas?".
      Damas. Gabby no suportava aquela palav-
ra. Quando sua me a dizia, ela sempre se sentia
sobrepujada por uma sensao de fracasso, que
fazia com que pensasse que tinha um longo cam-
inho para percorrer, mas sem um mapa para gui-
la.
      Com certeza, sua me no tinha como evitar
ser daquele jeito, assim como Gabby tambm no
                                              86/627


podia. Sua me era um clich ambulante da fem-
inilidade sulista, que cresceu usando vestidos
com babados e sendo apresentada  elite da
comunidade no Savannah Christmas Cotillion,
um dos bailes de debutantes mais exclusivos do
pas. Ela tambm havia sido tesoureira da
fraternidade feminina das Tri Delts na Universid-
ade da Gergia, outra tradio da famlia, e,
quando estava na faculdade, aparentemente tinha
a opinio de que os assuntos acadmicos eram
muito menos importantes do que buscar um dip-
loma de "esposa", que ela acreditava ser a nica
opo de carreira para uma dama sulista tpica.
No era preciso dizer que ela queria que a outra
parte da equao, denominada "marido", fosse
digna do nome da sua famlia. O que essencial-
mente significava "ser rico".
      Era a deixa para que seu pai entrasse em
cena. O pai de Gabby, um empreiteiro bem-suce-
dido e agente imobilirio, tinha 12 anos a mais do
que a esposa quando se casaram e, embora no
                                               87/627


fosse to rico quanto alguns que tinham a mesma
carreira, certamente estava acima da mdia.
Mesmo assim, Gabby se lembrava de estudar as
fotos do casamento de seus pais que os
mostravam fora da igreja e pensar como duas
pessoas to diferentes podiam ter se apaixonado.
A me adorava o faiso do clube de campo; o pai
gostava dos biscoitos e do caldo de carne no res-
taurante local. Embora a me nunca ousasse sair
de casa sem maquiagem - mesmo que apenas
tivesse de atravessar o jardim para ir at a caixa
de correio -, seu pai passava o dia usando jeans, e
seu cabelo sempre estava um pouco desgrenhado.
Mas eles realmente se amavam, e Gabby no
tinha dvidas a respeito disso. Pela manh, no
era raro encontrar os pais envolvidos em um ab-
rao carinhoso, e ela nunca os havia ouvido dis-
cutindo ou brigando. Eles tambm no dormiam
em camas separadas, como vrios pais de amigos
de Gabby, que muitas vezes pareciam mais par-
ceiros de negcios do que um casal propriamente
                                               88/627


dito. Mesmo nos dias de hoje, quando ela os vis-
itava, os encontrava abraados no sof, e, quando
seus amigos ficavam impressionados com aquilo,
ela simplesmente balanava a cabea e admitia
que, qualquer que fosse o motivo, os dois haviam
sido feitos um para o outro.
      Para o eterno desgosto de sua me, Gabby,
ao contrrio de suas trs irms loiras, sempre foi
mais parecida com o pai. Mesmo quando criana,
preferia usar macaces a vestidos, adorava subir
em rvores e passava horas brincando na terra.
De vez em quando, caminhava atrs do pai em al-
gum terreno de construo, imitando os movi-
mentos que ele fazia ao checar os lacres de
janelas recm-instaladas ou espiando as caixas
que haviam acabado de chegar da loja de materi-
ais de construo de Mitchell. Seu pai a havia en-
sinado a colocar iscas no anzol e pescar, e ela ad-
orava passear com ele na velha caminhonete com
o rdio quebrado, a caminhonete que ele nunca se
importou em dar como entrada num carro novo.
                                              89/627


Depois do trabalho, eles brincavam de pega-pega
ou basquetebol enquanto a me os observava da
janela da cozinha com uma expresso que Gabby
sempre achou parecida com um olhar que no era
somente de reprovao, mas tambm de incom-
preenso. Era comum ver as irms ao lado da
me, com o queixo cado.
     Embora Gabby gostasse de falar s pessoas
sobre o esprito livre que tinha quando criana,
na realidade ela acabou abraando as vises do
pai e da me sobre o mundo, especialmente
porque sua me era uma especialista no uso do
poder manipulador da maternidade. Conforme
Gabby cresceu, ela aceitou com mais facilidade
as opinies da me sobre roupas e o comporta-
mento adequado para damas, simplesmente para
no se sentir culpada. De todas as armas no ar-
senal da sua me, a culpa era a mais eficiente de
todas, e ela sabia exatamente como us-la. Por
causa de uma sobrancelha levantada aqui e um
pequeno comentrio ali, Gabby acabou fazendo
                                               90/627


aulas de etiqueta e danas de salo; aprendeu
obedientemente a tocar piano, e, como a me, foi
formalmente apresentada  sociedade no Savan-
nah Christmas Cotillion. Se sua me estava or-
gulhosa naquela noite - e estava, a julgar pelo ol-
har em seu rosto -, Gabby sentia que, a partir
daquele momento, estaria pronta para tomar as
prprias decises; e ela sabia que sua me no
aprovaria algumas delas. Sim, ela queria se casar
e ter filhos algum dia, como sua me, mas,
naquele momento, percebeu que tambm queria
ter uma carreira, assim como o pai.
     Ah, sua me disse todas as coisas certas
quando descobriu. No comeo, pelo menos. Mas
foi a que a ofensiva sutil da culpa comeou.
Quando Gabby tirava notas mais altas na fac-
uldade, sua me s vezes ficava com uma ex-
presso sria, e se perguntava em voz alta se seria
possvel conciliar uma carreira de mdica e a fun-
o de ser esposa e me em tempo integral.
                                                91/627


      - Mas, se o trabalho  mais importante para
voc do que a sua famlia - dizia sua me -, ento
v em frente e se torne mdica.
      Gabby tentou resistir  presso da me, mas,
aps algum tempo, percebeu que  difcil mudar
certos hbitos, e acabou escolhendo a carreira de
assistente mdica em vez de ir  faculdade de
medicina. As razes faziam sentido: ela ainda ex-
aminaria pacientes, mas seus horrios seriam re-
lativamente estveis e ela nunca precisaria estar
de planto,  disposio do hospital - o que defin-
itivamente era uma opo mais fcil de conciliar
com uma famlia. Mesmo assim, s vezes sentia
um estranho desconforto ao pensar que sua me
havia plantado aquela ideia em sua mente.
      Mas no podia negar que a famlia era im-
portante para ela.  o que acontece quando voc
 produto de um casamento feliz. Voc cresce
pensando que o conto de fadas  real e, alm
disso, que voc tem o direito de viver aquela
fantasia. At o momento, entretanto, no estava
                                               92/627


funcionando do jeito que ela havia planejado. Ela
e Kevin namoraram tempo suficiente para se
apaixonar, sobreviver aos altos e baixos que ter-
minam com a maioria dos relacionamentos, e at
mesmo conversar sobre o futuro. Ela havia de-
cidido que ele era a pessoa com quem ela gostar-
ia de passar o resto da vida, mas ficou sria
quando pensou sobre a ltima discusso que
tiveram.
     Molly se levantou com certa dificuldade e se
aproximou, esfregando seu focinho na mo de
Gabby, como se pudesse sentir aquela angstia.
Gabby alisou-lhe os pelos, correndo seus dedos
por entre eles.
     - Ser que  estresse? - disse, desejando que
sua vida pudesse ser mais parecida com a de
Molly. Simples, sem muitas preocupaes ou re-
sponsabilidades... bem, exceto pela parte da
gravidez. - Voc acha que estou estressada?
     Molly no respondeu, mas nem precisava.
Gabby sabia que estava estressada. Ela podia
                                              93/627


sentir o estresse nos seus ombros quando pagava
as contas, ou quando o Dr. Melton olhava para
ela de lado, ou quando Kevin se fazia de desen-
tendido a respeito do que ela esperava quando
concordou em morar mais perto dele. Tambm
no ajudava o fato de que, alm de Kevin, ela no
tinha realmente nenhum amigo por ali. Ela no
conhecia quase ningum que no trabalhasse na
clnica e, para falar a verdade, aquele vizinho
fora a primeira pessoa com quem ela conversou
desde que havia se mudado. Ao pensar no caso,
ela sups que poderia ter sido mais gentil em re-
lao a tudo aquilo. Sentiu uma pontada de
remorso por ter falado daquele jeito, especial-
mente porque ele pareceu ser um cara amistoso.
Quando ele a ajudou a se levantar, quase pareceu
ser um amigo. E, quando ela comeou a falar sem
parar, ele no a interrompeu nenhuma vez, o que,
apesar de tudo, fez com que ela se sentisse mel-
hor tambm.
                                                 94/627


      Era impressionante pensar naquilo agora.
Considerando o quanto ela deve ter parecido en-
sandecida enquanto falava, ele no se irritou nem
levantou a voz com ela - algo que Kevin teria
feito. Simplesmente pensar na maneira gentil
como ele a ajudou a se levantar fez com que seu
rosto ficasse vermelho. E houve tambm um mo-
mento depois de ele ter lhe dado o guardanapo
em que ela o apanhou olhando em sua direo, de
um jeito que sugeria que ele tambm a achava at-
raente. Fazia tanto tempo que alguma coisa havia
acontecido pela ltima vez, e mesmo que ela no
quisesse admitir, aquilo fazia com que se sentisse
bem consigo mesma.  incrvel o que um
pequeno confronto sincero pode fazer pela alma.
      Ela foi at o quarto e vestiu uma cala con-
fortvel de moletom e uma camiseta velha e ma-
cia que tinha desde que havia entrado para a fac-
uldade. Molly foi atrs dela, e, quando Gabby
percebeu o que ela queria, apontou para a porta.
      - Est pronta para ir l fora? - perguntou ela.
                                               95/627


     Molly comeou a abanar o rabo enquanto ia
em direo  porta. Gabby a inspecionou cuida-
dosamente. Ela ainda parecia estar grvida, mas
talvez seu vizinho tivesse razo. Ela devia lev-la
ao veterinrio, mesmo que fosse apenas para ter
certeza. Alm disso, ela no fazia ideia de como
deveria cuidar de uma cachorra grvida. No
sabia se Molly iria precisar de vitaminas, o que a
lembrou novamente que ela estava longe de
cumprir a prpria promessa de ter uma vida mais
saudvel. Comer melhor, exercitar-se, dormir
regularmente, fazer alongamentos: ela planejou
comear assim que se mudasse para a casa nova.
Uma resoluo que iria celebrar a sua entrada na
nova casa, mas ela ainda no havia se animado a
fazer aquilo. No dia seguinte ela iria definitiva-
mente sair para correr, e depois comer uma
salada no almoo e outra no jantar. E como ela
estava pronta para iniciar algumas mudanas sri-
as em sua vida, poderia tambm perguntar
                                               96/627


diretamente a Kevin quais eram os seus planos
para o futuro.
      Mesmo assim, talvez aquilo no fosse uma
ideia to boa. Enfrentar o vizinho era uma coisa;
mas ser que ela estaria pronta para aceitar as
consequncias se no ficasse feliz com a resposta
de Kevin? E se ele no tivesse planos? Ela real-
mente iria querer largar seu primeiro emprego
depois de apenas dois meses? Vender sua casa?
Mudar-se para outro lugar? At que ponto ela es-
tava disposta a ir?
      Ela no tinha certeza de nada alm do fato
de que no queria perd-lo. Mas tentar levar uma
vida mais saudvel - isso era algo que ela definit-
ivamente tinha condies de fazer. Um passo de
cada vez, certo? Com a deciso tomada, ela foi
at o deque e observou Molly descer as escadas e
ir at o fundo do seu quintal. O ar ainda estava
morno, mas uma brisa leve havia comeado a
soprar. As estrelas se espalhavam pelo cu em
padres aleatrios e intrincados que, com
                                              97/627


exceo da Ursa Maior, ela nunca conseguiu
identificar com preciso, e ento decidiu que
compraria um livro sobre astronomia no dia
seguinte, logo depois do almoo. Ela passaria al-
guns dias aprendendo os fundamentos daquela
cincia e depois convidaria Kevin para uma noite
romntica na praia, quando ela apontaria para o
cu e mencionaria casualmente alguma coisa que
fosse astronomicamente impressionante. Ela
fechou os olhos imaginando a cena, e ento se
endireitou. Na manh seguinte, comearia a se
tornar uma nova pessoa. Uma pessoa melhor
tambm. E descobriria o que fazer a respeito da
situao de Molly. Mesmo se tivesse de implorar,
encontraria casas para cada um dos novos
filhotes.
      Mas antes precisava levar Molly ao
      veterinrio.
Captulo 3
Parecia ser mais um daqueles dias em que Gabby
se perguntava por que havia decidido trabalhar
em uma clnica peditrica. Ela teve a chance de
trabalhar em uma unidade de cardiologia no hos-
pital, e aquilo havia sido o seu plano durante todo
o curso de assistente mdica. Adorava poder aux-
iliar os mdicos em cirurgias desafiadoras e pare-
cia ser uma escolha perfeita at ela fazer suas l-
timas residncias, quando trabalhou com um pe-
diatra que encheu sua cabea com ideias sobre a
nobreza e a alegria de cuidar de crianas. O Dr.
Bender, um mdico veterano, de cabelos grisal-
hos que nunca parava de sorrir e conhecia prat-
icamente todas as crianas que viviam em
Sumter, na Carolina do Sul, havia convencido
Gabby de que, embora a rea de cardiologia pa-
gasse melhor e parecesse ser mais glamourosa,
                                               99/627


no havia nada que pudesse deixar algum to
realizado quanto segurar uma criana recm-nas-
cida e observar seu desenvolvimento durante os
anos mais importantes do incio da vida. Geral-
mente, ela apenas concordava obedientemente,
mas, em seu ltimo dia, o Dr. Bender havia
forado a questo, colocando uma criana
pequena em seus braos. Enquanto o beb sorria,
a voz do mdico flutuou em direo a ela: - Na
rea de cardiologia, tudo  emergncia, e seus pa-
cientes sempre parecem ficar cada vez mais
doentes, no importa o que voc faa. Depois de
um tempo, isso se torna excruciante. Voc pode
desenvolver um burnout muito rpido se no to-
mar cuidado. Por outro lado, cuidar deste
rapazinho aqui... - ele fez uma pausa, apontando
para o beb. - Esta  a mais nobre vocao do
mundo.
      Embora tenha recebido uma oferta de
emprego no setor de cardiologia em um hospital
em sua cidade natal, ela acabou aceitando o
                                             100/627


emprego oferecido pelos doutores Furman e
Melton em Beaufort, na Carolina do Norte. O Dr.
Furman lhe pareceu ser uma pessoa distrada, o
Dr. Melton lhe pareceu ser um tpico paquerador,
mas era a oportunidade de ficar perto de Kevin. E
em alguma parte da sua conscincia, ela acred-
itava que o Dr. Bender poderia ter razo. Ele es-
tava certo a respeito dos bebs. Na maior parte
dos casos, ela adorava trabalhar com eles, mesmo
quando tinha de lhes dar vacinas e quando seus
gritos a faziam gemer. Crianas um pouco mais
velhas, na idade em que estavam dando seus
primeiros passos e aprendiam a falar, tambm
no eram um problema. A maioria tinha person-
alidades afveis e ela gostava de observ-las se
agarrando a seus cobertores ou bichos de pelcia,
enquanto olhavam para ela com expresses sin-
ceras. Eram os pais deles que a deixavam louca.
O Dr. Bender no havia mencionado um ponto
crtico: na rea de cardiologia, voc lidava com
um paciente que vinha para a clnica porque
                                              101/627


queria ou porque precisava; na pediatria, voc li-
dava com um paciente que frequentemente tinha
pais neurticos que achavam que sabiam de tudo.
Eva Bronson era um caso tpico.
     Eva, que estava segurando George no colo
na sala de exames, parecia estar olhando Gabby
com desdm. O fato de tecnicamente no ser for-
mada em medicina, e tambm de ser relativa-
mente jovem, fazia com que muitos pais acredi-
tassem que ela no passava de uma enfermeira
com um salrio polpudo.
     - Tem certeza de que o Dr. Furman no pode
nos encaixar na sua agenda? - ela enfatizou a pa-
lavra doutor.
     - Ele est no hospital - respondeu Gabby. -
Ainda vai demorar para voltar. Alm disso, tenho
certeza de que ele concordaria comigo. Seu filho
parece estar bem.
     - Mas ele ainda est tossindo.
     - Como eu disse antes, crianas podem tossir
por at seis semanas aps um resfriado nessa
                                              102/627


idade. Os pulmes deles precisam de mais tempo
para se curar, mas isso  perfeitamente normal
para a idade que ele tem.
     - Quer dizer que voc no vai lhe receitar
um antibitico?
     - No. Ele no precisa de remdios. Os
ouvidos esto desobstrudos, os seios nasais tam-
bm esto limpos, e eu no auscultei nenhuma
evidncia de bronquite nos pulmes dele. A tem-
peratura est normal e ele parece bem saudvel.
     George, que havia completado 2 anos h
pouco tempo, estava se contorcendo no colo de
Eva, tentando se libertar, fervilhando com uma
energia feliz. Eva apertou-o contra si.
     - J que o Dr. Furman no est aqui, talvez o
Dr. Melton devesse dar uma olhada nele. Tenho
certeza de que ele precisa de um antibitico. Met-
ade das crianas na creche em que ele fica est
tomando antibiticos. Tem alguma coisa no ar.
     Gabby fingiu escrever alguma coisa no
pronturio. Eva Bronson sempre pedia
                                               103/627


antibiticos para George. Era o tipo de pessoa vi-
ciada em antibiticos, se  que isso existe.
      - Se ele tiver febre, voc pode voltar aqui e
eu o examinarei de novo.
      - Eu no quero voltar com ele aqui.  por
isso que eu o trouxe hoje. Eu acho que ele dever-
ia ser examinado por um mdico.
      Gabby se esforou para manter seu tom de
voz firme. - Certo, vou ver se o Dr. Melton pode
lhe conceder alguns minutos.
      Ao sair do consultrio, Gabby parou no
corredor, sabendo que precisava se preparar. Ela
no queria falar com o Dr. Melton novamente;
havia passado a manh inteira evitando o mdico.
Assim que o Dr. Furman saiu para o hospital para
fazer uma cesariana de emergncia no Carteret
General Hospital, em Morehead City, o Dr.
Melton havia chegado bem perto dela, perto o
bastante para que ela percebesse que ele havia
acabado de fazer um gargarejo com algum enxa-
guante bucal.
                                               104/627


      - Quer dizer que vamos tocar a clnica sozin-
hos na manh de hoje - comentou.
      - Talvez no haja muito movimento - disse
ela, mantendo a neutralidade. No estava pronta
para confront-lo e no queria fazer aquilo sem o
Dr. Furman por perto.
      - Segundas-feiras so sempre movimenta-
das. Espero que no tenhamos de trabalhar na
hora do almoo.
      - Eu tambm espero - concordou ela.
      O Dr. Melton pegou um dos pronturios que
estavam na porta do consultrio, do outro lado do
corredor. Deu uma rpida olhada no documento
e, assim que Gabby se virou para sair, ela ouviu a
voz de novo. - Por falar em almoo, voc j ex-
perimentou um taco de peixe?
      Gabby piscou. - O qu?
      - Eu conheo um lugar timo em Morehead,
perto da praia. Talvez possamos dar um pulo l.
Podemos trazer alguns para o resto da equipe
tambm.
                                              105/627


      Embora ele tivesse mantido um profissional-
ismo pretenso - falaria da mesma forma se est-
ivesse conversando com o Dr. Furman -, Gabby
se sentiu acuada.
    - No posso - respondeu. - Eu preciso levar
Molly ao veterinrio. Eu marquei a consulta esta
manh.
    - E eles vo conseguir encaixar a sua consulta
na agenda?
    - Disseram que sim.
    Ele hesitou. - Tudo bem, ento. Talvez em
outra oportunidade.
    Quando Gabby foi pegar outro pronturio,
gemeu. - Voc est bem? - perguntou o mdico.
    - Estou s um pouco dolorida por causa dos
exerccios - ela disse, antes de desaparecer no
consultrio.
      Na verdade, ela estava se sentindo muito
dolorida. Totalmente dolorida. Seu corpo inteiro
latejava, do pescoo at os tornozelos, e aquilo
parecia estar ficando pior. Se ela tivesse
                                              106/627


simplesmente sado para correr no domingo, ima-
ginou que provavelmente estaria bem. Mas
aquilo no era o suficiente. No para a nova e
aprimorada verso de Gabby. Depois de correr -
e orgulhosa porque, apesar de ter feito um ritmo
cadenciado, no diminuiu o ritmo para andar nen-
huma vez -, ela foi at a academia Gold's Gym
em Morehead City para se matricular. Assinou os
papis enquanto o treinador explicava as vrias
aulas com nomes complicados, que estavam pro-
gramadas para comear praticamente de hora em
hora. Ao se levantar para sair, ele havia mencion-
ado que uma nova aula, chamada body pump,
comearia em alguns minutos.
     -  um exerccio fantstico - ele acrescentou
- que trabalha o corpo todo. Voc melhora a fora
e a funo cardiovascular em uma nica sesso.
Voc deveria experimentar.
     E assim ela fez. E que Deus o perdoe pela
forma como aquela aula a deixou dolorida.
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     No imediatamente,  claro. Durante a aula,
ela se saiu bem. No fundo, embora soubesse que
devia ir com calma, percebeu que estava tentando
acompanhar o ritmo da mulher ao seu lado - uma
pessoa com roupas curtas e justas, com retoques
cirrgicos e rmel nos olhos. Ela levantou e em-
purrou pesos, correu no ritmo forte da msica
ambiente, depois levantou mais pesos e correu
mais vezes, sem parar. Ao sair da academia, com
os msculos tremendo, ela se sentia como se
tivesse dado o prximo passo na sua evoluo.
Antes de sair, comprou um pote de protena em
p para fazer milk-shake.
     No caminho para casa, passou em uma liv-
raria para comprar um livro sobre astronomia e,
mais tarde, antes de cair no sono, percebeu que se
sentia melhor a respeito do futuro do que anteri-
ormente, exceto pelo fato de que seus msculos
pareciam estar se enrijecendo  medida que os
minutos passavam.
                                               108/627


     Infelizmente, a nova e aprimorada verso de
Gabby sentiu uma dor excepcionalmente forte ao
se levantar da cama na manh seguinte. Tudo
doa. No, no era assim. Aquilo estava muito
alm da dor. Era insuportvel. Parecia que cada
msculo do seu corpo havia sido jogado num li-
quidificador. Suas costas, seu peito, sua barriga,
suas pernas, seu traseiro, seus braos, seu
pescoo... at mesmo seus dedos doam. Ela s
conseguiu se sentar depois da terceira tentativa e,
depois de cambalear at o banheiro, descobriu
que precisava fazer um esforo hercleo para
escovar os dentes sem gritar. Ela se viu buscando
quase tudo que havia no armrio de remdios -
Tylenol, aspirina, Flanax - e, no fim, decidiu to-
mar todos. Engoliu os comprimidos com um
copo de gua e percebeu que gemia ao engolir.
     Tudo bem, admitiu ela. Talvez tenha
exagerado.
     Mas era tarde demais agora, e o pior de tudo
era que os analgsicos no tinham funcionado.
                                               109/627


Ou talvez tivessem. Apesar daquilo, ela con-
seguiu trabalhar na clnica, desde que se movesse
lentamente. Mas a dor ainda estava l, e o Dr.
Furman no havia voltado, e a ltima coisa que
ela queria era ter de lidar com o Dr. Melton.
      Sem encontrar outra opo, ela perguntou a
uma das enfermeiras em que sala ele estava e, de-
pois de bater  porta, colocou a cabea para den-
tro do consultrio. O Dr. Melton desviou sua
ateno do paciente que estava atendendo, e sua
expresso ficou mais animada quando a viu.
      - Desculpe interromper - ela disse. - Posso
falar com o senhor por um momento?
      -  claro - ele se levantou da cadeira, colo-
cou o pronturio em cima da mesa ao sair da sala
e fechou a porta por trs de si. - Mudou de ideia
sobre o almoo?
      Ela fez que no com a cabea e contou a ele
sobre Eva Bronson e George. Ao sair, ela podia
sentir os olhos dele sobre suas costas enquanto
ela mancava pelo corredor.
                                            110/627


     J era 12h30 quando Gabby concluiu a con-
sulta com seu ltimo paciente da manh. Com a
bolsa nas mos, ela andou com dificuldade at o
carro, sabendo que no tinha muito tempo. Sua
prxima consulta aconteceria em 45 minutos,
mas, se no tivesse de esperar no veterinrio,
conseguiria voltar a tempo. Era uma das coisas
boas de se morar em uma cidade com menos de 4
mil habitantes. Tudo ficava perto. Embora More-
head City - que tinha cerca de cinco vezes o
tamanho de Beaufort - ficasse do outro lado da
ponte que cruzava a Hidrovia Intralitornea e
fosse o lugar onde a maioria das pessoas fazia
suas compras nos fins de semana, aquela curta
distncia era o bastante para fazer com que esta
cidade parecesse distinta e isolada, como a
maioria das cidades na regio leste do estado.
     Era um lugar bonito, especialmente
considerando-se o distrito histrico. Em um dia
como aquele, com temperaturas perfeitas para
passeios, Beaufort lembrava a maneira como
                                               111/627


Gabby imaginava que a cidade de Savannah de-
via ser no primeiro sculo de sua existncia.
     Ruas largas, rvores frondosas, cento e pou-
cas casas restauradas ocupando vrios
quarteires, desembocando por fim na rua Front e
em um calado de madeira com vista para a
marina. Os atracadouros estavam ocupados por
barcos de lazer e trabalho de todos os tipos e
tamanhos - um iate magnfico comprado por mil-
hes de dlares poderia estar ancorado entre um
pequeno barco usado para pescar caranguejos e
um belo e bem-cuidado veleiro. Havia tambm
dois restaurantes com vistas maravilhosas: locais
antigos e cuidadosamente mantidos, completos
com terraos cobertos e mesas de piquenique que
faziam os clientes se sentirem como se est-
ivessem de frias em um lugar onde o tempo
havia parado. Ocasionalmente, nas noites de al-
guns fins de semana, havia bandas tocando nos
restaurantes, e, no dia 4 de julho do vero anteri-
or, quando ela veio visitar Kevin, havia tantas
                                              112/627


pessoas presentes para ouvir a msica e ver os fo-
gos de artifcio que os barcos abarrotavam a mar-
ina. Sem atracadouros suficientes para acomod-
los, os barcos eram simplesmente amarrados uns
aos outros, e seus proprietrios passavam de um
barco para outro at alcanarem a doca, aceitando
ou oferecendo cervejas a estranhos conforme
andavam.
      Do outro lado da rua havia escritrios de
imobilirias misturados a lojas de arte e algumas
arapucas para turistas.  noite, Gabby gostava de
passear pelas lojas de arte para examinar as
obras. Quando era jovem, sonhava em ganhar a
vida pintando ou desenhando; demorou alguns
anos para que se desse conta de que sua ambio
estava muito alm do seu talento. Mas isso no
significava que no podia apreciar trabalhos de
qualidade e, por vezes, encontrava uma fotografia
ou pintura que fazia com que ela parasse para
observ-la. Ela havia comprado obras daquele
tipo duas vezes, e os dois quadros agora
                                            113/627


decoravam sua casa. Pensou em comprar mais al-
gumas para poder complement-las, mas seu or-
amento mensal no permitia aquela extravagn-
cia, pelo menos no momento.
      Alguns minutos depois, Gabby estacionou
em frente a sua casa e gemeu ao sair do carro,
antes de corajosamente se dirigir at a porta da
frente. Molly a encontrou na varanda, ficou um
tempo cheirando as flores enquanto Gabby cui-
dava de alguns afazeres, e depois pulou para o
banco do passageiro. Gabby gemeu novamente
ao entrar no carro, e depois abriu a janela para
que Molly pudesse colocar a cabea para fora -
algo que ela adorava fazer.
      A clnica veterinria Down East ficava a
apenas alguns minutos dali, e ela parou o carro
no estacionamento, escutando o ranger dos cas-
calhos embaixo dos pneus. Instalada em uma
casa rstica e desgastada em estilo vitoriano, a
clnica parecia mais uma casa do que um es-
tabelecimento comercial. Ela colocou uma
                                              114/627


coleira em Molly, e deu uma olhada rpida em
seu relgio. Silenciosamente, rezou para que o
veterinrio no demorasse.
      A porta se abriu com um rangido alto, e ela
sentiu Molly puxar a coleira ao ser confrontada
com os odores tpicos de clnicas veterinrias.
Gabby se aproximou do balco da recepo, mas,
antes que pudesse falar, a recepcionista se levan-
tou da cadeira.
      - Esta  Molly? - perguntou ela.
      Gabby no se preocupou em esconder sua
surpresa. Ia demorar um pouco at que ela se
acostumasse a viver em uma cidade pequena. -
Sim. Eu sou Gabby Holland.
      -  um prazer conhec-la. Meu nome 
Terri. Sua cadela  muito bonita.
      - Obrigada.
      - Estvamos imaginando a que horas voc
iria chegar aqui. Voc tem de voltar ao trabalho,
certo? - ela apanhou uma prancheta. - Vamos adi-
antar as coisas e colocar vocs em um dos
                                               115/627


consultrios. Voc pode preencher os docu-
mentos l, e o veterinrio vai poder dar uma ol-
hada em Molly rapidamente. No vai demorar
muito. Ele est quase terminando.
     - timo - disse Gabby. - Muito obrigada, de
verdade.
     A recepcionista as conduziu at uma sala
prxima. Ali havia uma balana, e ela ajudou
Molly a subir nela. - No  nada de mais. Alm
disso, levo os meus filhos  sua clnica peditrica
o tempo todo. Voc gosta de trabalhar l?
     - Eu gosto, sim - respondeu. -  mais movi-
mentado do que eu imaginava.
     Terri registrou o peso e depois saiu pelo
corredor. - Eu adoro o Dr. Melton. Ele faz mara-
vilhas pelo meu filho.
     - Vou dizer a ele - disse Gabby.
     Terri apontou para uma pequena sala, mo-
biliada com uma mesa de metal e uma cadeira
plstica, e entregou a prancheta a Gabby. -  s
                                              116/627


preencher o documento e direi ao doutor que vo-
c est aqui.
      Terri as deixou na sala, e Gabby se sentou
com cuidado, gemendo ao sentir os msculos das
pernas se contrarem em agonia. Ela respirou
fundo algumas vezes, esperando at que a dor
passasse, e depois preencheu a papelada en-
quanto Molly andava pela sala.
      Menos de 1 minuto depois, a porta se abriu e
a primeira coisa que Gabby percebeu foi o jaleco
branco. Um instante depois, o nome bordado em
letras azuis. Gabby ia comear a falar, mas o re-
conhecimento sbito tornou aquilo impossvel.
      - Oi, Gabby - cumprimentou Travis. - Como
vai?
      Gabby continuou a olh-lo, sem acreditar,
imaginando que diabos ele estava fazendo ali. Ela
ia dizer alguma coisa quando percebeu que os ol-
hos dele eram azuis, apesar de ela pensar que
eram castanhos. Estranho. Mesmo assim...
                                                117/627


      - Quer dizer que esta  Molly - disse ele, in-
terrompendo os pensamentos dela. - Oi, garota -
ele se agachou e esfregou o pescoo de Molly. -
Gosta disso? Ah, voc  uma doura, no ?
Como se sente, menina?
      O som da voz dele a trouxe de volta, e as
memrias da discusso que tiveram h duas
noites voltaram. - Voc... voc  o veterinrio? -
gaguejou Gabby.
      Travis fez que sim com a cabea, enquanto
continuava esfregando o pescoo de Molly. -
Com meu pai. Ele abriu a clnica, e eu me juntei
a ele depois de terminar a faculdade.
      Aquilo no podia estar acontecendo. De to-
das as pessoas nesta cidade, tinha de ser ele? Por
que diabos ela no podia ter um dia comum e
descomplicado?
      - Por que voc no disse nada naquela noite?
      - Eu disse. Recomendei que voc a levasse
ao veterinrio, no foi?
                                              118/627


     Ela apertou os olhos. Aquele homem parecia
gostar de irrit-la. - Voc sabe do que estou
falando.
     Ele olhou para ela. - Ah, sobre eu ser veter-
inrio? Eu tentei lhe dizer, mas voc no me
deixou falar.
     - Voc devia ter dito alguma coisa mesmo
assim.
     - Acho que voc no estava com pacincia
para ouvir. Mas isso so guas passadas. Sem
ressentimentos. - Ele sorriu. - Deixe-me dar uma
olhada nesta garota, certo? Eu sei que voc pre-
cisa voltar ao trabalho, ento serei rpido.
     Ela podia sentir sua raiva crescendo depois
que ele falou aquele "sem ressentimentos" de
forma to casual. Uma parte dela queria sair dali
naquele momento. Infelizmente, ele j estava
comeando a examinar a barriga de Molly. Alm
disso, ela tambm no teria condies de se le-
vantar rapidamente, mesmo que quisesse.
Naquele momento, suas pernas pareciam ter
                                             119/627


entrado em greve. Contrariada, ela cruzou os
braos e sentiu algo parecido com uma faca
quente entrando nas suas costas e ombros en-
quanto Travis preparava o estetoscpio. Ela
mordeu o lbio, orgulhosa por no ter gemido
novamente.
     Travis olhou para ela. - Est tudo bem?
     - Estou bem - ela disse.
     - Tem certeza? Parece que voc est com
dores.
     - Estou bem - repetiu.
     Ignorando aquele tom de voz, Travis voltou
sua ateno para a cadela. Ele moveu o estetosc-
pio, escutou novamente e depois examinou um de
seus mamilos. Finalmente, ele calou uma luva
de borracha e fez um rpido exame interno.
     - Bem, ela est definitivamente grvida -
confirmou, removendo a luva e jogando-a no
lixo. - A julgar pelos exames, j faz umas sete
semanas.
                                             120/627


     - Eu lhe disse - ela lhe lanou um olhar
duro. E Moby  o responsvel, ela evitou dizer.
     Travis se levantou e colocou o estetoscpio
de volta em seu bolso. Ele pegou a prancheta e
virou a pgina.
     - Para sua informao, tenho certeza de que
Moby no  o responsvel.
     - No ?
     - No. Provavelmente  aquele labrador que
vi andando pelo bairro. Eu acho que ele pertence
ao velho Cason, mas no tenho certeza. Talvez
seja do filho dele. Fiquei sabendo que ele voltou
 cidade.
     - Como pode ter certeza de que no foi
     Moby?
     Ele comeou a fazer anotaes, e, por um
     momento, ela no tinha certeza de que ele
     havia ouvido o que ela dissera.
     Ele deu de ombros. - Por um motivo
     simples. Ele foi castrado.
                                             121/627


     H momentos na vida em que a sobrecarga
de informaes pode fazer com que seja impos-
svel pronunciar palavras. Imediatamente, Gabby
viu uma montagem aterrorizante lhe cruzar os ol-
hos, na qual ela falava sem parar, chorava, e fi-
nalmente saa rapidamente, pisando forte. Ela
tinha uma vaga lembrana de v-lo tentando lhe
dizer alguma coisa, e tudo aquilo serviu para
deix-la enjoada.
     - Castrado? - ela murmurou.
     - Aham - ele levantou os olhos da prancheta.
- J faz dois anos. Meu pai fez o procedimento
aqui mesmo na clnica.
     - Oh...
     - Tentei lhe dizer isso tambm. Mas voc
saiu antes que eu conseguisse falar. Eu me senti
mal a respeito disso, ento fui at a sua casa no
domingo, mas voc havia sado.
     Ela disse a nica coisa que lhe veio 
cabea. - Eu estava na academia.
     -  mesmo? Faz bem.
                                                122/627


     Foi necessrio certo esforo, mas ela
descruzou os braos. - Acho que lhe devo um pe-
dido de desculpas.
     - Sem ressentimentos - ele disse novamente,
mas dessa vez isso fez com que ela se sentisse
ainda pior. - Mas escute, eu sei que voc est
com pressa, ento deixe-me falar algumas coisas
a respeito de Molly.
     Ela concordou, sentindo como se tivesse
sido colocada no canto da sala com um chapu
cnico na cabea, ainda pensando no papelo que
fizera na noite de sbado. De algum modo, ver
que ele minimizava o episdio tornava tudo ainda
mais embaraoso.
     - O perodo de gestao dura nove semanas,
ento voc ter mais duas semanas pela frente.
Os quadris dela so largos o bastante, e assim vo-
c no vai ter de se preocupar com isso. Esta  a
razo pela qual eu queria que voc a trouxesse
at a clnica, j que collies, s vezes, tm quadris
estreitos. Bem, normalmente, no h nada que
                                               123/627


voc precise fazer, mas tenha em mente que ela
provavelmente vai querer um lugar escuro e frio
para ter os filhotes. Assim, talvez seja interess-
ante colocar alguns cobertores velhos na gar-
agem. Voc tem uma porta que leva da cozinha
para a garagem, certo?
     Ela concordou novamente, sentindo como se
ficasse cada vez menor.
     - Deixe-a aberta, e ela provavelmente
comear a andar por ali. Isso se chama nidi-
ficao, e  perfeitamente normal. Provavelmente
ela vai parir os filhotes quando tudo estiver em
silncio.  noite, ou enquanto voc estiver no tra-
balho, mas lembre-se de que isso  totalmente
natural, ento no h nada com que se preocupar.
Os filhotes vo saber imediatamente quando de-
vem parar de mamar, ento voc no precisa se
preocupar com isso tambm. E voc provavel-
mente vai ter de jogar os cobertores fora, ento
no use nada que goste muito, est bem?
                                                124/627


      Ela assentiu pela terceira vez, sentindo-se
encolher ainda mais.
      - Alm disso, no h muito mais coisas que
voc precise saber. Se houver problemas, pode
traz-la aqui na clnica. Se estiver fora do horrio
comercial, voc sabe onde eu moro.
      Ela limpou a garganta. - Tudo bem.
      Como ela no disse mais nada, ele sorriu e
comeou a andar em direo  porta. -  s isso,
ento. Voc pode lev-la para casa se quiser. Fico
feliz por t-la trazido aqui. Eu no achava que
fosse uma infeco, mas estou feliz por ter me
certificado.
      - Obrigada - murmurou Gabby. - De novo,
me desculpe...
      Ele levantou as mos para interromp-la. -
No tem problema.  srio. Voc estava irritada,
e Moby s vezes anda pela vizinhana. Foi um
erro, s isso. A gente se v por a, certo?
                                               125/627


     Quando ele fez um ltimo carinho em
Molly, Gabby sentia-se como se tivesse 15 cent-
metros de altura.
     Quando Travis - o Dr. Parker - deixou a sala
de exames, ela esperou por um longo momento
para se certificar de que ele havia ido embora.
Levantou-se da cadeira de forma lenta e dolorosa.
Ela olhou pela abertura da porta e, depois de ter
certeza de que ele no estava mais por ali, foi at
o balco da recepo, onde pagou a conta da con-
sulta em silncio.
     Ao voltar para a clnica onde trabalhava, a
nica coisa que Gabby sabia com certeza era que
ela nunca conseguiria superar o que havia feito, e
como no havia uma pedra grande o bastante
para que ela se enfiasse embaixo, o melhor seria
procurar um modo de evitar encontr-lo por al-
gum tempo. No eternamente,  claro. Um inter-
valo de tempo razovel. Como os prximos cin-
quenta anos.
Captulo 4
Travis Parker ficou em frente  janela, observ-
ando Gabby levar Molly at o carro. Ele sorria
consigo mesmo, entretido com as expresses
dela. Embora ele mal a conhecesse, havia visto o
bastante para concluir que ela era uma daquelas
pessoas cujas expresses eram uma janela para
cada um de seus sentimentos. Ele frequentemente
sentia que muitas pessoas viviam suas vidas fin-
gindo e mentindo, usando mscaras e se per-
dendo de si mesmas no processo. Gabby, ele
tinha certeza, nunca agiria daquela maneira.
     Guardando as chaves no bolso, ele foi em
direo  sua caminhonete, com a promessa de
que voltaria do almoo em meia hora. Pegou a
sua caixa trmica - ele mesmo fazia e embrulhava
seu almoo todos os dias - e foi at o seu lugar
habitual. H um ano, ele havia comprado um
                                             127/627


terreno com vista para a praia de Shackleford, no
final da rua Front, pensando que um dia constru-
iria a casa dos seus sonhos ali. O nico problema
era que ele no tinha certeza das implicaes que
aquilo teria. No geral, ele levava uma vida
simples e sonhava em construir uma cabana
rstica como as que viu em uma viagem que fez
s ilhas de Florida Keys, algo com bastante per-
sonalidade, que parecesse ter 100 anos do lado de
fora, mas que fosse incrivelmente iluminado e es-
paoso por dentro. Ele no precisava de muito es-
pao - um quarto e talvez um escritrio, alm dos
cmodos tradicionais -, mas, assim que comeou
aquele processo, percebeu que o terreno serviria
melhor para algo mais orientado a uma famlia.
Aquilo fazia com que a imagem da casa dos seus
sonhos parecesse um pouco mais confusa, pois
no havia dvida de que ela incluiria tambm
uma futura esposa e filhos, coisa que ele nem de
longe conseguia imaginar.
                                             128/627


     s vezes, o resultado da criao que ele e
sua irm tiveram acabava lhe parecendo estranho,
pois ela tambm no parecia ter pressa em se cas-
ar. Seus pais eram casados h quase 35 anos, e
Travis no conseguia imagin-los solteiros, assim
como ele no conseguia visualizar a si mesmo
batendo os braos e fazendo acrobacias por entre
as nuvens. Sim, ele tinha ouvido as histrias
sobre como eles se conheceram em uma viagem
de acampamento organizada pelo grupo de
jovens da igreja que eles frequentavam enquanto
estavam no ensino mdio; o episdio sobre como
a sua me machucou o dedo enquanto cortava um
pedao de torta para a sobremesa e como seu pai
havia segurado o dedo dela em sua mo,
apertando-o como uma bandagem cirrgica para
estancar o sangramento. Um toque e "tcharam!",
foi o que bastou. Seu pai dizia: "Eu sabia que
aquela era a garota para mim".
     At agora, Travis ainda no havia tido um
"tcharam!", nem nada que chegasse perto
                                              129/627


daquilo. Sim, havia a sua namorada do tempo da
escola, Olvia; todos na escola pensavam que eles
eram perfeitos um para o outro. Ela vivia do
outro lado da ponte hoje em dia, em Morehead
City, e no era raro eles se esbarrarem enquanto
faziam compras no Wal-Mart ou no Target. Eles
conversavam por um minuto ou dois sobre amen-
idades e depois continuavam a tocar suas vidas.
     Houve vrias namoradas desde que ele ter-
minou com Olvia, claro. No era do tipo ingnuo
em relao s mulheres. Ele as achava atraentes,
mas, mais do que isso, verdadeiramente gostava
delas. Orgulhava-se do fato de nunca ter tido algo
que pudesse ser remotamente chamado de um
fim doloroso de relacionamento, para ele ou para
qualquer uma de suas ex. As separaes quase
sempre ocorriam de comum acordo, se esmae-
cendo como um pavio molhado em uma vela de
aniversrio em vez das grandes exploses de fo-
gos de artifcio no cu. Ele se considerava amigo
de todas as suas ex-namoradas - incluindo
                                               130/627


Mnica, a ltima com quem se relacionou - e
achava que elas diriam o mesmo em relao a
ele. No era o homem certo para elas, e elas no
eram as mulheres certas para ele. Viu trs ex-
namoradas se casarem com homens excelentes e
foi convidado para os trs casamentos. Rara-
mente pensava em encontrar um amor eterno ou
a sua cara-metade, mas, nas raras vezes em que o
fazia, sempre terminava imaginando encontrar al-
gum que compartilhava as mesmas paixes en-
ergticas e o interesse pela vida ao ar livre que
ele tinha. A vida foi feita para se viver, no foi?
Claro, todos tinham suas responsabilidades, e ele
sabia que isso fazia parte da vida. Gostava do seu
trabalho, ganhava um bom dinheiro, tinha a pr-
pria casa e pagava suas contas sem atraso, mas
no queria uma vida em que essas coisas fossem
as nicas que importavam. Queria viver a vida.
No, nada disso. Precisava viver a vida.
      At onde ele se lembrava, sempre foi assim.
Ao crescer, Travis era organizado e esforado na
                                             131/627


escola, tirando boas notas sem muita preocu-
pao ou ansiedade, e frequentemente se sentia
igualmente feliz ao tirar uma nota B ou uma nota
A. Aquilo enlouquecia sua me - "Imagine como
voc poderia se sair se se esforasse", era o que
ela repetia a cada vez que a escola lhe enviava o
boletim de notas. Mas a escola no o interessava
tanto quanto andar de bicicleta a toda a velocid-
ade ou surfar na regio de Outer Banks. En-
quanto as outras crianas pensavam em esportes
como futebol ou beisebol, ele pensava em voar
pelo ar com sua motocicleta ao subir por uma
rampa de terra, ou na descarga de energia que ele
sentia quando aterrisava com sucesso. Ele era o
tpico garoto feito para os X-Games, mesmo antes
de essa competio ter sido inventada, e, aos 32
anos, j havia feito praticamente tudo aquilo.
     Ao longe, ele podia ver cavalos selvagens
reunidos perto das dunas da praia de Shackleford
e, enquanto os observava, pegou seu sanduche.
Peito de peru no po branco com mostarda, uma
                                               132/627


ma e uma garrafa de gua. Ele comia aquilo to-
dos os dias, depois de tomar o caf da manh,
que tambm era exatamente igual de um dia para
o outro, com cereais, claras de ovos mexidas e
uma banana. Embora gostasse da descarga oca-
sional de adrenalina, sua dieta era extremamente
entediante. Seus amigos ficavam maravilhados
com a rigidez do seu autocontrole, mas o que ele
no lhes dizia era que aquilo se devia mais ao seu
paladar limitado do que  disciplina. Quando
tinha 10 anos, havia sido forado a terminar um
prato de macarro tailands com molho de gen-
gibre e passado a noite inteira vomitando. Desde
ento, o mais sutil odor de gengibre o fazia correr
para o banheiro com nsias, e seu paladar nunca
mais foi o mesmo. Ele ficou receoso em relao 
comida de forma geral, preferindo coisas simples,
inspidas e previsveis em vez de qualquer coisa
com algum sabor extico. Conforme cresceu, re-
cusou qualquer outro tipo de comida
                                            133/627


industrializada. Agora, depois de mais de vinte
anos, tinha muito medo de mudar.
     Enquanto saboreava seu sanduche - in-
spido e previsvel -, observou a direo em que
seus pensamentos fluam. No era o jeito dele.
Normalmente no era dado a reflexes profundas
(outro exemplo do inevitvel pavio molhado,
como diria Maria, com quem ele namorou h seis
anos). Em geral, simplesmente vivia sua vida,
fazendo o que precisava ser feito e pensando em
maneiras de se divertir no resto do tempo. Esta
era uma das melhores vantagens de ser solteiro:
uma pessoa podia fazer tudo o que quisesse,
sempre que quisesse, e a introspeco era apenas
uma opo.
     Tinha de ser Gabby, pensou ele, embora no
fizesse a menor ideia do porqu. Ele mal a con-
hecia, e duvidava que tivesse conhecido a ver-
dadeira face de Gabby Holland. Sim, ele viu a
face enfurecida no sbado  noite e a face arre-
pendida alguns momentos antes, mas no
                                             134/627


imaginava como ela iria se comportar em circun-
stncias normais. Ele suspeitava de que ela tinha
um bom senso de humor, mas, ao pensar melhor
naquilo, no conseguiu saber o que lhe fazia
pensar daquela forma. Sem dvida ela era inteli-
gente, embora ele pudesse ter deduzido aquilo
por causa do emprego dela. Mas alm daquilo...
ele tentou e no conseguiu visualiz-la em um
encontro romntico. Ainda assim, ficou feliz por
ela ter vindo  clnica, mesmo que fosse apenas
para que tivessem uma oportunidade de comear
seu contato como vizinhos novamente. Uma
coisa que ele havia aprendido era que maus vizin-
hos poderiam tornar a vida de uma pessoa uma
experincia miservel. Seu amigo Joe tinha um
vizinho que queimava folhas secas no primeiro
dia da primavera e cortava sua grama bem cedo
nas manhs de sbado, e os dois j quase se so-
caram mais de uma vez depois de uma noite
longa que o beb de Joe passou chorando. Travis
pensava que a cortesia estava destinada a ter o
                                               135/627


mesmo fim dos dinossauros, e a ltima coisa que
ele queria era que Gabby sentisse alguma razo
para evit-lo. Talvez ele poderia convid-la at
sua casa da prxima vez que seus amigos est-
ivessem ali...
     Sim, ele pensou, acho que vou fazer isso.
Com a deciso tomada, ele pegou sua caixa
trmica e comeou a voltar para a sua caminhon-
ete. Havia a variedade habitual de ces e gatos
agendados para aquela tarde, mas, s 3 horas, al-
gum traria um lagarto. Ele gostava de tratar de
lagartos ou de qualquer outro animal de estim-
ao extico; a ideia de que ele sabia do que es-
tava falando - e realmente sabia - sempre impres-
sionava os donos dos bichos. Ele gostava de ver
as expresses maravilhadas daquelas pessoas:
"ser que ele conhece a anatomia e fisiologia ex-
atas de todas as criaturas do planeta?". E ele fin-
gia conhecer. Mas a realidade era um pouco mais
prosaica. No,  claro que ele no conhecia os
detalhes de todas as criaturas do planeta - quem
                                             136/627


conseguiria fazer isso? -, mas infeces eram in-
feces, e eram geralmente tratadas sempre da
mesma forma, independentemente da espcie. A
diferena era a dose da medicao, e aquela era a
informao que ele precisava verificar em um
livro de referncia que deixava guardado em sua
escrivaninha.
     Ao entrar no carro, percebeu que estava
pensando em Gabby, imaginando se ela j havia
praticado surfe ou snowboarding. No parecia
provvel, mas, ao mesmo tempo, ele tinha a es-
tranha sensao de que, ao contrrio da maioria
de suas ex-namoradas, ela talvez gostasse
daquele tipo de esporte, se tivesse a oportunid-
ade. Ele no sabia exatamente por que e, ao dar a
partida no motor, tentou afastar aquele
pensamento, fazendo o melhor que podia para se
convencer de que aquilo no importava. Exceto
pelo fato de que, por algum motivo, aquilo tinha
toda a importncia.
Captulo 5
Durante as duas semanas seguintes, Gabby se
tornou especialista em entrar e sair discreta-
mente, especialmente na prpria casa. Ela no
tinha outra escolha. O que ela poderia dizer a
Travis? Ela fez papel de idiota, e ele deixou a
situao ainda mais insuportvel ao tratar aquilo
como se no tivesse importncia. Obviamente,
aquilo significava que ir e voltar estavam sujeitos
a um novo conjunto de regras, no qual "evitar en-
contros" era a regra nmero 1. A nica coisa que
lhe trazia um pouco de alvio - a nica coisa pos-
itiva que ela conseguiu extrair de toda aquela ex-
perincia - foi ter se desculpado quando estava na
clnica dele.
      Estava ficando cada vez mais difcil manter
aquela situao, entretanto. No incio, tudo que
ela precisava fazer era estacionar dentro da sua
                                              138/627


garagem, mas agora que Molly estava perto de
ter os filhotes, Gabby teve de comear a estacion-
ar na calada para que a cadela pudesse construir
seu ninho. Isso significava que, naqueles dias,
Gabby teria de ir e vir quando tivesse certeza de
que Travis no estava em casa.
      Ela chegou  concluso de que no precis-
aria se esquivar por cinquenta anos; na verdade,
ela pensava que alguns meses, ou talvez um
semestre, seriam suficientes. Qualquer que fosse
a quantidade de tempo, aquilo parecia ser um in-
tervalo longo o bastante para que ele se esque-
cesse de tudo, ou pelo menos para que as
memrias da maneira como ela agiu comeassem
a desaparecer. Ela sabia que o tempo tinha a cara-
cterstica de ofuscar os limites da realidade, at
que apenas uma imagem borrada restasse, e,
quando aquilo acontecesse, ela voltaria a ter uma
rotina normal. Comearia aos poucos - um aceno
aqui e ali ao entrar no carro, talvez um aceno
quando estivesse no seu deque, no quintal, caso
                                               139/627


eles se vissem - e a coisa continuaria daquele
ponto em diante. Com o tempo, ela pensou que
ficaria bem - talvez eles at mesmo rissem juntos
algum dia, lembrando da ocasio em que se con-
heceram -, mas at l, preferia viver como uma
espi.
      Ela teve de observar os horrios de Travis, 
claro. No foi difcil - uma rpida olhada no rel-
gio quando ele se preparava para sair de casa pela
manh, enquanto olhava pela janela da cozinha.
Voltar para casa do trabalho era ainda mais fcil;
ele geralmente estava remando seu barco ou an-
dando de jet ski quando ela chegava, mas, por
outro lado, aquilo fazia com que as noites se
transformassem no pior dos problemas. Como ele
estava l fora, ela tinha de ficar dentro de casa,
no importa o quanto o pr do sol estivesse mara-
vilhoso, e, a menos que ela fosse  casa de Kevin,
acabava passando as noites estudando seu livro
de astronomia - aquele que ela havia comprado
na esperana de impressionar Kevin com seus
                                              140/627


conhecimentos sobre o espao sideral enquanto
eles observavam o cu. Infelizmente, aquilo
ainda no havia acontecido.
     Ela imaginava que poderia ter tido uma atit-
ude mais adulta em relao a tudo aquilo, mas
tinha uma sensao estranha de que, se estivesse
frente a frente com Travis, iria perceber que es-
tava se lembrando em vez de escutando, e a l-
tima coisa que ela queria era deixar a situao
ainda pior do que a impresso que j tinha cau-
sado. E, tambm, ela tinha outras coisas em
mente.
     Por exemplo, Kevin. Na maioria das noites,
ele vinha at a casa dela e ficava por algum
tempo, e ele at mesmo passou o ltimo fim de
semana com ela, depois do seu habitual jogo de
golfe, claro. Kevin adorava golfe. Eles tambm
saram trs vezes para jantar e duas vezes para ir
ao cinema, e passaram uma parte da tarde de
domingo na praia. Alguns dias atrs, enquanto
                                               141/627


estavam no sof, ele tirou os sapatos dela en-
quanto bebiam vinho.
     - O que voc est fazendo?
     - Achei que voc gostaria que eu lhe fizesse
uma massagem nos ps. Aposto que eles esto
doloridos depois de voc passar o dia inteiro de
p.
     - Seria melhor se eu os lavasse antes.
     - No me importo se eles esto limpos ou
sujos. E, alm disso, eu gosto de olhar para os de-
dos dos seus ps. Eles so lindos.
     - Voc no tem um fetiche secreto por ps,
tem?
     - No tenho, no. Bem, sou louco pelos seus
ps - declarou, comeando a lhe fazer ccegas, e
ela puxou seus ps, encolhendo-se e rindo. Um
momento depois eles estavam se beijando apaix-
onadamente e, depois, quando ela estava deitada
ao seu lado, Kevin lhe disse o quanto a amava.
Do jeito que ele falava, ela teve a impresso de
                                               142/627


que poderia comear a considerar a ideia de que
deveriam morar juntos.
     O que era bom. Era o mais prximo que ele
havia chegado de conversar com ela sobre o seu
futuro juntos, mas...
     Mas o qu?  sempre assim que as coisas
funcionam, no ? Viver juntos seria um passo
em direo ao futuro ou apenas uma maneira de
continuar vivendo no presente? Ela realmente
precisava que ele a pedisse em casamento? Ela
pensou a respeito. Bem... sim. Mas no at que
ele se sentisse pronto para aquilo. O que levava,
obviamente, a questes que comearam a invadir
os pensamentos de Gabby sempre que eles es-
tavam juntos: quando ele iria se sentir pronto?
Ser que algum dia estaria pronto para aquilo? E,
 claro, por que no se sentia pronto para se casar
com ela?
     Era errado querer se casar em vez de
simplesmente morar com ele? Deus sabe que ela
no tinha mais certeza nem daquilo. Parece que
                                             143/627


algumas pessoas crescem sabendo que se casaro
quando tiverem determinada idade, e aquilo
acontece exatamente como o planejado; outras
sabem que no se casaro durante algum tempo,
e passam a morar com as pessoas que amam, e
aquilo tambm funcionava muito bem. s vezes,
parecia que ela era a nica sem um plano es-
tabelecido; para ela, o casamento sempre foi uma
ideia vaga, algo que simplesmente... acontecia. E
aconteceria. Certo?
     Pensar naquilo a deixava com dor de cabea.
O que ela realmente queria fazer era se sentar
fora da casa, em seu deque, com uma taa de
vinho e se esquecer de tudo por alguns mo-
mentos. Mas Travis Parker estava em seu deque,
lendo uma revista, e aquilo impedia seus planos.
Assim, estava presa em sua casa novamente na
quinta-feira  noite.
     Ela desejou que Kevin no estivesse trabal-
hando at tarde para que eles pudessem fazer al-
guma coisa juntos. Ele estava em uma reunio
                                              144/627


com um dentista que estava abrindo um con-
sultrio, e que precisava avaliar todas as opes
de seguros que se aplicassem a ele. Aquilo no
era ruim - ela sabia que ele estava dedicado a
fortalecer seus negcios -, mas ele iria com o pai
a Myrtle Beach para uma conveno logo no in-
cio da manh seguinte, e ela no conseguiria v-
lo at a prxima quarta-feira, o que significava
que teria de passar ainda mais alguns dias enfur-
nada em casa, presa como um frango em um gal-
inheiro. O pai de Kevin era o dono de uma das
maiores corretoras de seguros da Carolina do
Norte, e Kevin estava assumindo mais responsab-
ilidades a cada ano que se passava no escritrio
central de Morehead City, j que seu pai estava
se aproximando da aposentadoria. s vezes ela
imaginava como aquilo deveria ser - ter uma car-
reira traada desde a infncia -, mas imaginou
que havia coisas piores, especialmente porque a
empresa era bem-sucedida. Apesar de haver uma
pretenso de nepotismo no ar, Kevin havia feito
                                            145/627


por merecer o cargo que tinha. Atualmente, o pai
dele passava menos de vinte horas por semana na
empresa, o que geralmente fazia com que a carga
horria semanal de Kevin ficasse prxima de ses-
senta. Com quase 30 funcionrios, os problemas
gerenciais no acabavam, mas Kevin tinha tal-
ento para lidar com pessoas. Pelo menos, foi o
que algumas pessoas disseram a Gabby na festa
de Natal da empresa, nas duas ocasies em que
ela compareceu.
     Sim, ela tinha orgulho dele, mas aquilo
ainda no deixava que ela sasse de casa em
noites como esta, o que parecia ser um desperd-
cio. Talvez devesse simplesmente ir at a praia
Atlantic, onde poderia tomar uma taa de vinho e
observar o sol se pr. Por um momento, ela con-
siderou fazer exatamente aquilo. Depois, mudou
de ideia. No havia problemas em ficar sozinha
em casa, mas a ideia de beber na praia sozinha
fez com que ela se sentisse como uma fracassada
na vida. As pessoas pensariam que ela no tinha
                                             146/627


nenhum amigo no mundo, o que no era verdade.
Ela tinha vrios amigos. O problema  que nen-
hum deles morava dentro de um raio de 150
quilmetros de Beaufort, e, quando se deu conta
daquilo, no conseguiu se sentir muito melhor.
      Se ela levasse sua cadela, talvez... aquilo
era diferente. Era uma coisa perfeitamente nor-
mal a fazer, at mesmo saudvel. Demorou al-
guns dias, e ela tomou quase todos os analgsicos
que tinha no armrio dos remdios, mas a dor da
sua primeira sesso na academia havia finalmente
passado. Ela no voltou s aulas de body pump -
as pessoas que faziam essa aula obviamente eram
masoquistas -, mas comeou a manter uma rotina
razoavelmente regular na academia. Pelo menos
nos ltimos dias. Foi na segunda e na quarta-
feira, e estava determinada a achar tempo para ir
no dia seguinte tambm.
                                             147/627


     Ela se levantou do sof e desligou a tele-
viso. Molly no estava por perto e, imaginando
que ela estivesse na garagem, Gabby foi at l. A
porta que levava at a garagem estava aberta e,
quando ela entrou e acendeu as luzes, a primeira
coisa que percebeu foi o grupo de bolas peludas
que se contorciam e choramingavam ao redor de
Molly. Gabby a chamou; um momento depois,
entretanto, ela comeou a gritar.


     Travis havia acabado de entrar na cozinha
para tirar um peito de frango da geladeira quando
ouviu as pancadas sbitas e frenticas em sua
porta.
     - Dr. Parker? Travis? Voc est a?
     S levou um momento para que ele reconhe-
cesse a voz de Gabby. Quando abriu a porta, o
rosto dela estava plido e com uma expresso
aterrorizada.
                                              148/627


     - Voc tem de vir comigo - disse. - Molly
no est bem.
     Travis reagiu instintivamente. Enquanto
Gabby se virou e comeou a correr de volta para
sua casa, ele tirou uma bolsa mdica de trs do
assento do passageiro de sua caminhonete, aquela
que ele usava para as chamadas ocasionais que
recebia solicitando que algum animal fosse
tratado em uma fazenda. Seu pai sempre en-
fatizou a importncia de deix-la preparada com
qualquer coisa que ele pudesse precisar, e Travis
havia aprendido bem aquela lio. Gabby j es-
tava quase na porta de entrada, e a deixou aberta,
desaparecendo dentro da casa. Travis a seguiu e
um momento depois avistou-a na cozinha, perto
da porta aberta que levava  garagem.
     - Ela est arfando e vomitando - disse ela,
correndo para ficar ao lado de Molly. - E... tem
algo saindo dela.
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     Travis avaliou a situao imediatamente, re-
conhecendo o tero prolapsado, esperando que
no tivesse chegado tarde demais.
     - Deixe-me lavar as mos - ele disse, rapida-
mente. Esfregou as mos com fora na pia da co-
zinha, falando enquanto as enxaguava. - Preciso
de mais luz l embaixo. Voc tem como provid-
enciar isso? Uma luminria ou uma lanterna?
     - Voc no vai lev-la para a clnica?
     - Provavelmente - ele disse, mantendo a voz
calma. - Mas no neste momento. Eu quero tentar
algo antes. E preciso de mais uma fonte de luz.
Voc pode fazer isso para mim?
     - Sim, sim... claro que posso - ela saiu da
cozinha, voltando um momento depois com uma
luminria. - Ela vai ficar bem?
     - Vou avaliar a gravidade do problema.
     Com as mos para cima, como faria um
cirurgio, ele fez um sinal com a cabea em
direo  bolsa que estava no cho. - Pode trazer
a bolsa para mim, tambm? Coloque-a perto de
                                             150/627


Molly e encontre um lugar para ligar a luminria.
O mais prximo de Molly que voc conseguir,
certo?
     - Certo - ela concordou, tentando no entrar
em pnico.
     Travis se aproximou da cadela cuida-
dosamente enquanto Gabby conectava a lu-
minria em uma tomada, percebendo, com certo
alvio, que Molly estava consciente. Ele con-
seguia ouvi-la choramingando, o que era normal
em uma situao como aquela. Em seguida, ele
se concentrou na massa tubular que saa da sua
vulva e olhou para os filhotes, percebendo que o
nascimento havia ocorrido durante a ltima meia
hora, o que era bom. A chance de haver necrose
era menor.
     - E agora? - perguntou Gabby.
     - Segure-a e converse com ela em voz baixa.
Eu preciso que voc a ajude a ficar calma.
     Quando Gabby estava posicionada, Travis
se agachou ao lado da cadela, ouvindo Gabby
                                             151/627


murmurando e sussurrando coisas para ela, com o
rosto prximo do focinho dela. Molly estendeu a
lngua, outro bom sinal. Ele gentilmente examin-
ou o tero, e Molly estremeceu ligeiramente.
     - O que aconteceu com ela?
     - Ela est com um prolapso uterino. Signi-
fica que uma parte do tero acabou virando do
avesso, e est para fora do corpo dela. Travis
colocou a mo no tero, examinando-o gentil-
mente para verificar se havia alguma ruptura ou
reas necrosadas. - Houve algum problema dur-
ante o nascimento?
     - No sei - disse ela. - Eu nem percebi que
estava acontecendo. Ela vai ficar bem, no vai?
     Concentrado no tero, ele no respondeu. -
Abra a minha bolsa - pediu. - Tem soro fisiolgi-
co, e vou precisar do gel tambm.
     - O que voc vai fazer?
     - Preciso limpar o tero, e depois vou
manipul-lo um pouco. Quero tentar reduzi-lo
manualmente, e, se tivermos sorte, ele vai se
                                                152/627


contrair sozinho. Caso contrrio, vou ter de lev-
la  clnica para uma cirurgia. Eu preferiria evitar
essa opo, se for possvel.
      Gabby encontrou o soro fisiolgico e o gel e
os entregou. Travis enxaguou o tero e depois o
lavou mais duas vezes antes de pegar o gel lubri-
ficante, esperando que aquilo funcionasse.


     Gabby no suportava olhar aquilo, e assim
ela se concentrou em Molly, com sua boca prx-
ima da orelha da cadela enquanto sussurrava
vrias vezes que ela era uma boa menina. Travis
estava em silncio, sua mo se movendo com um
ritmo regular acima do tero.
     Ela no sabia h quanto tempo eles estavam
na garagem - podia ter passado dez minutos ou
uma hora, mas ela finalmente viu Travis se re-
clinar, como se estivesse tentando aliviar a tenso
em seus ombros. Foi quando ela percebeu que as
mos dele estavam livres.
                                                153/627


      - Acabou? - ela se atreveu a perguntar. - Ela
est bem?
      - Sim e no - disse ele. - O tero dela voltou
para o lugar, mas ela precisa ir at a clnica. Ela
vai precisar de repouso por alguns dias at recu-
perar as foras, e vai precisar tambm de alguns
antibiticos e fluidos. Eu terei de fazer raios X
nela tambm. E se no houver outras com-
plicaes, ela vai ficar novinha em folha. Vou
trazer minha caminhonete e estacion-la aqui em
frente  sua garagem. Tenho uns cobertores vel-
hos e ela pode se deitar sobre eles.
      - Mas o tero... no vai sair de novo?
      - Isso no deve acontecer. Como eu disse,
ele se contraiu normalmente.
      - E os fihotes?
      - Vamos traz-los tambm. Eles precisam
ficar com a me.
      - Isso no vai fazer mal a ela?
                                              154/627


     - No h razo para isso. Mas  por isso que
ela precisa dos fluidos. Para que os filhotes pos-
sam mamar.
     Gabby sentiu seus ombros relaxarem; ela
no havia percebido o quanto eles estavam
tensos. Pela primeira vez, ela sorriu. - No sei
como posso lhe agradecer - disse ela.
     - Voc acabou de faz-lo.


     Depois de organizar suas coisas, Travis
colocou Molly cuidadosamente na caminhonete,
enquanto Gabby comeou a levar os filhotes.
Quando todos os seis estavam acomodados,
Travis fechou a bolsa e a jogou sobre o banco da
frente. Ele deu a volta na caminhonete e abriu a
porta do motorista.
     - Eu ligo para dizer como eles esto - disse
ele.
     - Eu vou com voc.
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      - Seria melhor deix-la descansar um pouco,
e, se voc estiver por perto, isso vai ficar difcil.
Ela precisa se recuperar. No se preocupe, vou
cuidar bem dela. Ficarei com ela a noite toda.
Dou minha palavra.
      Ela hesitou. - Tem certeza?
      - Ela vai ficar bem. Eu garanto.
      Ela considerou o que ele disse e depois lhe
deu um sorriso trmulo. - Voc sabe, na minha
rea de trabalho, os professores nos ensinam a
nunca garantir nada. Devemos dizer que vamos
fazer o melhor que pudermos.
      - Voc se sentiria melhor se eu no
garantisse?
      - No. Mas ainda acho que devia ir com
voc.
      - Voc no tem de trabalhar amanh?
      - Tenho sim. E voc tambm.
      -  verdade, mas este  o meu trabalho.  o
que eu fao. Alm disso, tenho um colchonete na
clnica. Se voc vier, vai ter de dormir no cho.
                                               156/627


     - Quer dizer que voc no me cederia o
colchonete?
     Ele entrou na caminhonete. - Eu acho que
poderia ced-lo, se no houvesse outra opo -
disse ele, sorrindo. - Mas me preocupo com o que
o seu namorado iria pensar se voc e eu passsse-
mos a noite juntos.
     - Como voc sabe que eu tenho um
namorado?
     Ele colocou a mo na porta. - Eu no sabia -
disse, parecendo ligeiramente decepcionado. Em
seguida, sorriu, recuperando-se. - Vou lev-la, es-
t bem? Me ligue amanh, e eu lhe digo o que
houve na clnica.
     - Est certo - disse ela, cedendo.
     Travis fechou a porta e ela ouviu o motor
comear a funcionar. Ele colocou a cabea para
fora da janela. - No se preocupe - repetiu ele. -
Ela vai ficar bem.
     Ele dirigiu pela rua e virou  esquerda. Ao
longe, acenou para ela pela janela. Gabby acenou
                                             157/627


de volta, embora soubesse que ele no poderia
v-la, observando as luzes vermelhas se
afastando e dobrando a esquina.
     Depois que ele se foi, Gabby foi at seu
quarto e ficou de p em frente  penteadeira. Ela
sempre soube que nunca seria o tipo de mulher
que pararia o trnsito, mas, pela primeira vez em
muito tempo, percebeu que estava se olhando no
espelho e imaginando o que algum alm de
Kevin pensava quando a via.
     Apesar do seu cansao e do cabelo em-
baraado, ela no parecia to mal quanto temia.
A ideia a deixava satisfeita, embora ela no
soubesse o porqu. Inexplicavelmente, ela se
lembrou da expresso de decepo no rosto de
Travis quando lhe disse que tinha um namorado,
e sentiu suas faces corarem. Ela disse a si mesma
que no estava sentindo nada diferente em re-
lao a Kevin...
     Sua opinio sobre Travis Parker estava er-
rada, errada desde o comeo, em relao a tudo.
                                               158/627


Ele manteve o controle durante a emergncia.
Aquilo ainda a espantava, embora ela no
devesse ter ficado surpresa. Ela lembrou a si
mesma que aquele era o trabalho dele, afinal de
contas.
      Decidiu telefonar para Kevin. Ele foi bem
compreensivo, percebeu o momento pelo qual ela
passava e prometeu que chegaria  casa dela em
alguns minutos.
   - Como est se sentindo? - perguntou
   Kevin.
   Gabby se aconchegou ao corpo dele. Era bom
sentir o brao dele ao seu redor.-Ansiosa, eu
acho.
      Ele a puxou para mais perto de si, e ela con-
seguiu sentir seu cheiro, limpo e perfumado,
como se tivesse tomado banho pouco antes de vir
at a casa dela. Seu cabelo, longo e despenteado,
fazia com que ele parecesse um estudante
universitrio.
                                               159/627


     - Fico feliz por seu vizinho estar por perto -
disse ele. - Travis, no ?
     - Sim - ela o olhou nos olhos. - Voc o
conhece?
     - Para falar a verdade, no - disse ele. - Ns
temos o contrato de seguro da clnica, mas esta 
uma das contas de que o meu pai ainda cuida.
     - Eu achei que esta cidade fosse pequena, e
que voc conhecesse todo mundo.
     - Ela . Mas cresci em Morehead City e,
quando era criana, eu no andava com ningum
que morava em Beaufort. Alm disso, acho que
ele  um pouco mais velho do que eu. Provavel-
mente j tinha ido para a faculdade quando come-
cei o ensino mdio.
     Ela assentiu. No silncio, os pensamentos
dela se voltaram para Travis, sua expresso sria
enquanto cuidava de Molly, a segurana tranquila
em sua voz enquanto ele lhe explicava o que
havia de errado. No silncio, percebeu que estava
com uma vaga sensao de culpa e se inclinou
                                                160/627


para encostar seu rosto no pescoo de Kevin.
Kevin acariciou seu ombro, com um toque recon-
fortante e familiar. - Fico feliz por voc ter vindo
- ela sussurrou. - Eu realmente precisava ter voc
aqui esta noite.
      Ele beijou seu cabelo. - Onde mais eu
estaria?
      - Eu sei, mas voc tinha aquela reunio, e
voc precisa levantar cedo amanh.
      - No tem problema.  apenas uma con-
veno. No vou demorar mais do que dez
minutos para arrumar minhas coisas. S queria
poder ter chegado aqui antes.
      - Provavelmente voc iria ficar enjoado.
      - Provavelmente. Mas ainda me sinto mal.
      - No se sinta. No h razo para isso.
      Ele acariciou-lhe o cabelo. - Voc quer que
eu mude a data da viagem? Tenho certeza de que
meu pai entenderia se eu dissesse a ele que pre-
ciso ficar por aqui amanh.
                                             161/627


     - No, no  preciso. Eu tenho de trabalhar,
de qualquer maneira.
     - Tem certeza?
     - Tenho sim - disse ela. - Mas obrigada por
perguntar.  muito importante para mim.
Captulo 6
Depois de encontrar seu filho dormindo no col-
chonete e um cachorro na sala de recuperao,
Max Parker ouvia Travis explicar o que havia
acontecido. Max encheu duas xcaras com caf e
as levou para a mesa.
     - Nada mal para sua primeira vez - disse
Max. Com seu cabelo branco e suas grossas so-
brancelhas, ele era o retrato de um veterinrio
querido em uma cidade pequena.
     - J tratou de uma cadela assim?
     - Nunca - admitiu Max. - Mas tratei de uma
gua uma vez. Voc sabe o quanto isso  raro.
Molly parece estar bem agora. Ela sentou e aban-
ou o rabo quando entrei na sala esta manh. At
que horas voc ficou com ela?
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      Travis bebeu o caf, agradecido. - Quase a
noite toda. Queria ter certeza de que aquilo no
iria voltar a ocorrer.
      - Geralmente no volta - garantiu ele. - Mas
foi bom voc ter ficado. J ligou para o dono?
      - Ainda no, mas vou ligar - respondeu ele,
enxugando o rosto. - Cara, estou exausto.
      - Por que voc no vai dormir um pouco?
Posso cuidar das coisas por aqui, e ficarei de olho
em Molly.
      - No quero que voc fique sobrecarregado.
      - No se preocupe - disse Max, com um sor-
riso. - No se lembra? Voc nem precisaria estar
aqui hoje.  sexta-feira.
      Alguns minutos mais tarde, depois de ter ex-
aminado Molly, Travis estacionou em frente 
sua garagem e desceu do carro. Ele se es-
preguiou, esticando os braos para cima, e foi
at a casa de Gabby. Ao atravessar o jardim, viu
que o jornal havia sido entregue e, aps uma
breve hesitao, pegou-o. Ao subir at a varanda
                                               164/627


dela, estava a ponto de bater  porta quando
ouviu o som de passos que se aproximavam, e a
porta se abriu. Gabby se endireitou, surpresa em
v-lo.
      - Oh, oi... - disse ela, tirando as mos da
porta. - Eu estava pensando que era hora de ligar
para voc.
      Embora estivesse descala, ela estava
usando cala social e uma blusa cor de creme, e
seu cabelo estava preso com uma presilha de
marfim. Ele percebeu mais uma vez o quanto ela
era atraente, mas hoje se deu conta de que a at-
ratividade dela tinha mais a ver com a sua fran-
queza sincera do que com a boa aparncia
convencional.
      Ela parecia ser to... real. - Como eu estava
vindo para casa, achei melhor vir inform-la
pessoalmente. Molly est bem.
      - Tem certeza?
      Ele fez que sim com a cabea. - Tirei raios
X e no vi nenhum indcio de sangramento
                                                165/627


interno. Quando ela recebeu soro, pareceu recu-
perar a fora. Provavelmente vai poder voltar
para casa hoje, mas gostaria de deix-la l mais
uma noite, s para ter certeza. Meu pai vai cuidar
dela por hoje. Fiquei acordado quase a noite toda,
ento vou dormir, mas vou at l para dar uma
olhada nela mais tarde.
      - Posso ir v-la?
      - Claro - disse ele. - Voc pode v-la a
qualquer hora. Mas lembre-se de que talvez ela
ainda esteja um pouco dopada, porque tive de ad-
ministrar alguns sedativos para que ela pudesse
se acalmar na hora de tirar os raios X e para alivi-
ar um pouco a dor. - Ele fez uma pausa. - Os fil-
hotes esto bem tambm. So lindos como bichos
de pelcia.
      Ela sorriu, gostando da tonalidade suave do
sotaque dele, surpresa por no ter notado aquilo
antes. - Tudo o que eu queria era agradec-lo
novamente - disse ela. - No sei como poderia
retribuir.
                                                166/627


      Com um gesto amistoso, ele disse - Fiquei
feliz em ajudar - e estendeu o jornal. - Ah, isso
me lembra... peguei o jornal para voc na caixa
de correio.
      - Obrigada - disse ela, pegando o jornal.
      Durante um momento incmodo, eles se ol-
haram em silncio.
      - Quer uma xcara de caf? - ofereceu ela. -
Acabei de fazer.
      Ela sentiu uma mistura de alvio e decepo
quando ele balanou a cabea negativamente.
      - No, obrigado. Prefiro no ficar acordado
quando estou tentando
dormir. Ela riu. - Voc  engraado.
      - Eu tento ser - disse ele e, por um instante,
ela o visualizou apoiado no balco de um bar,
dando a mesma resposta a uma mulher atraente, o
que lhe deu a vaga impresso de que ele estava
flertando com ela.
      - Mas escute - continuou ele. - Eu sei que
voc provavelmente est se preparando para ir
                                                167/627


trabalhar, e eu estou exausto. Ento, vou para
casa dormir um pouco. - Ele se virou e desceu os
degraus da varanda.
      Apesar de suas reservas, Gabby atravessou o
limite e o chamou enquanto ele estava no jardim.
- Antes de ir embora, voc poderia me dizer que
horas vai voltar para a clnica? Para examinar
Molly, eu quero dizer.
      - No tenho certeza. Acho que depende do
tempo que eu dormir.
      - Ah... tudo bem, ento - disse ela, sentindo-
se boba e desejando no ter perguntado.
      - Mas que tal fazermos assim - continuou
ele. - Voc me diz a que horas voc sai para o al-
moo, e eu a encontro na minha clnica.
      - Eu no quis dizer...
      - A que horas? Ela engoliu em seco. -
12h45.
      - Estarei l - prometeu. Ele deu dois passos
para trs. - E, antes que eu me esquea, voc fica
muito bem com essas roupas - acrescentou.
                                              168/627


     "Mas que diabos estava havendo?"
     Aquela frase resumiu o estado mental de
Gabby durante a manh. No importava se ela es-
tava fazendo um exame de rotina em um beb
(duas vezes), diagnosticando infeces de ouvido
(quatro vezes), aplicando uma vacina (uma vez)
ou recomendando raios X (uma vez); ela sentia
como se estivesse funcionando no piloto
automtico, no totalmente presente, enquanto
outra parte de si ainda estava na varanda, imagin-
ando se Travis havia realmente flertado com ela e
se talvez, apenas talvez, ela tivesse gostado
daquilo.
     Pela milsima vez, ela desejou ter alguma
amiga na cidade com quem pudesse conversar
sobre aquilo. No havia nada como ter uma boa
amiga por perto para trocar confidncias e, em-
bora houvesse enfermeiras na sua clnica, o status
de Gabby como assistente mdica parecia mant-
las a distncia. Era frequente ela ouvir as enfer-
meiras conversando e rindo, mas geralmente
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ficavam em silncio assim que ela se aproxim-
ava. Isso fazia com que se sentisse to isolada
quanto havia estado nos primeiros dias em que se
mudou para a cidade.
     Depois de terminar com seu ltimo paciente
(a criana precisou ser encaminhada para um
otorrinolaringologista para uma possvel tonsilec-
tomia), Gabby enfiou o estetoscpio no bolso do
seu jaleco e foi at sua sala. No era nada de es-
pecial; ela tinha uma leve suspeita de que aquela
sala era usada como depsito antes que ela fosse
contratada. No havia janelas e a escrivaninha
ocupava a maior parte da sala, mas, desde que ela
no deixasse a baguna sair do controle, ainda as-
sim era bom ter um lugar que ela pudesse chamar
de seu. Havia um armrio de arquivos quase
vazio no canto, e ela pegou sua bolsa, que estava
guardada na ltima gaveta. Verificando seu rel-
gio, viu que teria alguns minutos at o seu
horrio de almoo. Ela puxou sua cadeira e
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passou a mo atravs dos seus cachos ruivos
indisciplinados.
      Definitivamente, decidiu que estava exager-
ando um pouco em relao a tudo aquilo. As
pessoas flertavam o tempo inteiro. Fazia parte da
natureza humana. Alm disso, provavelmente
isso no significava nada. Depois de tudo que
havia acontecido na noite anterior, ele havia se
transformado em uma espcie de amigo...
      Seu amigo. Seu primeiro amigo em uma
nova cidade no incio da sua nova vida. Ela
gostava daquela ideia. O que havia de errado em
ter um amigo? Nada. Sorriu consigo mesma com
aquela ideia, antes de franzir a testa.
      Mesmo assim, talvez no fosse uma boa
ideia. Ter amizade com um vizinho era uma
coisa, mas fazer amizade com um cara que
gostava de flertar era algo completamente difer-
ente. Especialmente se o cara que gostava de fler-
tar fosse bonito. Kevin geralmente no era o tipo
ciumento, mas ela no era ingnua para pensar
                                              171/627


que ele ficaria alegre com a ideia de que ela e
Travis tomariam caf no deque atrs da casa duas
vezes por semana, que era exatamente o tipo de
coisa que vizinhos amigos faziam. Por mais ino-
cente que fosse aquela visita ao veterinrio - e
seria inocente, lembre-se -, havia uma vaga
sensao de infidelidade em relao  situao.
      Ela hesitou. Estou ficando louca, pensou.
Realmente estou ficando louca.
      Ela no havia feito nada de errado. Nem ele.
Aquele pequeno flerte no daria em nada, mesmo
que fossem vizinhos. Ela e Kevin namoravam
desde
o ltimo ano de seus cursos na Universidade da
Carolina do Norte - eles se conheceram em uma
noite fria e miservel, quando o vento havia ar-
rancado sua boina depois de sair do bar Spanky's
com suas amigas. Kevin correu em direo  rua
Franklin e ziguezagueou por entre os carros para
recuper-la, e, mesmo que ela no tivesse sentido
a flechada do cupido naquele momento, sabia que
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pelo menos havia uma leve chance de que aquilo
pudesse acontecer.
     Naquela poca, a ltima coisa que ela queria
era algo complicado como um relacionamento,
pois sentia que j havia complicaes suficientes
em sua vida. As provas finais estavam se aproxi-
mando, o aluguel estava atrasado, e ela no sabia
em qual escola especfica para assistentes mdi-
cos iria estudar. Embora agora aquilo parecesse
absurdo, na poca parecia ser a deciso mais im-
portante que tinha de tomar. Havia sido aceita na
MUSC, em Charleston, e na Eastern Virginia
University, em Norfolk, e sua me fazia uma
forte presso para que ela se decidisse por Char-
leston. "Sua deciso  simples, Gabrielle. Voc
estaria a apenas duas horas de sua casa e Charle-
ston  bem mais cosmopolita, querida." Gabby
estava propensa a aceitar Charleston tambm,
embora, no fundo, ela soubesse que seu interesse
por Charleston se dava pelos motivos errados: a
vida noturna, o entusiasmo de morar em uma
                                               173/627


bela cidade, a cultura e o animado circuito social.
Ela se lembrou de que realmente no teria tempo
para aproveitar nada daquilo. Com exceo de al-
gumas matrias mais importantes, o curso de as-
sistente mdico tinha
o mesmo contedo e programa de uma faculdade
de medicina, mas o curso podia ser concludo em
dois anos em vez dos tradicionais quatro. Ela j
tinha ouvido histrias horrveis sobre o que es-
perar: as aulas eram ensinadas e a informao era
transmitida com toda a delicadeza de uma
mangueira de bombeiros aberta na potncia mx-
ima. Quando ela visitou o campus das duas uni-
versidades, acabou se interessando pelo programa
da Eastern Virginia; por alguma razo, parecia se
sentir mais confortvel ali - um lugar onde ela
podia se concentrar no que precisava fazer.
        Ento, qual cidade ela iria escolher?
        Ela estava pensando em sua escolha
naquela noite de inverno quando o vento havia
lhe arrancado a boina e Kevin a recuperou.
                                             174/627


Depois de agradec-lo, imediatamente se esque-
ceu dele at v-lo novamente no gramado da uni-
versidade. Embora houvesse se esquecido dele,
ele se lembrou dela. O seu jeito tranquilo con-
trastava intensamente com o comportamento ar-
rogante dos vrios rapazes que eram membros de
fraternidades que ela havia conhecido at aquele
ponto. A maioria deles tinha tendncia a beber
muito mais do que podia e pintava letras em seus
peitos nus sempre que o time dos Tarheels jogava
contra o time da Universidade de Duke. A con-
versa entre eles progrediu para um caf, o caf
evoluiu para um jantar, e, quando ela jogou o
capelo ao ar no dia da sua formatura, percebeu
que estava apaixonada. Naquele momento, fez a
deciso sobre qual seria a escola mdica que iria
frequentar, e, como Kevin planejava morar em
Morehead City, a poucas horas de distncia de
onde ela viveria nos prximos cinco anos, a
escolha parecia quase predestinada.
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     Kevin ia at Norfolk para visit-la; ela diri-
gia para Morehead City para v-lo. Ele conheceu
a famlia de Gabby, e ela conheceu a famlia
dele. Brigaram e fizeram as pazes, terminaram o
namoro e depois reataram, e ela at mesmo jogou
algumas partidas de golfe com ele, embora no
gostasse muito do jogo; e, com tudo aquilo, con-
tinuava sendo o cara tranquilo e gentil que
sempre havia sido. Sua natureza parecia refletir a
criao tpica em uma pequena cidade, onde - se-
jamos honestos - as coisas sempre pareciam an-
dar devagar. A lentido parecia estar impregnada
na personalidade dele. Nas ocasies em que ela
se preocupava, ele dava de ombros; quando ela
tinha momentos de pessimismo, ele continuava
despreocupado. Ela pensava que aquela era a
razo pela qual eles se davam to bem. Um equi-
librava o outro. Um era bom para o outro. Se ela
tivesse de escolher entre Kevin e Travis, a de-
ciso seria fcil.
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      Tendo alcanado a soluo para a questo,
ela decidiu que no importava se Travis estivesse
flertando. Ele podia flertar tanto quanto quisesse;
no fim, ela sabia exatamente o que queria para a
sua vida. Tinha certeza.
      Como Travis havia garantido, Molly estava
melhor do que Gabby imaginara. Seu rabo bal-
anava com entusiasmo e, apesar da presena dos
filhotes - que se pareciam com pequenas bolas
peludas e que, em sua maioria, estavam dor-
mindo -, ela se levantou sem esforo quando
Gabby entrou e foi at ela, aplicando-lhe em
seguida algumas lambidas molhadas. O focinho
de Molly estava gelado e ela ganiu e agitou-se
enquanto andava ao redor de Gabby - no com
seu nimo tradicional, mas o bastante para dizer a
ela que estava bem, e, depois de receber os
carinhos, sentou-se ao lado de Gabby.
      - Estou to feliz por voc estar melhor - sus-
surrou Gabby, alisando seu pelo.
                                              177/627


     - Eu tambm - a voz de Travis ecoou por
trs dela, vinda da porta. - Ela  uma guerreira e
tem uma bela disposio tambm.
     Gabby se virou e viu que ele estava apoiado
no batente da porta.
     - Acho que eu estava errado - disse ele, indo
na direo de Gabby, com uma ma na mo. -
Provavelmente ela vai poder ir para casa esta
noite, se voc quiser vir peg-la depois do tra-
balho. No estou dizendo que precisa fazer isso.
Ficaria feliz de mant-la aqui se isso for melhor
para voc. Mas Molly est melhor do que eu ima-
ginava. - Ele se agachou e estalou os dedos, des-
viando sua ateno de Gabby. - Eu disse que vo-
c era uma boa menina - disse ele, com o tipo de
voz que poderia ser descrita como "eu adoro
ces, venha aqui para eu lhe fazer um carinho".
Para a surpresa de Gabby, Molly saiu de perto
dela e foi em direo a Travis, fazendo com que
Gabby se sentisse como uma intrusa.
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      - E os filhotes esto muito bem tambm -
continuou ele. - Se voc for lev-los para casa,
no se esquea de que precisa fazer uma espcie
de cercado para mant-los confinados. Caso con-
trrio, sua casa vai ficar bem suja. No precisa
ser nada muito elaborado, apenas algumas tbuas
cercadas por caixas, e no se esquea de forrar
tudo com jornal.
      Ela mal conseguiu ouvi-lo, pois, apesar de
no querer, observou novamente o quanto ele era
bonito. O fato de no conseguir evitar olh-lo
daquele jeito sempre que ela o via a irritava. Era
como se a aparncia dele constantemente fizesse
disparar sirenes dentro dela, e, por mais que ten-
tasse descobrir a razo daquilo, no conseguia
encontrar uma resposta. Ele era alto e esguio,
mas ela j havia visto vrios homens assim. Sor-
ria bastante, mas aquilo no era to estranho. Os
dentes dele eram bem brancos, talvez um pouco
demais - definitivamente, ele havia feito algum
tratamento para clare-los, ela pensava -, mas,
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mesmo que ela soubesse que aquela cor no era
natural, aquilo ainda lhe causava certo efeito. Ele
estava em forma tambm, mas homens com
aquele tipo fsico podiam ser encontrados em to-
das as academias de ginstica dos Estados Un-
idos - homens que malhavam religiosamente, ho-
mens que nunca comiam nada alm de peito de
frango e cereal, homens que corriam 15 quil-
metros todos os dias - e nenhum deles havia cau-
sado o mesmo efeito nela.
     Por que as coisas eram diferentes com ele?
     Seria muito mais fcil se ele fosse feio.
Tudo, desde a discusso inicial entre eles at a in-
quietao atual que ela sentia, teria sido diferente
simplesmente porque ela no teria se sentido to
abalada. Mas o que estava feito, estava feito, de-
cidiu ela. No seria mais pega desprevenida. No,
senhor. No aquela garota. Depois que Molly est-
ivesse em casa, ela acenaria para ele de vez em
quando no futuro, num gesto de boa vizinhana, e
voltaria a viver sua vida sem distraes.
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     - Voc est bem? - disse ele, observando-a
cuidadosamente. - Parece estar distrada.
     - S um pouco cansada - mentiu ela. Gabby
apontou para Molly. - Acho que ela gostou de
voc.
     - Ah, sim - confirmou ele. - Estamos nos
dando muito bem. Eu acho que foi por causa dos
petiscos de carne-seca que dei a ela de manh.
Esses petiscos so a maneira certa de conquistar
o corao dos ces.  o que digo a todos os
carteiros e entregadores de encomendas quando
perguntam o que devem fazer com ces que no
gostam deles.
     - Vou me lembrar disso no futuro - disse ela,
rapidamente recuperando sua compostura.
     Quando um dos filhotes comeou a chorar,
Molly se levantou e voltou para a gaiola que es-
tava aberta, subitamente esquecendo-se de Travis
e Gabby. Travis continuou de p e esfregou a
ma em seu jeans para que ela brilhasse. -
Ento, o que voc acha? - perguntou ele.
                                              181/627


      - Sobre o qu?
      - Sobre Molly.
      - O que tem Molly?
      Ele assumiu uma expresso sria. Quando
falou, as palavras foram pronunciadas lenta-
mente. - Voc quer lev-la para casa esta noite ou
no?
      - Ah - disse ela, atarantada como uma
estudante do primeiro ano do ensino mdio que
se encontra com o capito do time de futebol
americano. Ela sentiu vontade de se estapear,
mas, em vez disso, simplesmente limpou a gar-
ganta. - Acho que vou lev-la para casa. Se voc
tiver certeza de que isso no far mal a ela.
      - Ela vai ficar tima - garantiu ele. - 
jovem e saudvel. Mesmo com aquela situao
horrvel ontem, poderia ter sido bem pior. Molly
 uma cadela de sorte.
      Gabby cruzou os braos. - Ela  sim.
      Pela primeira vez, ela percebeu que a camis-
eta que ele usava tinha a estampa de um lugar
                                               182/627


localizado em Key West, chamado de Dog's Sa-
loon. Ele deu uma mordida em sua ma, e de-
pois apontou a fruta para ela. - Sabe, achei que
voc ficaria mais feliz com a notcia de que ela
est bem.
      - Eu estou feliz.
      - No parece.
      - O que voc quer dizer com isso?
      - No sei - disse ele. Ele deu mais uma mor-
dida na ma. - Estou me lembrando de como vo-
c bateu na minha porta ontem, e achei que voc
iria demonstrar um pouco mais de emoo. No
somente a respeito de Molly, mas tambm por eu
ter estado por perto para ajudar.
    - E eu j lhe disse que sou grata por isso -
disse ela. - Quantas vezes vou ter de agradec-lo?
    - No sei. Quantas vezes voc acha ser um
bom nmero?
    - No fui eu que perguntei.
    Ele levantou a sobrancelha. - Para falar a ver-
dade, foi voc, sim.
                                               183/627


    Ah, sim, pensou ela. - Est bem, ento - disse,
jogando as mos para cima. - Obrigada mais uma
vez. Por tudo o que voc fez. - Ela pronunciou as
palavras cuidadosamente, como se ele tivesse al-
gum problema de audio.
     Ele riu. - Voc  assim com todos os seus
     pacientes?
     - Assim como?
     - To sria.
     - Para ser honesta, no.
     - E com seus amigos?
     - No... - ela balanou a cabea, confusa. -
     O que isso tem a ver?
     Ele mordeu mais uma vez a ma, deixando
a pergunta no ar. - S estou curioso - disse ele,
finalmente.
     - Sobre o qu?
     - Sobre a sua personalidade ser assim, ou se
     voc s fica sria quando estou por perto. Se
     esse for o caso, eu me sinto lisonjeado.
                                              184/627


     Ela sentiu uma onda de calor subindo-lhe
     pelo rosto. - No sei do que voc est
     falando.
     Ele lhe deu um sorriso torto. - Tudo bem,
     ento.
     Ela abriu a boca, querendo dizer alguma
     coisa inteligente e inesperada, algo que o
     colocasse em seu devido lugar. Mas, antes
     que qualquer coisa lhe viesse  mente, ele
     jogou o miolo da ma no lixo e se virou
     para lavar as mos antes de continuar.
     - Escute. H outra razo que me deixa con-
tente por voc estar aqui - disse ele, por cima do
ombro. - Meus amigos viro at a minha casa
amanh para passar a tarde, e eu queria convid-
la para ir at l.
     Ela piscou, sem ter certeza de que havia es-
cutado corretamente. - Na sua casa?
     -  esse o plano.
     - Como se fosse um encontro?
                                             185/627


      - No, uma reunio de amigos. - Ele fechou
a torneira e comeou a secar as mos. - Vai ser a
primeira vez no ano que eu vou amarrar o
parapente na lancha. Um estouro!
      - A maioria  casal?
      - Exceto por mim e a minha irm, todos so
casados.
      Ela balanou a cabea. - Acho que nem to-
dos. Eu tenho um namorado.
      - timo. Traga-o tambm.
      - Estamos namorando h quatro anos.
      - Como eu disse, ele ser muito bem-vindo.
      Ela imaginou se havia ouvido aquilo mesmo
e olhou fixamente para ele, tentando perceber se
ele estava falando srio. - Tem certeza?
      - Claro que tenho. Por que no?
      - Oh, bem... ele no vai poder ir. Ele vai
ficar fora da cidade durante alguns dias.
      - Ento, se voc no estiver ocupada,
aparea por l.
      - No sei se  uma boa ideia.
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     - Por que no?
     - Estou apaixonada por ele.
     - E...?
     - E o qu?
     - E... voc pode continuar apaixonada por
ele na minha casa. Como eu disse, vai ser diver-
tido. A temperatura vai ficar por volta dos 25
graus. Voc j andou de parapente?
     - No. Mas a questo no  essa.
     - Voc acha que ele no vai gostar se voc
vier at a minha casa.
     - Exatamente.
     - Ento ele  o tipo de cara que prefere que
voc fique trancada em casa enquanto ele viaja.
     - No, claro que no.
     - Ele no quer que voc faa novas
amizades.
     - Claro que quer!
     - Est resolvido, ento - disse ele. Ele foi em
direo  porta antes de parar. - As pessoas vo
comear a chegar por volta das 10 ou 11 horas.
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Voc s precisa levar um traje de banho. Vai ter
cerveja, vinho e refrigerantes, mas, se voc tiver
alguma preferncia por alguma bebida,  s levar
o que for beber.
     - Eu apenas no acho que...
     Ele levantou as mos. - Vamos fazer assim.
Voc ser bem-vinda se quiser aparecer. Mas no
se sinta pressionada, est bem? - ele deu de om-
bros. - Achei apenas que seria uma boa opor-
tunidade de nos conhecermos.
     Gabby sabia que devia ter dito no. Mas, em
vez disso, engoliu em seco. - Talvez eu aparea -
disse ela.
Captulo 7
Amanh de sbado comeou bem - quando o sol
comeou a brilhar por entre as frestas da per-
siana, Gabby encontrou suas sandlias felpudas
cor-de-rosa e foi at a cozinha tomar uma xcara
de caf, na expectativa de ter uma manh tran-
quila. As coisas s comearam a dar errado mais
tarde. Mesmo antes de tomar o primeiro gole, ela
se lembrou de que no havia verificado como
Molly estava, e ficou feliz ao perceber que ela j
estava quase de volta ao normal. Os filhotes pare-
ciam saudveis tambm - mesmo que ela no
fizesse a menor ideia dos indcios que deveria
procurar para se certificar disso. Alm de ficarem
grudados em Molly como um bando de carrapa-
tos peludos, eles tentavam ficar em p, caam,
ganiam e choravam, o que parecia ser a maneira
encontrada pela natureza de fazer com que eles
                                              189/627


fossem especialmente fofos e adorveis, de modo
que sua me no os comesse. No que Gabby est-
ivesse deixando aquilo tomar conta dela. Com
certeza, eles no eram to feios quanto ela pen-
sou que poderiam ser, mas eles tambm no eram
to belos quanto Molly, e ainda estava preocu-
pada com o fato de que poderia no conseguir en-
contrar um lar para eles. E ela tinha de encontrar
um lar para eles; aquilo era quase uma obrigao.
O fedor na garagem era suficiente para convenc-
la daquilo.
     O lugar no estava apenas cheirando mal - o
odor a agredia como a fora em um filme da srie
Guerra nas Estrelas. Sentindo o incio de uma
nsia de vmito, ela se lembrava vagamente da
sugesto de Travis para que construsse um cer-
cado de algum tipo para manter os filhotes con-
finados. Quem, em nome de Deus, poderia saber
que os filhotes eram capazes de fazer tanto coc?
Havia montes daquilo por todos os lados. O
cheiro parecia ter infestado at as paredes; nem
                                            190/627


mesmo abrir a porta da garagem fez com que a
situao melhorasse. Ela passou a prxima meia
hora prendendo a respirao, tentando no vomit-
ar enquanto limpava a garagem.
     Quando terminou, j havia se convencido de
que eles eram parte de algum tipo de plano ma-
ligno criado para arruinar seu fim de semana. De
verdade. Era a nica explicao razovel para o
fato de que os filhotes pareciam gostar da longa
rachadura no piso da garagem, e a pontaria deles
era to certeira que ela teve de usar uma escova
de dentes para conseguir limpar aquilo. Era
simplesmente nojento.
     E quanto a Travis... no vamos deix-lo
fora disso. Ele tinha tanta culpa quanto os fil-
hotes. Com certeza, ele havia mencionado rapida-
mente que ela devia t-los mantido confinados,
mas no tinha enfatizado a situao o bastante,
no  mesmo? Ele no havia explicado o que iria
acontecer se ela no lhe desse ouvidos, no foi?
                                                191/627


     Mas ele j sabia o que iria acontecer. Ela
tinha certeza disso. Foi um truque sujo.
     E agora que ela pensava no caso, percebeu
que aquele no foi o nico truque sujo que ele
usou. A maneira como ele a pressionou a respon-
der toda aquela situao de "devo ir andar de
barco com meu vizinho, que  um bonito flerta-
dor?". Ela decidiu que no queria ir, especial-
mente porque ele havia tentado manipul-la,
forando-a a aceitar o convite. Todas aquelas per-
guntas ridculas insinuando que Kevin a
mantinha trancada em casa. Como se ela fosse
propriedade de Kevin ou coisa do tipo! Como se
ela no conseguisse pensar por si mesma! E aqui
estava ela agora, limpando milhares de pilhas de
coc...
     Que jeito de comear o fim de semana! Para
deixar as coisas ainda piores, seu caf estava frio,
seu jornal estava encharcado por causa de algum
sprinkler mal regulado no jardim, e a gua quente
                                               192/627


havia acabado antes que ela tivesse terminado de
tomar banho.
      timo. Simplesmente timo.
      Onde estava a diverso naquilo tudo? Era o
que ela resmungava consigo mesma enquanto se
vestia. O fim de semana havia chegado e Kevin
no estava por perto. Mesmo quando ele estava
na cidade, os fins de semana no eram nem um
pouco parecidos com aqueles que eles tinham
quando ela viajava para visit-lo durante as frias
da faculdade. Naquela poca, parecia que cada
visita era divertida, cheia de novas experincias e
pessoas. Agora ele passava pelo menos uma parte
de cada fim de semana no campo de golfe.
      Ela preparou outra xcara de caf. Sabia que
Kevin sempre fora do tipo pacato e sabia que ele
precisava relaxar depois de uma semana difcil
no trabalho. Mas no podia negar que, desde que
viera morar ali, seu relacionamento havia
mudado. A culpa no era toda dele,  claro. Ela
tinha sua parcela de responsabilidade. Ela queria
                                              193/627


morar com ele e se acomodar, por assim dizer. O
que realmente aconteceu. Ento, qual era o
problema?
      "O problema", ela ouviu uma voz que vinha
do fundo da sua cabea lhe dizer, " que parece
que devia haver... mais". Ela no tinha certeza
do que aquilo significava, mas sabia que o con-
ceito de "espontaneidade" deveria fazer parte
daquilo.
      Balanou a cabea pensando estar exager-
ando sobre tudo aquilo. Seu relacionamento es-
tava apenas passando por um pouco de turbuln-
cia. Saindo para o quintal e indo at o seu deque,
viu que aquele dia havia comeado com uma
manh esplendorosa. A temperatura estava per-
feita, havia uma leve brisa no ar e nenhuma
nuvem no cu. Ao longe, ela viu uma gara se le-
vantar da margem alagadia e alar voo por cima
da gua do rio. Ao olhar naquela direo, avistou
Travis caminhando rumo ao cais, usando apenas
uma bermuda xadrez de cs baixo que lhe caa
                                              194/627


at os joelhos. Do ponto onde estava, ela con-
seguiu ver o contorno dos msculos em seus
braos e costas enquanto ele caminhava, e deu
um passo para trs em direo  porta, esperando
que ele no a visse. No momento seguinte, en-
tretanto, ela o ouviu chamar seu nome.
     - Oi, Gabby! - ele acenou, parecendo um ga-
roto em seu primeiro dia de frias. - D para
acreditar no quanto o dia est bonito?
     Ele comeou a vir em sua direo, e ela saiu
debaixo da sombra da casa enquanto ele passava
pela cerca viva. Ela respirou fundo.
     - Oi, Travis.
     - Esta  a minha poca preferida do ano - ele
abriu bem os braos, para admirar o sol e as
rvores. - Nem to quente, nem to frio, e cu
azul por todos os lados.
     Ela sorriu, recusando-se a olhar para os
msculos sensuais dos quadris dele, os quais ela
sempre pensou serem os msculos mais sensuais
do corpo dos homens, sem comparao.
                                            195/627


     - E como est Molly? - disse ele, puxando
conversa. - Eu imagino
que ela tenha passado a noite sem
     muitos problemas.
     Gabby limpou a garganta. -
     Ela est bem. Obrigada.
     - E os filhotes?
     - Eles parecem estar bem tam-
     bm. Mas fizeram a maior
     sujeira.
     - Filhotes so assim mesmo. Por isso,  bom
mant-los em uma rea menor.
     Ele mostrou aqueles dentes brancos em
meio a um sorriso familiar, talvez um pouco fa-
miliar demais, mesmo sendo ele o gostoso que
salvou sua cadela.
     Ela cruzou os braos, lembrando-se do
quanto ele havia jogado sujo no dia anterior. -
Bem, no cheguei a fazer isso ontem.
     - Por que no?
                                              196/627


     Porque fiquei distrada olhando para voc,
pensou ela. - Acho que esqueci.
     - Aposto que sua garagem est com um
   cheiro maravilhoso.
     Ela deu de ombros sem responder, no
   querendo dar aquela satisfao a ele.
     Travis pareceu no notar a resposta cuida-
dosamente ensaiada que ela lhe deu. - Bem, no
precisa ser nada muito complicado. Os filhotes
fazem bastante coc nos primeiros dias.  como
se o leite passasse direto pelo aparelho digestivo
deles. Mas voc j montou o cercado para eles,
no ?
     Ela tentou manter uma expresso im-
passvel, tpica de um jogador de pquer, mas ob-
viamente no conseguiu.
     - Voc no montou?
     Gabby hesitou. - No exatamente - admitiu
ela.
     - Por que no?
                                              197/627


     Porque voc est sempre desviando a minha
ateno, ela pensou. - Acho que no preciso
montar um cercado.
     Travis coou o pescoo. - Voc gosta de
limpar toda a sujeira que eles fazem?
     - No  to ruim assim - balbuciou ela.
     - Quer dizer que vai deix-los tomar conta
da sua garagem inteira?
     - Por que no? - disse ela, sabendo que a
primeira coisa que faria ao voltar para casa seria
construir o menor cercado que conseguisse.
     Ele olhou para ela, obviamente confuso com
aquela resposta. - Para sua informao, como seu
veterinrio, preciso dizer que acho que voc no
tomou uma boa deciso.
     - Obrigada por sua opinio - ela esbravejou.
     Ele continuou a observ-la. - Tudo bem, en-
to. Faa como quiser. Voc vai vir  minha casa
por volta das dez?
     - Acho que no.
     - Por qu?
                                             198/627


      - Porque no acho que seja uma boa ideia.
      - Por que no?
      - Porque no.
      - Entendo - disse ele, falando da mesma
forma que a me dela falaria.
      - timo.
      - Tem alguma coisa que lhe aborrece?
      - No.
      - Fiz alguma coisa que voc no gostou?
      "Sim", disse a voz no fundo da cabea dela.
"Voc e esses malditos msculos dos seus quad-
ris". - No.
      - Ento, qual  o problema?
      - No h nenhum problema.
      - Ento por que voc est agindo desse
jeito?
      - No estou fazendo nada.
      O sorriso que mostrava os dentes havia des-
parecido, assim como toda a cordialidade que ele
havia lhe demonstrado anteriormente. - Est sim.
Eu deixo uma cesta para lhe dar as boas-vindas 
                                               199/627


vizinhana, salvo a sua cadela e fico a noite in-
teira acordado ao lado dela para ter certeza de
que ela est bem, lhe convido para se divertir no
meu barco hoje - tudo isso depois de voc ter
gritado comigo sem nenhum motivo, lembre-se -
e agora voc est me tratando como se eu tivesse
alguma doena contagiosa. Desde que voc se
mudou para c, tentei ser legal, mas toda vez que
eu a vejo, voc parece estar zangada comigo. S
queria saber o porqu.
     - Por qu? - repetiu ela, como um papagaio.
     -  - disse ele, com a voz firme. - Por qu.
     - Porque sim - disse ela, sabendo que estava
se comportando como uma menina de 11 anos.
Ela simplesmente no conseguia pensar em mais
nada para dizer.
     Ele estudou o rosto
     dela atentamente. -
     Porque sim o qu?
      - Nada que seja da sua conta.
      Ele deixou a resposta dela ecoar no silncio.
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     - Que seja, ento - desistiu ele, finalmente.
Ele se virou sobre os calcanhares, balanando a
cabea enquanto ia em direo aos degraus. J
estava andando sobre a grama quando Gabby deu
um passo  frente.
     - Espere! - chamou ela.
     Travis diminuiu o passo, mas ainda andou
mais um pouco, e depois parou completamente.
Ele se virou para olhar para ela. - O que foi?
     - Desculpe - ela disse.
     - O que foi? - exclamou ele novamente. -
Desculpar o qu?
     Ela hesitou. - No sei o que voc quer dizer.
     Achei que voc no saberia, mesmo - res-
mungou ele. Quando ela percebeu que ele estava
a ponto de lhe dar as costas novamente - e que
Gabby sabia que significaria o fim das relaes
cordiais entre eles -, ela deu um passo  frente,
quase contra a sua vontade.
     -Me desculpe por tudo. - Aos seus ouvidos,
sua prpria voz parecia tensa e estrangulada. -
                                              201/627


Pelo jeito como venho tratando voc. Por ter feito
voc pensar que no sou grata pelas coisas que
voc fez.
      - E o que mais?
      Ela se sentiu encolher, algo que parecia
acontecer somente quando se via na presena
dele.
      - E tambm - continuou, com a voz ficando
mais suave - porque eu estava errada.
      Ele parou, com uma mo na cintura. - Em
relao a qu?
      "Droga, por onde eu devo comear?"
Respondeu a voz no fundo da
sua cabea. "Talvez eu no estivesse errada.
Talvez minha intuio estivesse tentando me
alertar de alguma coisa que eu ainda no consigo
entender completamente, mas que no deve ser
subestimada..."
      - Em relao a voc - disse ela, ignorando
aquela voz. - E voc est certo. Eu no venho
tratando voc da maneira como deveria, mas,
                                               202/627


para ser honesta, prefiro no falar sobre as razes
que me levaram a fazer isso.
     Ela forou um sorriso, que no foi re-
tribudo. - Ser que poderamos comear de
novo?
     Ele pareceu pensar
um pouco naquilo. -
No sei.
     - O qu?
     - Voc me ouviu - insistiu ele. - A ltima
coisa que preciso em minha vida agora  uma
vizinha louca. No quero ofend-la, mas eu
aprendi h muito tempo a identificar as pessoas
de acordo com a maneira que as vejo.
     - Isso no  justo.
     - No ? - ele nem se incomodou em escon-
der seu ceticismo. - Acho que estou sendo mais
do que justo. Mas vou lhe dizer uma coisa: se vo-
c est disposta a comear de novo, tambm es-
tou disposto a comear de novo. Mas somente se
voc tiver certeza de que  isso que quer.
                                               203/627


     - Tenho certeza.
     - Tudo bem, ento - disse ele. Ele voltou
para perto do deque. - Oi - disse ele, estendendo a
mo. - Meu nome  Travis Parker e eu gostaria
de lhe dar as boas-vindas  vizinhana.
     Ela olhou para a mo dele. Depois de um
instante, apertou-a e disse:
     - Eu sou Gabby Holland.  um prazer
     conhec-lo.
     - O que voc faz da vida?
     - Sou assistente mdica - respondeu ela,
sentindo-se ligeiramente ridcula. - E voc?
     - Eu sou veterinrio - disse ele. - De onde
voc vem?
     - Savannah, na Gergia - respondeu ela. - E
voc?
     - Daqui mesmo. Sou nascido e criado aqui.
     - Voc gosta daqui?
     - O que h para no se gostar? O clima 
timo e no h trnsito. - Ele fez uma pausa. - E,
geralmente, os vizinhos so timos tambm.
                                               204/627


      - Ouvi dizer - comentou ela. - Na verdade,
sei que o veterinrio da cidade pode at mesmo
atender a uma chamada de emergncia em dom-
iclio de vez em quando.  difcil encontrar isso
em uma cidade maior.
      - Realmente,  bem difcil - ele fez um mo-
vimento com a mo por cima do seu ombro. - Ah,
por falar nisso, meus amigos e eu vamos pegar o
barco para navegar no rio hoje. Quer se juntar a
ns?
      Ela apertou os olhos. - Eu gostaria, mas pre-
ciso construir um cercado para os filhotes que a
minha cadela, Molly, teve h duas noites. No
quero atrasar a diverso de vocs.
      - Precisa de ajuda? Eu tenho algumas tbuas
e caixas na minha garagem. No deve demorar
muito.
      Ela hesitou e depois olhou para ele com um
sorriso. - Neste caso, eu adoraria ir com vocs.
                                             205/627


     Travis cumpriu com sua palavra. Ele chegou
- e continuava quase seminu, para desespero dela
- trazendo quatro longas tbuas debaixo dos
braos. Depois de larg-las no cho, voltou para
sua garagem. Ele retornou com as caixas, um
martelo e um punhado de pregos.
     Embora ele fingisse no perceber o cheiro,
ela percebeu que ele construiu o cercado bem
mais rpido do que ela havia imaginado ser
possvel.
     -  melhor forrar esta rea com jornais.
Voc tem bastante?
     Quando ela assentiu, ele apontou para sua
casa novamente. - Eu ainda tenho de cuidar de al-
gumas coisas, ento a gente se v daqui a pouco,
certo?
     Gabby fez que sim com a cabea nova-
mente, sentindo uma sensao incmoda em seu
estmago, parecida com nervosismo. Era por isso
que, depois de observ-lo at que ele entrasse em
casa e de ter forrado o cercado, ela se viu de p
                                              206/627


no quarto, avaliando as qualidades dos seus trajes
de banho. Mais especificamente, se ela deveria
usar um biquni ou um mai.
     Cada um deles tinha seus prs e contras.
Normalmente ela usaria seu biquni. Afinal de
contas, ela tinha 26 anos e era solteira, e mesmo
que no fosse uma supermodelo, era honesta o
bastante para admitir que gostava de sua aparn-
cia quando usava um biquni. Kevin tambm
gostava, com certeza - se ela ousasse sugerir que
iria usar um mai, Kevin ficava emburrado at
que ela mudasse de ideia. Por outro lado, Kevin
no estava por perto, e ela estaria com um viz-
inho, e, considerando o tamanho do seu biquni,
poderia at mesmo estar usando um conjunto de
calcinha e suti, e nada daquilo faria com que ela
se sentisse confortvel, o que fazia o mai marcar
mais alguns pontos.
     Mesmo assim, seu mai era um pouco anti-
quado e estava desbotado pelo cloro e pelo sol.
Sua me havia comprado aquela pea para ela h
                                               207/627


alguns anos, para as tardes que ela passaria no
clube de campo (Deus lhe guarde de se exibir
como se fosse uma prostituta qualquer!). O mai
no era do tipo que valorizava seu corpo. Em vez
de ser mais cavado nas coxas, a pea tinha um
ngulo mais baixo nas laterais, que fazia com que
suas pernas parecessem mais curtas e atarracadas.
     Ela no queria que suas pernas parecessem
ser mais curtas e atarracadas. Por outro lado, ser
que aquilo realmente tinha importncia? Claro
que no, pensou. Ao mesmo tempo, ponderou:
claro que sim.
     Seria o mai, decidiu ela. Pelo menos ela
no causaria uma impresso errada em ningum.
E haveria crianas no barco tambm. Era melhor
pecar pelo excesso do que pela falta, preferindo
ser mais conservadora do que... se expor. Ela es-
tendeu a mo para pegar o mai e imediatamente
pde ouvir a voz da sua me lhe dizendo que ela
havia tomado a deciso certa.
                                         208/627


     Jogando-o de volta sobre a cama, pegou o
biquni.
Captulo 8
- Voc convidou a vizinha para vir aqui, no ? -
perguntou Stephanie. - Qual  o nome dela
mesmo?
     - Gabby - respondeu Travis, puxando o
barco para perto do cais. - Ela vai chegar aqui a
qualquer momento. - A corda se esticou e depois
afrouxou, conforme o barco era manobrado at o
seu devido lugar. Eles tinham colocado o barco
na gua e o estavam amarrando  doca para
carreg-lo com as caixas trmicas.
     - Ela  solteira, no ?
     - Tecnicamente, sim. Mas tem um
namorado.
     - E da? - Stephanie deu um sorriso
malandro. - Desde quando isso  um problema
para voc?
                                             210/627


     - No h nada de mais entre ns. O namor-
ado dela est fora da cidade e ela no tinha nada
para fazer, ento, como bom vizinho, eu a con-
videi para vir conosco.
     - Claro, claro - concordou Stephanie. - 
bem a sua cara, fazer algo to altrusta.
     - Eu sou altrusta - protestou ele.
     - Foi o que eu acabei de dizer.
     Travis terminou a amarrao do barco. -
No me parece que voc esteja sendo sincera.
     - No? Que estranho.
     - No se faa de desentendida.
     Travis pegou a caixa trmica nos braos.
     - Hummm... ela  bonita, voc no acha?
     Travis colocou a caixa no barco. - Acho que
sim.
     - Voc acha que sim?
     - O que voc quer que eu diga?
     - Nada.
                                            211/627


     Travis olhou para a sua irm. - Por que 
que eu tenho a sensao de que este vai ser um
longo dia?
     - No fao ideia.
     - Me faa um favor. No force a barra com
ela.
     - Como assim?
     - Voc sabe o que eu quero dizer. Apenas...
deixe que ela se acostume com as pessoas antes
de voc comear a espet-la.
     Stephanie riu. - Est querendo me dizer o
que eu devo ou no devo fazer?
     - Estou s dizendo que talvez ela no en-
tenda o seu senso de humor.
     - Prometo me comportar ento.
     - E ento, est pronta para nadar pelada? -
perguntou Stephanie.
     Gabby piscou, sem saber se tinha realmente
ouvido aquilo. - Como ?
     Um pouco antes daquilo, Stephanie viera at
onde ela estava, usando uma camiseta longa e
                                              212/627


carregando duas cervejas na mo. Ao entregar
uma delas a Gabby, ela se apresentou como a
irm de Travis e a levou a algumas cadeiras que
estavam no deque enquanto Travis terminava os
preparativos.
     - Ah, mas no vai ser agora - disse
Stephanie, minimizando a situao. - Geralmente
as pessoas precisam de algumas cervejas antes de
se soltar o bastante para tirar a roupa.
     - As pessoas vo nadar sem roupa?
     - Voc sabe que Travis pratica nudismo, no
? - ela olhou para a lona que Travis havia esten-
dido em uma parte inclinada do terreno. - E de-
pois, ns geralmente usamos aquela lona como
tobog.
     Embora sentisse que sua cabea estava gir-
ando, Gabby assentiu de forma quase imper-
ceptvel, sentindo que as coisas comeavam a se
encaixar: o fato de que Travis geralmente parecia
estar com uma nica pea de roupa, sua completa
desinibio ao conversar enquanto estava sem
                                             213/627


camisa, o motivo pelo qual ele se exercitava
tanto.
      Seus pensamentos foram interrompidos pelo
som da gargalhada de Stephanie.
      - Eu estava brincando! - disse ela, em voz
alta. - Voc realmente acha que eu iria nadar pe-
lada se meu irmo estivesse por perto? Eca! Isso
 nojento!
      Gabby sentiu uma onda de calor subir pelo
pescoo e aquecer seu rosto. - Eu sabia que voc
estava brincando.
      Stephanie observou Gabby enquanto bebia a
sua cerveja. - Voc pensou que eu estava falando
srio, isso sim! Que comdia! Mas me desculpe.
Meu irmo pediu para eu ir com calma quando
conversasse com voc. Por alguma razo, ele
parece achar que as pessoas demoram um pouco
para se acostumar com meu senso de humor.
      "Eu nem imagino o motivo." -  mesmo? -
disse Gabby, em vez daquilo.
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     - Sim, mas, se voc quer saber, ns somos
bem parecidos. Com quem voc acha que eu
aprendi a ser assim? - Stephanie se recostou em
sua cadeira e ajustou seus culos de sol. - Travis
me disse que voc  assistente mdica.
     - Sim, eu trabalho na clnica peditrica.
     - E o que acha de l?
     - Eu gosto do que fao - disse ela, preferindo
no mencionar seu chefe pervertido ou alguma
me ou pai mais exaltado. - E voc, o que faz?
     - Eu estudo - disse ela, tomando mais um
gole da sua cerveja. - Estou pensando em trans-
formar isso na minha carreira.
     Pela primeira vez, Gabby riu e sentiu que
estava comeando a relaxar. - Voc sabe quem
mais vai vir?
     - Ah, provavelmente o mesmo pessoal de
sempre. Travis tem esses trs amigos que ele
conhece desde sempre, e eu tenho certeza de que
eles logo chegaro aqui com suas esposas e fil-
hos. Travis no usa mais o barco do parapente
                                              215/627


com tanta frequncia, e  por isso que ele o deixa
ancorado na marina. Geralmente ele usa a lancha
menor, porque fazer esqui aqutico ou wake-
boarding  bem mais fcil.  s entrar no barco,
ligar o motor e pronto. D para praticar esqui
aqutico, wakeboarding ou skurf em pratica-
mente qualquer lugar. Mas voar de parapente 
uma delcia. Por que voc acha que estou aqui?
Eu devia estar na faculdade estudando. Cheguei
at mesmo a adiar a entrega de alguns testes de
laboratrio que deveriam ficar prontos neste fim
de semana. Voc j voou de parapente?
     - No.
     - Voc vai adorar. E Travis sabe o que faz.
Foi assim que ele conseguiu ganhar dinheiro en-
quanto estava na faculdade. Ou, pelo menos,  o
que ele diz. Na verdade, tenho certeza de que to-
do o dinheiro que ele ganhou foi usado na com-
pra do barco. Ele  fabricado especialmente para
ser usado com os parapentes, e so bem caros.
Mesmo que Joe, Matt e Laird sejam amigos dele,
                                               216/627


eles insistiam em receber uma porcentagem
quando levavam turistas para voar de parapente
quando eram estudantes. Tenho certeza de que
Travis nunca ganhou um centavo de lucro.
      - Estou percebendo que ele  um timo
empresrio, no  mesmo? - ironizou Gabby.
      Stephanie riu. - Pois , meu prprio irmo.
O prximo Donald Trump, sabe? Na verdade, ele
nunca se importou muito com o dinheiro. Quero
dizer, claro, ele trabalha e paga suas contas, mas
tudo que sobra  gasto em novos barcos, ou jet
skis, ou viagens aqui e ali. Parece que ele j via-
jou pelo mundo inteiro. Europa, Amrica do Sul
e Central, Austrlia, frica, Bali, China, Nepal...
      - Srio?
      - Voc parece estar surpresa.
      - Acho que estou, sim.
      - Por qu?
      - No sei dizer. Acho que  porque...
      - Porque ele parece ser um irresponsvel?
Como se a vida fosse uma grande festa?
                                             217/627


     - No!
     - Tem certeza disso?
     - Bem... - Gabby deixou a resposta no ar, e
Stephanie riu novamente.
     - Ele  meio irresponsvel sim, e tambm
um cara que gosta dos prazeres mundanos... mas,
no fundo, na verdade  s um garoto de cidade
pequena como os outros. Se no fosse, no estar-
ia morando aqui, no acha?
     - Sim - disse Gabby, sem ter certeza de que
aquela resposta era necessria.
     - Voc vai adorar, no se preocupe. Voc
no tem medo de altura, tem?
     - No. Quero dizer, no  que eu adore ficar
pendurada longe do cho, mas tenho certeza de
que consigo me virar bem.
     - No se preocupe. Lembre-se de que voc
estar com um paraquedas.
     - Vou tentar me lembrar disso.
     Ao longe, uma porta de carro bateu, e
Stephanie se endireitou na cadeira.
                                             218/627


     - A vem a Famlia Buscap - disse
Stephanie. - Ou, se voc preferir,
o Brady Bunch2. Prepare-se. Nossa manh tran-
quila est para terminar.
     Gabby se virou e avistou um grupo barul-
hento de pessoas vindo pela lateral da casa. Os
sons de vozes e gritos ficavam cada vez mais al-
tos, conforme as crianas corriam na frente dos
adultos, movendo-se daquela maneira cam-
baleante tpica que fazia com que eles sempre
parecessem estar a ponto de cair.
     Stephanie se inclinou na direo de Gabby. -
 fcil saber quem  quem, acredite. Megan e Joe
so os que tm cabelo loiro. Laird e Allison so
os mais altos. E Matt e Liz so... menos magros
que os outros.
     Os cantos da boca de Gabby se curvaram
levemente para cima. - Menos magros?
     - Eu no quis cham-los de gordos. Mas eu
s estava tentando facilitar as coisas para voc.
Em teoria, detestaria ser apresentada a um grupo
                                             219/627


de pessoas e esquecer os nomes de todos eles um
minuto depois.
     - Em teoria?
     - Eu nunca esqueo nomes. Sei que parece
estranho, mas nunca esqueo.
     - Por que voc acha que eu esqueceria os
     nomes deles?
     Stephanie deu de ombros. - Porque voc e
     eu somos pessoas diferentes.
     Gabby riu novamente, gostando mais de
     Stephanie a cada minuto. - E as crianas?
     - Tina, Josie e Ben.  fcil ver quem  Ben.
Lembre-se que Josie  a menina de trancinhas.
     - E se ela no estiver com trancinhas no ca-
     belo da prxima vez em que eu a vir?
     Stephanie sorriu. - Por qu? Voc est quer-
endo comear a frequentar a casa? O que o seu
namorado vai achar?
     Gabby balanou a cabea. - No, voc no
     entendeu o que eu quis dizer...
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      - Eu estava s lhe provocando! Minha nossa,
      voc se preocupa demais com isso.
      - No sei se vou conseguir me lembrar de
      todos esses nomes.
      - Certo. Tente se lembrar dos nomes por as-
sociao. Para Tina, pense em Tina Louise, de
Gilligan's Island3. Lembra-se? Ela era atriz de
cinema e tinha cabelo avermelhado. Tina tambm
 ruiva.
      Gabby fez que sim com a cabea.
      - Certo. Para Josie, pense no seriado Josie e
as Gatinhas. E para Ben, que  um pouco grande
e alto para a sua idade, pense no Big Ben, aquele
relgio gigante da Inglaterra.
      - Acho que no  necessrio...
      - Estou falando srio. Isso vai ajudar. Agora,
para Joe e Megan, os loiros, pense em um boneco
G. I. Joe4 lutando contra um megalodonte - voc
sabe, um daqueles tubares gigantescos da Pr-
Histria. Tente imaginar, de verdade, certo?
      Gabby assentiu novamente.
                                                221/627


     - Para Laird e Allison, imagine um alossauro
muito alto, preso na caverna que  o seu lar. E, fi-
nalmente, para Matt e Liz... - Stephanie fez uma
pausa antes de continuar. - Ah, j sei. Imagine El-
izabeth Taylor em sua sacada, tomando uma
enorme xcara de ch-mate. Est conseguindo
visualizar?
     Gabby demorou um pouco para conseguir
visualizar tudo aquilo, e Stephanie teve de repetir
aquelas descries, mas, quando ela disse estar
pronta, Stephanie testou a memria de Gabby
para ter certeza de que ela se lembrava correta-
mente dos nomes de cada um. Era impressionante
como aquela tcnica funcionava, e Gabby no
conseguiu esconder sua surpresa.
     - Legal, no ?
     - Muito - admitiu Gabby.
     -  uma das reas que eu estudo na Univer-
sidade da Carolina do Norte.
     - Voc usa essa tcnica com todas as pess-
oas que conhece?
                                             222/627


     - No especificamente. Ou, melhor dizendo,
no conscientemente. Para mim,  natural. Mas
tenho certeza de que voc ir impression-los.
     - Eu preciso impression-los?
     - No. Mas  divertido impressionar as pess-
oas mesmo assim - Stephanie deu de ombros
novamente. - Pense no que eu acabei de fazer por
voc. Mas eu tenho mais uma pergunta.
     - Pode faz-la.
     - Qual  o meu nome?
     - Eu sei qual  o seu nome.
     - Qual , ento?
     - ... - a boca de Gabby se abriu, sem fazer
nenhum som, e ela sentiu que sua mente havia
ficado paralisada.
     - Stephanie. Somente Stephanie.
     - O qu? No tem nenhum truque mental?
     - No. Este  um nome que voc vai ter de
se lembrar - disse ela, levantando-se da sua ca-
deira. - Vamos, agora que voc sabe os nomes,
deixe-me apresent-la a eles. Finja que voc
                                             223/627


ainda no sabe quem  quem, e dessa forma voc
vai conseguir impression-los tambm.
      Gabby foi apresentada a Megan, Allison e
Liz enquanto elas olhavam seus filhos correndo e
brincando uns com os outros; Joe, Laird e Matt,
por sua vez, haviam ido at o deque para
cumprimentar Travis, levando toalhas e caixas
trmicas com eles.
      Stephanie abraou cada uma delas, e a con-
versa girou em torno dos estudos e dos pro-
gressos que ela estava fazendo na faculdade. As
associaes mentais continuavam a funcionar,
para o espanto de Gabby. Ela imaginou se dever-
ia tentar usar aqueles truques com alguns de seus
pacientes antes de lembrar que bastava ler os
nomes deles nos pronturios antecipadamente.
      Porm, com alguns dos colegas de trabalho
de Kevin...
      - Ei! Esto todos prontos? - chamou Travis.
- Estamos preparados para zarpar aqui!
                                             224/627


     Gabby seguiu o grupo, ajustando a camiseta
que havia vestido por cima do biquni. Por fim,
decidiu que, dependendo do que as outras mul-
heres estivessem usando, ela poderia tirar a cam-
iseta ou seu short - ou talvez nenhuma daquelas
peas - e se convencer de que ela no havia
ouvido a voz da sua me.
     Os homens j haviam subido no barco
quando elas chegaram  doca. As crianas es-
tavam usando coletes salva-vidas e foram en-
tregues a Joe; Laird estendeu a mo para ajudar
as mulheres a embarcar. Gabby subiu,
concentrando-se em manter o equilbro em meio
ao balano e s ondulaes, surpresa com o
tamanho do barco. Era quase um metro e meio
mais longo do que a lancha que Travis usava para
praticar esqui aqutico, com assentos que contor-
navam as duas amuradas, o local onde a maioria
das crianas e adultos parecia se reunir.
Stephanie e Allison (o alossauro muito alto)
sentaram-se na parte da frente do barco. Na...
                                              225/627


proa? Popa? Gabby no sabia o nome nutico
daquela parte do barco. Enfim, seja qual fosse.
Na traseira do barco havia uma plataforma
grande e uma manivela, com Travis, que estava
atrs do timo. Joe (Loiro, G. I.) estava desamar-
rando a corda que prendia o barco  doca, en-
quanto Laird (o lar do alossauro) a recolhia. Um
momento depois, Joe ficou ao lado de Travis, en-
quanto Laird foi para perto de Josie (e as
Gatinhas).
     Gabby balanou a cabea, ainda achando
aquilo inacreditvel.
     - Sente-se aqui comigo - disse-lhe
Stephanie, apontando para o espao ao seu lado.
     Gabby se sentou e, com o canto do olho, viu
Travis pegando um bon de beisebol que ele
havia deixado em um armrio no canto. Ela
sempre achou que bons davam um ar infantil a
homens crescidos, mas, no caso de Travis, aquilo
parecia ser adequado ao seu comportamento
despreocupado.
                                             226/627


     - Todos prontos? - gritou ele.
     Ele no esperou que lhe respondessem, e o
barco comeou a se movimentar com um ronco
forte do motor, navegando por entre as ondu-
laes tranquilas. Eles chegaram  foz do rio e
guinaram para o sul, entrando nas guas da baa
de Back Sound. A praia de Shackleford apareceu
diante do barco, com suas dunas cobertas por
grama.
     Gabby se aproximou de Stephanie. - Para
onde vamos?
     - Provavelmente para Cape Lookout. A
menos que a baa esteja com poucos barcos,
provavelmente iremos pegar um dos canais, e de-
pois iremos at a baa de Onslow. Depois,
provavelmente faremos um piquenique no barco,
ou na praia de Shackleford, ou em Cape Lookout.
Vai depender de onde estivermos e do humor do
pessoal do barco. Depende muito do humor das
crianas. Espere um segundo... - ela se virou
para Travis. - Ei, Travis! Posso pilotar o barco?
                                              227/627


     Ele levantou a cabea. - Desde quando voc
quer pilotar?
     - J faz algum tempo. Deixe-me assumir o
leme.
     - Mais tarde.
     - Acho que eu devia pilotar.
     - Por qu?
     Stephanie balanou a cabea, como se est-
ivesse espantada com a estupidez dos homens.
Ela se levantou do lugar onde estava e tirou a
camiseta, sem um pingo de timidez. - Eu volto
logo. Tenho de conversar com aquela besta do
meu irmo.
     Enquanto Stephanie foi at a parte traseira
do barco, Allison fez um gesto com a cabea em
sua direo.
     - No deixe que ela lhe assuste. Ela e Travis
sempre conversam desse jeito.
     - Imagino que eles sejam bem prximos.
     - Um  o melhor amigo do outro, mesmo
que ambos neguem. Travis provavelmente diria
                                             228/627


que Laird  seu melhor amigo. Ou Joe ou Matt.
Ou qualquer outra pessoa, exceto Stephanie. Mas
eu sei qual  a verdade.
     - Laird  seu marido, no ? Aquele que est
segurando Josie?
     Allison no conseguiu esconder sua sur-
presa. - Voc se lembra? Mas voc acabou de nos
conhecer!
     - Eu tenho facilidade para me lembrar de
nomes.
     - Deve ser mesmo. Voc j sabe os nomes
de todo mundo?
     - Aham - Gabby recitou os nomes de cada
um dos passageiros, sentindo-se cheia de si.
     - Uau. Voc  igualzinha a Stephanie. No
me admira que vocs tenham se dado to bem.
     - Ela  tima.
     - Com certeza, depois que voc a conhece
melhor. Mas demora um pouco para se acostumar
com o jeito dela. - Ela observava Stephanie pas-
sando um sermo em Travis, com uma mo
                                              229/627


apoiada na amurada do barco e a outra
gesticulando.
      - Como voc e Travis se conheceram?
Stephanie disse que voc mora perto da casa
dele.
      - Somos vizinhos, para ser exata.
      - E o que mais?
      - Bem...  uma histria meio longa. Mas,
para resumir, a minha cadela, Molly, teve com-
plicaes quando deu  luz seus filhotes, e Travis
fez a gentileza de ir at a minha casa para cuidar
dela. Depois, ele me convidou para estar aqui.
      - Ele tem jeito para lidar com animais. E
com crianas tambm.
      - H quanto tempo voc o conhece?
      - H um bom tempo. Laird e eu nos con-
hecemos na faculdade, e Laird me apresentou a
ele. Eles so amigos desde que eram crianas.
Travis foi padrinho do nosso casamento. E,
falando no diabo... Oi, Travis.
                                               230/627


      - Oi - disse ele. - Hoje o dia vai ser diver-
tido, no acha? - Por trs dele, Stephanie estava
ao timo, pilotando o barco e fingindo no
observ-los.
      - Espero que no haja muito vento. Allison
olhou em volta. - Acho que no vai haver.
      - Por qu? - perguntou Gabby. - O que
acontece se houver vento?
      - No  bom para voar de parapente - re-
spondeu Travis. - Basicamente, a lona pode
acabar se enrolando ou desinflando, as cordas po-
dem se emaranhar, e isso  uma das piores coisas
que podem acontecer quando voc est no
parapente.
      Gabby visualizou uma imagem em que es-
tava girando fora de controle enquanto caa na
gua.
      - No se preocupe - assegurou-lhe Travis. -
Se eu tiver qualquer suspeita de algum problema,
ningum decola.
                                            231/627


     - Espero que no - disse Allison. - Mas
gostaria de propor que Laird seja o primeiro a
subir.
     - Por qu?
     - Porque ele devia ter pintado o quarto de
Josie esta semana. Ele passou os dias me pro-
metendo que faria a pintura, mas quer saber se o
quarto est pintado? Claro que no. Vai ser um
bom castigo para ele.
     - Ele vai ter de entrar na fila. Megan j
ofereceu Joe para ser o primeiro. Parece que tem
algo a ver com no passar tempo suficiente com a
famlia aps o trabalho.
     Ao escutar as conversas sobre assuntos que
no lhe eram familiares, Gabby sentiu-se como se
fosse apenas uma espectadora. Ela desejou que
Stephanie no tivesse sado do seu lado; estran-
hamente, ela percebeu, parecia que Stephanie j
era a coisa mais prxima de uma amiga que ela
tinha em Beaufort.
                                              232/627


     - Segurem-se! - gritou Stephanie, girando o
timo.
     Travis instintivamente agarrou a lateral do
barco quando ele atingiu uma marola alta, e a
proa se levantou e caiu, chocando-se com um es-
trondo na gua. A ateno de Allison se voltou
para as crianas, e ela correu em direo a Josie,
que havia cado no piso do barco e estava
comeando a chorar. Laird a colocou de p com
um brao.
     - Voc devia estar segurando Josie! - Allis-
on repreendeu Laird, enquanto estendia os braos
para a filha. - Venha aqui, meu bem. A mame
est aqui.
     - Eu estava segurando! - protestou Laird. -
Talvez se aquela metida a Dale Earnhardt5 est-
ivesse olhando aonde ia...
     - No me coloque no meio dos seus prob-
lemas - disse Stephanie, inclinando a cabea. - Eu
disse que vocs deviam se segurar, mas acho que
                                              233/627


voc no me deu ouvidos. No tenho o poder de
controlar as ondas.
      - Mas voc poderia ir um pouco mais devag-
ar. Travis balanou a cabea e sentou-se ao lado
de Gabby.
      - Eles sempre discutem desse jeito? - per-
guntou ela.
      - Sempre - disse ele. - Pelo menos, desde
que seus filhos nasceram. Pode ter certeza de que
cada uma das crianas vai ter alguns momentos
de choro hoje. Mas  isso que deixa as coisas
interessantes.
      Ele se reclinou, colocando os ps no cho. -
Gostou da minha irm? Com o sol atrs dela, era
difcil observar as feies de Travis. - Eu gosto
dela. Ela  uma pessoa... nica.
      - Parece que ela gostou de voc tambm. Se
ela no fosse com a sua cara, pode ter certeza de
que me diria. Mesmo sendo to inteligente, ela
no consegue deixar de expressar suas opinies.
                                               234/627


Se voc quer saber, acho que meus pais a encon-
traram e a adotaram.

    1.   - No acho. Se voc deixar seu cabelo
         crescer um pouco mais, as pessoas
         achariam que vocs so duas irms.

     Ele riu. - Voc est falando igualzinho a ela.
     - Acho que o jeito dela  contagioso.
     - J conseguiu conhecer os outros?
     - Conversei com Allison por alguns mo-
     mentos, mas foi s.
     - Eles so as melhores pessoas do mundo -
     disse Travis. - Mais famlia do que amigos.
     Ela estudou Travis enquanto ele tirou o bon
de beisebol da cabea, repentinamente entend-
endo o que havia acontecido. - Foi Stephanie que
mandou voc vir aqui para conversar comigo,
no foi?
     - Foi, sim - admitiu ele. - Ela foi l me lem-
brar que voc era minha convidada, e que seria
uma falta de cortesia da minha parte se eu no
                                              235/627


fizesse de tudo para que voc se sentisse 
vontade.
     - Eu estou bem - disse ela, com um gesto. -
Se voc quiser ir pilotar o barco novamente, no
se incomode comigo. Posso me entreter com a
paisagem.
     - Voc j foi at Cape Lookout? - perguntou
ele.
     - No.
     -  um parque nacional e tem uma enseada
que  tima para crianas pequenas, porque as
ondas no arrebentam ali. E no lado mais dis-
tante, o lado do Atlntico, h uma praia de areias
brancas que est praticamente intocada, coisa
quase impossvel de encontrar hoje em dia.
       Quando ele terminou de falar, Gabby o
observou enquanto ele desviava sua ateno para
Beaufort. Os contornos da cidade estavam vis-
veis; logo depois da marina onde os mastros dos
veleiros apontavam para o cu como dedos em
riste, ela conseguiu ver os restaurantes que
                                             236/627


coalhavam a avenida da orla. Por toda parte havia
barcos e jet skis passando rapidamente, deixando
rastros de espuma branca para trs. Ela percebeu
a maneira suave que o corpo dele tinha de se
apoiar contra o dela conforme o barco deslizava
por sobre a gua.
     -  uma bela cidade - disse ela, finalmente.
     - Eu sempre amei este lugar - concordou ele.
- Quando era mais novo, sonhava em me mudar
para uma cidade grande, mas, no fim, meu lar 
aqui mesmo.
     O barco virou em direo ao canal. Por trs
deles, Beaufort ficou menor; adiante, as guas da
baa de Onslow abraavam o Atlntico. Uma
nuvem solitria passava acima, leve e extensa,
como se tivesse sido moldada em neve. O cu, de
um azul profundo, se estendia por sobre guas
pontilhadas por minsculos prismas dourados da
luz do sol. Aps algum tempo, a atividade frent-
ica em Back Sound deu lugar a uma sensao de
isolamento, quebrada apenas pela presena
                                            237/627


ocasional de algum barco que ancorava nos baix-
ios da praia de Shackleford. Os trs casais na
proa do barco estavam to encantados com
aquela viso quanto ela, e at mesmo as crianas
pareciam ter sossegado. Elas estavam sentadas
tranquilamente no colo dos pais, com o corpo re-
laxado, como se estivessem prontas para tirar
uma soneca. Gabby podia sentir o vento soprando
entre seus cabelos e o calor do sol do vero.
     - Ei, Travis - chamou Stephanie. -
     Aqui est bom?
     Travis acordou do seu devaneio e
     deu uma olhada em volta.
     - Vamos um pouco mais adiante. Quero ter
certeza de que temos bastante espao. Temos
uma novata a bordo.
     Stephanie assentiu, e o barco acelerou
novamente.
     Gabby se inclinou em direo a ele. - Por
     falar nisso, como esse negcio funciona?
                                               238/627


      -  fcil - disse ele. - Primeiro, eu inflo o
parapente e ajusto a cadeira de voo e o equipa-
mento de segurana, usando aquela barra ali -
disse ele, apontando para o canto do barco. - De-
pois, voc e o seu parceiro colocam os cintos de
segurana, e eu os prendo naquela barra maior, e
voc se senta na plataforma. Solto a manivela e
vocs decolam. Leva alguns minutos para al-
canar a altura certa, e depois... bem, voc plana
no ar. Voc vai ter uma bela viso de Beaufort e
do farol, e como o tempo est limpo voc pode
ver alguns golfinhos, arraias, tubares, at
mesmo tartarugas marinhas. Eu j cheguei a ver
baleias algumas vezes. Podemos tambm diminu-
ir a velocidade do barco, deixar que voc encoste
os ps na gua, e depois subir de novo.  muito
divertido.
      - Tubares?
      - Claro. Estamos no oceano.
      - Eles mordem?
                                             239/627


     - Alguns mordem. Tubares-touro podem
ser bem agressivos.
     - Ento prefiro no fazer essa manobra de
encostar os ps na gua, obrigada.
     - No precisa ter medo. Eles no vo
incomod-la.
     - Falar  fcil.
     - Em todos os anos que fao isso, nunca
ouvi falar de ningum que tenha sido mordido
por um tubaro enquanto voava de parapente.
Voc fica na gua por dois ou trs segundos, no
mximo. E geralmente os tubares se alimentam
no fim da tarde.
     - No sei...
     - E se eu estivesse com voc? Voc tentaria?
No deixe essa oportunidade passar. Ela hesitou,
e depois concordou, inclinando ligeiramente a
cabea.
     - Vou pensar no caso - disse ela. - Mas no
prometo nada.
     - Acho justo.
                                             240/627


     - Claro, voc est presumindo que eu vou
subir nesse treco com voc.
     Ele piscou um olho e lhe deu aquele sorriso.
-  claro que estou. Gabby tentou ignorar o frio
na barriga que estava sentindo. Em vez disso, ela
apanhou sua bolsa e tirou um frasco de loo.
Depois de colocar um pouco nas mos, ela
comeou a aplic-la nervosamente em seu rosto,
tentando recuperar o controle e aumentar a
distncia.
     - Stephanie me disse que voc viajou por
vrias partes do mundo.
     - J dei umas voltas por a.
     - Do jeito que ela falou, parece ser mais do
que isso. Como se voc j tivesse andado pelo
mundo inteiro.
     Ele balanou a cabea. - No  bem assim.
Pode acreditar que h vrios lugares em que
nunca estive.
     - E qual foi o lugar que voc mais gostou de
     ter visitado?
                                                241/627


     Ele demorou um pouco para responder, com
uma expresso saudosa em seu rosto. - No sei.
     - Bem... que lugar voc sugeriria para que
eu visitasse?
     - No  assim que funciona - disse ele.
     - Como assim?
     -Viagens no se resumem somente a ver
coisas.  mais importante vivenci-las... - ele ol-
hou a gua cuidadosamente, organizando seus
pensamentos. - Deixe-me colocar as coisas deste
modo. Quando terminei a faculdade, eu no sabia
o que queria fazer, ento decidi tirar um ano e
conhecer o mundo. Eu tinha um pouco de din-
heiro guardado - no tanto quanto achei que fosse
precisar -, fiz as malas, peguei a minha bicicleta e
embarquei num voo para a Europa. Passei os
primeiros trs meses l, simplesmente... fazendo
qualquer coisa que tivesse vontade, e aquilo rara-
mente tinha alguma coisa a ver com as coisas que
eu esperava ver. Eu nem mesmo tinha um roteiro
planejado. No me entenda mal - eu vi vrias
                                             242/627


coisas. Mas, quando penso naqueles meses, me
lembro mais das amizades que fiz ao longo do
caminho e do tempo que passamos juntos. Como
na Itlia, por exemplo. Eu visitei o Coliseu em
Roma e os canais de Veneza, mas a melhor lem-
brana que eu tenho  de um fim de semana que
passei em Bari uma cidade no sul do pas, fora
das rotas tursticas, que provavelmente voc
nunca ouviu falar - com alguns estudantes itali-
anos que conheci. Eles me levaram para um barz-
inho onde havia uma banda da cidade tocando, e,
mesmo que a maioria deles no soubesse falar
ingls e o meu conhecimento da lngua italiana se
resumisse aos nomes dos pratos nos cardpios,
passamos a noite inteira rindo. Depois daquilo,
eles me levaram a Lecce e Matera, e, pouco a
pouco, nos tornamos bons amigos. A mesma
coisa aconteceu na Frana, na Noruega e na Ale-
manha. Fiquei em albergues quando precisei,
mas, na maioria das vezes, eu chegava a uma cid-
ade e conhecia algum que se oferecia para me
                                             243/627


receber em sua casa por algum tempo. Eu encon-
trava algum emprego aqui e ali para ganhar um
dinheiro a mais e, quando estava preparado para
ir a outro lugar, simplesmente botava o p na es-
trada. No comeo pensei que seria fcil, porque a
Europa e a Amrica so bem parecidas. Mas a
mesma coisa aconteceu quando fui para a Sria,
Etipia, frica do Sul, Japo e China. s vezes,
parecia at mesmo que fazer aquela viagem era o
meu destino, como se todas as pessoas que con-
heci de alguma forma estivessem esperando por
mim. Mas...
      Ele fez uma pausa, olhando diretamente
para ela.
      - Mas eu sou uma pessoa diferente hoje, em
relao a quem eu era naquela poca. Assim
como eu era uma pessoa diferente no final da
viagem em relao a quem eu era no comeo. E
serei uma pessoa diferente amanh em relao a
hoje. E isso significa que nunca poderei repetir
aquela viagem. Mesmo se eu fosse para os
                                             244/627


mesmos lugares e encontrasse as mesmas pess-
oas, no seria a mesma coisa. A minha experin-
cia no seria a mesma. Para mim,  isso que as
viagens representam. Conhecer pessoas, aprender
no somente a apreciar uma cultura diferente,
mas a realmente desfrutar dessa cultura como se
eu fosse uma pessoa daquele lugar, seguindo
qualquer impulso que eu sinta. Assim, como eu
poderia recomendar uma viagem para algum se
eu nem sei o que devo esperar? Meu conselho
seria anotar nomes de lugares em pedaos de pa-
pel, embaralh-los e escolher cinco ao acaso. De-
pois, simplesmente... v at l e veja o que
acontece. Se voc tiver a mentalidade certa, no
importa onde esteja ou quanto dinheiro tem com
voc. Vai ser algo de que voc ir se lembrar
para sempre.
      Gabby ficou em silncio enquanto assimil-
ava tudo aquilo. - Uau - disse ela, finalmente.
      - O que foi?
      - Voc faz isso parecer to... romntico.
                                                     245/627


     No silncio que surgiu a seguir, Stephanie
comeou a diminuir a velocidade do barco, e
Travis se endireitou no assento. Quando sua irm
olhou para ele, Travis fez um sinal afirmativo
com a cabea e se levantou. Stephanie diminuiu a
potncia do motor, fazendo com que a velocidade
do barco diminusse ainda mais.
     - Estamos prontos - disse ele, indo at um
caixote. Retirando o parapente dali, perguntou: -
Est preparada para uma experincia nova?
Gabby engoliu em seco.
     - Mal posso esperar.
2 Nome de um seriado de TV estadunidense que retratava
as aventuras da famlia Brady, exibido de 1969 a 1974. (N.
T.)

3 Seriado de TV estadunidense que mostrava as aventuras
de sete nufragos que tentavam escapar de uma ilha no
oceano Pacfico, exibido entre 1964 e 1967. (N. T.)
                                                   246/627




4 Linha de desenhos animados e brinquedos que retrata
soldados americanos das unidades das foras especiais do
exrcito. No Brasil, receberam o nome de Comandos em
Ao. (N. T.)

5 Piloto da categoria Nascar de corridas de automveis,
morto em um acidente em alta velocidade em 2001 en-
quanto disputava as 500 milhas de Daytona. (N. T.)
Captulo 9
Com o paraquedas inflado e os cintos de segur-
ana e cadeiras de voo presos a ele, Joe e Megan
foram os primeiros a decolar, seguidos por Allis-
on e Laird, e depois por Matt e Liz. Um a um, os
casais se sentavam na plataforma e eram le-
vantados no ar, com a corda que ligava o
paraquedas ao barco se desenrolando at que eles
estivessem a 30 metros de altura. Do lugar onde
Gabby estava no barco, eles pareciam pequenos e
despreocupados enquanto voavam sobre a gua.
Travis, que havia substitudo Stephanie no timo,
mantinha o barco em uma velocidade constante,
fazendo curvas amplas e abertas, at finalmente
diminuir gradualmente a velocidade do barco e a
embarcao quase parar, permitindo que o
parapente baixasse at bem prximo da gua. No
momento em que os ps dos casais tocavam a
                                             248/627


gua, ele empurrava a alavanca do motor at a
potncia mxima, e o paraquedas era impulsion-
ado para cima novamente, como uma pipa sendo
puxada por uma criana correndo no parque.
      Todos voltavam  plataforma conversando,
falando sobre os peixes ou golfinhos que haviam
visto, mas, mesmo assim, Gabby sentia-se cada
vez mais nervosa  medida que sua vez se aprox-
imava. Stephanie estava deitada ao sol para mel-
horar seu bronzeado, na parte da frente do barco,
e segurava uma cerveja. Ela levantou a cerveja
em um brinde.
      - Esta  em homenagem a t-la conhecido,
      garota.
      Travis tirou seu bon de beisebol. - Vamos
l - ele disse a Gabby. - Eu a ajudo com o cinto
de segurana e a cadeira de voo.
      Ao sair da plataforma, Liz entregou seu
      colete salva-vidas a Gabby.
      -  divertido demais - comentou ela. - Voc
vai adorar.
                                              249/627


      Travis conduziu Gabby at a plataforma.
Aps subir nela, ele lhe estendeu a mo,
curvando-se. Ela pde sentir o calor do toque
dele enquanto a ajudava a subir. A cadeira de voo
estava no cho, e Travis apontou em direo a
duas aberturas.
      - Coloque as pernas naquelas aberturas e
puxe as tiras de segurana para cima. Eu vou
prend-las para voc.
      Ela ficou firme onde estava, sentindo os
puxes que Travis dava no aparato, prendendo-o
firmemente ao seu corpo. -  s isso?
      - Quase. Quando voc se sentar na plata-
forma, lembre-se de manter a tira maior sob as
suas coxas. No  bom que ela fique embaixo do
seu traseiro, porque a distribuio de peso fica
comprometida. E talvez voc queira tirar sua
camiseta, a menos que no se importe se ela ficar
molhada.
      Gabby tirou a camiseta, tentando no se sen-
tir nervosa.
                                              250/627


      Travis no deu nenhum sinal de ter perce-
bido sua timidez. Em vez disso, ele prendeu as
tiras da cadeira de voo dela na barra, e depois a
sua prpria, e fez um sinal para que ela se
sentasse.
      - Est embaixo das suas coxas, certo? - per-
guntou Travis. Quando ela assentiu com a
cabea, ele sorriu. -  s relaxar e curtir o
passeio.
      Um segundo depois, Joe empurrou a
alavanca do motor, a lona do paraquedas se in-
flou, e Gabby e Travis foram levantados no ar.
Olhando para o barco, ela sentiu os olhares de to-
das as pessoas enquanto eles decolavam diagon-
almente em direo ao cu. Gabby segurou-se
com tanta fora nas tiras de tecido que a pren-
diam ao parapente que as articulaes de seus de-
dos ficaram brancas com o esforo, enquanto o
barco ficava cada vez menor. Aps algum tempo,
a corda que prendia o parapente ao barco captur-
ou sua ateno, como um pndulo manipulado
                                               251/627


por um hipnotizador. Ela teve a sensao de que
estava voando bem mais alto do que qualquer
outra pessoa j tinha subido naquele dia, e estava
a ponto de dizer alguma coisa quando sentiu o
toque de Travis no seu ombro.
      - Olhe ali! - disse ele, apontando. - Uma ar-
raia! Consegue v-la?
      Ela avistou o animal, negro e lustroso, se
movendo abaixo da superfcie da gua como uma
borboleta em cmera lenta.
      - E um grupo de golfinhos! Daquele lado!
Perto dos baixios!
      Enquanto ela se maravilhava com aquela
viso, seu nervosismo comeou a arrefecer. Em
vez disso, ela comeou a se entreter com tudo o
que via abaixo de si - a cidade, as famlias relax-
ando na praia, os barcos, a gua. Sentindo-se re-
laxar, ela pensou que poderia provavelmente pas-
sar uma hora l no alto sem ficar entediada. Era
extraordinrio poder planar naquela altitude,
voando com a corrente de vento como se ela
                                               252/627


fosse um pssaro. Apesar do calor, a brisa a
mantinha refrescada e, ao balanar as pernas por
baixo de si, ela sentiu o cinto de segurana
balanar.
      - Est a fim de fazer um daqueles mergul-
hos? - perguntou ele. - Eu garanto que vai ser
divertido.
      - Vamos - concordou ela. Para seus ouvidos,
sua voz parecia estranhamente carregada de
confiana.
      Travis fez uma srie de sinais para Joe e,
abaixo dela, o barulho do motor do barco repenti-
namente diminuiu. O parapente comeou a des-
cer. Olhando fixamente para a gua que se aprox-
imava rapidamente, ela esquadrinhou a superfcie
para se certificar de que no havia nenhuma cri-
atura com dentes grandes na gua esperando por
ela.
      O parapente desceu mais e mais, e, embora
ela tivesse levantado as pernas, sentiu a gua fria
bater contra seu corpo. Quando ela pensou que
                                               253/627


teria de comear a nadar, o barco acelerou e eles
subiram novamente em direo ao cu. Gabby
sentiu a adrenalina correr pelo seu corpo e nem
tentou esconder seu sorriso.
      Travis se encostou nela. -
Viu? No foi to ruim.
      - Podemos fazer isso de
novo? - perguntou ela.
      Travis e Gabby voaram por mais quinze
minutos, mergulhando para tocar na gua mais
duas ou trs vezes. Quando foram trazidos de
volta ao barco, cada casal deu mais um passeio
no parapente. No fim dos passeios, o sol j estava
alto no cu e as crianas estavam comeando a
ficar inquietas. Travis levou o barco em direo 
enseada de Cape Lookout. A gua ficou mais
rasa, e Travis parou o motor do barco; Joe lanou
a ncora, tirou sua camisa e pulou na gua. A
gua batia na sua cintura e, com pontaria certeira,
melhorada por anos de prtica, Matt lhe jogou
uma caixa trmica. Matt tirou sua camisa e pulou
                                              254/627


na gua tambm; Joe lhe deu uma caixa trmica e
seguiu-o na gua enquanto Travis tomou seu
lugar. Quando Travis pulou do barco, ele estava
levando uma churrasqueira porttil e um saco de
carves. Simultaneamente, as mes pularam na
gua e pegaram as crianas. Em poucos minutos,
apenas Stephanie e Gabby continuavam no barco.
Gabby estava na parte de trs do barco, pensando
que deveria ter ajudado com alguma coisa, en-
quanto Stephanie, aparentemente ignorando a
movimentao, estava deitada sobre os assentos
na parte da frente do barco, bronzeando-se.
     - Estou de frias, ento no vejo necessidade
de me oferecer para trabalhar - anunciou
Stephanie, com seu corpo to imvel quanto o
barco. - E eles so to bons nisso que eu nem me
sinto culpada por ser preguiosa.
     - Voc no  preguiosa.
     - Claro que sou. Todos deveriam se dar ao
luxo de ser preguiosos de vez em quando. Como
                                             255/627


disse Confcio uma vez: "Aquele que no faz
nada  aquele que no faz nada".
     Gabby pensou naquelas palavras, e depois
franziu a testa. - Confcio realmente disse isso?
     Com os culos de sol lhe cobrindo os olhos,
Stephanie fez um ligeiro movimento, dando de
ombros. - No, mas quem se importa? A questo
 que eles conseguiram fazer tudo e provavel-
mente encontram algum tipo de satisfao ao se
esforarem. Quem sou eu para tirar isso deles?
     Gabby colocou as mos nos quadris. - Ou
talvez voc simplesmente quisesse ficar de papo
para o ar.
     Stephanie sorriu. - Como o prprio Jesus
dizia: "Bem-aventurados os preguiosos que
ficam deitados em barcos, pois eles herdaro um
bronzeado".
     - Jesus no disse isso.
     -  verdade - concordou Stephanie,
erguendo-se. Ela tirou os culos, olhou para as
lentes e depois limpou-as com uma toalha. -
                                               256/627


Mesmo assim, quem se importa? - ela olhou para
Gabby, apertando os olhos por causa da clarid-
ade. - Voc realmente sentiu vontade de carregar
caixas trmicas ou barracas at a praia? Confie
em mim, no h nada de divertido nisso. - Depois
de ajustar a parte de cima do seu biquni, ela se
levantou de onde estava sentada. - Bem, a costa
est limpa. Podemos ir. Ela pegou sua bolsa de
praia e colocou-a sobre o ombro. -  preciso con-
hecer os momentos propcios para desfrutar da
sua preguia. Quando se faz do jeito certo,  uma
forma de arte que faz bem a todos.
      Gabby hesitou. - No sei por qu, mas gosto
do seu jeito de pensar.
      Stephanie riu. - Claro que voc gosta - disse
ela. - A preguia faz parte da natureza humana.
Mas  bom saber que no sou a nica que en-
tende dessa verdade universal.
      Assim que Gabby comeou a contestar
aquela frase, Stephanie pulou na gua, que
respingou por cima da amurada. - Venha - disse
                                              257/627


ela, sem deixar Gabby terminar de falar. - Estou
brincando. E, alm disso, no fique remoendo as
coisas que voc fez ou deixou de fazer. Como eu
disse, aquelas pessoas gostam de fazer essas
coisas pequenas. Faz com que os homens se
sintam mais viris e as mulheres mais maternais, e
 assim que o mundo deveria funcionar. Como
somos solteiras, tudo o que temos de fazer  ter
certeza de que estamos curtindo a vida.
      A preparao do acampamento - assim
como desembarcar e descarregar o barco - era
uma atividade informalmente ritualizada, onde
todos aparentemente sabiam exatamente o que
deviam fazer. Uma tenda foi armada e erguida,
cobertores foram estendidos no cho e o carvo
foi aceso. Continuando a exibir a mesma inativid-
ade que demonstrou no barco, Stephanie simples-
mente pegou uma cerveja e uma toalha, escolheu
um lugar e voltou a tomar sol. Gabby, sem ter
certeza do que devia fazer, abriu sua toalha e fez
exatamente a mesma coisa. Ela sentiu os efeitos
                                              258/627


do sol quase imediatamente e se deitou, tentando
ignorar o fato de que todos - com exceo de
Stephanie - pareciam estar ocupados com alguma
tarefa.
      - Voc precisa de protetor solar - disse
Stephanie. Sem levantar a cabea, ela apontou
para a bolsa que havia trazido. - Pegue o tubo
com o fator de proteo 50. Com essa pele
branca, voc vai virar uma lagosta em meia hora
se no se cuidar. O protetor  enriquecido com
zinco.
      Gabby apanhou a bolsa de Stephanie. Ela le-
vou alguns minutos para espalhar o protetor sol-
ar; o sol tinha uma maneira implacvel de puni-la
caso ela se esquecesse de cobrir algum ponto do
corpo com aquela loo. Diferente das irms ou
da me, ela havia herdado a pele irlandesa do pai.
Era uma das pequenas mazelas da vida.
      Ao terminar, ela se deitou sobre a toalha,
ainda se sentindo culpada pelo fato de no estar
                                                259/627


fazendo nada para ajudar a organizar o local ou a
preparao do almoo.
     - Como foi o voo com Travis?
     - Foi bem - disse Gabby.
     - Quero lembr-la de que ele  meu irmo,
voc sabe.
     Gabby se virou para encarar Stephanie com
um olhar questionador.
     - Ei - disse Stephanie. - Eu s disse isso para
que voc se d conta do quanto eu o conheo.
     - E o que isso importa?
     - Eu acho que ele gosta de voc.
     - E eu acho que voc acredita que ainda es-
tamos na stima srie.
     - O qu? Voc no se importa?
     - No.
     - Por que voc tem um namorado?
     - Entre outros motivos.
     Stephanie riu. - Ah, que timo. Se eu no
conhecesse voc, podia at mesmo acreditar no
que est dizendo.
                                              260/627


      - Voc no me conhece!
      - Oh, eu conheo voc. Acredite ou no, eu
sei exatamente quem voc .
      -  mesmo? Ento de onde eu venho?
      - No sei.
      - Me fale sobre a minha famlia ento.
      - No tenho como fazer isso.
      - Ento voc no me conhece de verdade,
no ?
      Depois de um momento, Stephanie se virou
para encar-la. - Sim - disse ela. - Eu conheo. -
Ela no conseguiu esconder seu tom de voz de-
safiador. - Que tal isso? Voc  uma boa garota, e
sempre foi assim, mas, no fundo, voc acha que a
vida  muito mais do que simplesmente viver de
acordo com as regras, e h uma parte dentro de
voc que anseia pelo desconhecido. Se voc est-
iver disposta a ser honesta consigo mesma, Trav-
is  uma parte desse anseio. Em relao ao sexo,
voc  uma mulher seletiva, mas, quando se com-
promete com algum, os padres de
                                             261/627


comportamento que voc geralmente segue so
jogados pela janela. Voc acha que vai se casar
com seu namorado, mas no consegue evitar ima-
ginar por que ainda no tem um anel de noivado
no dedo. Voc ama sua famlia, mas queria tomar
as prprias decises sobre sua vida, e  por isso
que voc mora aqui. Mesmo assim, voc tem
medo de que sua famlia no aprove suas escol-
has. Como estou indo at aqui?
     Enquanto ela falava, Gabby se sentiu empal-
idecer. Interpretando um golpe direto, Stephanie
se apoiou em um dos cotovelos. - Quer que eu
continue?
     - No - disse Gabby.
     - Eu estava certa, no ?
     Gabby soltou o ar. - No totalmente.
     - No?
     - No.
     - O que foi que eu errei?
                                            262/627


      Em vez de responder, Gabby balanou a
cabea e voltou a apoiar as costas na toalha. -
No quero falar sobre isso.
      Gabby esperava que Stephanie fosse persi-
stir no assunto, mas, em vez disso, ela simples-
mente deu de ombros e voltou a se deitar sobre
sua toalha, como se no tivesse dito nada.
      Gabby ouvia os sons de crianas brincando
na beira da praia e fragmentos ininteligveis de
dilogos ao longe. Sua cabea no conseguia se
livrar do comentrio de Stephanie; era como se
aquela mulher a conhecesse desde que nasceu, e
que soubesse at mesmo de seus segredos mais
sombrios.
      - Ah, caso voc esteja entrando em pnico
com o que eu disse, acho que preciso lhe dizer
que tenho alguns poderes psquicos - comentou
Stephanie. - Eu sei que  estranho, mas  ver-
dade. Herdei de minha av, at onde sei. Ela era
famosa por conseguir fazer a previso do tempo.
                                              263/627


      Gabby se sentou, sentindo uma onda de al-
vio percorrer seu corpo, mesmo sabendo que
aquele conceito era ridculo. - Verdade?
      Stephanie riu novamente. - No,  claro que
no! Minha av assistiu ao Let's make a deal6
durante anos e nunca conseguiu se dar melhor do
que os participantes do programa. Mas seja hon-
esta: eu acertei tudo, no foi?
      Os pensamentos de Gabby voltaram ao in-
cio da sua conversa com Stephanie deixando-a
quase desorientada. - Mas como?
      -  fcil - disse Stephanie, voltando a se
deitar. - Eu simplesmente inseri as suas "maravil-
hosas experincias pessoais" na vida de pratica-
mente todas as mulheres que j existiram. Bem,
exceto a parte sobre Travis. Eu adivinhei essa
parte. Mas  espantoso, no ? Eu estudo isso
tambm. Eu j participei de alguns estudos e
sempre fico impressionada ao perceber que,
abaixo da superfcie, as pessoas so muito pareci-
das. Especialmente durante a adolescncia e o
                                              264/627


incio da idade adulta. Na maioria das vezes, as
pessoas passam pelas mesmas experincias e
pensam nas mesmas coisas, mas, de algum modo,
ningum escapa da crena de que sua experincia
de vida  nica e diferente de todas as outras ex-
perincias de vida das outras pessoas.
     Gabby se espreguiou sobre a toalha, de-
cidindo que seria melhor simplesmente ignorar
Stephanie por algum tempo. Por mais que gos-
tasse dela, aquela mulher confundia a sua cabea
com muita frequncia.
     - Ah, e caso voc esteja curiosa a respeito -
comentou Stephanie -, Travis no est namor-
ando. Ele no somente est solteiro, como, alm
disso, est disponvel.
     - No estou curiosa a respeito disso.
     - Porque voc tem um namorado, no ?
     - Sim. Mas, mesmo que eu no tivesse um
namorado, eu no estaria curiosa a respeito.
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      Stephanie riu. - Claro, claro. Como eu pude
me enganar tanto? Acho que foi pelo fato de voc
ficar olhando tanto para ele.
      - Eu no fico olhando para ele.
      - Ah, no seja to defensiva. Afinal de con-
tas, ele tambm passa uma boa parte do tempo ol-
hando para voc.
6 Programa de TV estadunidense em que os competidores
devem considerar a possibilidade de fazer uma oferta para
a concesso de um prmio valioso ou algum objeto indese-
jvel. (N. T.)
Captulo 10
Do lugar onde havia estendido sua toalha, Gabby
sentia o aroma do carvo, cachorros-quentes,
hambrgueres e frango misturados com uma
brisa suave. Apesar da brisa - e do protetor solar
-, a pele de Gabby parecia que estava comeando
a crepitar. s vezes ela pensava ser irnico que
seus ancestrais, vindos da Esccia e da Irlanda,
haviam passado por regies mais ao norte com o
mesmo tempo nublado de suas terras natais para
vir a um lugar onde a exposio prolongada ao
sol era praticamente uma garantia de que pessoas
como eles desenvolveriam melanomas ou, pelo
menos, rugas, que eram o motivo de sua me
sempre usar chapus, mesmo que o tempo que
ela passasse a cu aberto fosse limitado a ir e vol-
tar do seu carro. O fato de que Gabby estava se
sujeitando a queimaduras ou outros danos
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causados pelo sol era algo em que ela no queria
pensar, porque a verdade era que ela gostava de
estar bronzeada, e se bronzear fazia com que ela
se sentisse bem. Alm disso, dentro de pouco
tempo ela vestiria sua camiseta novamente e se
foraria a sentar debaixo de alguma sombra.
     Stephanie estava estranhamente quieta desde
seu ltimo comentrio. Em algumas pessoas,
Gabby pensaria que aquilo era devido a algum
desconforto ou timidez. No caso de Stephanie,
parecia mais com uma aura de autoconfiana,
algo que Gabby sempre desejou secretamente ter.
Como Stephanie se sentia muito  vontade con-
sigo mesma, fez com que Gabby se sentisse con-
fortvel quando ela estava por perto, o que, tinha
de admitir, era algo que ela no vinha sentindo
ultimamente. J havia um bom tempo que no se
sentia confortvel em casa; ainda no se sentia 
vontade no seu local de trabalho, e tinha ainda
menos confiana em relao  situao do seu
relacionamento com Kevin.
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     Em relao a Travis - aquele homem definit-
ivamente fazia com que ela se sentisse descon-
fortvel. Bem, pelo menos quando ele estava sem
camiseta, de qualquer forma. Olhando-o disfara-
damente, ela o viu sentado na areia perto de onde
o mar batia na praia, construindo castelos de
areia molhada com as trs crianas. Quando a
ateno delas parecia se dispersar, ele se le-
vantava de onde estava e corria atrs das cri-
anas, perseguindo-as at onde a gua batia nos
tornozelos, e o som de seus gritos de alegria eco-
ava pelo ar. Travis parecia estar se divertindo
tanto quanto elas, e aquela viso fez com que ela
quisesse sorrir. Ela se obrigou a no faz-lo, pre-
ocupada com a possibilidade de que ele pudesse
not-la e ter uma impresso errada.
     O aroma finalmente forou Gabby a se sent-
ar. Ela no conseguia afastar a sensao de estar
de frias em uma ilha extica, em vez de estar a
apenas alguns minutos de Beaufort. As ondas
chegavam  praia num ritmo suave, e as poucas
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casas desocupadas do outro lado de onde eles es-
tavam pareciam ter cado do cu. Por cima do
ombro, ela viu uma trilha por entre as dunas, ser-
penteando em direo ao farol preto e branco que
havia sobrevivido a milhares de tempestades.
     Surpreendentemente, ningum mais havia
chegado quela enseada, e isso fazia com que o
lugar parecesse ainda mais agradvel. Em um dos
lados, ela avistou Laird, ao lado da churrasqueira
porttil, manipulando um par de tenazes para
carne. Megan estava organizando os sacos de
batatas fritas e pes de hambrguer e tambm ab-
rindo recipientes em uma pequena mesa porttil,
enquanto Liz cuidava dos condimentos, dos
pratos de papel e talheres de plstico. Joe e Matt
estavam atrs dela, jogando uma bola de futebol
americano de um lado para o outro. Ela no se
lembrava de um nico fim de semana de sua in-
fncia onde um grupo de famlias havia se re-
unido para desfrutar daquele tipo de companhia e
amizade em um lugar lindo simplesmente porque
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era... sbado. Ela se perguntou se era assim que a
maioria das pessoas vivia, ou se aquilo tinha mais
a ver com a vida em uma cidade pequena, ou se
era simplesmente um hbito que aqueles amigos
haviam adquirido h tempos. Seja l qual fosse a
razo, ela suspeitava de que conseguiria se acos-
tumar com aquilo.
      - A comida est pronta! - gritou Laird.
      Gabby vestiu sua camiseta e foi at a mesa
onde a comida estava sendo servida, surpresa
com a fome que estava sentindo at se lembrar de
que ela nem conseguira tomar o caf da manh.
Por cima do ombro, ela enxergou Travis fazendo
o melhor que podia para arrebanhar as crianas,
perseguindo-as como um co pastor faria com
suas ovelhas. As trs correram em direo 
churrasqueira, onde Megan estava montando
guarda.
      - Sentem-se no cobertor, em fila - ordenou
ela, e as crianas, obviamente bem treinadas para
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aquilo, fizeram exatamente o que lhes foi
mandado.
     - Megan tem poderes mgicos sobre as cri-
anas - observou Travis por cima do ombro de
Gabby. Ele estava com a respirao pesada e com
as mos nos quadris. - Gostaria que elas me escu-
tassem dessa maneira quando eu falo com elas.
Como isso no acontece, preciso correr atrs
delas at quase desmaiar.
     - Mas voc parece ter um talento natural
para lidar com elas.
     - Eu gosto de brincar com elas, no de
arrebanh-las para o almoo.- Ele se inclinou em
direo a ela de forma conspiratria. - Mas, c
entre ns, eu aprendi uma coisa em relao a ca-
sais que tm filhos: quanto mais voc brincar
com as crianas, mais os pais vo gostar de voc.
Quando eles percebem que algum adora os fil-
hos deles - verdadeiramente se encantando e se
divertindo com eles, os pais se sentem assim em
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relao s crianas -, bem, aquela pessoa se torna
o miado do gato aos olhos dos pais.

    1.   - O... miado do gato?
               1. - Eu sou veterinrio. Eu gosto de
                  expresses que vm do mundo
                  animal.

     Ela no conseguiu esconder um sorriso. -
Acho que voc tem razo sobre brincar com as
crianas. Meu parente favorito era uma tia que
subia nas rvores comigo e minhas irms en-
quanto todos os outros adultos ficavam convers-
ando na sala de estar.
     - E mesmo assim... - ele disse, apontando
para Stephanie - voc ficou ali, esparramada na
toalha com a minha irm, em vez de aproveitar a
oportunidade de mostrar a estas pessoas que voc
acha os filhos deles irresistveis.
     - Eu...
     - Estou brincando - disse ele, piscando o
olho. - O fato  que eu queria passar um tempo
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com eles. E eles logo vo comear a ficar ente-
diados.  o momento em que eu finalmente vou
poder me jogar em uma cadeira de praia, esfregar
o suor da minha testa e deixar que os pais deles
entrem em cena.
     - Em outras palavras, voc come a carne,
mas no ri o osso.
     - Eu acho que... quando chegar a hora, vou
oferecer seus servios.
     - Ah, obrigada.
     - Sem problemas. Ei, est com fome?
     - Faminta.
     Quando eles chegaram  mesa onde o al-
moo estava servido, as crianas estavam senta-
das no cobertor com seus cachorros-quentes,
salada de batata e algumas frutas cortadas em
cubos. Liz, Megan e Allison estavam sentadas
por perto para poder vigi-las, mas distantes o
bastante para conseguir conversar. Gabby perce-
beu que as trs comiam frango, com vrios acom-
panhamentos. Joe, Matt e Laird haviam se
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sentado sobre as caixas trmicas, apoiando os
pratos sobre os joelhos, e suas garrafas de cerveja
estavam fincadas na areia.
     - Hambrguer ou frango?
     - Eu gosto de frango. Mas imagino que os
hambrgueres estejam deliciosos. Eu simples-
mente nunca consegui me acostumar com o gosto
da carne vermelha.
     - Achei que todos os homens comessem
hambrgueres.
     - Ento eu acho que no sou um homem. -
ele se endireitou na cadeira. - Acho que isso vai
deixar meus pais surpresos e decepcionados. At
mesmo porque eles me deram um nome
masculino.
     Ela riu, apontando para a churrasqueira com
a cabea. - Bem... parece que elas deixaram o l-
timo pedao de frango para voc.
     - Somente porque chegamos aqui antes de
Stephanie. Ela teria pegado o frango, mesmo que
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preferisse comer um hambrguer, porque ela
sabe que eu ficaria sem comer.
     - Eu sabia que havia uma razo para eu
gostar dela.
     Eles pegaram seus pratos enquanto olhavam
a apetitosa variedade de acompanhamentos sobre
a mesa - feijes, legumes cozidos, batatas, pepi-
nos e salada de frutas - todos com um aroma deli-
cioso. Gabby pegou um po de hambrguer, pas-
sou mostarda e ketchup nele, acrescentou-lhe
picles e estendeu o prato. Travis colocou o ped-
ao de frango no prprio prato e pegou um dos
hambrgueres que estavam assando sobre a
grelha, colocando-o no po de Gabby.
     Ele despejou uma concha de salada de frutas
no seu prato; Gabby adicionou um pouco de tudo
que havia na mesa. Ao terminar, ela olhou para
ambos os pratos com uma expresso que quase
denotava culpa, a qual, por sorte, Travis no
pareceu perceber.
     - Quer uma cerveja? - perguntou ele.
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     - Adoraria.
     Ele ps a mo em uma das caixas trmicas e
puxou uma Coors Light, e uma garrafa de gua
para si mesmo.
     - Preciso pilotar o barco na volta - explicou
ele. Levantou seu prato na direo das dunas. -
Que tal ali?
     - No quer comer perto dos seus amigos?
     - Eles vo ficar bem - disse ele.
     - Mostre o caminho ento.
     Eles andaram em direo  duna baixa, um
local sob a sombra de uma rvore dbil e que so-
fria com a ao da contaminao pelo sal mar-
inho, com todos os galhos apontando na mesma
direo, curvados por vrios anos de brisas
ocenicas. Gabby sentia a areia deslizando pelos
seus ps. Travis sentou-se perto da duna,
abaixando-se e cruzando as pernas com um nico
movimento. Gabby se sentou ao lado dele com
movimentos bem menos graciosos, certificando-
se de deixar um bom espao entre eles para que
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no se tocassem acidentalmente. Mesmo sentada
sob a sombra da rvore, a areia e a gua estavam
to brilhantes que ela no conseguiu evitar aper-
tar os olhos.
      Travis comeou a cortar seu pedao de
frango, e os talheres de plstico se dobravam com
a presso.
      - Vir aqui me faz lembrar o ensino mdio -
comentou ele. - Passvamos inmeros fins de se-
mana por aqui naquela poca. - Ele deu de om-
bros. - Com outras garotas e nenhuma criana por
perto,  claro.
      - Aposto que era divertido.
      - Era sim - disse ele. - Eu me lembro de uma
noite em que eu estava aqui com Joe, Laird, Matt
e algumas garotas que estvamos tentando im-
pressionar. Estvamos sentados em volta de uma
fogueira, bebendo cerveja, contando piadas e
rindo... e eu me lembro de pensar que a vida no
tinha como ficar melhor.
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     - Parece o roteiro de um comercial da Bud-
weiser. Tirando o fato de que vocs todos eram
menores de idade e que tudo aquilo era ilegal.
     - E voc nunca fez nada assim, no ?
     - Na verdade, no - disse ela.
     - Srio? Nunca mesmo?
     - Por que voc est to surpreso?
     - No sei. Eu acho que... bem, eu no vejo
voc como uma pessoa que cresceu seguindo to-
das as regras. - Ao ver a expresso no rosto dela,
Travis se explicou. - No me entenda mal. Eu
no quis dizer isso de maneira ofensiva. S quis
dizer que voc me parece uma pessoa independ-
ente, algum que est sempre disposta a novas
aventuras.
     - Voc no sabe nada a meu respeito.
     No momento em que disse aquilo, ela se
lembrou de ter dito a mesma coisa a Stephanie.
Ela se preparou para o que poderia vir a seguir.
     Ele mexeu distraidamente em suas frutas
com o garfo. - Eu sei que voc saiu de casa, que
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comprou sua casa prpria e que est pagando
suas contas. Para mim, isso  sinnimo de inde-
pendncia. E, a respeito de ser aventureira, voc
est aqui com um bando de desconhecidos, no
? Voc andou de parapente e at mesmo con-
seguiu superar o medo de tubares para encostar
os ps na gua quando o parapente mergulhou.
Foram novos desafios. Isso  algo a se admirar.
      Ela sentiu seu rosto corar, gostando muito
mais da resposta de Travis do que da de
Stephanie. - Talvez - ela admitiu -, mas no 
como viajar ao redor do mundo sem um roteiro
preestabelecido.
      - No deixe isso lhe enganar. Voc acha que
eu no fiquei nervoso durante aquela viagem? Eu
estava aterrorizado. Dizer aos seus amigos o que
voc vai fazer  uma coisa; entrar em um avio e
aterrissar em um pas onde quase ningum fala
ingls  outra completamente diferente. Voc j
viajou para algum outro pas?
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     - S uma vez, quando passei as frias de
primavera nas Bahamas. Mas, pensando bem, fic-
ando perto do hotel, como eu fiquei - cercada por
estudantes americanos -, eu at poderia imaginar
que aquilo era a Flrida. - Ela fez uma pausa. -
Para onde vai ser a sua prxima viagem? Sua
prxima aventura?
     - Nada to extravagante desta vez. Vou para
Grand Tetons7. Acampar, fazer trilhas pelas
montanhas, canoagem, coisas do tipo. Ouvi dizer
que  de tirar o flego. Nunca estive l.
     - Voc vai sozinho?
     - No - disse ele. - Vou com meu pai. Mal
posso esperar.
     Gabby fez uma careta. - No consigo me
imaginar embarcando em uma viagem com
minha me ou com meu pai.
     - Por que no?
     - Meus pais? Voc teria de conhec-los para
poder entender.
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     Ele aguardou. Em silncio, ela colocou seu
prato de lado e esfregou as mos.
     - Certo - disse ela, com um suspiro. - Em
primeiro lugar, minha me  o tipo de senhora
que acredita que ficar em qualquer coisa que no
seja um hotel cinco-estrelas, no mnimo,  o equi-
valente a dormir ao relento. E meu pai?Acho que
consigo imagin-lo fazendo algo um pouco mais
ousado, exceto pelo fato de que ele nunca se in-
teressou por nada alm de sair para pescar. Alm
disso, ele no vai a lugar nenhum sem minha
me, e, como ela  bem exigente, isso significa
que a nica atividade que eles fazem ao ar livre
so jantares no terrao. Com uma bela carta de
vinhos e garons de terno e gravata, claro.
     - Parece que eles realmente se amam.
     - Voc percebeu isso pelo que eu acabei de
dizer?
     - Sim, e tambm pela ideia de que sua me
     no  uma grande f de atividades ao ar
     livre. Aquilo provocou uma risada.
                                              282/627


     - Eles devem se orgulhar muito de voc.
     - Por que voc diz isso?
     Realmente... por qu? Era o que Gabby se
perguntava. Ento, ela listou as razes. -
Digamos que eu tenho certeza de que minha me
prefere minhas irms. Pode acreditar no que eu
digo, minhas irms no se parecem nem um pou-
co com Stephanie.
     - Quer dizer que elas sempre se comportam
e dizem as coisas da maneira apropriada?
     - No. Eu quis dizer que elas so iguaizinhas
 minha me.
     - E isso quer dizer que ela no pode sentir
orgulho de voc?
     Ela deu uma mordida em seu hambrguer,
ganhando tempo antes de responder. -  meio
complicado - disse ela.
     - Como assim? - insistiu ele.
     - Para comear, sou ruiva. Minhas irms so
todas loiras, como a minha me.
     - E da?
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     - E eu tenho 26 anos e ainda estou solteira.
     - E da?
     - Eu quero ter uma carreira.
     - E da?
     - Nada disso se encaixa na imagem de filha
que a minha me quer. Ela tem ideias predefini-
das sobre o papel das mulheres, especialmente
mulheres sulistas de certo status social.
     - Estou percebendo que voc e sua me no
se do muito bem.
     - Voc acha?
     Ao olhar por cima do ombro, Gabby viu Al-
lison e Laird de mos dadas, andando pela trilha
que levava at o farol.
     - Talvez ela tenha um pouco de inveja -
disse ele. - Aqui est voc, levando a prpria
vida, com os prprios objetivos e sonhos, sonhos
independentes do mundo onde voc cresceu, o
mundo que ela esperava que voc habitasse,
simplesmente porque ela o habita.  necessrio
ter coragem para fazer algo diferente, e talvez o
                                              284/627


que voc acha ser a razo da decepo da sua
me em relao a voc , de uma maneira mais
profunda, uma decepo dela em relao a si
mesma.
     Ele comeu um pedao de frango e esperou
pela reao dela. Gabby estava desconcertada.
Aquilo era algo que ela nunca havia considerado.
     - No  assim - ela se forou a dizer.
     - Talvez no. J perguntou a ela?
     - Se ela se sentia decepcionada consigo
mesma? Acho que no. E no me diga que voc
confrontaria seus pais dessa maneira tambm.
Porque eu...
     - Eu no faria isso - disse ele, balanando a
cabea. - Sem chance. Mas tenho uma sensao
de que seus pais tm muito orgulho de voc,
mesmo que eles no saibam como demonstrar.
     Gabby no esperava aquele comentrio es-
tranho e um pouco comovente. Ela se inclinou
um pouco em direo a ele. - No sei se voc est
certo, mas obrigada assim mesmo. No quero que
                                               285/627


voc tenha uma impresso errada. Quero dizer,
ns conversamos ao telefone toda semana e
somos corteses. Mas s vezes eu queria que as
coisas fossem diferentes. Eu adoraria ter um tipo
de relacionamento em que ns realmente
gostssemos de passar
o tempo em famlia.
      Travis no disse nada, e Gabby percebeu,
para seu alvio, que ele no tentou produzir uma
soluo ou um conselho. Quando ela externava
aquele tipo de sentimento para Kevin, o primeiro
instinto dele era criar um plano para mudar as
coisas. Trazendo os joelhos para perto do tronco,
ela abraou suas pernas. - Me diga... qual a mel-
hor coisa que existe na profisso de veterinrio?
      - Os animais - disse ele. - E as pessoas. Mas
acho que provavelmente  isso que voc esperava
que eu dissesse, no ?
      Ela pensou em Eva Bronson. - Eu entendo o
que voc quer dizer em relao aos animais...
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      Ele levantou as mos. - No me entenda
mal. Tenho certeza de que algumas das pessoas
que vm at a minha clnica so bem parecidas
com algumas das pessoas com as quais voc pre-
cisa lidar.
      - Pessoas mandonas? Neurticas? Com
tendncia  hipocondria? Em outras palavras,
pessoas loucas?
      - Claro que sim. Pessoas so pessoas, e
muitas delas consideram seus animais de estim-
ao como membros da famlia. O que,  claro,
significa que, se elas tiverem a mais leve suspeita
de que algo est errado com seu animal, exigem
um exame completo. E isso quer dizer que o
trazem at a clnica pelo menos uma vez por se-
mana, e s vezes mais. Quase nunca h algo de
errado, mas eu e meu pai temos um sistema para
lidar com isso.
      - O que vocs fazem?
      - Colocamos uma etiqueta amarela no interi-
or da aba do envelope do pronturio do animal.
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Assim, se a "senhora preocupada" traz o Tot ou
Bichano, ns vemos a etiqueta, fazemos um ex-
ame rpido, e lhe dizemos que gostaramos de
ver o animal novamente dentro de uma semana,
s para ter certeza de que no h nada de errado.
Como eles vo trazer seus animais de qualquer
maneira, isso faz com que entrem e saiam da
clnica rapidamente. E todos ficam felizes. Ns
somos os veterinrios que se importam com os
bichos, seus donos ficam satisfeitos por eles es-
tarem bem, mas eles tinham razo em se preocu-
par, pois ns vamos querer examinar os bichos
novamente.
      - Eu fico imaginando como os mdicos da
minha clnica reagiriam se eu comeasse a colo-
car etiquetas amarelas em alguns pronturios.
      - A situao  to ruim assim?
      - s vezes. Toda vez que sai uma nova
edio da Selees do Reader's Digest, ou
quando h alguma notcia na mdia identificando
uma doena rara com sintomas especficos, a sala
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de espera fica cheia de crianas que, natural-
mente, apresentam todos aqueles sintomas.
      - Acho que eu agiria da mesma forma em re-
lao a meus filhos.
      Ela negou com a cabea. - Duvido. Voc me
parece mais o tipo de pessoa que vai andar ou
dormir at os sintomas desaparecerem. E, como
pai, eu no acho que voc seria to diferente.
      - Talvez voc esteja certa - ele admitiu.
      - Oh, eu estou certa.
      - Porque voc me conhece?
      - Ei - disse ela. - Voc e sua irm
comearam com isso.
      Durante a meia hora seguinte, eles ficaram
sentados lado a lado, conversando de um jeito
que parecia ser muito familiar. Eles conversaram
mais sobre a me e o pai de Gabby e suas person-
alidades opostas; ela lhe contou um pouco sobre
suas irms e como foi crescer com tanta presso
para se conformar com as regras impostas. Falou
sobre a faculdade e a escola especfica para
                                             289/627


assistentes mdicos, e dividiu algumas das suas
memrias das noites que havia passado em
Beaufort antes de se mudar definitivamente para
a cidade. Ela mencionou Kevin brevemente, o
que a surpreendeu. Mesmo sendo uma parte im-
portante da sua vida atualmente, a situao nem
sempre foi assim. De algum modo, conversar
com Travis a fazia se lembrar que havia se tor-
nado a mulher que era muito antes de conhecer
Kevin.
     Quando o longo dilogo comeou a se
aproximar do fim, ela percebeu que estava con-
fessando sua frustrao ocasional com o trabalho,
e que as palavras s vezes saam de sua boca de
um modo que no era exatamente o que ela pre-
tendia que fosse. Embora no houvesse mencion-
ado o Dr. Melton, ela contou histrias de alguns
dos pais que conheceu durante seu tempo na cln-
ica. No citou nomes, mas ocasionalmente Travis
sorria de uma maneira que sugeria que ele sabia
exatamente de quem ela estava falando.
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     Ao lado da churrasqueira e da mesa
dobrvel, Megan e Liz j haviam guardado a
maior parte da comida de volta nas caixas
trmicas. Laird e Allison haviam sado para cam-
inhar. Matt, por outro lado, havia deixado as cri-
anas enterrar metade do seu corpo na areia. E
elas no tinham coordenao motora suficiente
para impedir que a areia que estavam jogando
sobre Matt lhe invadisse os olhos, o nariz, a boca
e os ouvidos.
     Naquele instante, um frisbee aterrisou perto
dos ps de Gabby, e ela percebeu Joe se
aproximando.
     - Acho que  hora de irmos resgatar Matt -
disse ele, enquanto andava em direo a eles. Ele
apontou para o frisbee. - Querem jogar?
     - Est dizendo que eles precisam de
diverso?
     Joe sorriu. - Acho que no temos escolha.
     Travis olhou para ela. - Voc se importa?
     - No, v em frente.
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     - Preciso avis-la de que a situao no vai
ser nada agradvel. - Ele se levantou e gritou na
direo das crianas. - Ei, garotos! Esto prontos
para ver o campeo mundial de frisbee em ao?
     - Eeeeee!!! - disseram as crianas, em coro.
Elas largaram suas ps de areia e correram em
direo  gua.
     - Preciso ir - disse Travis. - Minha plateia
aguarda.
     Enquanto ele corria em direo ao lugar
onde o mar molhava a areia, Gabby percebeu que
estava seguindo os movimentos dele com os ol-
hos e sentindo algo que era vagamente parecido
com afeio.
     Passar o tempo com Travis no era como ela
imaginava que fosse ser. No havia fingimento,
poucas tentativas de impressionar, e ele parecia
ter uma noo intuitiva sobre quando deveria
ficar em silncio ou quando deveria responder.
Era aquela sensao de envolvimento que a levou
a embarcar em um relacionamento com Kevin.
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No era somente a atrao fsica que ela sentiu
nas noites que passaram juntos; mais do que isso,
ela ansiava pelo conforto que vivenciou durante
aqueles momentos tranquilos que eles passaram
conversando ou quando ele pegava suavemente
em sua mo quando eles caminhavam por um es-
tacionamento a caminho de um restaurante.
Naqueles momentos era fcil pensar que ele era a
pessoa que ela gostaria de ter ao seu lado pelo
resto da vida; momentos que ultimamente pare-
ciam ser cada vez mais raros.
      Gabby refletiu sobre isso enquanto obser-
vava Travis mergulhar para pegar o frisbee. Ele
deixou que o frisbee lhe atingisse no peito e pou-
sou na gua, fazendo uma grande onda. As cri-
anas riram, encantadas, como se fosse a coisa
mais engraada que j haviam visto. Quando eles
gritaram "Faz de novo, tio Travis!", ele se levan-
tou com um pulo, com os mesmos movimentos
exagerados. Deu trs passos longos e lentos, e
lanou o frisbee de volta para Joe. Com uma
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expresso de quem estava jogando um esporte
srio, ele se agachou como um jogador de beise-
bol, preparando-se para receber o prximo lana-
mento. Piscando o olho para as crianas, promet-
eu: - Da prxima vez, nem vou me molhar! - e
aquele comentrio foi seguido por mais um salto
fracassado em busca do frisbee, que arrancou
ainda mais risadas das crianas. Ele realmente
parecia gostar de se apresentar para as crianas, o
que apenas fazia aumentar a sensao de carinho
que Gabby sentia em relao a ele. Ela ainda es-
tava tentando entender o que sentia por Travis
quando ele finalmente emergiu do oceano e veio
andando em sua direo, agitando a gua dos ca-
belos. Um momento depois, ele se sentou na
areia ao lado dela e, quando eles acidentalmente
tocaram um no outro, Gabby visualizou, por um
breve momento, que os dois estariam sentados
lado a lado, como agora, em mais de 100 fins de
semanas diferentes no futuro.
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7 Cadeia montanhosa na regio das Montanhas Rochosas,
no noroeste do estado americano de Wyoming, prximo da
divisa com o estado de Idaho. (N. T.)
Captulo 11
O resto da tarde pareceu ser uma repetio dos
eventos da manh em ordem inversa. Eles pas-
saram mais uma hora na praia antes de recarregar
o barco; no caminho de volta, cada casal voou
mais uma vez no parapente, embora Gabby tenha
voado com Stephanie em seu segundo passeio.
No final da tarde, o barco estava navegando pelo
canal, e Travis parou para comprar camares de
um pescador local que ele obviamente conhecia
bem. Quando finalmente atracaram no cais prx-
imo  casa de Travis, as trs crianas j estavam
dormindo profundamente. Os adultos estavam
despenteados e contentes, e seus rostos estavam
bronzeados pelas horas que haviam passado ao
sol.
     Quando o barco estava descarregado, os ca-
sais partiram um a um, at restarem apenas
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Gabby, Stephanie e Travis. Travis estava no
ancoradouro com Moby; ele j havia estendido o
parapente para que pudesse secar e lavava o
barco com uma mangueira de jardim.
     Stephanie espreguiou-se, esticando os
braos acima da cabea. - Acho que vou colocar
o p na estrada tambm. Tenho um jantar com
meus pais esta noite. Eles ficam magoados se eu
venho para Beaufort e no passo tempo suficiente
com eles. Voc sabe como . Vou l me despedir
de Travis.
     Gabby assentiu, observando letargicamente
enquanto Stephanie se curvava por cima do cor-
rimo do deque.
     - Ei, Travis - gritou ela. - Estou indo em-
bora. Obrigada por tudo!
     - Obrigado por ter vindo - gritou ele, com
um aceno.
     - Acho que seria melhor acender a
churrasqueira de novo. Gabby me disse que est
morrendo de fome!
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     A letargia de Gabby desapareceu imediata-
mente, mas, antes que ela pudesse dizer qualquer
coisa, viu Travis fazer um sinal afirmativo com o
polegar.
     - Chego a em 1 minuto para acender a
churrasqueira - disse ele. - Deixe s eu acabar
com a limpeza aqui.
     Stephanie passou rapidamente por Gabby,
obviamente contente com sua engenharia social.
     - Por que voc disse aquilo? - sibilou
Gabby.
     - Porque eu vou para a casa dos meus pais e
no quero que meu pobre irmo tenha de passar o
resto da noite sozinho. Ele gosta de ter pessoas
por perto.
     - Bem, e se eu quiser ir para casa?
     -  s dizer que voc mudou de ideia
quando ele chegar aqui. Ele no vai se importar.
Tudo que fiz foi ganhar tempo para que voc
pensasse no caso, pois garanto que ele iria lhe
perguntar, de qualquer jeito. E depois, se voc
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dissesse no, ele perguntaria mais uma vez. - Ela
colocou sua bolsa por cima do ombro. - Foi
muito bom conhec-la. Fico feliz pelo fato de a
oportunidade ter surgido. Voc costuma ir at a
regio de Raleigh?
      - s vezes - disse Gabby, ainda impression-
ada com o que havia acabado de acontecer, e sem
saber se devia se sentir alegre ou furiosa com
Stephanie.
      - Que bom. Podemos almoar um dia
desses. Eu a convidaria para um brunch amanh,
mas realmente preciso ficar com meus pais. - Ela
tirou os culos de sol e os limpou em sua camis-
eta. - Vou v-la de novo?
      - Claro - afirmou Gabby.
      Stephanie foi at a porta do terrao, abriu-a
e depois sumiu por dentro da casa, cortando cam-
inho at chegar  porta da frente. Naquele mo-
mento, Travis j havia se afastado da doca e
Moby vinha trotando alegremente ao seu lado.
Pela primeira vez no dia, ele havia vestido uma
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camisa de mangas curtas, mas a havia deixado
desabotoada.
      - Me d um segundo para acender as brasas.
Que tal uns espetinhos de camaro?
      Ela debateu durante um instante antes de
perceber que era aquilo ou ir para casa jantar
comida congelada aquecida no micro-ondas e as-
sitir a algum programa entediante na televiso, e
no conseguia evitar a lembrana do que sentiu
enquanto observava Travis brincando na praia
com as crianas.
      - Me d alguns minutos para trocar de
roupa, pode ser?
      Enquanto Travis cuidava da churrasqueira,
Gabby foi ver como Molly estava, e viu que a ca-
dela estava dormindo profundamente ao lado dos
filhotes.
      Ela tomou uma chuveirada rpida antes de
vestir uma saia leve de algodo e uma blusa. De-
pois de secar os cabelos, ela debateu consigo
mesma se devia aplicar sua maquiagem, e decidiu
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que usaria apenas um pouco de delineador ao
redor dos olhos. O sol havia deixado seu rosto
com um pouco de cor, e, quando ela se afastou do
espelho, percebeu que fazia alguns anos que
havia jantado com um homem que no fosse
Kevin.
     Seria possvel argumentar que aquilo era
simplesmente uma continuao do dia, ou que
Stephanie a havia forado a aceitar aquele jantar,
mas sabia que nada daquilo era totalmente
verdadeiro.
     Ainda assim, seria sua deciso de jantar com
Travis algo de que ela devia se sentir culpada, ou
at mesmo esconder de Kevin? Seu primeiro im-
pulso foi insistir consigo mesma que ela no teria
motivo para no contar a Kevin. O dia havia sido
inofensivo - tecnicamente, ela havia passado
mais tempo com Stephanie do que com Travis.
Ento, qual era o problema?
     "Voc vai jantar sozinha esta noite",  claro,
soou uma voz distante no fundo da sua cabea.
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     Mas ser que aquilo era realmente um prob-
lema? Stephanie estava certa - estava com fome
novamente, e seu vizinho tinha comida. Uma ne-
cessidade humana bsica. No iria dormir com
ele. No tinha nem mesmo a inteno de beij-lo.
Eles eram amigos, e isso era tudo. E, se Kevin es-
tivesse ali, tinha certeza de que Travis iria
convid-lo tambm.
     "Mas ele no est aqui", insistiu aquela voz.
"Voc vai contar a Kevin sobre seu pequeno
jantar a dois?"
     "Com certeza. Com certeza eu vou contar a
ele", murmurou ela, tentando silenciar aquela
voz. Havia vezes em que ela absolutamente de-
testava aquela voz. Pois a voz se parecia com a
da sua me.
     Decidida, ela se olhou no espelho uma l-
tima vez e, contente com o que viu, saiu pela
porta da varanda e caminhou sobre a grama.
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     Quando Gabby passou por entre a cerca viva
e apareceu no gramado de Travis, ele notou os
movimentos dela com o canto do olho e percebeu
que estava olhando fixamente enquanto ela se
aproximava. Quando ela subiu ao deque, ele sen-
tiu uma estranha mudana na atmosfera, que o
pegou um pouco desprevenido.
     - Oi - disse ela, simplesmente. - Quanto
tempo at o jantar ser servido?
     - Alguns minutos - respondeu ele. - Voc
chegou bem na hora.
     Ela olhou para os espetos de camaro com
pimentes coloridos e cebolas. Sentiu seu es-
tmago roncar apenas com o cheiro e a viso da-
quilo tudo. - Uau - disse ela, esperando que ele
no conseguisse ouvi-la. - Parece estar timo.
     - Quer beber alguma coisa? - ele apontou
para o outro lado do deque. - Acho que ainda tem
cerveja e refrigerantes na caixa trmica.
     Enquanto ela andava pelo deque, Travis
tentou ignorar o balano suave dos quadris de
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Gabby, perguntando-se que diabos havia dado
nele. Ele a observou enquanto ela abriu a tampa,
remexeu o contedo da caixa trmica e retirou
duas cervejas. Quando ela voltou para lhe en-
tregar uma, ele sentiu os dedos dela tocarem os
seus. Ele tirou a tampa da garrafa e tomou um
longo gole, olhando para ela por cima da garrafa.
Em silncio, ela olhava em direo  gua. O sol
pairando por cima do horizonte arborizado ainda
brilhava, mas seu calor havia diminudo e as
sombras estavam gradualmente ficando maiores
por cima do gramado.
     - Foi por isso que comprei a minha casa -
disse ela, finalmente. - Para poder ver paisagens
como esta.
     -  lindo, no  mesmo? - ele percebeu que
estava com os olhos grudados nela e afastou as
implicaes subconscientes daquele ato. Limpou
a garganta. - E como est Molly?
     - Parece estar bem. Estava dormindo quando
eu fui dar uma olhada nela.
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     Ela olhou em volta. - E onde est Moby?
     - Acho que foi para a frente da casa. Ele
ficou chateado comigo quando percebeu que eu
no ia lhe dar alguns pedaos.
     - Ele come camaro?
     - Ele come de tudo.
     - Bem tpico - disse ela, piscando o olho. -
Tem algo que eu possa fazer para ajudar?
     - Acho que no. A menos que voc queira
pegar alguns pratos na cozinha.
     - Deixe comigo - disse ela, concordando. -
Onde voc os guarda exatamente?
     - No armrio  esquerda da pia. Ah, traga o
abacaxi tambm. Est em cima do balco. E a
faca. Deve estar por perto.
     - Volto em um minuto.
     - Se importa de trazer tambm alguns tal-
heres? Esto na gaveta perto da lavadora de
louas.
     Quando ela se virou para entrar na casa,
Travis percebeu que a estava estudando. Havia
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definitivamente alguma coisa em Gabby que o
interessava. No era simplesmente o fato de ser
atraente; havia mulheres bonitas por toda parte.
Mas havia algo na inteligncia franca e no humor
natural que sugeriam um discernimento firme
entre o que  certo e o que  errado. Beleza e
bom senso eram uma combinao rara, e mesmo
assim ele duvidava que ela soubesse que possua
aquele dom.
     Quando ela apareceu na porta da cozinha, os
espetos estavam prontos. Ele colocou dois em
cada prato, junto com algumas fatias de abacaxi,
e eles se sentaram  mesa. Mais adiante, o riacho
de guas lentas refletia o cu como um espelho, e
a tranquilidade s foi perturbada por uma re-
voada de estorninhos que passou por cima deles.
     -Isto est uma delcia - comentou ela.
     - Obrigado.
     Ela tomou um gole de cerveja e apontou
para o barco. - Voc vai sair para navegar aman-
h novamente?
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      - Acho que no. Amanh, provavelmente, eu
vou sair para dar umas voltas.
      - Vai andar a cavalo?
      Ele balanou a cabea. - No, vou com a
minha moto. Quando estava na faculdade, com-
prei uma Honda Shadow 1983, que j estava bem
maltratada, com o objetivo de restaur-la e
vend-la para ganhar algum dinheiro rpido.
Digamos que a coisa no foi to rpida, e duvido
que algum dia ganharei algum dinheiro com ela.
Mas posso dizer que fiz todo
o trabalho sozinho.
      - Deve ser reconfortante.
      - Intil talvez seja uma palavra melhor. No
 uma coisa muito prtica, pois ela tem uma
tendncia a quebrar no meio do caminho, e 
quase impossvel achar peas originais. Mas esse
 o preo que se paga quando queremos ter um
clssico.
      A cerveja estava descendo com facilidade, e
ela tomou outro gole.
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      - Nem imaginava que fosse assim. Eu nem
sei trocar o leo do meu carro.
      - J andou de moto?
      - No.  perigoso demais.
      - O perigo depende mais do piloto e das
condies da estrada do que da motocicleta.
      - Mas a sua sempre quebra.
      -  verdade. Mas eu gosto de viver no
limite.
      -Percebi que a sua personalidade  assim.
      - E isso  bom ou ruim?
      - Nem um, nem outro. Mas, definitivamente,
 imprevisvel. Especialmente quando tento asso-
ciar isso ao fato de que voc  veterinrio. Parece
ser uma profisso bem estvel. Quando penso em
veterinrios, automaticamente penso em homens
de famlia completos, com uma esposa que usa
avental e que leva os filhos ao ortodontista.
      - Em outras palavras, bem entediante. Como
se a coisa mais emocionante que eu pudesse fazer
fosse sair para jogar golfe.
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     Ela pensou em Kevin. - Existem coisas
piores.
     - Para que voc saiba, eu sou um homem de
famlia - afirmou Travis. - Exceto pela parte da
famlia.
     -  meio que um pr-requisito, voc no
acha?
     - Acho que ser um homem de famlia  algo
mais prximo de ter uma viso de mundo ad-
equada, em vez da condio real de ter uma
famlia.
     - Boa tentativa - ela apertou os olhos ao ol-
har para ele, sentindo os efeitos da cerveja. - No
sei se consigo imagin-lo casado. De algum
modo, parece no combinar com voc. Voc me
parece mais o tipo solteiro eterno, que sai com
vrias mulheres.
     - Voc no  a primeira pessoa que diz isso.
Inclusive, se eu no tivesse visto voc na praia,
diria que voc passou muito tempo escutando o
que meus amigos diziam hoje.
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     - Eles falam coisas muito boas a seu
respeito.
     -  por isso que eu os levo para passear de
barco.
     - E Stephanie?
     - Ela  um enigma. Mas tambm  minha
irm. Ento, o que  que eu posso fazer? Como
eu disse, sou ligado  famlia.
     - Por que  que estou com a sensao de que
voc est tentando me impressionar?
     - Talvez eu esteja. Me fale sobre o seu
namorado. Ele tambm  um cara ligado 
famlia?
     - No  da sua conta - disse ela.
     - Certo, ento no me conte a respeito dele.
Me fale sobre como foi crescer em Savannah.
     - Eu j lhe falei sobre a minha famlia. O
que mais voc quer que eu lhe diga?
     - Me diga qualquer coisa. Ela hesitou. - Era
quente no vero. Bem quente. E mido tambm.
     - Voc  sempre assim, to vaga?
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     - Eu acho que um pouco de mistrio deixa
as coisas mais interessantes.
     - Seu namorado tambm acha isso?
     - Meu namorado me conhece.
     - Ele  alto?
     - Que importncia isso tem?
     - Nenhuma. Estou s tentando puxar
assunto.
     - Ento vamos falar sobre outra coisa.
     -Tudo bem. Voc j surfou alguma vez?
     - No.
     - J mergulhou?
     - No.
     - Que pena.
     - Por qu? Porque eu no sei o que estou
perdendo?
     - No - respondeu ele. - Porque, agora que
meus amigos esto casados e tm filhos, preciso
encontrar algum que queira fazer essas coisas
regularmente.
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     - At onde percebi, voc parece encontrar
maneiras de se divertir sozinho. Voc sai para
praticar wakeboarding ou para andar de jet ski as-
sim que sai do trabalho.
     - A vida tem mais do que apenas esses dois
esportes. Pense no parapente, por exemplo. Os
dois riram juntos, e ela percebeu que gostava do
som da risada dele.
     - Tenho uma pergunta sobre a faculdade de
veterinria - disse ela, tentando mudar de as-
sunto, mas sem se importar tanto com o rumo que
a conversa deles estava tomando. Era bom poder
simplesmente relaxar, desfrutar da agradvel
companhia de Travis. Aquilo fazia com que ela
se sentisse bem  vontade. - Eu sei que  uma
pergunta boba, mas sempre imaginei o quanto de
anatomia voc precisa estudar. Por exemplo,
quantos tipos diferentes de animais?
     - S os principais - disse ele. - Vacas,
cavalos, porcos, ces, gatos e galinhas.
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     - E voc tem de saber praticamente tudo a
respeito deles?
     - Em relao  anatomia, sim.
     Ela pensou naquela resposta. - Nossa. Achei
que estudar pessoas fosse difcil o bastante.
     - Sim, mas lembre-se, a maioria das pessoas
no vai me processar se a galinha deles morrer.
Sua responsabilidade  muito maior, especial-
mente por cuidar de crianas. - Ele parou por um
momento. - E aposto que voc  tima com eles.
     - Por que voc diz isso?
     - Voc tem uma aura de gentileza e
pacincia.
     - Ah, certo, claro que tenho. Acho que voc
tomou muito sol na cabea hoje.
     - Provavelmente - disse ele. Ele apontou
para a garrafa que ela tinha nas mos ao se le-
vantar. - Quer mais uma?
     Ela nem havia percebido que tinha bebido
toda a sua cerveja. -  melhor no.
     - Prometo no contar a ningum.
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      - No  isso. Eu no quero lhe dar a im-
presso errada a meu respeito.
      - Duvido que isso seja possvel.
      - Acho que meu namorado no vai gostar.
      - Como ele no est aqui, no h problemas,
no ? Alm disso, estamos comeando a nos
conhecer. Que mal h nisso?
      - Tudo bem - disse ela, com um suspiro. -
Mas esta  a ltima.
      Ele trouxe duas garrafas e as abriu. Assim
que ela tomou um gole e sentiu a ao do lcool
em seu corpo, ouviu a voz dentro de sua cabea
sussurrar: "Voc no deveria estar fazendo isso".
      - Acho que voc iria gostar dele - disse ela,
tentando restabelecer alguns limites. - Ele  um
cara muito legal.
      - Tenho certeza de que .
      - E, sim, em relao  pergunta que voc
fez, ele  alto.
      - Achei que voc no quisesse falar sobre
ele.
                                              314/627


      - No quero. S quero que voc saiba que eu
o amo.
      - O amor  uma coisa maravilhosa. Faz a
vida valer a pena. Eu amo amar.
      - Voc fala como se tivesse bastante exper-
incia. Mas mantenha em mente que o verdadeiro
amor dura para sempre.
      - Os poetas diriam que o verdadeiro amor
sempre acaba em tragdia.
      - E voc  poeta?
      - No. Estou s lhe contando o que eles dis-
seram. No estou dizendo que concordo com
eles. Como voc, prefiro finais felizes romnti-
cos. Meus pais so casados h um bom tempo, e
 isso que quero para mim no futuro, tambm.
      Gabby no conseguiu evitar o pensamento
de que ele era muito bom nesse tipo de conversa
com nuances de flerte, e ela fez questo de se
lembrar que aquilo era assim porque ele tinha
bastante prtica. Ainda assim, ela tinha de ad-
mitir que havia algo lisonjeiro na ateno que ele
                                               315/627


lhe dava, mesmo sabendo que Kevin no gostaria
nada daquilo.
      - Voc sabia que eu quase comprei a sua
casa?
      Ela balanou a cabea, surpresa.
      - Ela foi posta  venda na mesma poca que
esta aqui. Eu achei que a diviso dos cmodos da
sua casa era melhor do que a da minha, mas esta
j tinha o deque, a garagem para o barco e o el-
evador. Foi uma escolha difcil.
      - E agora voc tem uma banheira de hidro-
massagem no deque tambm.
      - Voc gosta disso? - disse ele, levantando
uma sobrancelha. - Podemos entrar nela mais
tarde, depois que o sol se puser.
      - Deixei meu biquni em casa.
      - Trajes de banho so totalmente opcionais,
claro.
      Ela revirou os olhos, forando-se a ignorar o
calafrio que havia percorrido seu corpo. - Acho
que no so, no.
                                                316/627


     Ele se espreguiou, parecendo satisfeito
consigo mesmo. - Que tal apenas molharmos os
ps ento?
     -Acho que dou conta de fazer isso.
     -  um comeo.
     - E tambm um fim.
     -  claro.
     Na outra margem do rio, o sol poente estava
mudando o azul do cu para uma paleta de cores
douradas que se estendia at o horizonte. Travis
puxou outra cadeira para perto de si e colocou
seus ps sobre ela. Gabby olhou por sobre a gua,
com uma sensao de bem-estar que ela no se
lembrava de sentir h muito tempo.
     - Me fale sobre a frica - sugeriu ela. -  to
diferente quanto parece?
     - Para mim, foi bem diferente - disse ele. -
Eu no parava de pensar em voltar para l. Como
se algo nos meus genes reconhecesse aquele
lugar como um lar, mesmo que ali haja to pouca
coisa que me lembre do mundo de onde eu vim.
                                                317/627


      - Voc viu algum leo ou elefante?
      - Um monte.
      - Foi uma experincia surpreendente?
      - Algo que nunca vou esquecer.
      Ela ficou em silncio por um momento. -
Estou com inveja.
      - Ento viaje para l. E, se voc for mesmo,
no se esquea de visitar as cachoeiras de Victor-
ia Falls.  o lugar mais maravilhoso que j vi. O
arco-ris, a nvoa, o rugido incrvel das guas... 
como se voc estivesse na beirada do mundo.
      Ela sorriu, pensando naquilo. - Quanto
tempo voc ficou l?
      - Em qual das viagens?
      - Quantas vezes voc esteve l?
      - Trs.
      Ela tentou se imaginar vivendo uma vida to
livre, mas no conseguiu. - Me fale sobre todas
elas ento.
      Eles conversaram tranquilamente durante
um longo tempo, e o crepsculo deu lugar 
                                              318/627


escurido. Suas descries detalhadas das pess-
oas e lugares eram vvidas e palpveis, fazendo
com que Gabby se sentisse como se tivesse
viajado com ele, e ela se perguntava quantas
vezes, e com quantas outras mulheres ele havia
dividido aquelas histrias. Em meio aos relatos,
entretanto, ele se levantou da mesa e trouxe duas
garrafas de gua da cozinha, respeitando o
comentrio que ela havia feito anteriormente, e a
apreciao que ela sentiu foi somada ao seu senti-
mento crescente de afeio por Travis. Embora
soubesse que era errado, ela era incapaz de im-
pedir aquilo.
     Quando eles se levantaram para levar os
pratos para dentro da casa, as estrelas j estavam
brilhando no cu. Enquanto Travis lavava os
pratos, Gabby examinava a sala de estar,
pensando que no era to desorganizada quanto
ela esperava que fosse para a casa de um
solteiro. A moblia era confortvel e estilosa,
com sofs de couro marrom, mesas de canto em
                                              319/627


madeira nobre e luminrias de lato. Embora a
sala fosse limpa, no era de forma alguma uma
limpeza obsessiva. Havia revistas empilhadas
sobre a televiso, e ela percebeu que havia uma
fina camada de poeira sobre o aparelho de som,
que, de algum modo, parecia caber bem ali. Em
vez de quadros artsticos enfeitando as paredes,
havia psteres de cinema que refletiam o gosto
ecltico de Travis: Casablanca em uma das
paredes, Duro de Matar em outra, bem ao lado
de Esqueceram de Mim. Por trs dela, Gabby
ouviu quando a torneira se fechou, e, um mo-
mento depois, Travis entrou na sala.
     Ela sorriu. - Est pronta para molhar os ps
na banheira?
     - Desde que voc no exagere no traje de
banho.
     Eles voltaram para o lado de fora da casa e
foram at a banheira ao ar livre. Travis retirou a
lona que a cobria e colocou-a de lado enquanto
Gabby removia suas sandlias; um momento
                                               320/627


depois, eles estavam sentados lado a lado, com os
ps balanando para a frente e para trs na gua
da banheira. Gabby olhou para cima, traando
imagens no cu.
     - No que est pensando? - perguntou Travis.
     - Nas estrelas - disse ela. - Eu comprei um
livro sobre astronomia, e estou vendo se consigo
me lembrar de alguma coisa.
     - E consegue?
     - S as maiores constelaes. As mais bvi-
as - ela apontou para a casa. - Na direo da
chamin, cerca de dois palmos para cima, est o
cinturo de rion. Betelgeuse est no ombro es-
querdo de rion, e Rigel  o nome do seu p. Ele
tem dois ces de caa. A estrela brilhante daquele
lado  Sirius, e ela  uma parte da constelao do
Co Maior, e Procyon  uma parte da constelao
do Co Menor.
     Travis avistou o cinturo de rion e, embora
tentasse seguir as instrues que ela lhe dava, no
                                              321/627


conseguia identificar as outras estrelas. - Acho
que no consigo ver as outras duas.
     - Eu tambm no. Mas eu sei que elas esto
l.
     Ele apontou por cima do seu ombro. - Eu
consigo ver a Ursa Maior, bem ali. Mas  a nica
constelao que eu consigo identificar.
     - Voc sabia que a figura do urso est asso-
ciada a essa constelao desde a era glacial?
     - No sabia.
     - Eu adoro os nomes das constelaes,
mesmo que no consiga identificar todas elas
ainda. Os Ces de Caa, a Cabeleira de Berenice,
as Pliades, quila, Cassiopeia... so nomes que
parecem msica aos meus ouvidos.
     - Imagino que seja um de seus novos
hobbies.
     -  mais como uma boa inteno escondida
nos detritos da vida diria. Mas, por alguns dias,
eu fiquei realmente interessada no assunto.
                                              322/627


     Ele riu. - Pelo menos voc  honesta a
respeito.
     - Eu conheo minhas limitaes. Mesmo as-
sim, gostaria de saber mais. Quando eu estava na
stima srie, tive um professor que adorava astro-
nomia. Ele tinha uma maneira muito particular de
falar sobre as estrelas e fazia com que voc se
lembrasse delas para sempre.
     - O que ele dizia?
     - Que olhar para as estrelas era como olhar
para o passado, pois algumas estrelas esto to
longe que sua luz demora milhes de anos apenas
para chegar at ns. Que ns vemos estrelas no
como elas so agora, mas como elas eram quando
os dinossauros andavam pelo planeta. Todo
aquele conceito me pareceu... espantoso, de al-
gum modo.
     - Ele parece ser um excelente professor.
     - Ele era. E ns aprendemos muito, embora
eu j tenha esquecido a maior parte, como voc
pode ver. Mas a sensao de admirao ainda
                                              323/627


est l. Quando olho para o cu, sei que algum
estava fazendo exatamente a mesma coisa h mil-
hares de anos.
     Travis a observou, encantado com o som da
voz dela em meio  escurido.
     - E o que  mais estranho - continuou ela - 
que, mesmo sabendo muito mais a respeito do
Universo, as pessoas comuns hoje sabem menos
sobre o cu do que os nossos ancestrais, mesmo
sem telescpios ou matemtica, ou mesmo sem
saber que o mundo era redondo, eles usavam as
estrelas para se orientar, examinavam o cu em
busca de constelaes especficas para saber
quando deviam semear seus campos, usavam as
estrelas quando erguiam suas estruturas, apren-
deram a prever eclipses... tudo isso me faz ima-
ginar como era possvel viver de maneira to fiel,
apenas seguindo as estrelas.
     Perdida em pensamentos, ela ficou em siln-
cio por um longo momento. - Desculpe.
                                               324/627


Provavelmente estou lhe chateando com essa
conversa.
     - De modo algum. Na verdade, nunca mais
vou pensar nas estrelas da mesma forma
novamente.
     - Voc est zombando de mim.
     - No estou, absolutamente - disse ele, srio.
     Ela sentiu que o olhar dele prendia sua
ateno. Teve a sbita sensao de que ele estava
a ponto de beij-la, e ela rapidamente virou o
rosto. Naquele momento, ela conseguia ouvir os
sapos coaxando na grama molhada e os grilos
cantando nas rvores. A lua havia alcanado o
seu pice, lanando um brilho prateado ao redor
deles. Gabby moveu seus ps nervosamente na
gua, sabendo que deveria ir embora.
     - Acho que meus ps esto ficando en-
rugados com a gua - disse ela.
     - Quer que eu v pegar uma toalha?
     - No, est tudo bem. Mas  hora de eu ir
embora. Est ficando tarde.
                                            325/627


     Ele se levantou e estendeu a mo para ela.
Quando ela segurou na mo de Travis, sentiu o
calor e a fora dele. - Eu a levo at sua casa.
     - Eu sei o caminho de volta.
     - Pelo menos at a cerca viva, ento.
     Prximo  mesa, ela pegou suas sandlias e
viu que Moby estava vindo em direo a eles. Ele
trotou at onde eles estavam assim que eles pis-
aram na grama, com a lngua balanando alegre-
mente para fora da boca. Moby andou ao redor
deles antes de sair em disparada em direo 
gua, como se quisesse se certificar de que no
havia nada escondido ali. Ele parou com as patas
dianteiras batendo na lama, e depois correu em
outra direo.
     - Moby tem um entusiasmo e curiosidade
imensos - observou Travis.
     - Assim como voc.
     - Mais ou menos. Tirando o fato de eu no
rolar por cima de restos de peixe.
                                              326/627


     Ela sorriu. A grama estava macia por baixo
de seus ps, e eles chegaram  cerca viva alguns
momentos depois. - Eu me diverti muito hoje -
disse ela.
     - Eu tambm. E obrigado pela aula de
astronomia.
     - Vou fazer melhor da prxima vez. Vou im-
pressionar voc com meu conhecimento de pro-
pores astronmicas.
     Ele riu. - Boa piada. Voc pensou nisso
agora?
     - No, esta era uma das piadas do meu pro-
fessor.  o que ele dizia quando a aula estava
terminando.
     Travis remexeu seus ps e depois voltou a
olhar para Gabby. - O que voc vai fazer
amanh?
     - Nada de especial. Sei que preciso ir ao su-
permercado. Por qu?
     - Quer dar uma volta comigo?
     - Na sua moto?
                                              327/627


      - Quero lhe mostrar uma coisa. E vai ser di-
vertido, garanto. Inclusive, vou fazer o almoo.
      Ela hesitou. Era uma pergunta simples, e ela
sabia qual devia ser a resposta, especialmente se
ela quisesse evitar que sua vida se complicasse.
"Acho que no  uma boa ideia", era tudo o que
ela tinha a dizer, e aquilo estaria acabado.
      Ela pensou em Kevin e na culpa que ela
havia sentido alguns minutos antes em relao 
escolha que ela havia feito quando se mudou para
c. Mesmo assim, apesar de todas essas coisas,
ou at mesmo por causa delas, percebeu que es-
tava comeando a sorrir.
      - Claro - disse ela. - Que horas?
      Se ele pareceu surpreso com a resposta dela,
no demonstrou.
      - Que tal por volta das 11? Eu deixarei que
voc durma at mais tarde.
      Ela levou uma das mos at o seu cabelo. -
Bem, obrigada novamente...
      - De nada. At amanh.
                                              328/627


     Por um instante, ela pensou que iria simples-
mente se virar e sair. Mas novamente os seus ol-
hos se encontraram e ficaram fixos em Travis por
um pouco mais de tempo, e, antes que ela se
desse conta do que estava acontecendo, sentiu
Travis colocar uma mo no seu quadril e pux-la.
Ele a beijou, seus lbios nem muito suaves nem
muito agressivos contra os dela. Levou um in-
stante para que o crebro de Gabby registrasse o
que estava acontecendo, e ela o empurrou.
     - O que voc est fazendo? - disse ela, tent-
ando recobrar o flego.
     - No consegui evitar. - Ele deu de ombros,
sem parecer que iria se desculpar por aquilo. -
Simplesmente me pareceu a coisa certa a fazer.
     - Voc sabe que eu tenho namorado - ela re-
petiu, sabendo que, no fundo, no havia se im-
portado em ser beijada, e se odiando por aquilo.
     - Desculpe-me se eu fiz voc se sentir mal -
disse ele.
                                             329/627


      - Tudo bem - disse ela, com as mos para
cima, mantendo-o  distncia. - Esquea isso.
Mas no vai acontecer de novo, entendeu?
      - Certo.
      - Certo - ela repetiu, subitamente querendo
ir para casa. No devia ter se deixado levar por
aquilo. Ela sabia o que iria acontecer, havia at
mesmo advertido a si mesma, e tinha razo sobre
tudo aquilo.
      Ela se virou e comeou a atravessar a cerca
viva, com a respirao rpida. Ele a havia bei-
jado! Ela ainda no conseguia acreditar. Embora
quisesse marchar diretamente para a sua porta,
certificando-se de que ele percebia o quanto ela
havia sido firme sobre no querer que aquilo vol-
tasse a acontecer, ela deu uma olhada por cima
do seu ombro e ficou mortificada ao perceber que
ele a viu fazendo aquilo. Ele levantou uma das
mos em um aceno tranquilo.
      - Vejo voc amanh - disse ele.
                                              330/627


     Ela no se incomodou em dar uma resposta,
pois no havia realmente nenhum motivo para
fazer aquilo. Pensar sobre o que poderia aconte-
cer no dia seguinte a deixou com uma sensao
de pavor. Por que ele tinha de arruinar as coisas?
Por que eles no poderiam apenas ser vizinhos e
amigos? Por que as coisas haviam terminado
assim?
     Ela fechou a porta por trs de si e foi at o
quarto, fazendo o melhor que podia para aliment-
ar a raiva que ela achava que aquela situao
merecia. Deveria ter funcionado, no fosse por
suas pernas bambas, o corao acelerado e a per-
cepo constante de que Travis Parker a achava
desejvel o bastante para querer beij-la.
Captulo 12
Depois que Gabby foi embora, Travis esvaziou a
caixa trmica. Querendo ficar um pouco com
Moby, ele pegou a bola de tnis, mas, mesmo en-
quanto os dois se entretinham com o familiar
jogo de buscar a bolinha, seus pensamentos con-
tinuavam girando em torno de Gabby. Mesmo
com Moby correndo pelo quintal, no conseguia
afastar a lembrana de como os olhos de Gabby
pareciam se apertar quando ela sorria ou a admir-
ao em sua voz enquanto ela citava os nomes
das estrelas e constelaes. Ele ainda se pergun-
tava sobre o relacionamento que ela tinha com o
namorado. Curiosamente, ela no havia dito
muita coisa a respeito dele - quaisquer que
fossem suas razes, Travis tinha a sensao de
que aquela era uma maneira eficiente de mant-lo
em dvida.
                                              332/627


     No havia como negar que ele estava in-
teressado nela. Era algo estranho, entretanto. Se
pudesse tomar seu histrico como referncia, ela
realmente no fazia o seu tipo. Ela no parecia
ser uma mulher particularmente delicada ou
sensvel, como uma flor de estufa - exatamente o
tipo de mulher que ele costumava atrair s pen-
cas. Quando ele a provocava, ela lhe devolvia a
provocao; quando forava os limites, ela no
demorava a coloc-lo de volta em seu lugar.
Gostava da natureza espirituosa que ela tinha, seu
autocontrole e sua autoconfiana, e ele especial-
mente gostava do fato de que ela parecia no ter
conscincia de que tinha essas qualidades. Todo
aquele dia lhe pareceu ser uma dana tentadora,
na qual cada um deles havia se alternado no pa-
pel de condutor, um empurrando, o outro puxan-
do, e vice-versa. Ele imaginava se uma dana
como aquela poderia durar para sempre.
     Aquilo havia sido a runa de seus relaciona-
mentos anteriores. At mesmo nos estgios
                                               333/627


iniciais, tudo sempre havia sido unilateral. Geral-
mente, era ele quem fazia a maioria das decises
sobre o que fazer, onde comer, em qual casa ficar
ou a qual filme assistir. Essa parte no o inco-
modava; o que o incomodava era que, com o pas-
sar do tempo, essa unilateralidade comeava a
definir tudo o que havia no relacionamento, o que
inevitavelmente fazia com que ele se sentisse
como se estivesse namorando com uma fun-
cionria em vez de uma parceira. Francamente,
aquilo o deixava enfastiado.
      Era estranho. Ele nunca havia pensado
muito sobre seus relacionamentos anteriores
daquela maneira. Geralmente nem pensava sobre
eles. De algum modo, passar o dia com Gabby o
fez pensar no que ele estava perdendo. Relem-
brou das conversas que teve durante o dia e per-
cebeu que queria mais daquelas conversas e quer-
ia mais dela. No devia t-la beijado. Travis sen-
tiu uma exploso inconveniente de ansiedade -
ele havia passado dos limites. Mas agora tudo o
                                             334/627


que ele podia fazer era esperar e ver, e esperar
que ela no mudasse de ideia sobre o passeio do
dia seguinte. O que ele podia fazer? Nada, perce-
beu. Absolutamente nada.
     - Como foram as coisas? - perguntou
Stephanie.
     Sentindo-se um pouco desorientado na man-
h seguinte, Travis mal conseguiu abrir os olhos.
- Que horas so?
     - No sei, mas  cedo.
     - Por que voc est me ligando?
     - Porque eu quero saber como foram as
coisas com Gabby.
     - O sol j nasceu, pelo menos?
     - No mude de assunto. Vamos, conte tudo.
     - Voc est sendo muito enxerida.
     - Eu sou uma garota enxerida. Mas no se
preocupe. Voc j respondeu ao que eu queria
saber.
     - Eu no respondi nada.
                                                335/627


     - Exatamente. Presumo que vocs vo se ver
hoje tambm.
     Travis olhou para o telefone, imaginando
como sua irm sempre parecia saber de tudo.
     - Steph...
     - Diga a ela que eu mandei um "oi". Preciso
     ir agora. Obrigada por me manter
     informada.
     Ela desligou o telefone antes que Travis
     tivesse tempo de responder.
     O primeiro pensamento que Gabby teve ao
acordar na manh seguinte foi o de que gostava
de pensar que era uma boa pessoa. Enquanto
crescia, ela sempre havia tentado seguir as regras.
Mantinha seu quarto limpo, estudava para as
provas e fazia o melhor que podia para se com-
portar quando seus pais estivessem por perto.
     No foi o beijo da noite passada que a deix-
ou em dvida sobre sua integridade. Ela no teve
nada a ver com aquilo - foi tudo culpa de Travis.
E o dia havia sido inocente o bastante - ela ficaria
                                             336/627


perfeitamente contente ao contar tudo para Kev-
in. No, a culpa que ela sentia tinha mais a ver
com o fato de que ela havia retornado de livre e
espontnea vontade para jantar com Travis.
Sendo honesta consigo mesma, ela poderia ter
adivinhado as intenes de Travis e se esquivado
da situao. Especialmente no final. Onde ela es-
tava com a cabea?
     Em relao a Kevin... falar com ele no
havia ajudado a apagar aquela lembrana.
     Ela havia ligado para ele na noite anterior,
depois de voltar para casa. Enquanto o celular
dele tocava, ela rezava para que ele no perce-
besse o tom de culpa em sua voz. Mas no havia
com o que se preocupar, como ela logo percebeu,
pois ele atendeu o telefone dentro de uma
danceteria.
     - Oi, querido - disse ela. - Eu s liguei
para...
     - Ei, Gabby! - disse ele, interrompendo-a. -
A msica est muito alta aqui, fale mais alto.
                                              337/627


     Ele gritou com tanta fora que ela teve de
segurar o telefone longe do ouvido. - Estou
percebendo.
     - O qu?
     - Eu disse que estou percebendo que a
msica est alta! - ela gritou de volta. - Est se
divertindo, ento?
     - Hein? No consigo ouvir voc! O que voc
disse?
     Ao fundo, ela ouviu uma voz de mulher per-
guntando se ele queria outra vodca com tnica; a
resposta de Kevin se perdeu em meio ao barulho.
     - Onde voc est?
     - No lembro o nome. Em alguma
danceteria!
     - Que tipo de danceteria?
     - Um lugar onde o pessoal da conveno
queria ir! Nada de mais!
     - Fico feliz por voc estar se divertindo.
     - Fale mais alto!
                                               338/627


      Ela colocou uma mo em concha ao lado da
boca. - Eu s queria conversar. Estou com
saudades.
      - Sim, estou com saudades tambm, mas
voltarei para casa em alguns dias! Olhe, eu...
      - Eu sei, eu sei, voc precisa ir.
      - Eu ligo amanh, tudo bem?
      - Claro.
      - Te amo!
      - Te amo tambm.
      Gabby desligou o telefone, irritada. Ela s
queria conversar com ele, mas j devia saber o
que iria acontecer. Convenes conseguem trans-
formar homens adultos em adolescentes - ela
havia testemunhado aquilo em primeira mo em
um congresso de medicina do qual ela havia par-
ticipado em Birmingham, h alguns meses. Dur-
ante o dia, as palestras estavam lotadas com
mdicos srios e profissionais;  noite, ela obser-
vava pela janela do seu quarto enquanto eles an-
davam em bandos, se embriagavam e faziam
                                             339/627


papel de idiotas. No que isso fosse um prob-
lema. Ela no acreditava, nem por um momento,
que Kevin havia se envolvido em alguma con-
fuso ou feito alguma coisa de que pudesse se ar-
repender. Como beijar outra pessoa?
     Ela jogou os lenis para longe, realmente
querendo ser capaz de parar de pensar naquilo.
Ela no queria pensar no peso da mo de Travis
em seu quadril quando ele a puxou para beij-la,
e ela definitivamente no queria pensar na
sensao de ter os lbios dele tocando os seus ou
na sensao de que uma corrente eltrica correu
pelo seu corpo por causa daquilo. Ainda assim,
enquanto ia para o chuveiro, alguma outra coisa a
incomodava, algo que ela no conseguia identifi-
car com clareza. Ligando a gua, ela comeou a
pensar se, no breve instante em que tudo aconte-
ceu, havia correspondido o beijo.
     Sem conseguir voltar a dormir depois da lig-
ao de Stephanie, Travis saiu para correr. Ao
voltar, ele colocou sua prancha de surfe na
                                               340/627


traseira da caminhonete e dirigiu at a praia
Bogue, do outro lado da ponte. Depois de parar o
carro no estacionamento do Sheraton Hotel, ele
pegou a prancha e foi at a gua. Ele no estava
sozinho; havia uma dzia de outras pessoas que
acordaram com a mesma ideia. Assim como
Travis, a maioria no ficaria ali por muito tempo;
as melhores ondas vinham no comeo da manh
e diminuiriam de intensidade assim que a mar
mudasse. Mas, ainda assim, era o jeito perfeito de
comear o dia.
     A gua estava agitada - em mais um ms ela
estaria quase perfeita, e ele nadou sobre as ondas,
tentando acertar o ritmo. Ele no era um grande
surfista - quando estava em Bali, estudou algu-
mas das ondas-monstro e balanou a cabea,
sabendo que, se atrevesse a tentar surf-las,
provavelmente seria morto - mas ele era bom o
bastante para conseguir se divertir.
     Ele estava acostumado a ficar sozinho. Laird
era o outro surfista em seu grupo de amigos, mas
                                             341/627


ele no saa para surfar com Travis h anos. Ash-
ley e Melinda, duas ex-namoradas, haviam sado
para surfar com ele algumas vezes no passado -
mas nenhuma das duas parecia conseguir
encontr-lo quando surgia alguma oportunidade
inesperada de pegar umas ondas e, normalmente,
quando elas chegavam, ele j estava se pre-
parando para ir embora, o que acabava com os
planos para as manhs. E, como sempre, havia
sido ele quem sugerira a atividade em primeiro
lugar.
     Travis percebeu que estava um pouco de-
cepcionado consigo mesmo por escolher sempre
o mesmo tipo de mulher. No era de se espantar
que Allison e Megan gostassem tanto de pegar no
seu p. Devia ser como assistir  mesma pea de
teatro com atores diferentes a cada encenao, e
o final era sempre o mesmo. Deitado em sua
prancha de surfe, observando as ondas se aproxi-
marem, ele percebeu que a mesma coisa que
fazia as mulheres parecerem atraentes  primeira
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vista - a necessidade de serem cuidadas - era o
que inevitavelmente assinalava o fim do relacio-
namento. Como era mesmo aquele ditado? Se vo-
c se divorciou uma vez, pode estar certo ao
pensar que a sua ex era o problema. Se voc se
divorciou trs vezes... bem, o problema definit-
ivamente est em voc. Com certeza, ele nunca
havia se casado para poder se divorciar, mas a
situao no era to diferente.
     O que o deixava admirado era que toda
aquela reflexo havia sido causada por Gabby.
Gabby, a mulher que o havia acusado erronea-
mente, aquela que consistentemente o evitava e
que antagonizava com ele explicitamente, e que
no se cansava de repetir que estava apaixonada
por outra pessoa. Vai saber.
     Por trs dele, uma onda pareceu promissora,
e Travis comeou a dar braadas com fora, man-
obrando sua prancha at ficar na melhor posio
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possvel. Apesar da beleza daquele dia e dos
prazeres do oceano, ele no conseguia escapar da
verdade. O que realmente queria fazer era passar
tanto tempo com Gabby quanto fosse possvel.


      - Bom dia - disse Kevin ao telefone, assim
que Gabby estava se preparando para sair. Gabby
apoiou o telefone entre o rosto e o ombro.
      - Oi - respondeu ela. - Como est?
      - Estou bem. Escute, eu queria lhe dizer que
lamento pela ligao de ontem  noite. Eu queria
ligar para voc quando voltei ao meu quarto para
me desculpar, mas j estava bem tarde.
      - No tem problema. Pela sua voz, me pare-
ceu que voc estava se divertindo.
      - No foi to legal quanto voc provavel-
mente est pensando que foi. A msica estava
muito alta e meus ouvidos ainda esto zumbindo.
Nem sei por que concordei em sair com aqueles
caras. Eu devia ter percebido que as coisas no
                                               344/627


iam acabar bem quando eles comearam a beber
logo depois do jantar, mas algum tinha de ficar
de olho neles.
     - E eu tenho certeza de que voc foi um
modelo de sobriedade.
     -  claro que fui - disse ele. - Voc sabe que
eu no bebo muito. O que significa,  claro, que
provavelmente vou ganhar fcil o torneio de
golfe de hoje. Eles estaro com uma ressaca to
forte que nem vo conseguir acertar a bola.
     - Com quem voc saiu?
     - Alguns corretores de Charlotte e
Columbia. Pelo jeito como estavam agindo, pare-
cia que no saam de casa h anos.
     -  possvel.
     - Sim, pois ... - ela ouviu alguns rudos e
presumiu que ele estivesse se vestindo. - E voc?
O que voc fez de bom?
     Ela hesitou. - Nada de mais.
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     - Eu queria que voc pudesse estar aqui. As
coisas seriam bem mais divertidas com voc por
perto.
     - Voc sabe que eu no consegui tirar folga
do trabalho.
     - Eu sei. Mas eu queria dizer isso assim
mesmo. Vou tentar ligar mais tarde, tudo bem?
     - Claro. Talvez eu saia para dar uma volta.
     - Ah, e como est Molly?
     - Ela est bem.
     - Acho que vou querer um daqueles filhotes.
Eles so muito fofos.
     - Voc s est dizendo isso para me alegrar.
     -  o que faz a minha vida valer a pena. Ei,
eu estava pensando em uma coisa. Talvez eu e
voc possamos passar alguns dias em Miami no
outono. Um dos caras com quem sa ontem
voltou recentemente de South Beach e ele disse
que h timos campos de golfe por l.
     Ela pensou por um momento. - Voc j pen-
sou em viajar para a frica?
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     - frica?
     - Sim. Simplesmente viajar por algum
tempo, participar de um safri, ou ver as
cachoeiras de Victoria Falls? Ou, se no a frica,
que tal algum lugar na Europa? Como a Grcia?
     - Acho que nunca pensei no caso. Mas,
mesmo que eu quisesse, acho que no ia con-
seguir me afastar da empresa por tanto tempo.
Por que voc pensou nesses lugares?
     - Nenhum motivo em especial - disse ela.
     Enquanto Gabby estava ao telefone, Travis
veio at a varanda de Gabby e bateu  porta. Um
momento depois, ela apareceu, com o telefone
ainda ao ouvido. Apontando para o telefone, ges-
ticulou para que ele entrasse. Ele entrou na sala
de estar, esperando que ela desse alguma des-
culpa para a pessoa com quem estava convers-
ando, mas, em vez disso, ela apontou para o sof
e desapareceu pela porta da cozinha, fechando a
porta atrs de si.
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     Ele se sentou e esperou. E esperou. E esper-
ou. Ele se sentiu ridculo, como se ela o estivesse
tratando como uma criana. Ele podia ouvi-la
conversando em voz baixa e no tinha a menor
noo de com quem ela estava conversando, e
chegou a considerar a hiptese de se levantar e
sair pela porta da frente. Mesmo assim, continu-
ou no sof, perguntando-se por que ela exercia
uma atrao to forte sobre ele.
     Finalmente, abrindo a porta novamente, ela
voltou para a sala de estar.
     - Desculpe. Eu sei que estou um pouco at-
rasada, mas meu telefone no parou de tocar a
manh inteira.
     Travis se levantou, pensando que Gabby
havia se tornado ainda mais bonita durante a
noite, o que no fazia nenhum sentido. - No tem
problema - respondeu ele.
     A ligao de Kevin fez com que ela voltasse
a pensar no que estava fazendo, e tentou se forar
a parar de pensar naquilo. - Deixe-me pegar
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minhas coisas e podemos ir. - Ela deu um passo
em direo  porta. - Ah, e eu quero dar uma ol-
hada em Molly. Ela estava bem hoje de manh,
mas quero ter certeza de que ela tem bastante
gua.
     Um momento depois, com a bolsa jogada
por cima do ombro, ela foi at a garagem e ench-
eu a vasilha at a gua comear a escorrer.
     - Por falar nisso, para onde vamos? - ela per-
guntou enquanto eles saam da casa. - No vai me
levar para algum bar de motoqueiros no meio do
mato, no ?
     - O que h de errado com bares de
motoqueiros?
     - Eu ia me sentir deslocada. No tenho
tantas tatuagens como os clientes habituais.
     - No acha que est generalizando?
     - Provavelmente. Mas voc ainda no re-
spondeu  minha pergunta.
     - S um passeio - disse ele. - Passar pela
ponte, ir at a praia Bogue e Emerald Isle, de
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volta pela ponte, e depois iremos a um lugar que
eu quero lhe mostrar.
     - Onde?
     -  uma surpresa.
     -  um lugar elegante?
     - De jeito nenhum.
     - Podemos comer l?
     Ele pensou um pouco naquela pergunta. -
Talvez.
     -  um lugar coberto ou ao ar livre?
     -  uma surpresa - disse ele. - No quero es-
tragar as coisas.
     - Parece bem legal.
     - No se anime tanto.  apenas um lugar
aonde eu gosto de ir. Nada espetacular. Naquele
momento, eles j haviam chegado at a garagem
de Travis. Ele apontou para a moto. -  esta aqui.
     As superfcies cromadas da moto refletiam a
claridade nos olhos de Gabby, e ela colocou seus
culos de sol.
     - O orgulho da sua vida?
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      - A frustrao da minha vida.
      - Voc no vai comear a choramingar sobre
a dificuldade de conseguir peas para ela, no ?
      Ele fez uma careta e depois riu. - Vou tentar
me controlar.
      Ela olhou para a cesta que ele havia pren-
dido  garupa da moto com cordames elsticos. -
O que teremos para o almoo?
      - O de sempre.
      - Fil-mignon, sorvete com merengue,
carneiro assado, peixe gratinado?
      - No exatamente.
      - Bolachas recheadas, ento?
      Ele ignorou o sarcasmo dela. - Se estiver
pronta, podemos ir. Tenho certeza de que o ca-
pacete vai servir em voc, mas, se no servir,
tenho mais na garagem.
      Ela levantou uma sobrancelha desafiadora. -
E esse lugar especial de que voc falou? Voc j
levou vrias mulheres diferentes at l?
      - No - disse ele. - Voc vai ser a primeira.
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      Esperou para ver se ele diria mais alguma
coisa, mas, pelo menos uma vez, ele parecia estar
falando srio. Ela assentiu ligeiramente com a
cabea e foi at a moto. Colocou o capacete,
prendeu-o por baixo do queixo e jogou uma das
pernas por cima do assento. - E onde eu apoio os
ps?
      Travis soltou os pedais traseiros. - H um de
cada lado. Tente no encostar a perna no escapa-
mento. Ele fica bem quente e voc pode acabar
com uma queimadura feia.
      - Bom saber. E as minhas mos?
      - Ao redor do meu corpo,  claro.
      - Voc  um conquistador mesmo - disse
ela. - Porque, se no tivesse me avisado, eu no
teria coragem de segurar em voc, certo?
      Ele colocou seu capacete e, em um nico
movimento gracioso, subiu e deu a partida no
motor, permitindo que ele esquentasse. No era
to barulhenta quanto algumas outras motos, mas
ela podia sentir uma leve vibrao atravs do
                                              352/627


assento. Ela sentia uma ponta de emoo, como
se estivesse sentada em uma montanha-russa que
estava a ponto de comear seu percurso. Mas,
desta vez, sem cinto de segurana.
     Travis acelerou a motocicleta cuida-
dosamente, saindo da garagem, passando pelo
gramado e chegando  rua. Gabby estendeu as
mos para segurar nos quadris dele, mas, assim
que o tocou, ela se lembrou daqueles msculos
que ele tinha nos quadris, e isso fez com que seu
estmago virasse de cabea para baixo. No tinha
muita escolha; era fazer aquilo ou abra-lo ao
redor da cintura, e ela no se sentia pronta para
fazer aquilo. Quando a moto comeou a acelerar,
ela disse a si mesma que no devia apert-lo e
nem mover suas mos, e simplesmente mant-las
firmes, como se fosse uma esttua.
     - O que  isso? - perguntou Travis, virando o
pescoo.
     - O qu?
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     - Voc falou alguma coisa sobre mos e uma
esttua?
     Sem perceber que havia falado em voz alta,
ela apertou os quadris de Travis, dizendo a si
mesma que estava fazendo aquilo apenas para
disfarar. - Eu disse para voc manter suas mos
firmes, como uma esttua. No quero bater.
     - No vamos bater. Eu no gosto de bater.
     - J bateu a moto alguma vez?
     Ainda com o pescoo virado para trs, e
deixando-a nervosa ao fazer aquilo, ele fez que
sim com a cabea. - Duas vezes. Passei duas
noites no hospital em uma ocasio.
     - E voc no acha que teria sido importante
mencionar isso quando me convidou para andar
de moto?
     - Eu no quis assust-la.
     - Fique com os olhos na estrada, est bem?
E no faa nada engraado.
     - Voc quer que eu faa algo engraado?
     - No!
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      - Que bom, porque prefiro simplesmente
curtir o passeio. - Ele virou o pescoo para trs
de novo. Apesar do capacete, ela podia jurar que
o viu piscar o olho. - A coisa mais importante 
manter voc em segurana, ento mantenha suas
mos firmes, como uma esttua, est bem?
      No assento traseiro, Gabby sentiu que estava
ficando cada vez menor, da mesma forma que
havia se sentido quando estava na clnica dele,
horrorizada por ter dito aquilo em voz alta. E
que, apesar do vento em seu rosto e do barulho
do motor, Travis havia conseguido ouvi-la. Havia
momentos em que o mundo inteiro parecia estar
conspirando contra ela.
      Como ele no voltou a tocar no assunto
novamente durante os prximos minutos, ela se
sentiu um pouco melhor. Com a motocicleta
cruzando as ruas, eles saram da tranquilidade do
bairro onde moravam. Gabby lentamente apren-
deu que deveria se inclinar quando Travis fazia
uma curva, e, algumas curvas depois, eles
                                               355/627


estavam atravessando Beaufort e passando por
cima da pequena ponte que os separava de More-
head City. A estrada se alargou em uma pista du-
pla, e estava congestionada com o trnsito das
pessoas que queriam ir  praia no fim de semana.
Gabby tentou ignorar a sensao de vulnerabilid-
ade que sentia enquanto a moto passava ao lado
de um imenso caminho de lixo.
     Eles foram em direo  ponte que cruzava a
hidrovia intralitornea, e o trnsito passou a se
arrastar. Quando eles chegaram  estrada que di-
vidia a praia de Bogue, o trfego que ia em
direo  Atlantic Beach desapareceu, e Travis
gradualmente comeou a acelerar novamente.
Entre duas minivans, uma na frente e outra atrs,
Gabby sentiu que estava relaxando. Ao passarem
em frente a condomnios e casas escondidas em
meio  floresta martima, ela sentiu o calor do sol
comeando a atravessar suas roupas.
     Ela se agarrou a Travis para se firmar sobre
a moto, consciente dos inconfundveis contornos
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dos msculos das costas dele contra o tecido fino
da camisa que ele vestia. Apesar de ter as mel-
hores intenes, ela estava comeando a aceitar a
realidade da atrao que sentia por ele. Percebia
que Travis era muito diferente dela e, mesmo as-
sim, na presena dele, ela sentia a possibilidade
de outro tipo de vida, uma vida que ela nunca
havia imaginado que poderia ser sua. Uma vida
sem as limitaes rgidas que os outros sempre
impunham a ela.
     Eles se moviam em um silncio quase
etreo, passando por uma cidade, depois por
outra. Atlantic Beach, Pine Knoll Shores e Salter
Path.  esquerda, ocultos em meio a carvalhos
curvados pelo vento incessante, havia alguns dos
imveis com vista para o mar mais desejados da
Carolina do Norte. Alguns minutos depois, eles
j haviam passado pelo Iron Steamer Pier. Em-
bora castigado por anos de tempestades, hoje ele
estava cheio de pessoas que foram at l para
pescar.
                                              357/627


      Em Emerald Isle, a cidade mais ocidental da
ilha, Travis apertou os freios para diminuir a ve-
locidade e deixar que um carro fizesse uma
curva. Gabby sentiu que a inrcia do movimento
fez com que ela se encostasse nas costas de Trav-
is. As mos dela se moveram inadvertidamente
dos quadris de Travis para o abdmen, e ela ima-
ginou se ele percebeu a maneira como seus cor-
pos se apertaram um contra o outro. Embora ela
quisesse se afastar, no o fez.
      Havia algo acontecendo ali, algo que ela no
entendia totalmente. Ela amava Kevin e queria se
casar com ele; nos ltimos dois dias, aquele sen-
timento no havia mudado. E, mesmo assim, no
podia negar que, de certa forma, ficar junto a
Travis parecia algo muito agradvel. Suave e nat-
ural, como as coisas deveriam ser. Parecia uma
contradio impossvel e, quando eles atravessar-
am a ponte no lado mais distante da ilha, pegando
o caminho de volta para casa, ela desistiu de
tentar solucionar o problema.
                                               358/627


      Surpreendendo-a, Travis diminuiu a velo-
cidade da moto antes de entrar em uma via per-
pendicular  estrada principal, que adentrava uma
pequena floresta. Quando ele parou a moto,
Gabby olhou de um lado para o outro, confusa.
      - Por que paramos? - perguntou ela. - Aqui 
o lugar onde voc queria me trazer?
      Travis desceu da moto e tirou seu capacete,
balanando a cabea.
      - No, o lugar fica l em Beaufort - disse
ele. - Eu queria ver se voc gostaria de tentar pi-
lotar a moto.
      - Nunca pilotei uma moto antes. - Gabby
cruzou os braos, permanecendo sentada na
garupa.
      - Eu sei. Foi por isso que perguntei.
      - Acho que no quero - disse ela, levantando
o visor do capacete.
      - Vamos l, vai ser divertido. Vou estar logo
atrs de voc na moto, e no vou deixar voc
cair. Minhas mos vo estar bem ao lado das
                                             359/627


suas, e eu vou cuidar das mudanas de marcha.
Tudo que voc ter de fazer  cuidar do guido.
     - Mas isso  ilegal.
     - Um detalhe tcnico. Alm disso, estamos
em uma estrada particular, que leva at a casa do
meu tio. Fica um pouco mais adiante, quando
essa via se torna uma estrada de terra. Foi onde
eu aprendi a pilotar motos.
     Ela hesitou, dividida entre o entusiasmo e o
terror, espantada por estar considerando aquela
possibilidade.
     Travis levantou as mos. - Pode confiar em
mim. No h nenhum carro na estrada, ningum
ir nos parar, e eu vou estar com voc.
     -  difcil?
     - No, mas demora algum tempo at voc se
acostumar.
     - Como andar de bicicleta?
     - Se a questo for o equilbrio em duas ro-
das, sim. Mas no se preocupe. Eu estarei com
                                               360/627


voc, ento no h nada que possa dar errado. -
Ele sorriu. - E a, est disposta a tentar?
      - Acho que no, mas...
      - timo! - disse ele. - Vamos comear pelo
comeo. V um pouco mais para a frente no as-
sento. Na mo direita voc tem o acelerador e o
freio dianteiro. Na mo esquerda fica a embre-
agem. O acelerador  quem comanda a velocid-
ade. Entendeu? Ela fez que sim com a cabea.
      - Seu p direito controla o freio traseiro. O
p esquerdo faz a mudana de marchas.
      - Fcil.
      - Achou mesmo?
      - No. S estou tentando fazer com que voc
se sinta bem em relao s suas habilidades como
professor.
     Ela estava comeando a falar como
Stephanie, pensou ele. - Bem, as mudanas de
marcha so bem parecidas com as de um carro
com cmbio tradicional. Voc solta o acelerador,
aperta a embreagem, muda a marcha e depois
                                                361/627


acelera novamente. Mas vou mostrar como isso
funciona, certo? Para fazer isso, ns vamos ter de
ficar um pouco mais prximos. Meus braos e
pernas no so longos o bastante para alcanar os
comandos da moto quando eu estou no banco
traseiro.
      - Que desculpa conveniente - disse ela.
      - Nada mais do que a pura verdade. Est
pronta?
      - Estou morrendo de medo, se quer saber.
      - Vou entender isso como um "sim". Chegue
mais perto do guido.
      Ela foi um pouco mais para a frente, e Trav-
is subiu na moto. Aps colocar seu capacete, ele
se encostou nela, apoiando as mos nas mano-
plas, e, apesar do aviso dele, ela sentiu algo pular
dentro de si, uma leve sensao de choque
eltrico que comeava no seu estmago e se irra-
diava para fora, em todas as direes.
      - Agora, coloque suas mos em cima das
minhas - instruiu ele. - E faa a mesma coisa com
                                              362/627


os seus ps. Eu quero apenas que voc sinta o
que est acontecendo.  uma coisa que envolve
ritmo, mas, quando voc perceber como tudo
funciona, no vai mais esquecer.
     - Foi assim que voc aprendeu?
     - No. Um amigo meu ficou por perto grit-
ando as instrues. Na minha primeira tentativa,
apertei a embreagem em vez do freio, e acabei
batendo em uma rvore. E  por isso que eu
quero estar aqui na sua primeira tentativa.
     Ele levantou o p de apoio da moto, apertou
a embreagem e deu a partida no motor; assim que
percebeu a vibrao, ela teve a mesma sensao
de frio na barriga que havia sentido logo antes de
o parapente decolar do barco. Ela colocou suas
mos sobre as de Travis, saboreando a sensao
de ter o corpo dele contra o seu.
     - Est pronta?
     - Como nunca estive.
     - No se agarre com muita fora, est bem?
                                             363/627


      Travis girou o acelerador e soltou a embre-
agem lentamente. No instante em que a moto-
cicleta comeou a avanar, ele levantou o p do
cho. Gabby pousou seu p suavemente sobre o
dele.
      Eles comearam lentamente. Travis acel-
erava aos poucos, depois diminua a presso no
acelerador, e depois acelerava novamente, at fi-
nalmente mudar para outra marcha antes de frear
mais uma vez, at que a moto parasse. Depois
eles repetiam o procedimento, e Travis explicava
pacientemente o que estava fazendo - usando o
freio ou se preparando para mudar a marcha, e
lembrando-a de nunca usar o freio dianteiro em
pnico, ou ela iria sair voando por cima do
guido. Pouco a pouco, conforme o processo
continuava, Gabby comeou a assimilar todas as
informaes. Os movimentos coreografados das
mos e dos ps de Travis eram similares aos que
ela aprendeu nas aulas de piano, e, aps alguns
minutos, ela quase conseguia prever o que ele
                                             364/627


faria. Mesmo assim, ele continuou a orient-la
at que os movimentos se tornaram bem naturais.
      Depois de algum tempo, eles trocaram de
posio. As mos e os ps dela agora estavam no
controle; com as mos e os ps de Travis por
cima dos dela, eles repetiram o processo desde o
comeo. No era to fcil quanto ele fez parecer.
s vezes, a moto parecia ratear ou ela apertava o
freio com muita fora, mas ele era paciente e en-
corajador. Ele nunca levantava a voz, e ela se
lembrou do jeito como ele lidou com as crianas
na praia no dia anterior. Admitiu para si mesma
que havia mais em Travis do que havia ima-
ginado inicialmente.
      Nos quinze minutos seguintes, enquanto ela
continuava a treinar a pilotagem da moto, o toque
dele ficou cada vez mais leve, at que ele final-
mente deixou que ela tomasse o controle inteira-
mente. Embora no se sentisse totalmente con-
fortvel, ela comeou a acelerar mais e de forma
mais suave, e a frenagem tambm estava mais
                                              365/627


natural. Pela primeira vez, ela sentiu o poder e a
liberdade que a moto oferecia.
     -Voc est indo muito bem - disse Travis.
     - Isso  timo! - gritou ela, sentindo-se
quase em xtase.
     - Est pronta para tentar pilotar sozinha?
     -Voc est brincando!
     - De jeito nenhum.
     Ela debateu aquilo por um instante. - Tudo
bem - disse ela, com entusiasmo. - Acho que es-
tou pronta.
     Ela desacelerou a moto at parar, e Travis
desceu. Depois que ele se afastou, ela respirou
fundo, ignorou as batidas fortes do seu corao, e
saiu pilotando a moto. Um momento depois, ela
j estava correndo. Sem ajuda, ela parou e
avanou vrias vezes, gradualmente reduzindo as
distncias. Surpreendendo Travis, ela virou a
moto na direo oposta em que estava vindo,
fazendo um arco amplo e lento, e voltou aceler-
ando para perto dele. Por um momento, ele achou
                                               366/627


que ela estava fora de controle, mas ela fez a
moto parar com um movimento elegante, a pou-
cos metros dele. Sem conseguir parar de sorrir, as
palavras saram atropeladamente, cheias de
energia.
     - Eu no acredito que estou fazendo isso!
     - Voc foi muito bem!
     - Voc viu quando eu fiz a curva? Eu sei que
estava indo devagar demais, mas consegui.
     - Eu vi.
     - Isso  timo! Agora eu entendo porque vo-
c adora pilotar.  muito divertido.
     - Fico feliz que tenha gostado.
     - Posso tentar mais uma vez?
     Ele apontou para a estrada. - Sinta-se livre.
     Ela pilotou nos dois sentidos da estrada, dur-
ante um bom tempo. Travis observou a confiana
dela crescer a cada parada e a cada avano. Ela
fazia as curvas com mais facilidade tambm -
chegando at mesmo a pilotar em crculos - e,
quando ela parou ao lado dele, estava com o rosto
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corado. Quando tirou o capacete, Travis teve a
certeza de que nunca vira ningum mais vivo e
belo.
      - Acho que estou satisfeita por hoje - anun-
ciou ela. - Voc pode pilotar agora.
      - Tem certeza?
      - Eu aprendi h muito tempo que  melhor
parar quando estou no topo. Eu detestaria bater a
moto ou cair, e arruinar essa sensao.
      Ela voltou para o banco do carona e Travis
subiu na moto, e logo sentiu Gabby colocando os
braos ao seu redor. Ao percorrer o caminho de
volta  rodovia, Travis se sentia eletrizado, como
se seus sentidos estivessem na potncia mxima,
e ele estava totalmente consciente de cada curva
do corpo dela contra o seu. Eles cruzaram a ro-
dovia, fizeram uma curva, atravessaram More-
head City, passaram pela ponte que levava a At-
lantic Beach e completaram o passeio com o re-
torno a Beaufort.
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      Minutos depois, eles estavam passando pelo
distrito histrico, na frente dos restaurantes e da
marina, a caminho da rua Front. Travis final-
mente diminuiu a velocidade da moto, estacion-
ando em um grande terreno gramado perto do fim
do quarteiro. O terreno ficava entre uma casa
em estilo georgiano que tinha pelo menos 100
anos de idade e outra em estilo vitoriano, da
mesma idade. Ele desligou o motor e tirou o
capacete.
      - Chegamos - disse ele, indicando a ela que
descesse da moto. - Este  o lugar que eu queria
lhe mostrar.
      Havia algo em sua voz que a impediu de
fazer um comentrio mais cido a respeito do que
parecia no ser nada alm de um terreno baldio,
e, por um momento, ela simplesmente observou
Travis enquanto ele andou por alguns metros, em
silncio. Ele estava olhando por cima da estrada,
em direo  praia de Shackleford, com as mos
nos bolsos. Removendo o capacete e passando a
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mo por entre seus cachos amassados, Gabby foi
em direo a ele. Ao chegar ao lado de Travis,
ela sentiu que ele iria lhe dizer o que aquilo tudo
significava quando estivesse pronto para tal.
      - Na minha opinio, este lugar tem um dos
panoramas mais bonitos de todo o litoral - disse
ele, finalmente. - No  como uma vista para o
mar, onde tudo o que voc v so ondas e gua
at o horizonte. Isso  timo, mas, depois de al-
gum tempo, comea a ficar tedioso, porque o
panorama  quase sempre o mesmo. Mas neste
lugar h algo para ver. Sempre h veleiros e iates
indo em direo  marina; se voc vier at aqui 
noite, pode ver as pessoas andando na calada da
orla e ouvir msica. Eu vi golfinhos e arraias pas-
sando pelo canal, e adoro observar os cavalos
selvagens na ilha. No me importa quantas vezes
eu os veja, sempre fico maravilhado.
      - Voc vem muito aqui?
      - Duas vezes por semana, mais ou menos. 
      onde eu venho quando quero pensar.
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- Tenho certeza de que os vizinhos adoram
isso.
- No h nada que eles possam fazer a re-
speito. Eu sou o dono deste terreno.
- Srio?
- Por que voc parece to surpresa?
- No sei. Parece algo to... domstico.
- Eu j tenho uma casa.
- E uma vizinha que  excelente.
- Com certeza.
- Eu quis dizer que comprar um terreno faz
voc parecer o tipo de pessoa que tem pla-
nos para o futuro.
- E voc acha que eu no sou esse tipo de
pessoa?
- Bem...
- Se voc est tentando me elogiar, preciso
dizer que no est se saindo muito bem.
Ela riu. - E se eu disser assim: voc no para
de me surpreender.
- De um jeito bom?
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      - Sempre.
      - Como naquela vez em que voc trouxe
Molly a minha clnica e descobriu que eu era
veterinrio?
      - Prefiro no falar sobre isso.
      Ele riu. - Vamos comer ento.
      Ela o seguiu de volta at a moto, de onde ele
retirou a cesta e um cobertor. Depois de lev-la
at uma pequena inclinao perto do fundo da
propriedade, ele estendeu o cobertor no cho e
fez um gesto para que ela se sentasse. Quando j
estavam confortavelmente posicionados, ele
comeou a tirar os recipientes de plstico da
cesta.
      - Recipientes de plstico?
      Ele piscou. - Meus amigos me chamam de
      "senhor domstico".
      Ele pegou duas latas de ch gelado sabor
morango. Depois de abri-las, entregou uma a ela.
      - O que tem no menu? - perguntou ela.
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     Ele apontou para vrios recipientes en-
quanto falava. - Tenho trs tipos diferentes de
queijo, biscoitos de gua e sal, azeitonas Kala-
mata e uvas.  mais um lanche do que um
almoo.
     - Est perfeito para mim. - Ela pegou algu-
mas bolachas e algumas fatias de queijo. - Havia
uma casa aqui antigamente, no ? - Quando ela
percebeu a surpresa de Travis, apontou para as
casas em ambos os lados do terreno. - No con-
sigo imaginar que este lugar esteja vazio h mais
de 150 anos.
     - Voc tem razo - disse ele. - A casa que
existia aqui foi destruda em um incndio quando
eu era criana. Eu sei que voc acha que Beaufort
 uma cidade pequena, mas, quando eu era cri-
ana, ela quase nem aparecia nos mapas. A
maioria dessas casas histricas estava precisando
de reparos urgentes, e a casa que havia neste ter-
reno ficou abandonada por vrios anos. Era um
imvel imenso, com buracos no teto, e havia
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rumores de que a casa era mal-assombrada, o que
a tornava muito mais atraente para ns quando
ramos crianas. Costumvamos vir at aqui 
noite, escondidos. Ela se tornava o nosso forte, e
brincvamos de esconde-esconde durante horas
nos quartos. Havia esconderijos excelentes por
toda a casa. - Ele puxou alguns tufos de capim
distraidamente, como se estivesse revivendo as
memrias. - De qualquer forma, em uma noite de
inverno, eu acho que alguns mendigos acenderam
uma fogueira dentro da casa para se aquecer. O
lugar se incendiou em minutos e, no dia seguinte,
era apenas uma pilha de cinzas. O problema era
que ningum sabia como entrar em contato com o
proprietrio. Ele havia morrido e a deixou para
seu filho. O filho morreu, e ele a deixou para
outra pessoa, e assim por diante. Assim, aquela
pilha de destroos ficou abandonada por cerca de
um ano at que a prefeitura mandou escavadeiras
aqui para limpar o terreno. O lugar ficou esque-
cido depois daquilo, at que eu finalmente
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localizei o proprietrio no Novo Mxico e fiz
uma oferta baixa pelo terreno. Ele aceitou imedi-
atamente. Duvido que ele tenha vindo at aqui al-
guma vez na vida, e ele no fazia ideia do que es-
tava vendendo.
      - E voc pretende construir uma casa aqui?
      - Isso faz parte dos meus planos em longo
prazo, de qualquer maneira, j que sou uma pess-
oa to domstica. - Travis pegou uma azeitona e
a colocou na boca. - J est pronta para me contar
sobre o seu namorado?
      A mente de Gabby relembrou rapidamente
da conversa que eles tiveram no comeo da man-
h. - O que voc quer saber?
      - Estou s tentando puxar assunto.
      Gabby pegou uma azeitona tambm. - Ento
vamos falar sobre alguma das suas ex-
namoradas.
      - Qual delas?
      - Qualquer uma.
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     - Tudo bem. Uma delas me deu alguns ps-
teres de filmes.
     - Ela era bonita?
     Ele pensou antes de responder. - A maioria
das pessoas diria que sim.
     - E o que voc diria?
     - Eu diria... que voc tem razo. Talvez no
devssemos falar sobre isso.
     Ela riu e depois apontou para as azeitonas. -
Essas azeitonas so timas. Tudo que voc trouxe
 perfeito.
     Ele colocou uma fatia de queijo sobre outro
biscoito. - Quando seu namorado vai voltar de
viagem?
     - Voltamos ao assunto de antes?
     - Estou pensando no seu relacionamento.
No quero que voc tenha problemas.
     - Agradeo a sua preocupao, mas j sou
uma garota crescida. E, no que isso importe,
mas ele voltar para Beaufort na quarta-feira. Por
qu?
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     - Porque eu gostei muito de estar com voc
nestes ltimos dias.
     - Eu tambm gostei.
     - Mas voc est triste por saber que isso vai
chegar ao fim?
     - No precisa chegar ao fim. Ainda seremos
vizinhos.
     - E eu tenho certeza de que o seu namorado
no vai se importar se eu levar voc para outro
passeio de moto, ou se convid-la para um pique-
nique, ou se voc se sentar na banheira de hidro-
massagem comigo, no ?
     A resposta era bvia, e a expresso dela
ficou mais sria. - Provavelmente ele no ficaria
muito feliz com isso.
     - Ento isso vai chegar ao fim.
     - Ainda podemos ser amigos.
     Ele olhou para ela por um momento e, de re-
pente, agarrou seu peito, como se tivesse levado
um tiro. - Voc realmente sabe como magoar um
homem.
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     - Do que voc est falando?
     Ele balanou a cabea. - No existe essa
coisa de amizade. Especialmente com homens e
mulheres solteiros da nossa idade. Simplesmente
no funciona assim, a menos que voc esteja
falando sobre algum que voc conhece h muito
tempo. Certamente no  o caso quando h es-
tranhos envolvidos.
     Gabby abriu a boca para responder, mas no
havia realmente nada a dizer.
     - Alm disso - continuou ele -, eu no sei se
quero ser seu amigo.
     - Por que no?
     - Porque eu provavelmente vou querer mais
do que isso.
     Novamente, ela no disse nada. Travis a
observou, incapaz de ler sua expresso. Final-
mente, ele deu de ombros.
     - Eu no acho que queira ser minha amiga
tambm. No seria bom para o seu namoro,
porque no h dvida de que voc provavelmente
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se apaixonaria por mim. E, no fim das contas, vo-
c acabaria fazendo algo de que provavelmente
se arrependeria depois. Depois, voc iria me cul-
par por isso, e, aps algum tempo, voc provavel-
mente iria se mudar para algum outro lugar, pois
tudo isso seria muito desagradvel para voc.
     - Voc acha que a situao  assim?
     -  uma maldio na minha vida ser to
charmoso assim como sou.
     - Parece que voc j sabe de tudo.
     - Eu sei, sim.
     - Exceto pela parte em que eu me apaixono
por voc.
     - Voc acha que isso no vai acontecer?
     - Eu tenho namorado.
     - E voc vai se casar com ele?
     - Assim que ele me pedir em casamento. Foi
por isso que eu me mudei para c.
     - Por que ele ainda no pediu?
     - Isso no  da sua conta.
     - Eu o conheo?
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     - Por que voc  to curioso?
     - Porque - disse ele, com os olhos fixados
nos dela - se eu fosse o seu namorado, e se voc
tivesse se mudado para c para ficar perto de
mim, eu j teria pedido voc em casamento.
     Ela ouviu algo na voz dele que a fez perce-
ber que ele estava dizendo a verdade, e ela desvi-
ou o olhar. Quando ela falou, foi com uma voz
suave. - No destrua tudo o que aconteceu. Pode
ser?
     - Destruir o qu?
     - Isso. Hoje. Ontem. A noite passada. Tudo.
No destrua o que aconteceu.
     - No estou entendendo.
     Ela respirou fundo. - Este fim de semana
significou muito para mim, mesmo que seja a
percepo de que eu finalmente fiz amizade com
algum. Com duas pessoas, para falar a verdade.
No percebi o quanto eu sentia falta de ter ami-
gos em minha vida. Passar o tempo com voc e
com sua irm me lembrou de quantas coisas eu
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deixei para trs quando me mudei para c. Eu
sabia o que estava fazendo e no me arrependo
da deciso que tomei. Acredite ou no, eu real-
mente amo Kevin. - Ela fez uma pausa, lutando
para organizar seus pensamentos. - Mas s vezes
 difcil para mim. Fins de semana como este di-
ficilmente voltaro a ocorrer, e j estou um pouco
conformada com isso, por causa de Kevin. Mas
h uma parte de mim que no quer aceitar que
isso seja uma coisa que s vai acontecer uma vez,
mesmo que ns dois saibamos que vai - ela hesit-
ou. - Quando voc diz coisas como essas que vo-
c disse, e eu sei que voc no est falando srio,
voc apenas banaliza tudo o que estou passando.
      Travis escutou com ateno enquanto ela fa-
lava, reconhecendo uma intensidade na voz de
Gabby que ela no havia deixado transparecer
anteriormente. E, embora ele soubesse que devia
simplesmente ter concordado e se desculpado,
no conseguiu evitar responder.
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      - Por que voc acha que eu no estava
falando srio? - disse ele, contra-atacando. - Eu
fui sincero em cada palavra. Mas entendo que vo-
c no queira ouvir isso. Deixe-me ento dizer
que eu espero que o seu namorado perceba a
sorte que tem por ter algum como voc em sua
vida. Ele  um imbecil se no o fizer. Me des-
culpe se isso fez voc se sentir triste, e no vou
voltar a tocar nesse assunto - ele sorriu. - Mas eu
precisava falar, pelo menos uma vez. Ela desviou
o olhar novamente, gostando do que ele havia
dito, apesar de no querer. Travis se virou em
direo  gua, dando a Gabby o silncio que ela
precisava; ao contrrio de Kevin, Travis sempre
parecia saber como responder.
      - J deve estar na hora de voltarmos, voc
no acha? - ele apontou para a moto. - E voc
provavelmente precisa dar uma olhada em Molly.
      - Sim - concordou ela. - Acho que  uma
boa ideia.
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     Eles recolheram os restos do almoo e colo-
caram os recipientes de volta na cesta. Depois,
dobraram o cobertor e voltaram para a moto. Por
cima do ombro, Gabby viu as pessoas comeando
a encher os restaurantes para um almoo tardio, e
ela percebeu que invejava a simplicidade das
escolhas que elas tinham de fazer.
     Travis amarrou o cobertor e a cesta nova-
mente na garupa da moto e colocou seu capacete.
Gabby fez o mesmo, e Travis levou a moto para
longe do terreno alguns momentos depois. Gabby
se agarrou aos quadris de Travis, tentando con-
vencer a si mesma, sem conseguir, que ele havia
dito aquelas coisas a outras mulheres no passado.
     Eles chegaram  casa de Gabby, e ele esta-
cionou a moto. Ela afastou as mos do corpo de
Travis e desceu, tirando o seu capacete. Em p,
ao lado dele, ela sentiu uma sensao de em-
barao que no sentia desde que estava no ensino
mdio, uma noo que lhe parecia ridcula, e
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tinha a impresso de que ele iria beij-la
novamente.
     - Obrigada por hoje - disse ela, querendo
preservar alguma distncia entre eles. - E obri-
gada por me ensinar a pilotar a moto tambm.
     - Foi um prazer. Voc tem um talento natur-
al. Voc devia pensar em comprar sua prpria
moto.
     - Talvez, algum dia.
     No silncio, Gabby ouviu os rudos que o
motor da moto fazia. Ela devolveu o capacete a
Travis, observando-o enquanto ele o amarrava no
assento.
     -Tudo bem, ento. Acho que vou ver voc
por a.
     - Difcil no ver, j que somos vizinhos.
     - Quer que eu d uma olhada em Molly para
voc?
     - No, no precisa. Tenho certeza de que ela
est bem.
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      Ele assentiu. - Ei, escute. Desculpe pelo que
eu disse l no terreno. No tenho o direito de
ficar me intrometendo na sua vida, nem de fazer
com que voc se sinta mal.
      - Est tudo bem. No foi nenhum incmodo.
      - Claro que no. Ela deu de ombros.
      - Bem, j que voc est mentindo, eu resolvi
mentir tambm.
      Apesar da tenso, ele riu. - Me faa um fa-
vor. Se o seu namoro algum dia acabar, me ligue.
      - Talvez eu faa isso mesmo.
      - Bem, hora de eu me retirar.
      Ele virou o guido e comeou a puxar a mo-
tocicleta de volta para a sua casa. Estava a ponto
de dar a partida no motor novamente quando ol-
hou para ela mais uma vez.
      - Gostaria de jantar comigo amanh  noite?
      Ela cruzou os braos. - No acredito que vo-
c me perguntou uma coisa dessas.
      - Um homem precisa aproveitar as opor-
tunidades que lhe aparecem.  o meu lema.
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     - Eu percebi.
     - Isso  um "sim" ou um "no"?
     Ela deu um passo para trs, mas, apesar de
suas reservas, ela se apanhou sorrindo com a per-
sistncia dele. - Que tal se, em vez disso, eu pre-
parar o jantar para voc esta noite? Aqui na
minha casa, s 19 horas.
     - Parece timo - disse ele, e, um momento
depois, ela continuava de p na calada, imagin-
ando se havia perdido o juzo temporariamente.
Captulo 13
Com o sol quente castigando seu quintal e a gua
gelada que vinha da sua mangueira, Travis teve
dificuldade para manter Moby quieto. A correia
curta que o prendia parecia no ajudar muito;
Moby detestava banhos. Travis achava aquilo
irnico, considerando o quanto o co adorava
buscar bolas de tnis lanadas ao mar. Naquelas
ocasies, Moby corria por cima das ondas,
nadava furiosamente e no hesitava em enfiar a
cabea dentro d'gua para poder prender a bola
com mais firmeza caso ela ousasse escapar. Mas,
se ele percebesse que Travis abria a gaveta onde
sua correia ficava guardada, Moby aproveitava a
oportunidade para passar horas explorando a viz-
inhana, geralmente retornando bem depois de o
sol se pr.
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     Travis j havia se acostumado aos truques
de Moby, e era por isso que ele mantinha a guia
escondida at o ltimo instante e a prendia 
coleira de Moby antes que ele pudesse reagir.
Moby, como sempre, lhe dava o seu melhor olhar
do tipo "como voc pode fazer uma coisa dessas
comigo?" enquanto era levado para o quintal,
mas Travis ignorava tudo.
     - No me venha com essa. Eu lhe disse para
no rolar naquela lama cheia de peixes mortos,
no foi?
     Moby adorava rolar sobre peixes mortos, e
quanto mais malcheirosos, melhor. Quando Trav-
is estava estacionando sua moto na garagem,
Moby veio trotando alegremente com a lngua
pendurada para fora da boca, feliz consigo
mesmo. Travis sorriu por apenas um instante
antes que o fedor o atingisse e ele percebesse os
restos de peixe presos nos pelos de Moby. Depois
de preparar sua armadilha acariciando a cabea
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de Moby, ele entrou em casa e vestiu um calo,
escondendo a guia no bolso de trs.
     Agora, no quintal, com a guia amarrada
firmemente no corrimo do deque, Moby
danava de um lado para o outro, tentando evitar
que a gua da mangueira lhe atingisse, sem
conseguir.
     -  s gua, seu bebezo - ralhou Travis,
embora ele j estivesse encharcando Moby h
mais de cinco minutos. Por mais que ele amasse
os animais, no queria comear a ensaboar seu
cachorro antes que todos os... "restos"
houvessem sido removidos. Pedaos de peixe
morto eram nojentos.
     Moby gania e continuava tentando se es-
quivar, puxando a guia. Quando ele finalmente
achou que era hora, soltou a mangueira e despe-
jou um tero do tubo de xampu nas costas de
Moby. Ele esfregou por alguns minutos e
enxaguou, cheirou o cachorro e soltou um gem-
ido. Ele repetiu o processo mais duas vezes e, ao
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final daquele martrio, Moby estava desanimado.
Ele estava com os olhos fixos em Travis, com
uma expresso que parecia dizer: "Voc no per-
cebe que rolar naqueles restos de peixe morto era
o meu presente de corao para voc?".
      Quando Travis se deu por satisfeito, levou
Moby at outra parte do deque e o amarrou nova-
mente. Ele havia aprendido que, se deixasse
Moby correr livremente aps um banho, ele vol-
taria rapidamente  cena do crime. Sua nica es-
perana era conseguir mant-lo preso at que ele
se esquecesse daquilo. Moby se agitou para se
livrar do excesso de gua e, percebendo que es-
tava preso, finalmente se deitou no deque com
um resmungo.
      Depois, Travis cortou a grama. Ao contrrio
da maioria dos seus vizinhos, que usavam corta-
dores de grama motorizados com lugar para o
motorista, Travis ainda usava um modelo antigo,
que precisava ser empurrado. Ele demorava um
pouco mais para concluir o trabalho, mas no
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fazia aquilo apenas pelo exerccio - ele achava
que o movimento de ir e voltar no jardim era re-
laxante. Enquanto cortava a grama, ele olhava re-
flexivamente para a casa de Gabby.
     Alguns minutos antes, ele a viu sair pela
garagem e entrar no carro. Se ela o percebeu tra-
balhando no jardim, no deu nenhum sinal. Em
vez disso, ela simplesmente tirou o carro da gar-
agem e foi em direo ao centro da cidade. Ele
nunca havia conhecido ningum como ela. E
agora ela o havia convidado para jantar.
     Ele no sabia o que fazer em relao quilo
e estava tentando descobrir desde que a deixou
em casa no incio daquela tarde. Provavelmente
ele havia simplesmente a deixado exausta. Deus
sabia que ele estava tentando conquist-la desde
que eles se conheceram, mas, enquanto cortava a
grama, ele percebeu que deveria ter sido um pou-
co mais sutil a respeito de toda a situao. Aquilo
faria com que ele se sentisse melhor em relao
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ao convite para jantar, sabendo que no havia
sido uma coisa que ela se sentiu coagida a fazer.
      Pensar naquilo tudo era algo novo para ele.
Mas, novamente, no conseguia se lembrar de
uma ocasio em que tivesse se divertido tanto
com uma mulher. Ele havia rido mais com Gabby
do que com Mnica, Joelyn, Sarah ou qualquer
outra que ele tivesse namorado no passado. En-
contrar uma mulher que tivesse senso de humor
foi o melhor conselho que ele recebeu de seu pai
quando comeou a levar seus namoros a srio, e
ele finalmente entendeu por que seu pai sempre
havia considerado aquilo importante. Se a con-
versa era a letra da msica, o riso era a melodia,
fazendo com que o tempo que eles passavam jun-
tos se transformasse em uma msica que podia
ser tocada repetidamente, sem que ele se cansasse
de ouvi-la.
      Depois que terminou de aparar o gramado,
ele trouxe o cortador de volta  garagem, per-
cebendo que Gabby ainda no havia retornado.
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Ela havia deixado uma fresta na porta da gar-
agem, e Molly saiu e deu uma volta no jardim,
voltando em seguida para dentro.
     De volta a sua cozinha, Travis bebeu um
copo de ch gelado em um nico gole. Sabendo o
que poderia acontecer, mas sem se importar com
aquilo, ele comeou a pensar a respeito do
namorado de Gabby. Ele imaginou se Kevin era
algum que ele conhecia. Ele achava estranho
que ela tivesse falado to pouco sobre ele, e que
havia demorado muito para que ela dissesse o
nome do seu namorado. Seria fcil atribuir aquilo
a algo como culpa, no fosse pelo fato de que ela
se esquivara do tpico no comeo. Ele no sabia
o que fazer com aquilo, e imaginou como seria
aquele cara, ou o que ele havia feito para que
Gabby se apaixonasse por ele. Vrias imagens
cruzavam a mente de Travis: atltico, intelectual,
alguma coisa entre esses dois extremos - mas
nada daquilo parecia se encaixar direito.
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     Olhando as horas, ele percebeu que podia
levar o barco do parapente de volta para a marina
antes de tomar um banho e se vestir para o jantar.
Pegou a chave do barco e foi at a rampa que
ficava  margem do rio. Desamarrou Moby e viu
que o cachorro correu na sua frente, indo at
onde o barco estava amarrado. Parando em frente
 doca, Travis apontou para o barco.
     - V em frente, pode entrar.
     Moby pulou no barco, com seu rabo bal-
anando de um lado para o outro. Travis o
seguiu. Alguns minutos depois, eles estavam
navegando pelo rio, deixando uma trilha de es-
puma para trs. Passando pela casa de Gabby, ele
deu uma olhada nas janelas, novamente pensando
sobre o jantar que aconteceria mais tarde e ima-
ginando o que aconteceria. Ele percebeu, pela
primeira vez em sua vida amorosa, que estava
                                              394/627


nervoso com a possibilidade de fazer alguma
coisa errada.


     Gabby dirigiu at o supermercado e entrou
no estacionamento lotado. O lugar sempre ficava
cheio aos domingos, e ela estacionou no lado
mais distante, imaginando por que ela havia se
incomodado de dirigir at ali se teria de andar
tanto, de qualquer maneira.
     Com a bolsa por cima do ombro, ela saiu do
carro, pegou um carrinho de compras e entrou no
supermercado.
     Ela havia visto Travis cortando a grama
mais cedo, mas o ignorou, precisando sentir uma
sensao maior de controle do que ela sentia no
momento. O mundo pequeno e metdico que ela
havia criado tinha entrado em parafuso, e ela pre-
cisava desesperadamente de tempo para recuper-
ar sua compostura.
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      Dentro da loja, Gabby foi at a seo de
frutas e verduras, onde pegou uma bandeja de
vagens frescas e ingredientes para salada.
Andando rapidamente, pegou uma embalagem de
macarro e alguns croutons, e depois foi para o
fundo do mercado.
      Sabendo que Travis gostava de frango, ela
colocou uma bandeja com pedaos de peito de
frango no carrinho, pensando que uma garrafa de
Chardonnay combinaria bem com aquilo. Ela no
tinha certeza se Travis gostava de vinho - por al-
gum motivo, ela duvidava daquilo -, mas parecia
bom o bastante para ela, e ela procurou por al-
guma vincola conhecida entre as poucas opes
disponveis. Havia duas opes produzidas no
vale de Napa, mas ela escolheu uma garrafa aus-
traliana, pois parecia um pouco mais extico.
      As filas dos caixas estavam longas e se
moviam lentamente, mas ela finalmente chegou
at o carro. Olhando pelo espelho retrovisor, ela
viu sua prpria imagem, e parou por alguns
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momentos, tentando olhar para si mesma pelos
olhos de outra pessoa.
     Quanto tempo fazia desde que ela havia sido
beijada por outra pessoa alm de Kevin? Por
mais que ela tentasse esquecer aquele pequeno
incidente, ela voltava a pensar naquilo a todo mo-
mento, como se fosse um segredo proibido.
     Ela se sentia atrada por Travis; no havia
como negar aquilo. No somente por ele ser
bonito e por fazer com que ela se sentisse dese-
jvel. Tinha algo a ver com a sua exuberncia
natural e a maneira que ele tinha de fazer com
que ela se sentisse uma parte daquilo; era o fato
de que ele havia vivido uma vida que parecia
muito diferente da dela, e mesmo assim eles
ainda falavam a mesma lngua, uma familiarid-
ade que era muito mais intensa do que o curto
perodo em que eles se conheciam poderia indi-
car. Ela nunca conheceu ningum como ele antes.
A maioria das pessoas que conhecia, e certa-
mente todos na sua turma da escola para
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assistentes mdicos, parecia viver sua vida como
se estivesse riscando objetivos em uma lista.
Estude bastante, arrume um emprego, case-se,
compre uma casa, tenha filhos - e, at este fim de
semana, ela percebeu que no era diferente. De
algum modo, comparado com as escolhas que
Travis havia feito e os lugares para onde ele
havia viajado, a vida dela parecia to... banal.
     Mas ser que ela conseguiria fazer as coisas
de outro modo, se tivesse a oportunidade? Ela
duvidava. As experincias pelas quais passou en-
quanto crescia a haviam transformado na mulher
que ela era, assim como as experincias de Travis
fizeram o mesmo por ele, e ela no se arrependia.
Mesmo assim, quando virou a chave e deu a
partida no motor, ela sabia que no era a pergunta
que importava. Com o barulho do motor ao
fundo, percebeu que a escolha que tinha era: para
onde eu vou agora?
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     Nunca  tarde para mudar as coisas. O
pensamento a assustava, ao mesmo tempo que a
entusiasmava. Alguns minutos depois, ela estava
dirigindo em direo a Morehead City, sentindo
como se, de repente, ela tivesse recebido a opor-
tunidade de comear de novo.


      O sol havia cruzado o cu quando Gabby
chegou em casa, e ela viu que Molly estava deit-
ada na grama mida, com as orelhas empinadas e
o rabo balanando. Molly trotou em direo a
Gabby quando ela abriu a porta dos fundos,
recebendo-a com duas lambidas molhadas.
      - Voc parece estar quase de volta ao normal
- disse Gabby. - Seus bebs esto bem?
      Como se fosse um comando, Molly
comeou a andar na direo em que eles estavam.
      Gabby pegou as sacolas do supermercado e
as trouxe para dentro, colocando tudo no balco
da cozinha. Ela havia demorado mais do que
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o previsto, mas ainda teria bastante tempo para
comear os preparativos. Colocou uma panela
com gua para esquentar no fogo. Enquanto a
gua esquentava, ela cortou os tomates e pepinos
para a salada. Cortou as folhas de alface e mistur-
ou os ingredientes com um pouco de queijo e as
azeitonas que Travis havia lhe apresentado
anteriormente.
     Ela acrescentou o macarro  gua com um
pouco de sal, desembalou os peitos de frango e
comeou a gratin-los no azeite de oliva, dese-
jando poder fazer algo um pouco mais elegante.
Ela acrescentou um pouco de pimenta e outros
condimentos, mas, quando estava quase pronto,
parecia quase to insosso quanto antes de ela t-
lo colocado na frigideira. Deixa pra l, isso vai
ter de servir. Ela colocou o forno na potncia m-
dia e acrescentou um pouco de caldo na as-
sadeira, juntamente com o frango, esperando que
aquilo fosse o bastante para evitar que a carne se-
casse. Ela escorreu a massa e a colocou em uma
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tigela na geladeira, planejando adicionar algo que
lhe desse mais sabor posteriormente.
      Em seu quarto, colocou algumas roupas
sobre a cama e foi para o chuveiro. A gua
quente era reconfortante. Ela depilou as pernas,
forando-se a no se apressar para que no se
cortasse. Lavou o cabelo e passou condicionador,
e finalmente saiu do boxe e se secou.
      Sobre a cama havia um novo par de jeans e
uma camisa com um belo decote, decorada com
miangas. Ela havia escolhido seu traje cuida-
dosamente, pois no estava disposta a se vestir
formalmente ou casualmente demais, e aquelas
peas pareciam ser a escolha certa. Ela se vestiu e
calou um novo par de sandlias, combinando
com um par de brincos de pingentes. Indo at o
espelho, se virou de um lado para o outro, con-
tente com sua aparncia.
      Com o tempo se esgotando, colocou algu-
mas velas pela casa e estava colocando a ltima
sobre a mesa quando ouviu Travis bater. Ela se
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endireitou, tentando se recompor, e depois foi at
a porta.
     Molly havia chegado at onde Travis estava,
e ele estava coando atrs das orelhas dela
quando a porta abriu. Ele percebeu que no con-
seguia desviar o olhar. Tambm no conseguia
encontrar sua voz. Em vez disso, ele simples-
mente olhou para Gabby, emudecido, tentando
organizar o redemoinho de emoes que
comeavam a se aglomerar em seu corao.
     Gabby sorriu com o desconforto bvio que
ele aparentava. - Entre - disse ela. - Est quase
tudo pronto.
Travis a seguiu para dentro da casa, tentando no
fixar o olhar em Gabby enquanto ela andava 
sua frente.
     - Eu ia abrir uma garrafa de vinho. Quer
uma taa?
     - Quero sim, por favor.
     Na cozinha, ela pegou a garrafa e o saca-rol-
has, e Travis se aproximou.
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     - Deixe comigo.
     - Ah, obrigada. Muitas vezes eu acabo
destruindo a rolha, e detesto quando os pedaos
de cortia ficam boiando na minha taa.
     Ao abrir a garrafa, Travis a observou
pegando duas taas do armrio. Ela as colocou no
balco, e Travis estudou o rtulo, fingindo ter
mais interesse do que realmente tinha, tentando
acalmar seus nervos.
     - Nunca tomei um destes antes.  bom?
     - No fao ideia.
     - Ento acho que ser uma experincia nova
para ns dois. - Ele serviu o vinho e deu uma das
taas a ela, tentando ler sua expresso.
     - Eu no tinha certeza sobre o que voc iria
querer para o jantar - continuou ela -, mas sei que
voc gosta de frango. Preciso dizer, entretanto,
que nunca fui a melhor cozinheira da famlia.
     - Tenho certeza de que vou gostar de
qualquer coisa que voc tenha preparado. No
tenho um gosto to restrito.
                                              403/627


      - Desde que seja algo meio insosso, certo?
      -  claro.
      - Est com fome? - sorriu ela. - Vou levar
apenas alguns minutos para esquentar o jantar.
Ele debateu por um momento antes de se apoiar
no balco da cozinha.
      - Ser que podemos esperar um pouco? Eu
gostaria de desfrutar dessa taa de vinho antes do
jantar.
      Ela fez que sim com a cabea, e ficou na
frente dele, em silncio, imaginando o que dever-
ia fazer em seguida.
      - Gostaria de se sentar do lado de fora?
      - Eu adoraria.
      Eles se sentaram nas cadeiras de balano
que ela colocou perto da porta. Gabby tomou um
gole do seu vinho, feliz por ter algo que pudesse
diminuir a presso nos seus nervos.
      - Eu gosto da vista que voc tem aqui fora -
disse Travis, corajosamente, balanando-se para
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a frente e para trs com energia. - Me lembra um
pouco da minha.
     Gabby riu, sentindo uma pequena exploso
de alvio. - Infelizmente, eu no aprendi a
apreci-la do jeito que voc faz.
     - Poucas pessoas conseguem.  como uma
arte perdida nos dias de hoje, mesmo no sul dos
Estados Unidos. Observar as guas do rio pas-
sando  um pouco parecido como cheirar as
rosas.
     - Talvez seja uma dessas coisas tpicas de
cidade pequena - especulou ela.
     Travis a olhou com interesse. - Me diga
honestamente. Voc est gostando da vida em
Beaufort? - perguntou ele.
     - Tem seu lado bom.
     - Ouvi dizer que os vizinhos so timos.
     - S conheci um deles at agora.
     - E?
     - Ele tem uma tendncia a fazer perguntas
capciosas.
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     Travis abriu um sorriso. Ele adorava aquela
competitividade que ela tinha.
     - Mas, para responder  sua pergunta - con-
tinuou ela -, sim, eu gosto bastante daqui. Gosto
do fato de que s leva alguns minutos para
chegar a qualquer lugar.  um lugar bonito e
acho que estou aprendendo a gostar do ritmo
mais tranquilo da vida.
     - Voc fala isso de um jeito que parece que
Savannah  to cosmopolita quanto Nova York
ou Paris.
     - No  - ela olhou para ele por cima do
copo. - Mas devo dizer que Savannah  mais
parecida com Nova York do que com Beaufort.
Voc j esteve l?
     - Passei uma semana por l certa vez.
     - Achei que voc fosse fazer alguma piada.
     - No, isso d muito trabalho.
     - E voc no gosta de trabalhar, certo?
     - Como voc sabe? - ele se recostou em sua
cadeira de balano, o retrato da tranquilidade. -
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Mas me diga a verdade. Voc acha que algum dia
voltaria a morar em Savannah?
     Ela tomou um gole de vinho antes de re-
sponder. - Acho que no - disse ela. - No me en-
tenda mal. Acho que  um lugar excelente, e 
uma das cidades mais bonitas do sul dos Estados
Unidos. Adoro a maneira como a cidade foi con-
struda. Tem as praas mais bonitas que eu j vi,
pequenos parques espalhados a poucas quadras
de distncia uns dos outros, e algumas casas que
ficam de frente para esses lugares so impres-
sionantes. Quando eu era pequena, costumava
imaginar que iria morar em uma casa daquelas.
Durante um bom tempo foi um sonho que tive.
     Travis ficou em silncio, esperando que ela
continuasse. Gabby deu de ombros. - Mas, con-
forme eu fui crescendo, percebi que aquilo era
um sonho da minha me em vez de um dos meus.
Ela sempre quis viver em uma daquelas casas, e
me lembro de como ela costumava pressionar
meu pai para fazer uma oferta sempre que uma
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estivesse  venda. Meu pai tinha algum dinheiro,
mas eu percebia que ele sempre ficava incomod-
ado por no poder comprar uma daquelas casas
imensas, e, depois de um tempo, comecei a rejeit-
ar aquela ideia.
      Ela parou por um momento. - De qualquer
forma, acho que queria algo diferente. O que me
levou,  claro,  faculdade,  escola de assistentes
mdicos e a Kevin. E aqui estou eu.
      Ao longe, eles ouviram Moby comear a
latir freneticamente, seguido por um leve farfal-
har de garras na madeira. Olhando para o grande
carvalho perto das cercas vivas, Travis observou
um esquilo subir pelo tronco. Embora no
pudesse v-lo, ele sabia que Moby ainda estava
rodeando o carvalho, pensando que, por algum
motivo, o esquilo cairia da rvore. Percebendo
que Gabby havia se virado com o som, Travis le-
vantou a taa em direo  rvore.
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     - Meu cachorro adora correr atrs dos es-
quilos. Ele parece achar que isso  o propsito da
sua vida.
     - A maioria dos ces acha isso.
     - Molly tambm?
     - No. A sua dona tem um pouco mais de
controle sobre ela, e esse mal foi cortado pela ra-
iz antes que passasse dos limites.
     Por sobre a gua, comeava o primeiro ato
da brilhante trajetria descendente do sol. Em
mais uma hora as guas do rio ficariam douradas,
mas agora havia algo escuro e misterioso em re-
lao  sua cor escura. Alm dos ciprestes que
cobriam a margem, Travis viu uma gaivota flutu-
ando em correntes ascendentes de ar e observou
uma pequena lancha carregada com equipamen-
tos de pesca passar por ali. Ela era capitaneada
por um homem velho o bastante para ser av de
Travis, e aquele senhor lhe acenou. Travis
acenou de volta, e tomou mais um gole.
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     - Com tudo o que voc disse, estou curioso
para saber se consegue se imaginar ficando em
Beaufort para sempre.
     Ela pensou em sua resposta, sentindo que
havia mais naquela pergunta do que parecia, 
primeira vista.
     - Acho que depende - disse ela, finalmente. -
No  exatamente um lugar agitado, mas, por
outro lado, no  um lugar ruim para formar uma
famlia.
     - E isso  importante?
     Ela se virou para ele com um leve ar de de-
safio. - Existe algo mais importante do que isso?
     - No - concordou ele. - Com certeza no
h. Sei disso porque eu vivenciei esse tipo de
coisa. Beaufort  o tipo de lugar onde a liga de
beisebol infantil  um assunto mais popular do
que as finais do campeonato nacional de futebol
americano, e gosto de pensar que posso criar
meus filhos onde o pequeno mundo em que eles
vivem  tudo que conhecem. Quando eu era mais
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novo, costumava pensar que este era o lugar mais
chato do mundo, mas, quando lembro daqueles
anos, percebo que qualquer coisa mais emocion-
ante tinha um significado muito mais forte para
mim. Eu me cansei de fazer e conhecer coisas,
como acontece com muitos garotos de cidade
grande - ele fez uma pausa. - Eu me lembro de
sair para pescar com meu pai todo sbado pela
manh. Mesmo sabendo que meu pai era um dos
piores pescadores do mundo, eu achava aquilo
timo. Hoje entendo que, para o meu pai, pelo
menos, aquilo acontecia para que pudssemos
passar algum tempo juntos, e  impossvel dizer o
quanto eu sou grato por aqueles sbados. Gosto
de pensar que poderei dar as mesmas experin-
cias aos meus filhos algum dia.
     -  bom ouvir voc dizer uma coisa dessas -
comentou Gabby. - Poucas pessoas pensam dessa
maneira.
     - Eu amo esta cidade.
                                              411/627


     - No estava falando disso - disse ela, sor-
rindo. - Eu falei sobre a maneira como voc pre-
tende criar seus filhos. Voc parece ter pensado
bastante a respeito disso.
     - Pensei, sim - concordou ele.
     - Voc sempre consegue me surpreender,
sabia?
     - No sabia. Consigo mesmo?
     - Um pouco. Quanto mais eu o conheo,
mais voc me parece ser uma pessoa extrema-
mente bem ajustada.
     - Eu poderia dizer o mesmo sobre voc - re-
spondeu ele. - Talvez seja por isso que nos damos
to bem.
     Ela olhou para ele, sentindo a tenso
aumentar entre eles. - J est pronto para jantar?
     Ele engoliu em seco, esperando que Gabby
no detectasse os sentimentos que ele tinha em
relao a ela. - Acho que estou sim - disse ele,
forando as palavras.
                                             412/627


     Pegando as taas de vinho, eles voltaram
para a cozinha. Gabby fez um gesto para que
Travis se sentasse  mesa enquanto ela preparava
os pratos, e, ao observ-la andando pela cozinha,
ele percebeu que um sentimento de contenta-
mento lhe sobreveio.
     Durante o jantar, ele comeu dois pedaos do
frango, se deliciou com as vagens e o macarro, e
elogiou exageradamente as habilidades culinrias
de Gabby, at que ela riu, pedindo que ele para-
sse. Ele perguntou vrias vezes sobre a infncia
dela em Savannah, e ela finalmente se rendeu,
premiando-o com algumas histrias de quando
era mais nova, fazendo os dois rirem bastante.
Com o decorrer das horas, o cu passou do
dourado para o cinza-azulado e por fim para o
negro. As velas queimavam, e eles colocaram o
que havia sobrado do vinho em suas taas, ambos
cientes de que estavam sentados frente a frente
com uma pessoa que poderia mudar o rumo de
                                            413/627


suas vidas para sempre se no fossem
cuidadosos.
     Aps o jantar, e depois que Travis ajudou
Gabby a lavar os pratos, eles foram para o sof,
degustando o vinho e contando histrias sobre o
passado. Gabby tentou imaginar Travis quando
ele era um menino mais novo, imaginando tam-
bm o que ela teria pensado a respeito dele se
tivessem se conhecido durante o ensino mdio ou
nos primeiros anos da faculdade.
      medida que a noite avanava, Travis se
aproximava um pouco mais dela, casualmente
colocando seu brao ao redor de Gabby. Ela se
recostou nele, sentindo-se aconchegada e feliz,
observando os reflexos prateados do luar con-
forme eles se filtravam por entre as nuvens.
     - No que est pensando? - perguntou Travis
em certo momento, quebrando um silncio longo,
mas confortvel.
     - Eu estava pensando em como esse fim de
semana pareceu natural - disse Gabby, olhando
                                             414/627


para ele. - Como se ns nos conhecssemos h
muito tempo.
     - Acho que isso significa que algumas das
minhas histrias a deixaram entediada, no foi?
     - No se subestime - provocou ela. - Vrias
das suas histrias me deixaram entediada.
     Ele riu, puxando-a para mais perto de si. -
Quanto mais eu a conheo, mas voc me sur-
preende. Eu gosto disso.
     -  para isso que servem os vizinhos.
     - Isso  tudo que eu sou para voc? S um
vizinho?
     Ela olhou para longe, sem responder, e
Travis continuou. - Eu sei que voc no gosta de
tocar neste assunto, mas eu no posso sair daqui
esta noite sem lhe dizer que sermos apenas vizin-
hos no  o bastante para mim.
     - Travis...
     - Deixe-me terminar - interrompeu ele. -
Mais cedo, quando conversamos, voc me disse o
quanto sentia falta de ter amigos por perto, e eu
                                             415/627


estive pensando nisso o dia todo, mas no da
maneira como voc provavelmente est imagin-
ando. Aquilo me fez perceber que, embora eu
tenha amigos, sinto falta de algo que todos os
meus amigos tm. Laird e Allison, Joe e Megan,
Matt e Liz, todos tm um ao outro. Eu no tenho
isso em minha vida, e at que voc aparecesse, eu
no tinha certeza de que queria algo assim. Mas
agora...
     Ela mexeu nas miangas costuradas em sua
blusa, resistindo s palavras dele, mas ao mesmo
tempo gostando de ouvi-las.
     - Eu no quero perd-la, Gabby. Eu no con-
sigo imaginar v-la andando em direo ao seu
carro pela manh e fingir que nada disso aconte-
ceu. No consigo imaginar no me sentar com
voc aqui no sof, como estamos fazendo agora -
ele engoliu em seco. - E neste exato momento
no consigo me imaginar estar apaixonado por
qualquer outra mulher.
                                            416/627


     Gabby no tinha certeza se havia ouvido
aquilo mesmo, mas, quando ela percebeu o jeito
como ele estava olhando para ela, soube que ele
estava sendo sincero. E, com aquilo, sentiu que
suas ltimas defesas j estavam desmoronando, e
que havia se apaixonado por ele tambm.
     O carrilho que ela tinha na sala tocou. A
luz das velas tremeluzia nas paredes, lanando
sombras pela sala. Travis conseguia sentir o mo-
vimento suave do trax dela, subindo e descendo
conforme ela respirava, e eles continuaram com
os olhos fixados um no outro, nenhum dos dois
conseguindo falar.
     O telefone tocou, despedaando os
pensamentos dela, e Travis se virou para o outro
lado. Gabby se inclinou para a frente e pegou o
telefone sem fio. Ela respondeu, e sua voz no
deu nenhum indcio do que estava havendo.
     - Oh, oi, como est?... Nada de especial...
Aham... Estava cuidando de algumas coisas por
aqui... E como esto as coisas por a?
                                             417/627


     Ao ouvir a voz de Kevin, uma onda de culpa
tomou conta dela. Mesmo assim, ela percebeu
que estava com o brao estendido e a mo em
cima da perna de Travis. Ele no havia se movido
e no fez nenhum som, e ela podia sentir os ms-
culos tensionados por baixo do jeans dele con-
forme deslizava a mo pela sua coxa.
     - Ah, isso  timo. Parabns. Fico feliz por
voc ter vencido. Parece que voc est se di-
vertindo bastante... Eu? Ah, nada de muito
interessante.
     Ouvir a voz de Kevin ao mesmo tempo em
que estava to prxima de Travis a estava puxan-
do em duas direes opostas. Ela tentou se con-
centrar e escutar o que Kevin dizia, enquanto or-
ganizava seus pensamentos em relao ao que
havia acabado de acontecer com Travis. A situ-
ao era surreal demais para se absorver.
     - Ah, que pena... eu sei, eu me queimo fa-
cilmente quando estou ao sol, tambm... sim...
sim, eu pensei sobre a viagem a Miami, mas no
                                             418/627


vou conseguir nenhum dia de folga at o fim do
ano... talvez, eu no sei...
      Ela tirou a mo da perna de Travis e se re-
costou no sof, tentando manter a voz firme,
desejando no ter atendido o telefone, desejando
que ele no tivesse ligado. Sabendo que ela es-
tava apenas ficando cada vez mais confusa. -
Vamos conversar sobre isso depois, pode ser?
Quando voc voltar... no, no h nada de er-
rado. Acho que estou cansada, s. O fim de sem-
ana foi puxado.
      No era mentira, mas tambm no era a ver-
dade, e ela sabia, o que a fazia se sentir pior
ainda. Travis estava olhando para baixo, escut-
ando a conversa, mas fingindo no faz-lo.
      - Pode deixar - continuou ela. - Sim, voc
tambm... certo... sim, acho que estarei por
aqui... Tudo bem... eu tambm. Divirta-se
amanh. Tchau.
      Desligando o telefone, ela pareceu preocu-
pada por um momento antes de se inclinar para a
                                                419/627


frente e colocar o telefone sem fio sobre a mesa
de centro. Travis sabia que devia ficar em siln-
cio naquele momento.
      - Era Kevin - disse ela, finalmente.
      - Eu imaginei - disse Travis, incapaz de ler a
expresso dela.
      - Ele venceu o torneio de golfe hoje.
      - Que bom para ele.
      Novamente, um silncio desceu sobre eles.
      - Acho que preciso de um pouco de ar fresco
- disse ela, finalmente, levantando-se do sof. Ela
foi at a porta lateral e saiu para o deque.
      Travis observou-a saindo da casa,
perguntando-se se deveria se juntar a ela, ou se
seria melhor lhe dar alguns momentos para ficar
sozinha. Do lugar onde ele estava sentado no
sof, a imagem dela contra o corrimo estava
coberta pelas sombras. Ele se imaginou saindo
pela porta para ficar ao lado dela, apenas para
ouvi-la dizer que seria melhor ele ir para casa.
                                              420/627


Embora aquela ideia o assustasse, ele precisava
estar com ela, agora mais do que nunca.
     Ele foi at o deque e se juntou a ela ao lado
do corrimo. Sob o luar, a pele dela tinha um tom
perolado, e seus olhos estavam iluminados em
meio  escurido.
     - Desculpe-me - disse ele.
     - No precisa se desculpar. Voc no fez
nada de errado - disse ela, forando um sorriso. -
 minha culpa, no sua. Eu sabia no que estava
me metendo.
     Gabby podia perceber que ele queria toc-la,
mas estava dividida, sem saber se queria que ele
fizesse aquilo ou no. Ela sabia que deveria dar
um fim naquilo, que no deveria deixar a noite
continuar no rumo em que estava, mas no con-
seguia quebrar o encanto que a declarao de
Travis havia lanado sobre ela. Aquilo no fazia
sentido. As pessoas levavam algum tempo para
se apaixonar, mais tempo do que apenas um fim
de semana, e, mesmo assim, apesar de seus
                                               421/627


sentimentos em relao a Kevin, foi exatamente o
que aconteceu. Ela sentia o nervosismo de Travis
enquanto ele estava ao seu lado e o observou en-
quanto ele se fortalecia com um ltimo gole de
vinho.
     - Aquilo que voc disse h alguns
minutos... foi sincero? - perguntou ela. - Sobre
querer formar uma famlia.
     - Sim.
     - Fico feliz - disse ela. - Porque eu acho que
voc vai ser um timo pai. No lhe disse antes,
mas foi o que pensei quando vi voc com as cri-
anas ontem. Voc parecia ter um talento natural
para lidar com elas.
     - Eu tenho muita experincia com filhotes.
     Apesar da tenso, ela riu. Ela se aproximou
um pouco dele, e quando ele se virou para
encar-la, ela colocou os braos ao redor do
pescoo dele. Ela podia ouvir aquela voz no
fundo da sua cabea lhe dizendo para parar,
dizendo que no era tarde demais para acabar
                                             422/627


com tudo aquilo. Mas outro desejo havia tomado
conta dela, e ela sabia que era intil neg-lo.
     - Talvez, mas eu achei bem sensual - sussur-
rou ela.
     Travis a puxou para mais perto de si, per-
cebendo como o corpo dela parecia se encaixar
no seu. Ele sentiu o aroma suave de jasmim nela.
Em meio ao abrao, ele percebeu que seus sen-
tidos comearam a ficar mais alertas. Ele sentia-
se como se tivesse alcanado o final de uma
longa jornada, sem saber, at aquele momento,
que Gabby sempre havia sido o seu destino.
Quando ele sussurrou "Eu te amo, Gabby Hol-
land" em seu ouvido, nunca teve tanta certeza em
relao a alguma coisa em toda a sua vida.
     Gabby se aconchegou em seus braos.
     - Eu tambm te amo, Travis Parker - sussur-
rou ela, e, em meio ao abrao, Gabby no con-
seguia imaginar querer nada alm daquilo que es-
tava acontecendo no momento, com todas as re-
servas e arrependimentos empurrados para longe.
                                               423/627


     Ele a beijou, e depois beijou novamente, re-
petidamente, lentamente explorando seu pescoo
e o colo antes de voltar seus lbios para encontrar
os dela novamente. Ela correu suas mos por
cima do peito e dos ombros dele, sentindo a fora
nos braos que a envolviam, e quando ela sentiu
Travis passando os dedos pelos seus cabelos, es-
tremeceu, sabendo que aquele era o pice de um
fim de semana que estava ficando cada vez mais
intenso.
     Eles se beijaram no deque por um longo
tempo. Finalmente ela se afastou, e pegou na mo
de Travis para lev-lo para dentro da casa, pas-
sando pela sala e indo em direo ao quarto. Ela
apontou para a cama e, enquanto Travis se
deitava, ela tirou um isqueiro da gaveta e
comeou a acender as velas que havia preparado
anteriormente. O quarto, escuro a princpio, se
encheu com uma leve luz tremeluzente que deu
um tom de ouro lquido  sua pele.
                                               424/627


     Com as sombras acentuando cada movi-
mento, Travis fitou Gabby enquanto ela cruzou
os braos, buscando a barra da blusa. Com um
movimento suave, ela puxou a blusa por cima da
cabea. Seus seios pressionavam o contorno acet-
inado do seu suti, e suas mos se moveram
lentamente em direo ao boto do seu jeans. Um
momento depois, ela se livrou daquela pea, que
ficou amontoada no cho.
     Travis a observava, fascinado, quando ela se
aproximou da cama e o empurrou para que ele se
deitasse. Ela comeou a abrir os botes da camisa
dele e a puxou por cima de seus ombros. Quando
ele sentiu que estava com os braos livres, ela ab-
riu o boto do jeans dele e, um momento depois,
ele sentiu o calor da pele da barriga dela con-
forme Gabby se esfregava sobre
o seu corpo.
     A boca de Travis se encontrou com a dela
com uma paixo controlada. Ter o corpo dela ao
seu lado lhe dava uma sensao prazerosa, como
                                               425/627


se eles tivessem sido feitos um para o outro, mais
do que qualquer coisa que eles j tivessem sen-
tido, como um quebra-cabea no qual as ltimas
peas finalmente se encaixam.
      Depois, ele se deitou ao lado dela e disse as
palavras que estavam ecoando dentro da sua
cabea durante a noite inteira.
      - Eu te amo, Gabby - sussurrou ele. - Voc 
a melhor coisa que j aconteceu comigo.
      Ele sentiu que ela estava estendendo o brao
para toc-lo.
      - Eu te amo tambm, Travis - sussurrou ela,
e, ao ouvir aquelas palavras, ele sabia que a jor-
nada solitria na qual ele se encontrava h anos,
de algum modo, havia chegado ao fim.
      Com a lua ainda alta no cu e a luz prateada
iluminando o quarto, Travis se virou na cama,
percebendo instantaneamente que Gabby no es-
tava ali. J eram quase 4 horas da manh e, aps
notar que ela no estava no banheiro, ele se le-
vantou e vestiu seu jeans. Foi at o corredor e
                                              426/627


olhou pela porta do quarto de hspedes antes de
examinar a cozinha. Todas as luzes estavam
apagadas, e ele hesitou por um momento antes de
perceber que a porta que dava para o deque es-
tava aberta.
      Ele foi at o deque, percebendo uma figura
encoberta pelas sombras apoiada contra o cor-
rimo, na lateral da casa. Ele deu um passo hesit-
ante em direo a Gabby, sem saber se ela prefer-
ia ficar sozinha.
      - Oi - ele ouviu uma voz chamando na es-
curido. Travis viu que ela estava usando o
roupo que estava pendurado no banheiro.
      - Oi - respondeu ele, em voz baixa. - Voc
est bem?
      - Estou bem. Eu acordei e no consegui
mais pegar no sono, mas no quis acordar voc.
      Parando bem perto dela, ele se apoiou contra
o corrimo, e os dois ficaram em silncio. Em
vez disso, eles simplesmente observaram o cu.
                                             427/627


Nada parecia estar se mexendo. At mesmo os
grilos e sapos estavam quietos.
     -  to lindo aqui fora - disse ela,
finalmente.
     -  sim - respondeu ele.
     - Eu adoro noites como esta.
     Quando ela no disse nada alm daquilo, ele
chegou mais perto e pegou em sua mo. - Est in-
comodada com o que aconteceu?
     - No, no  isso - disse ela, com a voz
lmpida. - No me arrependo de nada.
     Ele sorriu. - E no que est pensando?
     - Estava pensando em meu pai - refletiu ela,
apoiando-se nele. - Ele me lembra voc, de vrias
maneiras. Acho que voc gostaria de conhec-lo.
     - Tenho certeza de que gostaria - disse ele,
sem saber ao certo o rumo que aquela conversa
estava tomando.
- Eu estava pensando em como ele deve ter se
sentido quando conheceu minha me. O que
                                             428/627


passou pela cabea dele, se ele estava nervoso, o
que disse quando se aproximou dela.
     Travis olhou para ela. - E?
     - No fao ideia.
     Quando ele riu, ela colocou seu brao entre
o dele. - A gua da banheira de hidromassagem
no seu deque ainda est quente? - perguntou ela.
     - Acho que sim. No verifiquei esta noite,
mas tenho certeza de que est tima.
     - Quer aproveitar e entrar nela?
     - Eu teria de pegar uma sunga, mas a ideia
parece tima.
     Ela o abraou com fora, e depois falou em
seu ouvido. - Quem disse que voc precisa pegar
uma sunga?
     Travis no disse nada, e eles cruzaram o
jardim at chegarem ao lado da banheira in-
stalada no deque. Ao levantar a lona que cobria a
banheira, ele viu o roupo dela escorregar dos
seus ombros e seu corpo nu, sabendo o quanto ele
                                            429/627


a amava e que aqueles ltimos dias iriam, de al-
guma maneira, mudar sua vida para sempre.
Captulo 14
Embora ambos tenham voltado ao trabalho na
segunda-feira, durante os dois dias seguintes,
Travis e Gabby passaram quase todos os seus
momentos livres juntos. Fizeram amor na
segunda-feira antes de sair para trabalhar, al-
moaram juntos em uma pequena cafeteria em
Morehead City, e, naquela noite, como Molly es-
tava se sentindo melhor, eles levaram ambos os
ces para passear na praia perto de Fort Macon.
Enquanto caminhavam de mos dadas, Moby e
Molly exploravam a praia adiante como dois
amigos que haviam se acostumado com suas
diferenas. Quando Moby perseguia gaivotas e
corria em direo a bandos de pelicanos, Molly
mantinha o passo, agindo como se no quisesse
tomar parte naquilo. Aps algum tempo, Moby
percebia que Molly no estava mais ao seu lado e
                                             431/627


voltava para perto dela, e os dois trotavam
alegremente juntos at que Moby encontrasse
outra coisa que o distrasse, e tudo comeava
novamente.
     - Bem parecido com ns dois, no ? -
comentou Gabby, apertando a mo de Travis. -
Um sempre buscando emoes fortes, e o outro
se restringindo.
     - E qual deles sou eu?
     Ela riu e se encostou nele, apoiando a
cabea em seu ombro. Parando, ele a pegou em
seus braos, maravilhado e espantado com a
fora do sentimento que tinha em relao a ela.
Mas, quando ela ergueu o rosto para beij-lo, ele
sentiu que seus medos comeavam a se esvair,
substitudos por uma sensao crescente de com-
pletude. Ele imaginava se o amor causava aquela
sensao em todas as pessoas.
     Depois, eles pararam no supermercado.
Nenhum deles estava com muita fome, ento
Travis pegou os ingredientes para uma salada
                                              432/627


Csar com frango. Na cozinha, ele grelhou o
frango e observou Gabby enxaguar as folhas de
alface na pia. Abraados no sof aps o jantar,
Gabby falou mais de sua famlia para Travis, des-
pertando uma mistura de simpatia por Gabby e
raiva em relao  me dela por no conseguir re-
conhecer a mulher incrvel em que Gabby havia
se transformado. Naquela noite, eles se deitaram
e ficaram abraados um ao outro at bem depois
da meia-noite.
     Na tera-feira de manh, Travis estava ao
lado dela assim que Gabby comeara a se es-
preguiar. Ela abriu um olho.
     -  hora de acordar?
     - Acho que sim - murmurou ele.
     Eles estavam deitados, um de frente para o
outro, sem se mover. Travis continuou. - Sabe o
que seria timo agora? Caf feito na hora e bolin-
hos de canela.
     - Hummm - disse ela. - Uma pena que no
temos tempo. Tenho de estar na clnica s 8.
                                              433/627


Voc no devia ter me mantido acordada at
tarde ontem  noite.
     - Apenas feche os olhos e faa um desejo,
com bastante vontade. Talvez seu desejo se torne
realidade.
     Cansada demais para fazer qualquer outra
coisa, ela fez o que ele sugeriu, desejando apenas
poder ficar na cama por mais alguns minutos.
     - E a est! - ela o ouviu dizer.
     - O qu? - perguntou ela.
     - Seu caf. E um bolinho de canela.
     - No me provoque. Estou morrendo de
fome.
     - Est bem a do seu lado. Pode ver com os
prprios olhos.
     Ela se esforou para se levantar e viu duas
xcaras fumegantes de caf e um bolinho de
canela de dar gua na boca em cima da mesa de
cabeceira.
     - Quando voc... quero dizer, por que
voc...?
                                              434/627


     - H alguns minutos - disse ele, sorrindo. -
Eu j estava acordado, de qualquer maneira, en-
to dei uma corrida at o centro da cidade.
     Ela estendeu a mo para pegar as xcaras de
caf e lhe entregou uma, sorrindo. - Eu o beijaria
agora mesmo, mas o cheiro disso aqui est deli-
cioso, e estou morrendo de fome. Acho que vou
beij-lo mais tarde.
     - No chuveiro, talvez?
     -Voc sempre tem uma surpresa guardada,
no ?
     - Seja legal comigo. Eu lhe trouxe caf na
cama.
     - Eu sei - disse ela, piscando o olho. Ela
pegou o bolinho de canela. - E eu vou desfrutar
muito disso tudo.
     Na noite de tera-feira, Travis levou Gabby
para um passeio de barco, onde eles observaram
o pr do sol nas guas prximas ao litoral de
Beaufort. Gabby estava em silncio desde que
voltou do trabalho para casa, e esta foi a razo
                                               435/627


pela qual ele sugeriu o passeio; era a sua maneira
de tentar adiar a conversa que ele sabia que es-
tava se aproximando.
      Uma hora depois, sentada no deque de Trav-
is com Molly e Moby deitados a seus ps, Travis
finalmente se rendeu ao inevitvel.
      - O que vai acontecer a seguir? - perguntou
ele.
      Gabby girou o copo de gua que tinha nas
mos. - No tenho certeza - disse ela, em voz
baixa.
      - Quer que eu converse com ele?
      - No  to simples - disse ela, balanando a
cabea. - Passei o dia todo tentando imaginar um
jeito de resolver isso, e ainda no tenho certeza
do que vou fazer, ou mesmo do que vou dizer a
ele.
      - Voc vai contar a ele sobre ns, no ?
      - No sei - disse ela. - Realmente no sei. -
Ela se virou para Travis, com os olhos cheios de
lgrimas. - No fique bravo comigo. Por favor.
                                              436/627


Acredite em mim quando eu digo que sei como
voc se sente com essa situao, porque estou me
sentindo da mesma maneira. Nos ltimos dias,
voc me fez sentir como se eu estivesse... viva.
Voc fez com que eu me sentisse bonita, inteli-
gente e desejada, e, por mais que eu tente, nunca
conseguirei lhe dizer o quanto isso significa para
mim. Mas por mais intenso que tudo isso tenha
sido, e por mais que eu goste de voc, ns no
somos a mesma pessoa, e voc no est enfrent-
ando o mesmo tipo de deciso que eu.  fcil
para voc: ns nos amamos e deveramos ficar
juntos. Mas Kevin  importante para mim
tambm.
     - Mas e todas aquelas coisas que voc disse?
- perguntou Travis, tentando no parecer to as-
sustado quanto realmente estava.
     - Ele no  perfeito, Travis. Eu sei disso. E
no, as coisas no esto muito bem entre ns
neste momento. Mas no posso evitar pensar que
tenho um pouco de culpa por essa situao
                                              437/627


tambm. Voc no consegue perceber? Com ele,
eu tenho todas essas expectativas, mas com vo-
c... no tenho nenhuma. E, se voc invertesse a
equao, ser que tudo isso teria acontecido? E se
eu esperasse que voc se casasse comigo, mas,
com ele, eu simplesmente me permitisse curtir o
momento? Voc no teria feito tantas coisas por
mim, e provavelmente eu no iria querer que vo-
c o fizesse.
      - No diga uma coisa dessas.
      - Mas  verdade, no ? - ela estava com um
sorriso triste. -  assim que eu estava pensando
no dia de hoje, mesmo sabendo o quanto isso iria
doer. Eu amo voc, Travis, eu realmente amo. Se
eu pensasse nisso como apenas uma aventura de
fim de semana, eu superaria e voltaria a pensar
em meu futuro com Kevin. Mas no vai ser to
fcil. Tenho de fazer uma escolha entre vocs
dois. Com Kevin, eu sei o que esperar. Ou, pelo
menos, achava que sabia, at voc aparecer na
minha vida. Mas agora...
                                             438/627


     Ela fez uma pausa, e Travis viu que seu ca-
belo se movimentava levemente com a brisa. Ela
levantou os joelhos e abraou-os junto ao corpo.
     - Ns s nos conhecemos h alguns dias e,
enquanto estvamos no barco, eu ficava imagin-
ando quantas mulheres voc j levou para passear
daquela forma. No por estar com cimes, mas
porque eu no parava de me perguntar o que fez
com que esses relacionamentos terminassem. E
depois comecei a me perguntar se voc sentiria o
mesmo que sente agora em relao a mim no fu-
turo, ou se isso vai acabar como todos os seus
relacionamentos anteriores. Por mais que eu ache
que ns nos conhecemos, isso no  a realidade.
Ou, pelo menos, eu no conheo voc. Tudo o
que sei  que me apaixonei por voc, e nunca tive
tanto medo de alguma coisa na minha vida antes.
     Ela parou. Travis ficou em silncio, absor-
vendo as palavras dela antes de dizer qualquer
coisa.
                                               439/627


     - Voc est certa - admitiu ele. - Sua escolha
 diferente da minha. Mas voc est errada se
pensa que isso  apenas uma aventura para mim.
Pode ser que eu pensasse dessa forma no
comeo, mas... - ele buscou a mo dela - ... no
 assim que eu me sinto agora. Ficar com voc
me mostrou algo que passei a minha vida inteira
buscando. Quanto mais ns ficamos juntos, mais
imagino que isso ser algo duradouro no futuro.
Isso nunca me aconteceu antes, e no tenho cer-
teza de que acontecer novamente. Nunca me
apaixonei por ningum at voc chegar - pelo
menos no um amor verdadeiro, de qualquer
forma. No dessa forma, e eu seria um imbecil se
deixasse voc se afastar sem lutar.
     Ele passou a mo pelos cabelos, esgotado.
     - No sei o que mais posso lhe dizer, a no
ser que eu consigo me imaginar passando o resto
da minha vida ao seu lado. Sei que isso parece
uma coisa louca. Sei que estamos somente
comeando a nos conhecer, e at mesmo admitir
                                              440/627


o que acabei de dizer pode fazer voc pensar que
sou louco, mas nunca tive tanta certeza a respeito
de alguma coisa em minha vida. E, se voc me
der uma chance - se voc nos der uma chance -,
vou viver o resto da minha vida provando a voc
que tomei a deciso certa. Eu amo voc, Gabby.
No somente por ser quem voc , mas pela
maneira que voc me faz pensar no que ns po-
demos ser.
     Por um longo instante, nenhum deles disse
nada. Na escurido, Gabby ouvia os grilos cant-
ando em meio  folhagem. Sua mente estava em
um turbilho - ela queria fugir, mas tambm
queria ficar ali para sempre. Seus instintos ant-
agnicos eram um reflexo da situao impossvel
em que ela havia se envolvido.
     - Eu gosto de voc, Travis - disse ela, com
seriedade. Logo depois, percebendo o som da-
quilo, ela se esforou para continuar. - E eu amo
voc, tambm,  claro, mas tenho esperana de
que voc j saiba disso. Eu estava apenas
                                              441/627


tentando lhe dizer que gosto do jeito como voc
conversa comigo. Gosto do fato de que, quando
voc diz alguma coisa, sei que est sendo sincero.
Gosto do fato de que sei quando voc est brin-
cando comigo ou quando est dizendo a verdade.
 uma das suas qualidades que mais me atraem -
disse ela, acariciando-lhe o joelho. - Agora, pode
fazer uma coisa por mim?
     -  claro - disse ele.
     - No importa o que eu pedir?
     Ele hesitou. - Acho que sim.
     - Pode fazer amor comigo? Sem pensar que
pode ser a ltima vez que isso acontece?
     - Voc est pedindo duas coisas.
     Ela no se dignou a lhe dar uma resposta.
Em vez disso, simplesmente lhe estendeu a mo.
Ao irem em direo ao quarto, ela abriu um
pequeno sorriso, finalmente sabendo o que iria
fazer.
Parte dois
Captulo 15
Fevereiro de 2007
Travis tentou se livrar daquelas memrias de
quase onze anos, imaginando por que elas teriam
reaparecido com tanta clareza. Seria porque
agora ele tinha idade suficiente para perceber o
quanto era incomum se apaixonar to rapida-
mente? Ou simplesmente porque ele sentia falta
da intimidade daqueles dias? Ele no sabia.
     Ultimamente, parecia que ele no sabia a re-
speito de muitas coisas. Havia pessoas que
alegavam ter todas as respostas, ou pelo menos as
respostas para as grandes questes da vida, mas
Travis nunca havia acreditado nessas pessoas.
Havia algo na segurana com a qual elas falavam
ou escreviam que parecia rotular aquilo como
charlatanismo. Mas, se houvesse uma pessoa
capaz de responder a qualquer pergunta, Travis
                                               444/627


perguntaria o seguinte: at onde uma pessoa
deveria ir em nome do amor verdadeiro?
      Ele poderia fazer aquela pergunta a cem
pessoas diferentes e receber cem respostas difer-
entes. A maioria era bvia: uma pessoa deveria
sacrificar, aceitar, perdoar, ou at mesmo lutar se
necessrio... e a lista no parava por a. Mesmo
assim, mesmo sabendo que todas essas respostas
eram vlidas, nenhuma delas o ajudaria agora.
Algumas coisas estavam alm da sua com-
preenso. Pensando no passado, ele se lembrou
de eventos que desejou ser capaz de mudar, lgri-
mas que desejou que nunca tivessem rolado, po-
cas que poderiam ter sido mais bem aproveitadas
e frustraes que ele devia ter superado. A vida,
aparentemente, era algo repleto de arrependimen-
tos, e ele ansiava poder fazer o tempo voltar para
reviver algumas partes da sua vida. Uma coisa
era certa: ele deveria ter sido um marido melhor.
E, ao considerar a questo sobre at onde uma
pessoa deveria ir em nome do amor, ele sabia
                                                445/627


qual deveria ser a sua resposta. s vezes, aquilo
significava que uma pessoa deveria mentir.
      E, em breve, ele deveria decidir se faria
aquilo.
      As luzes fluorescentes e o piso de azulejos
brancos ajudavam a enfatizar a esterilidade do
hospital. Travis andava lentamente pelo corredor,
certo de que, mesmo tendo avistado Gabby an-
teriormente, ela no o havia visto. Ele hesitou, to-
mando coragem para ir at ela e conversar. Era a
razo pela qual ele havia vindo at ali, afinal de
contas, mas as lembranas vvidas que passaram
por seus olhos o haviam deixado esgotado. Ele
parou, sabendo que esperar mais alguns minutos
para organizar seus pensamentos no faria nen-
huma diferena.
      Ele entrou em uma pequena sala de espera e
se sentou. Observando o movimento rtmico e
constante no corredor, percebeu que, apesar das
emergncias infindveis, a equipe de funcionri-
os tinha certa rotina ali, assim como ele tinha as
                                               446/627


prprias rotinas em casa. Era inevitvel que as
pessoas tentassem criar um senso de normalidade
em um lugar onde nada era normal. Acrescentar
uma dose de previsibilidade a uma vida que era
inerentemente imprevisvel ajudava as pessoas a
enfrentar o dia. As manhs de Travis eram um
caso exemplar, todas sempre iguais. O desperta-
dor tocava s 6h15; ele levava um minuto para se
levantar da cama e nove para tomar banho; mais
quatro minutos para se barbear e escovar os
dentes, e sete minutos para se vestir. Uma pessoa
poderia acertar um relgio se seguisse os movi-
mentos de Travis pelas janelas da sua casa. De-
pois daquilo, ele descia as escadas rapidamente
para colocar cereal para as crianas; verificava as
mochilas para ver se as lies de casa estavam
em ordem e preparava sanduches de manteiga de
amendoim e geleia para o lanche, enquanto suas
filhas, ainda sonolentas, tomavam o caf da man-
h. Exatamente quinze minutos depois das 7 hor-
as, eles sairiam pela porta e ele ficava ao lado
                                            447/627


delas na calada, esperando o nibus da escola
chegar, dirigido por um homem cujo sotaque es-
cocs fazia com que Travis se lembrasse de
Shrek. Depois que suas filhas entravam no nibus
e se sentavam, ele sorria e acenava, exatamente
como devia fazer. Lisa e Christine tinham 6 e 8
anos, um pouco jovens para estarem no primeiro
e no terceiro ano do ensino fundamental, e, ao
observ-las no caminho para mais um dia na
escola, ele frequentemente sentia seu corao se
apertar de preocupao. Talvez aquilo fosse
comum - as pessoas sempre diziam que criar fil-
hos e se preocupar eram sinnimos - mas, re-
centemente, as preocupaes que ele sentia pare-
ciam mais acentuadas. Ele sentia que sua ateno
se focava em coisas com que nunca havia se pre-
ocupado. Coisas pequenas. Ridculas. Lisa estava
rindo dos desenhos animados tanto quanto anti-
gamente? Christine estava mais retrada do que o
normal? s vezes, conforme o nibus se
afastava, ele percebia que relembrava do caf da
                                             448/627


manh, repetindo a cena vrias e vrias vezes em
sua mente, procurando indcios relativos ao bem-
estar das meninas. Ele havia passado metade do
dia anterior imaginando se Lisa o estava testando
quando pedia que ele amarrasse os sapatos, ou se
apenas estava se sentindo preguiosa. Mesmo
sabendo que ele estava  beira da obsesso,
quando entrou nos quartos de cada uma para
ajustar os cobertores que estavam amarrotados
nas camas, ele no conseguia deixar de pensar se
a agitao que sentia  noite era algo novo, ou
algo que ele simplesmente no havia percebido
anteriormente.
     No era para ser assim. Gabby deveria estar
com ele; Gabby deveria ser a pessoa a amarrar os
sapatos e a ajustar os cobertores. Ela era boa em
coisas daquele tipo, como ele sempre soube que
ela seria, desde o comeo. Ele se lembrou que,
nos dias que se seguiram ao seu primeiro fim de
semana juntos, ele se apanhava estudando Gabby,
sabendo que, no fundo, mesmo se ele passasse o
                                             449/627


resto da sua vida procurando, nunca encontraria
uma me melhor, ou um complemento mais per-
feito para ele. Aquela percepo sempre surgia
nos lugares mais inusitados - ao empurrar o car-
rinho de supermercado na seo de frutas ou na
fila para comprar os ingressos do cinema - mas,
sempre que aquilo acontecia, era como se algo
to simples como pegar em sua mo se trans-
formasse em um prazer intenso, algo que era ao
mesmo tempo reconfortante e gratificante.
      Aquele perodo no foi to descomplicado
para ela. Foi ela quem ficou dividida entre dois
homens que lutavam pelo seu amor. "Um
pequeno inconveniente", era como Travis descre-
via a situao em festas, mas ele sempre ima-
ginava quando exatamente os sentimentos que ela
tinha por ele haviam finalmente sobrepujado o
que ela sentia por Kevin. Teria sido quando eles
estavam sentados lado a lado, olhando para o cu,
e ela comeou a descrever as constelaes que
conhecia? Ou no dia seguinte, quando ela o
                                             450/627


segurou com fora enquanto eles andavam de
moto, antes de pararem para fazer o piquenique?
Ou mais tarde, na mesma noite, quando ele a
tomou nos braos?
      Ele no tinha certeza. Capturar um instante
especfico como aquele no era mais possvel do
que localizar uma gota especfica de gua no
oceano. Mas o fato era que Gabby ainda teve de
explicar a situao para Kevin. Travis se lem-
brava da expresso angustiada no rosto de Gabby
na manh em que ela sabia que Kevin voltaria 
cidade. A certeza que os havia guiado nos dias
anteriores havia desaparecido; seu lugar havia
sido tomado pela realidade do que ela devia en-
frentar. Ela nem sequer tocou seu caf da manh.
Quando ele a beijou em despedida, ela respondeu
com um sorriso triste. As horas se arrastaram sem
que ela lhe desse notcias, e Travis se mantinha
ocupado no trabalho e fazia ligaes para encon-
trar lares para os filhotes de Molly, sabendo que
aquilo era importante para Gabby. Mais tarde,
                                              451/627


aps o trabalho, Travis foi ver como Molly es-
tava. Como se sentisse que sua presena seria ne-
cessria mais tarde, ela no voltou para a gar-
agem depois que Travis a deixou sair. Em vez
disso, ela se deitou na grama alta que havia em
frente  casa de Gabby, olhando em direo  rua
conforme o sol se aproximava do horizonte.
     A noite j havia cado h um bom tempo
quando o carro de Gabby chegou  rua onde
morava. Ele se lembrava da maneira firme como
ela
o encarou quando desceu do carro. Sem uma pa-
lavra, ela se sentou ao lado dele nos degraus da
varanda. Molly se aproximou e comeou a es-
fregar seu focinho nela. Gabby acariciou os pelos
da cadela em movimentos ritmados.
     - Oi - disse ele, quebrando o silncio.
     - Oi - a voz dela parecia no ter nenhuma
emoo.
     - Acho que encontrei lares para todos os fil-
hotes - disse ele.
                                                452/627


      -  mesmo?
      Ele fez que sim com a cabea, e os dois con-
tinuaram sentados lado a lado sem falar, como
duas pessoas que haviam esgotado todos os as-
suntos que tinham em comum.
      - Eu sempre vou te amar - disse ele,
buscando palavras adequadas para confort-la,
sem conseguir encontr-las.
      - Eu acredito em voc - sussurrou ela. Ela
passou seu brao entre o de Travis e apoiou a
cabea no ombro dele. -  por isso que estou
aqui.
      Travis nunca gostou de hospitais. Ao con-
trrio da clnica veterinria, que fechava as portas
por volta da hora do jantar, o Hospital Geral
Carteret parecia funcionar como uma roda-gi-
gante que gira sem parar, com pacientes e fun-
cionrios entrando e saindo a cada minuto de to-
do dia. Do lugar onde ele estava sentado, podia
ver enfermeiras entrando e saindo de quartos ou
reunidas na enfermaria no fim do corredor.
                                              453/627


Algumas pareciam estar exaustas, enquanto out-
ras pareciam estar entediadas; a situao no era
diferente com os mdicos. Em outros pavimen-
tos, Travis sabia que mes estavam dando  luz e
que idosos estavam falecendo, um microcosmo
do mundo. Por mais que ele achasse aquele ambi-
ente opressivo, Gabby adorava trabalhar ali, ener-
gizada pelo intenso burburinho das atividades.
      Ele se lembrou de uma carta na caixa de
correio alguns meses antes, enviada pela admin-
istrao da entidade, anunciando que o hospital
planejava celebrar os dez anos que Gabby trabal-
hava ali. A carta no mencionava nada que
Gabby tivesse especificamente realizado
naqueles dez anos; no era nada alm de uma
carta padronizada, algo que, sem dvida, era en-
viado a uma dzia de outras pessoas que haviam
comeado a trabalhar na mesma poca que ela. A
carta dizia que uma pequena placa em hom-
enagem a Gabby seria colocada em um dos
                                               454/627


corredores, com as de outros homenageados, mas
aquilo ainda no havia acontecido.
      Ele duvidava que Gabby daria importncia
quilo. Ela havia aceitado a proposta para trabal-
har no hospital no porque algum dia seria hom-
enageada com uma placa, mas porque ela sentiu
que no teria muita escolha. Embora tivesse
chegado a mencionar alguns problemas que teve
na clnica peditrica durante o primeiro fim de
semana que passaram juntos, no entrou em de-
talhes. Ele havia deixado o comentrio passar
sem insistir para que ela se abrisse, mas ele sabia
que aquele problema no iria simplesmente desa-
parecer por si s.
      Depois de algum tempo, ela lhe disse o que
estava acontecendo. Foi no fim de um dia longo e
cansativo. Ele havia sido chamado na noite an-
terior para atender a uma ocorrncia no centro
equestre, onde encontrou um cavalo rabe suando
e esfregando os cascos no cho, com o abdmen
sensvel ao toque. Eram os sinais clssicos de
                                             455/627


clica equina, embora, com um pouco de sorte,
ele no pensava que o animal necessitaria de
cirurgia. Mesmo assim, como os proprietrios
tinham mais de 70 anos, Travis no se sentia 
vontade em pedir-lhes que levassem o animal
para caminhar por 15 minutos, de hora em hora,
caso o cavalo ficasse mais agitado ou a condio
em que ele se encontrava piorasse. Em vez disso,
ele decidiu ficar ao lado do cavalo, e, embora o
animal melhorasse gradualmente com o passar do
dia, at a noite seguinte, ele estava exausto
quando voltou para casa.
      Ele chegou em casa suado e imundo, e en-
controu Gabby chorando na mesa da cozinha. Le-
vou alguns minutos at que ela conseguisse lhe
contar a histria - como ela teve de ficar depois
do horrio com um paciente que estava esper-
ando por uma ambulncia, em consequncia de
algo que ela tinha quase certeza que era apendi-
cite, quando conseguiu sair, a maioria dos fun-
cionrios da clnica j tinha ido embora. O
                                               456/627


mdico de planto, Adrian Melton, ainda no
havia sado. Eles saram juntos, e Gabby no per-
cebeu que Melton a seguiu em direo ao seu
carro, at que era tarde demais. Chegando l, ele
ps uma das mos sobre o ombro dela e lhe disse
que iria at o hospital e que lhe informaria da
condio do seu paciente. Quando ela forou um
sorriso, entretanto, ele se inclinou para beij-la.
     O mdico fez um esforo desajeitado, tpico
de um garoto do ensino mdio, e ela se esquivou
antes que ele pudesse terminar. Ele olhou fixa-
mente para ela, aparentemente desapontado. - Eu
achei que voc quisesse isso - disse ele.
     Sentada  mesa, Gabby estremeceu. - Ele
disse aquilo como se eu fosse a culpada.
     - Isso j aconteceu antes?
     - No, no desse jeito. Mas...
     Quando as palavras lhe escaparam, Travis
estendeu o brao e pegou na mo dela. - Vamos
l - disse ele. - Estou aqui com voc. Converse
comigo.
                                             457/627


     Os olhos dela permaneceram focados na su-
perfcie da mesa, mas sua voz estava firme con-
forme relatava o histrico do comportamento de
Melton. Quando ela terminou, o rosto de Travis
estava tenso, com uma fria que ameaava sair
do controle.
     - Deixe isso comigo - disse ele, sem esperar
por uma resposta.
     Foram necessrios dois telefonemas para
descobrir onde Adrian Melton morava. Dentro de
minutos, o carro dele parou com os pneus guin-
chando na frente da casa do mdico. O dedo in-
sistente na campainha trouxe Melton  porta de
entrada. Melton nem conseguiu demonstrar per-
plexidade antes que o punho de Travis se chocas-
se violentamente contra a sua mandbula. Uma
mulher, que Travis presumiu ser a esposa de
Melton, materializou-se no mesmo instante em
que Melton caiu ao cho, e os gritos dela eco-
aram no corredor.
                                             458/627


     Quando a polcia chegou  casa, Travis foi
preso pela primeira e nica vez em sua vida. Ele
foi trazido at a delegacia, onde a maioria dos
policiais o trataram com respeito, como se est-
ivessem se divertindo. Cada um deles j havia
levado seus bichos de estimao at a clnica
veterinria e ficaram claramente desconfiados
com a alegao da Sra. Melton de que "um
maluco agrediu meu marido".
     Quando Travis ligou para sua irm,
Stephanie surgiu na delegacia, parecendo que es-
tava se divertindo em vez de se sentir preocu-
pada. Ela encontrou Travis sentado em uma cela,
em uma discusso intensa com o xerife. Con-
forme se aproximou, ela percebeu que eles es-
tavam falando sobre o gato do xerife, que parecia
ter desenvolvido algum tipo de infeco de pele e
no conseguia parar de se coar.
     - Que pena - disse ela.
     - O que foi?
                                             459/627


     - Eu pensava que iria encontr-lo usando um
uniforme listrado.
     - Desculpe, no quis desapont-la.
     - Talvez ainda haja tempo. O que o senhor
acha, xerife?
     O xerife no sabia o que pensar e, um mo-
mento depois, ele os deixou a ss.
     - Obrigado pelo comentrio - disse Travis
quando o xerife saiu. - Provavelmente ele est
considerando a sua sugesto.
     - No me culpe. No sou eu que saio por a
atacando mdicos nas portas de suas casas.
     - Ele mereceu.
     -Tenho certeza disso. Travis sorriu. - Obri-
gado por vir at aqui.
     - Eu no perderia essa oportunidade, Rocky.
Ou voc prefere que eu lhe chame de Apollo
Creed8?
     - Que tal voc me tirar daqui em vez de
tentar me colocar um apelido?
     - Colocar apelidos em voc  mais divertido.
                                              460/627


       - Talvez eu devesse ter ligado para o nosso
pai.
     - Mas voc no ligou. Quem est aqui sou
eu. E, confie em mim, voc fez a escolha certa.
Agora, deixe que eu converse com o xerife, est
bem?
     Mais tarde, enquanto Stephanie conversava
com o xerife, Adrian Melton visitou Travis. Ele
no conhecia o veterinrio, e exigiu saber por que
motivo Travis o havia agredido. Embora nunca
tenha contado a Gabby o que disse, Adrian
Melton imediatamente retirou a queixa, apesar
dos protestos da Sra. Melton. Alguns dias depois,
Travis ficou sabendo, pelas fofocas que per-
meavam a vida da pequena cidade, que o Dr.
Melton e sua esposa haviam iniciado uma terapia
de casal. Apesar de tudo isso, o ambiente de tra-
balho continuava tenso para Gabby e, algumas
semanas depois, o Dr. Furman chamou Gabby
em seu consultrio e sugeriu que ela considerasse
procurar outro lugar para trabalhar.
                                               461/627


      - Eu sei que no  justo - disse ele. - E, se
voc preferir ficar, ns podemos dar um jeito nas
coisas. Mas eu estou com 64 anos e planejo me
aposentar no ano que vem. O Dr. Melton concor-
dou em comprar a minha parte na sociedade, e
duvido que ele tenha a inteno de manter voc
trabalhando aqui. Acho que seria melhor e mais
fcil se voc tirar um tempo para encontrar um
lugar onde se sinta confortvel, e simplesmente
deixar toda essa coisa horrvel para trs - ele deu
de ombros. - No estou dizendo que o comporta-
mento dele no seja reprovvel; com certeza .
Mas, mesmo que ele seja um calhorda, ele  o
melhor pediatra que eu j entrevistei, e o nico
que est disposto a clinicar em uma cidade
pequena como esta. Se voc sair voluntariamente,
eu prepararei a melhor carta de recomendao
que voc possa imaginar. Voc vai conseguir ar-
rumar um emprego em qualquer lugar. Eu lhe
garanto.
                                             462/627


     Ela reconheceu o que havia por trs daquela
manipulao e, embora suas emoes gritassem
por uma retribuio jurdica, em seu nome e em
nome de todas as mulheres assediadas sexual-
mente, o lado mais pragmtico de Gabby acabou
concordando com aqueles termos. Depois de al-
gum tempo, ela foi contratada para trabalhar na
ala de emergncia do hospital.
     S havia um problema. Quando Gabby
descobriu o que Travis fizera, ela ficou furiosa.
Foi a primeira briga que eles tiveram depois que
assumiram o relacionamento, e Travis ainda se
lembrava do quanto ela se sentia ofendida
quando exigiu saber se ele acreditava que ela era
"adulta o bastante para lidar com os prprios
problemas" e por que ele havia agido "como se
ela fosse alguma frgil donzela em perigo". Trav-
is nem tentou se defender. Em seu corao, ele
sabia que faria tudo aquilo novamente em um in-
stante, mas, sabiamente, ficou de boca fechada.
                                             463/627


     Mesmo ultrajada com aquela situao, Trav-
is suspeitava que havia uma parte de Gabby que
admirava o que ele fizera. A lgica simples do
ato "Ele mexeu com voc? Deixe que eu resolvo
as coisas" a havia deixado encantada de algum
modo, pois a noite de amor que eles tiveram
naquela noite pareceu particularmente intensa,
ou, pelo menos, era assim que Travis se lem-
brava. A noite teria transcorrido exatamente
daquela forma? Ele no tinha certeza. Ultima-
mente, parecia que a nica coisa sobre a qual ele
tinha certeza era que no trocaria os anos que
passou com Gabby por nada. Sem ela, sua vida
tinha pouco sentido. Ele era um marido tpico de
uma cidade pequena, com uma profisso tpica de
cidade pequena, e suas preocupaes no eram
diferentes das preocupaes de outras pessoas.
Ele no era um lder nem um seguidor, e tambm
no era algum que seria lembrado por muito
tempo aps a sua morte. Ele era o mais comum
dos homens, com apenas uma exceo: ele amava
                                                   464/627


uma mulher chamada Gabby, e o amor que ele
sentia por ela ficou mais forte durante os anos em
que eles estiveram casados. Mas o destino havia
conspirado para arruinar tudo aquilo, e agora ele
passava longos perodos do dia imaginando se
seria humanamente possvel consertar as coisas
entre eles.
8 Referncia  srie de filmes sobre a carreira de Rocky
Balboa, interpretado por Sylvester Stallone. Rocky e
Apollo Creed so boxeadores nos filmes. (N. T.)
Captulo 16
 - Oi, Travis - disse uma voz vinda da porta. -
 Imaginei que o encontraria aqui.
       O Dr. Stallings tinha j seus 30 e poucos
 anos e ficava de planto durante as manhs. Com
 o passar dos anos, ele e sua esposa haviam se
 tornado bons amigos de Travis e Gabby, e, no
 vero passado, os quatro haviam viajado para
 Orlando com os filhos. - Trouxe mais flores?
     Travis fez que sim com a cabea, sentindo a
rigidez em suas costas.
     Stallings hesitou, parando sob o batente da
porta. - Imagino que voc ainda no a tenha
visto.
     - Mais ou menos. Eu a vi mais cedo, mas...
     Quando deixou a frase no ar, Stallings a ter-
minou por ele. - Precisa de um pouco de tempo
sozinho? - ele entrou e se sentou ao lado de
                                               466/627


Travis. - Acho que isso faz de voc uma pessoa
normal.
      - No me sinto normal. Nada do que est
acontecendo parece ser normal.
      - Eu imagino que no parea, mesmo.
      Travis pegou o buqu de flores novamente,
tentando afastar seus pensamentos, sabendo que
havia certas coisas sobre as quais ele no podia
falar.
      - Eu no sei o que fazer - admitiu ele,
      finalmente.
      Stallings colocou a mo no ombro de Travis.
- Eu gostaria de saber qual conselho lhe dar.
      Travis se virou em direo a ele. - O que vo-
      c faria?
      Stallings permaneceu em silncio por um
longo momento. - Se eu estivesse no seu lugar? -
ele juntou os lbios, considerando a pergunta,
parecendo mais velho do que aparentava. - Com
toda a honestidade, eu no sei.
                                               467/627


      Travis baixou a cabea. Ele no esperava
que Stallings tivesse uma resposta. - Tudo o que
eu quero  fazer a coisa certa.
      - No  o que todos queremos?
      Quando Stallings saiu, Travis se acomodou
em sua poltrona, ciente dos documentos que
trazia no bolso. Embora ele costumasse guard-
los na sua escrivaninha, agora percebia ser im-
possvel cuidar de seus afazeres dirios sem t-
los por perto, mesmo que eles assinalassem o fim
de tudo o que ele mais amava na vida.
      O advogado idoso que redigiu aqueles
papis pareceu no achar que havia nada de in-
comum no seu pedido. O seu escritrio de causas
cveis e familiares ficava em Morehead City,
perto do hospital onde Gabby trabalhava, e ela
podia enxerg-lo das janelas da sala de confern-
cias. A reunio no demorou muito; o advogado
explicou os estatutos relevantes e fez alguns rela-
tos baseados na sua experincia. Mais tarde,
                                               468/627


Travis s conseguiu se lembrar do aperto de mo
fraco com o qual o advogado se despediu dele.
     Era estranho que aqueles papis pudessem
sinalizar o trmino oficial do seu casamento. Eles
continham palavras codificadas, nada mais do
que isso; mas o poder daquelas palavras parecia
agora quase malvolo. Onde, imaginou ele, estar-
ia a humanidade daquelas frases? Onde estaria a
emoo governada por aquelas leis? Onde estaria
o registro da vida que eles tiveram juntos, at que
tudo fosse destrudo? E por qu, em nome de
Deus, Gabby quis que aquelas palavras fossem
escritas?
     No era para acabar assim e, com certeza,
no era o final que ele havia previsto quando pe-
diu Gabby em casamento. Ele se lembrava da sua
viagem para Nova York, no outono; enquanto
Gabby estava no salo de beleza para uma mas-
sagem e um tratamento para os ps, ele havia es-
capulido em direo  rua 47, onde comprou a
aliana de noivado. Aps jantarem no Tavern of
                                              469/627


the Green9, eles saram para um passeio de carru-
agem pelo Central Park. Sob um cu nublado e
iluminado pela lua cheia, ele pediu a mo dela
em casamento, e ficou emocionado pela maneira
passional como ela colocou seus braos ao redor
dele enquanto sussurrava seu consentimento vri-
as e vrias vezes em seu ouvido.
     E depois? Veio a vida, supunha ele. Entre
seus plantes no hospital, ela planejava a
cerimnia do casamento. Apesar dos avisos de
seus amigos para simplesmente deixar que ela
cuidasse das coisas, Travis adorava fazer parte do
processo. Ele a ajudou a escolher os convites, as
flores e o bolo; ele se sentava ao lado dela
quando ela folheava os lbuns nos estdios foto-
grficos, esperando encontrar o fotgrafo certo
para imortalizar o grande dia. No fim, eles con-
vidaram 80 pessoas para uma cerimnia realizada
em uma velha capela na ilha de Cumberland na
primavera de 1997; passaram a lua de mel em
Cancn, o que acabou sendo uma escolha
                                              470/627


paradisaca para ambos. Gabby queria um lugar
relaxante, e eles passaram horas deitados ao sol e
comendo bem; ele queria um pouco mais de
aventura, ento ela aprendeu a mergulhar e se
juntou a ele em uma excurso para visitar as
runas astecas que ficavam nas proximidades.
     Aquela relao de troca mtua estabeleceu o
tom do casamento. A casa dos sonhos de Gabby e
Travis foi construda com pouco estresse e estava
completa quando eles comemoraram o primeiro
aniversrio de casamento. Quando Gabby es-
fregou o dedo em torno da borda da sua taa de
champanhe e se perguntou em voz alta se seria
hora de comearem uma famlia, Travis achou
que a ideia no era somente razovel, mas tam-
bm algo que ele queria desesperadamente. Den-
tro de alguns meses ela havia engravidado, e a
gravidez no teve complicaes nem muitos
desconfortos. Quando Christine nasceu, Gabby
diminuiu suas horas de trabalho e eles
                                              471/627


desenvolveram uma tabela de horrios que
garantia que um deles sempre estivesse em casa
com
o beb. Quando Lisa nasceu, dois anos depois,
nenhum deles percebeu uma grande mudana,
alm do acrscimo de alegria e entusiasmo na
casa.
      Natais e aniversrios vieram e passaram, as
crianas cresciam e seus trajes ficavam pequenos
para elas, sendo trocados por nmeros maiores.
Eles saam de frias em famlia, mas, mesmo as-
sim, Travis e Gabby sempre conseguiam passar
algum tempo juntos e a ss, mantendo viva a
chama do romance entre eles. Max acabou se
aposentando, deixando que Travis tomasse conta
da clnica; Gabby diminuiu ainda mais o seu
horrio de trabalho, o suficiente para que pudesse
fazer atividades voluntrias na escola. No seu
quarto aniversrio de casamento, eles viajaram
para a Itlia e a Grcia; no sexto, eles passaram
uma semana em um safri na frica. No stimo,
                                              472/627


Travis construiu um gazebo para Gabby no
quintal, onde ela podia se sentar e ler, e tambm
observar o movimento das luzes refletidas na
gua. Ele ensinou suas filhas a praticar wake-
boarding e a esquiar quando cada uma completou
seu quinto aniversrio; e ele era o tcnico dos
times de futebol10 em que elas jogavam no
outono. Nas raras ocasies em que ele parava
para refletir sobre sua vida, se perguntava se al-
gum no mundo se sentia to abenoado como
ele.
      No que as coisas fossem sempre perfeitas.
H alguns anos, ele e Gabby haviam passado por
um perodo difcil. As razes pareciam confusas
agora, perdidas nos recessos do tempo, mas,
mesmo naquela poca, nunca houve um mo-
mento em que ele realmente acreditasse que seu
casamento corria algum risco. Ele suspeitava que
ela tambm nunca havia pensado naquela possib-
ilidade. O casamento, de acordo com a percepo
intuitiva de cada um deles, era calcado em
                                               473/627


acordos mtuos e no perdo. Havia a questo do
equilbrio, em que uma pessoa complementava a
outra. Ele e Gabby tiveram isso durante anos, e
esperava que eles pudessem ter aquilo nova-
mente. Mas, nesse momento, eles no tinham, e
perceber aquilo fez com que Travis desejasse que
houvesse alguma coisa, qualquer coisa, que ele
pudesse fazer para restaurar o delicado equilbrio
que havia entre eles.
     Travis sabia que ele no poderia adiar o en-
contro com ela por mais tempo e se levantou da
poltrona. Com as flores na mo, ele andou pelo
corredor, sentindo-se quase incorpreo. Viu que
algumas enfermeiras o olhavam e, embora s
vezes imaginasse o que elas estavam pensando,
nunca parou para perguntar. Em vez disso, reuniu
sua coragem. Suas pernas tremiam, e ele sentia o
incio de uma dor de cabea, um latejar incon-
veniente na parte de trs da cabea. Se ele se per-
mitisse fechar os olhos, tinha certeza de que
dormiria por horas. Ele estava desmoronando, um
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pensamento que fazia tanto sentido quanto uma
bola de golfe quadrada. Tinha 43 anos, no 72, e
embora no estivesse comendo muito ultima-
mente, ainda se obrigava a ir  academia. - Voc
precisa continuar se exercitando - aconselhava o
seu pai -, pelo menos para manter a sua sanidade.
      Ele havia emagrecido oito quilos nas ltimas
doze semanas e, no espelho, percebia que seu
rosto estava mais esqueltico, com as mas do
rosto mais pronunciadas. Ele estendeu o brao
para tocar na maaneta e abriu a porta, forando-
se a sorrir quando a viu.
      - Oi, querida.
      Ele esperava que ela se mexesse, esperou
por qualquer resposta que lhe dissesse que as
coisas voltariam ao normal, de algum modo. Mas
nada aconteceu e, em meio ao silncio longo e
vazio que se seguiu, Travis sentiu uma dor que se
espalhava pelo seu corpo e ia at o seu corao.
Era sempre assim. Entrando no quarto, ele con-
tinuou a olhar fixamente para Gabby, como se
                                               475/627


estivesse tentando memorizar cada um de seus
traos, embora ele soubesse que no havia
motivo para fazer aquilo. Ele conhecia o rosto
dela melhor do que o seu prprio.
     Indo at a janela, ele abriu as cortinas, per-
mitindo que a luz do sol invadisse o quarto. No
havia uma vista muito interessante; a janela do
quarto ficava de frente para uma pequena rodovia
que dividia a cidade em duas. Carros se moviam
lentamente em frente a lanchonetes de fast-food,
e ele podia imaginar os motoristas ouvindo
msica no rdio, conversando em seus telefones
celulares, indo para o trabalho, fazendo entregas,
cuidando de seus afazeres ou visitando seus ami-
gos. Pessoas cuidando de suas vidas, pessoas per-
didas em suas preocupaes, todas elas ignor-
ando o que acontecia no hospital. Ele costumava
ser uma daquelas pessoas e sentia falta da vida
que tinha.
     Ele colocou as flores no parapeito da janela,
desejando ter trazido um vaso. Ele havia
                                             476/627


escolhido um buqu de inverno e as cores violeta
e laranja-queimado pareciam obscurecidas, quase
lgubres. O florista se considerava um tipo de
artista e, em todos os anos que Travis havia com-
prado arranjos e buqus com aquele homem,
nunca ficara decepcionado. O florista era um
homem bom e gentil, e s vezes Travis se per-
guntava o quanto o florista conhecia do seu
casamento. Durante os anos, Travis havia com-
prado buqus para os aniversrios de Gabby e os
aniversrios de casamento; ele havia comprado
flores como uma forma de pedir perdo, ou no
calor do momento, como uma surpresa
romntica. E, a cada vez, ele havia ditado ao
florista o que queria que estivesse escrito no
carto. s vezes, ele recitava um poema que
havia encontrado em algum livro ou que ele
mesmo havia escrito; outras vezes, ele ia direto
ao ponto e simplesmente dizia o que tinha na
cabea. Gabby havia guardado todos aqueles
cartes, envoltos em uma tira de borracha. Eles
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eram uma espcie de histrico da vida a dois de
Travis e Gabby, descrita em pequenos textos.
     Ele se sentou na cadeira que havia ao lado
da cama e buscou a mo dela. A pele de Gabby
estava plida como cera; o corpo dela parecia
menor, e ele notou as linhas de expresso que
haviam comeado a se formar ao redor dos olhos
da sua esposa. Mesmo assim, ela era to impres-
sionante para Travis como na primeira vez em
que a viu. Impressionava-lhe saber que ele a con-
hecia h quase onze anos. No porque aquele
perodo de tempo fosse extraordinrio, mas
porque aqueles anos pareciam conter mais vida
do que seus primeiros 32 anos sem ela. Era a
razo pela qual ele havia vindo ao hospital hoje;
era a razo pela qual ele vinha todos os dias. Ele
no tinha outra escolha. No porque era aquilo
que se esperava que ele fizesse - embora fosse -,
mas porque ele no conseguia se imaginar em
qualquer outro lugar. Eles passavam horas juntos,
mas suas noites eram passadas em separado.
                                               478/627


Ironicamente, tambm no havia escolha em re-
lao quilo, pois ele no podia deixar suas filhas
sozinhas. Naquele momento de sua vida, era o
destino que tomava todas as decises por ele.
     Com exceo de uma.
     Oitenta e quatro dias haviam se passado
desde o acidente, e agora ele tinha de fazer uma
escolha. Ele ainda no tinha ideia do que fazer.
Recentemente, comeou a procurar por respostas
na Bblia e nos escritos de So Toms de Aquino
e Santo Agostinho. Ocasionalmente ele encon-
trava algum trecho que o impressionava, mas
nada alm daquilo; ele fechava o livro e se apan-
hava olhando pela janela, com a mente vazia,
como se esperasse encontrar a soluo em algum
lugar no cu.
     Ele raramente voltava direto para casa de-
pois de ir ao hospital. Em vez disso, passava pela
ponte e caminhava nas areias de Atlantic Beach.
Tirava os sapatos e escutava as ondas quebrando
na orla. Sabia que suas filhas estavam to
                                               479/627


abaladas quanto ele e, aps suas visitas ao hospit-
al, precisava de tempo para se recompor. No
seria justo submet-las  agonia que ele estava
sentindo. Precisava das meninas para poder es-
capar daquilo. Quando estava com elas, ele no
se concentrava em si mesmo, e a alegria delas
ainda continha uma pureza imaculada. Elas ainda
conseguiam se perder em meio s suas brin-
cadeiras, e o som do riso das suas filhas o fazia
querer rir e chorar ao mesmo tempo. s vezes,
enquanto as observava, ele ficava impressionado
com o quanto elas se pareciam com a me.
     Elas sempre perguntavam sobre Gabby,
mas, geralmente, ele no sabia como lhes respon-
der. Elas eram maduras o suficiente para saber
que a mame no estava bem e que precisava
ficar no hospital; entendiam que, quando faziam
uma visita, parecia que a mame estava dor-
mindo. Mas ele no conseguia lhes contar a ver-
dade sobre o problema de Gabby. Em vez disso,
ele abraava as duas no sof e lhes falava sobre
                                             480/627


como Gabby havia ficado feliz quando estava
grvida de cada uma delas, ou lembrava da poca
em que a famlia brincava em meio aos sprinklers
do jardim durante toda a tarde. Geralmente, en-
tretanto, eles folheavam os lbuns de fotos que
Gabby havia montado cuidadosamente. Ela ainda
cuidava dos lbuns  moda antiga, e as fotos
nunca deixavam de lhes colocar sorrisos no rosto.
Travis contava histrias associadas a cada uma
das fotos e, ao observar o rosto radiante de
Gabby nas imagens, sua garganta se apertava
com a conscincia de que ele nunca vira ningum
que fosse to bonita.
      Para escapar da tristeza que o dominava
naqueles momentos, ele s vezes tirava os olhos
dos lbuns e os focava na fotografia grande e
emoldurada que estava na parede, tirada na praia
no vero anterior. Os quatro estavam usando
calas cqui e camisas brancas com botes, e es-
tavam sentados sobre a grama das dunas. Era um
retrato de famlia tpico e muito comum em
                                              481/627


Beaufort, mas, de algum modo, Travis o achava
uma pea nica. No por retratar sua famlia, mas
porque ele tinha certeza de que at mesmo um es-
tranho se sentiria cheio de esperana e otimismo
com a viso, pois as pessoas na foto se pareciam
exatamente com o que uma famlia feliz deveria
parecer.
     Mais tarde, depois que as meninas est-
ivessem na cama, ele guardava os lbuns. Olhar
as fotografias com suas filhas e contar histrias
para deix-las menos tristes era uma coisa. Fol-
hear os lbuns sozinho era algo completamente
diferente. Ele simplesmente no conseguia. Em
vez disso, ele se sentava sozinho no sof,
pesaroso com a tristeza que sentia por dentro. s
vezes Stephanie telefonava. Seus dilogos con-
tinuavam pontilhados com as provocaes ha-
bituais, mas, ao mesmo tempo, a conversa pare-
cia um pouco travada, pois ele sabia que ela quer-
ia que ele se perdoasse. Apesar dos comentrios
irnicos e das provocaes ocasionais, ele sabia o
                                                 482/627


que ela realmente queria dizer: que ningum o
culpava pelo que havia acontecido, e que no era
culpa dele. Que ela e vrias outras pessoas es-
tavam preocupadas com ele. Para evitar aquelas
frases de sempre, ele sempre dizia que estava
bem, mesmo no estando, pois a verdade era algo
que sabia que ela no queria ouvir: que no apen-
as duvidava que algum dia pudesse estar bem de
novo, como no tinha certeza de que queria vol-
tar a estar bem.
9 Nome do famoso restaurante localizado no interior do
Central Park. (N. T.)

10 Nos Estados Unidos, o futebol como os brasileiros o
conhecem  mais popular como esporte feminino. (N. T.)
Captulo 17
Os raios quentes da luz do sol continuavam a se
estender em direo a eles. No silncio, Travis
apertou a mo de Gabby e gemeu com a dor que
sentiu no pulso. Ele estava engessado at um ms
atrs, e os mdicos haviam receitado analgsicos.
Os ossos em seu brao haviam sido fraturados e
seus ligamentos haviam se rompido, mas, aps a
primeira dose, ele se recusou a continuar to-
mando os medicamentos, por detestar a sensao
de sonolncia que eles lhe causavam.
     A mo de Gabby estava macia como
sempre. Quase todos os dias ele a segurava dur-
ante horas, imaginando o que faria se ela reagisse
e apertasse sua mo em resposta. Sentado ao seu
lado, ele a observava, imaginando no que ela es-
tava pensando, ou se ela estava pensando em
                                             484/627


qualquer coisa que fosse. O mundo que havia
dentro dela era um mistrio.
     - As meninas esto bem - iniciou ele. -
Christine comeu toda a sua tigela de cereal no
caf da manh e Lisa deixou sobrar bem pouco.
Eu sei que voc se preocupa com o quanto elas
comem, j que elas so pequenas, mas esto
comendo quase todos os petiscos que sirvo de-
pois que elas voltam da escola.
     Do lado de fora da janela, um pombo pou-
sou no beiral. Ele andou alguns passos para um
lado e voltou, depois de finalmente se acomodar
no lugar, como fazia quase todos os dias. Parecia
que ele sabia quais eram os horrios em que
Travis vinha ao hospital. Havia momentos em
que Travis imaginava que aquilo era algum tipo
de pressgio, embora ele no conseguisse ima-
ginar exatamente o que aquilo significava.
     - Ns fazemos a lio de casa depois do
jantar. Eu sei que voc gosta que elas faam logo
depois da escola, mas parece que esse esquema
                                             485/627


est funcionando bem. Voc ficaria contente ao
ver como Christine est indo bem em matemt-
ica. Lembra-se do comeo do ano, quando pare-
cia que ela no conseguia entender o que a pro-
fessora explicava? Ela deu a volta por cima, com-
pletamente. Toda noite usamos aqueles cartes
com desenhos que voc comprou, e ela no deix-
ou nenhuma questo em branco na ltima prova.
Ela est at conseguindo fazer toda a lio de
casa sozinha, sem que eu tenha de ensin-la.
Voc ficaria orgulhosa dela.
     O som dos arrulhos do pombo do lado de
fora da janela mal podiam ser ouvidos dentro do
quarto.
     - E Lisa est bem tambm. Ns assistimos a
Dora, a exploradora ou Barbie todas as noites. 
incrvel como ela gosta de assistir sempre ao
mesmo DVD, mas ela os adora. E ela quer que a
sua festa de aniversrio seja decorada como um
castelo de princesa. Eu estava pensando em com-
prar um bolo de sorvete, mas ela quer fazer a
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festa no parque, e no tenho certeza de que o bo-
lo vai aguentar a festa inteira sem derreter.
Provavelmente vou ter de pensar em outra coisa.
     Ele limpou a garganta.
     - Ah, e eu lhe contei que Joe e Megan esto
pensando em ter outro filho? Eu sei, eu sei... 
loucura, considerando todos os problemas que
eles tiveram com a ltima gravidez dela, e o fato
de que ela j chegou aos 40, mas, de acordo com
Joe, ela realmente quer tentar ter um garoto desta
vez. Eu? Bem, acho que  Joe que quer um men-
ino e Megan simplesmente aceitou a ideia, mas,
com aqueles dois,  difcil saber com certeza, no
?
     Travis se forava a assumir um tom de di-
logo. Desde que ela havia sido internada, ele
tentava agir da forma mais natural que podia
quando estava perto dela. Como eles conver-
savam de forma incessante sobre as crianas
antes do acidente, e como eles discutiam o que se
passava nas vidas de seus amigos, ele sempre
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tentava falar a respeito deles quando a visitava.
Ele no sabia se ela o ouvia; a comunidade
mdica no havia chegado a um acordo em re-
lao ao assunto. Alguns juravam que os pa-
cientes em coma eram capazes de ouvir conver-
sas e possivelmente de se lembrar delas; outros
diziam exatamente o oposto. Travis no sabia em
quem acreditar, mas havia decidido viver seus di-
as do lado mais otimista.
     Pela mesma razo, depois de dar uma olhada
no relgio, ele pegou o controle remoto. Nos
raros momentos em que no estava trabalhando,
um dos pequenos prazeres de Gabby era assistir a
Judge Judy11 na televiso, e Travis sempre a pro-
vocava, dizendo que ela tinha um prazer perverso
em assistir s palhaadas das pessoas que
acabavam aparecendo no tribunal da juza Judy.
     - Vou ligar a televiso, tudo bem? Est na
hora do seu programa preferido. Acho que po-
demos pegar os ltimos minutos.
                                             488/627


      Um momento depois, a juza Judy estava
vociferando contra o reclamante e o ru, simples-
mente para fazer com que eles se calassem - o
que parecia ser o tema previsvel e recorrente do
programa.
      - Ela est tima, no acha?
      Quando o programa terminou, ele desligou a
TV. Ele pensou em trazer as flores mais para
perto da cama, na esperana de que ela pudesse
sentir o aroma. Ele queria estimular os sentidos
dela; ontem havia passado alguns momentos
escovando os cabelos dela; no dia anterior, havia
trazido um vidro do perfume que ela usava e lhe
aplicado um pouco nos pulsos. Hoje, entretanto,
fazer qualquer coisa do tipo parecia exigir mais
esforo do que ele conseguia reunir.
      - Alm disso, no h muito mais a dizer -
comentou ele, com um suspiro. As palavras pare-
ciam to sem sentido para ele quanto para ela,
sem dvida. - Meu pai ainda est cuidando da
clnica para mim. Voc ficaria admirada com a
                                             489/627


habilidade que ele tem para lidar com os animais,
considerando todo o tempo que passou desde que
se aposentou. As pessoas ainda o adoram, e eu
acho que ele  feliz l. Se voc quer saber, acho
que ele nunca deveria ter parado de trabalhar.
        Ele ouviu uma batida na porta, e Gretchen
entrou. Nas ltimas semanas, ele passou a confiar
nela. Ao contrrio das outras enfermeiras, ela
mantinha uma confiana inabalvel de que
Gabby iria sair bem daquela situao. Con-
sequentemente, ela tratava Gabby como se ela es-
tivesse consciente.
        - Oi, Travis - disse ela. - Desculpe
interromp-los, mas preciso colocar uma nova
sonda intravenosa nela.
      Quando Travis permitiu, ela se aproximou
de Gabby. - Acho que voc deve estar com fome,
querida - disse ela. - Me d apenas um segundo,
est bem? Depois eu deixarei voc a ss com
Travis novamente. Voc sabe que no gosto de
interromper os momentos ntimos que vocs tm.
                                               490/627


     Ela trabalhou rapidamente, removendo uma
bolsa de alimentao parenteral e substituindo-a
por outra, enquanto mantinha a conversa em um
fluxo constante. - Eu sei que voc est um pouco
dolorida por causa do exerccio que fizemos esta
manh. Ns exageramos um pouco, no foi?
Fizemos como aquelas pessoas dos comerciais
que passam na TV a cabo. Trabalhando este ms-
culo, trabalhando aquele. Fiquei orgulhosa com o
seu rendimento.
     Todas as manhs e nos fins de tarde, uma
das enfermeiras vinha at o quarto para flexionar
e alongar os membros de Gabby. Dobrar os joel-
hos e depois estic-los; flexionar o p para cima e
depois para baixo. Elas faziam aquilo com cada
uma das articulaes do corpo de Gabby.
     Depois de terminar de ajustar a bolsa e
pendur-la, Gretchen verificou o fluxo e ajustou
os lenis, e se virou para Travis.
     - Voc est bem hoje?
     - No sei - disse ele.
                                               491/627


     Gretchen pareceu se arrepender de ter per-
guntado. - Fico feliz por voc ter trazido flores -
disse ela, olhando em direo ao parapeito da
janela. - Tenho certeza de que Gabby as adora.
     - Espero que sim.
     - Voc vai trazer as meninas?
     Travis engoliu em seco, lutando contra o n
que sentia na garganta.
     - Hoje, no.
     Gretchen apertou os lbios e fez que sim
com a cabea. Um momento depois, ela saiu do
quarto.
     Doze semanas antes daquilo, Gabby foi
levada at a sala de emergncia em uma maca,
inconsciente e com um corte no ombro esquerdo
que sangrava abundantemente. Os mdicos se
concentraram inicialmente no corte por causa da
grande perda sangunea, embora, pensando retro-
spectivamente, Travis imaginava se uma abord-
agem diferente poderia ter mudado as coisas.
                                                492/627


      Ele no sabia, e nunca viria a saber. Como
Gabby, ele tambm foi levado  sala de emergn-
cia; como Gabby, ele passou a noite inconsciente.
Mas as similaridades acabavam ali. No dia
seguinte, ele acordou com dor e com o brao la-
cerado. Gabby no acordava desde aquele dia.
      Os mdicos foram gentis, mas eles no
tentaram ocultar a preocupao que sentiam.
Leses cerebrais eram sempre srias, diziam eles,
mas esperavam que a leso pudesse sarar e que
tudo ficaria bem com o tempo.
      Com o tempo.
      s vezes ele imaginava se os mdicos tin-
ham noo da intensidade emocional do tempo,
ou do que ele estava passando, ou mesmo de que
o tempo fosse uma coisa finita. Ele duvidava.
Ningum fazia ideia do que ele estava passando,
ningum realmente compreendia a escolha que
ele tinha na sua frente. Na superfcie, era simples.
Ele faria exatamente o que Gabby queria, exata-
mente como ela o fez prometer.
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      Mas e se...
      E era aquilo. Ele pensou demoradamente,
intensamente a respeito da realidade da situao;
ele havia passado noites em claro considerando a
questo. Ele se perguntou novamente o que o
amor realmente significava. E, na escurido do
seu quarto, se virava na cama sem conseguir
dormir, desejando haver outra pessoa que
pudesse fazer a escolha por ele. Mas lutou contra
aquilo sozinho e, frequentemente, acordava pela
manh com um travesseiro molhado em lgrimas
no lugar onde Gabby deveria estar. E as primeir-
as palavras que saam da sua boca eram sempre
as mesmas.
      - Me desculpe, querida.
      A escolha que Travis precisava fazer tinha
origem em dois eventos distintos. O primeiro
evento estava relacionado ao casal Kenneth e
Eleanor Baker. O segundo evento, o acidente,
havia ocorrido em uma noite chuvosa e com ven-
tos fortes h doze semanas.
                                              494/627


     O acidente era simples de explicar e similar
a vrios acidentes em que uma srie de erros isol-
ados e aparentemente inconsequentes haviam se
somado, de algum modo, e explodido da maneira
mais horrvel possvel. Em meados de novembro,
eles haviam ido at o RBC Center em Raleigh,
para assistir a um show ao vivo de David Cop-
perfield. Normalmente eles assistiam a um ou
dois espetculos por ano, mesmo que fosse apen-
as uma desculpa para passarem uma noite a ss.
Geralmente jantavam antes, mas no o fizeram
naquela noite. Travis saiu tarde da clnica veter-
inria e eles demoraram a sair de Beaufort, e,
quando estacionaram o carro, faltavam poucos
minutos para o show comear. Na pressa, Travis
esqueceu seu guarda-chuva, apesar das nuvens
pesadas e o vento que comeava a ganhar fora.
Aquele foi o primeiro erro.
     Eles assistiram ao show e gostaram muito,
mas o tempo havia piorado quando eles saram
do teatro. A chuva caa com fora e Travis se
                                                495/627


lembrava de esperar em p com Gabby, imagin-
ando qual seria a melhor maneira de chegar at o
carro. Eles avistaram um casal de amigos que
tambm havia assistido ao show, e Jeff se ofere-
ceu para acompanhar Travis at o carro para que
ele no se molhasse. Mas Travis no quis causar
um incmodo, e recusou a oferta de Jeff. Em vez
disso, ele correu em meio  chuva, pisando em
poas que lhe chegavam at a altura do tornozelo
a caminho do carro. Ele estava totalmente en-
charcado quando conseguiu abrir a porta e entrar,
especialmente nos ps. Este foi o segundo erro.
      Como estava tarde, e como ambos tinham de
trabalhar na manh seguinte, Travis dirigiu rapi-
damente a despeito do vento e da chuva, tentando
ganhar alguns minutos em um percurso que ger-
almente levava duas horas e meia. Embora fosse
difcil ver pelo para-brisa, ele dirigia na faixa da
esquerda da rodovia, indo alm do limite de velo-
cidade, ultrapassando carros com motoristas que
eram mais cuidadosos em relao aos perigos do
                                                496/627


clima chuvoso. Aquele foi o terceiro erro. Gabby
pediu vrias vezes para que ele diminusse a ve-
locidade; por mais de uma vez, ele fez o que ela
pediu, apenas para acelerar de novo assim que
conseguisse. Quando passaram por Goldsboro,
ainda com uma hora e meia de estrada at voltar-
em para a casa, ela havia ficado to furiosa que
parou de conversar com ele. Recostou a cabea
no assento e fechou os olhos, recusando-se a con-
versar, frustrada com a maneira como ele a es-
tava tratando. Aquele foi o quarto erro.
     O acidente veio a seguir, e poderia ter sido
evitado se nenhuma das outras coisas tivesse
acontecido. Se ele tivesse trazido seu guarda-
chuva ou aceitado que seu amigo o acompan-
hasse at o carro, ele no teria corrido at o carro
na chuva. Seus ps poderiam estar secos. Se ele
tivesse dirigido mais devagar, poderia ter con-
seguido control-lo. Se ele tivesse respeitado os
pedidos de Gabby, eles no teriam brigado, e ela
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estaria atenta ao que ele pretendia fazer e o im-
pediria antes que fosse tarde demais.
     Perto de Newport h uma curva ampla e f-
cil, com um semforo sinalizando um cruza-
mento. Naquele ponto do percurso - a menos de
vinte minutos at chegar em casa -, a coceira nos
ps de Travis o estava deixando louco. A umid-
ade havia deixado seus cadaros bastante tension-
ados, e, no importa o quanto ele tentasse se liv-
rar dos sapatos, a ponta de um sempre acabava
escorregando por baixo do salto do outro. Ele se
inclinou para a frente, abaixando a cabea at
quase no conseguir olhar por cima do painel, e
esticou uma das mos para alcanar o sapato. Ol-
hando para baixo, ele se atrapalhou com o n e
no viu que o semforo mudou para o amarelo.
     O n no se soltava. Quando Travis final-
mente conseguiu desat-lo, ele levantou os olhos,
mas j era tarde demais. O semforo havia
mudado para o vermelho e um caminho
prateado estava entrando no cruzamento.
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Instintivamente, ele pisou no freio, e a traseira do
seu carro comeou a derrapar no asfalto enchar-
cado. O carro saiu do controle. No ltimo in-
stante, as rodas conseguiram se firmar e adquirir
trao, evitando o choque com o caminho, mas
o carro perdeu o traado da curva e saiu da es-
trada, indo em direo aos pinheiros.
     A lama estava ainda mais escorregadia e no
havia nada que ele pudesse fazer. Ele virou o
volante e nada aconteceu. Por um instante, o
mundo parecia estar se movendo em cmera
lenta. A ltima coisa de que ele se lembrava antes
de perder a conscincia era do som repugnante do
vidro se estilhaando e do metal se retorcendo.
     Gabby nem teve tempo de gritar.
     Travis afastou um cacho ruivo que estava
sobre a testa de Gabby e o colocou por trs da
orelha dela, escutando seu prprio estmago ron-
car e reclamar de fome. Por mais faminto que ele
estivesse, no conseguia suportar a ideia de
comer. Ele sentia seu estmago perpetuamente
                                               499/627


embrulhado e, nos raros momentos em que isso
no acontecia, as imagens de Gabby vinham rapi-
damente para preencher o vazio.
      Era um castigo irnico, pois, durante o se-
gundo ano do seu casamento, Gabby havia to-
mado a responsabilidade de ensinar Travis a
comer outras coisas, alm da comida insossa que
ele gostava. Ele achava que aquilo aconteceu
porque ela ficou cansada dos hbitos restritivos
que ele tinha. Ele devia ter percebido que haveria
mudanas quando ela comeou a inserir
comentrios ocasionais a respeito do sabor de
waffles belgas nas manhs de sbado ou sobre
como nada a satisfazia tanto em dias frios de in-
verno quanto um prato de caldo de carne feito em
casa.
      At aquele ponto, Travis era o cozinheiro da
famlia, mas, pouco a pouco, ela comeou a gan-
har espao na cozinha. Ela comprou dois ou trs
livros de receitas e, durante a noite, Travis a ob-
servava, deitada no sof, ocasionalmente
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dobrando o canto de alguma pgina. De vez em
quando perguntava a ele se algo lhe parecia par-
ticularmente bom. Ela lia em voz alta os ingredi-
entes do jambalaya12 tpico da regio da Louisi-
ana ou da vitela  Marsala, e, embora Travis dis-
sesse que aquilo parecia ser delicioso, o tom da
sua voz deixava claro que, mesmo que ela pre-
parasse aqueles pratos, ele provavelmente no os
comeria.
      Mas Gabby era persistente e comeou a pro-
mover pequenas mudanas mesmo assim. Ela
preparava molhos de creme, manteiga ou vinho e
os usava para regar a poro do frango que Trav-
is cozinhava quase todas as noites, e geralmente
ele tinha de admitir que o aroma era apetitoso.
Algum tempo depois, ela comeou a deixar uma
pequena poro dos molhos no recipiente que
usava para traz-los  mesa, e depois de colocar o
molho no prprio prato, ela acrescentava um pou-
co ao prato de Travis, independentemente de ele
                                              501/627


querer experimentar ou no. Pouco a pouco, para
sua surpresa, ele comeou a experimentar.
      No seu terceiro aniversrio de casamento,
Gabby preparou um bolo de carne italiano rec-
heado com queijo mozarela; em vez de um
presente, ela pediu que ele se sentasse para comer
com ela. Depois do quarto aniversrio de
casamento, eles s vezes cozinhavam juntos. Em-
bora o caf da manh e o almoo de Travis con-
sistissem sempre nas mesmas coisas sem gosto, e
embora a maioria dos jantares que ele preparava
fosse igualmente insossa, ele tinha de admitir que
havia certo romantismo em cozinhar juntos. E,
conforme os anos foram passando, eles
comearam a fazer aquilo pelo menos duas vezes
por semana. Frequentemente Gabby tomava um
clice de vinho, e, enquanto eles cozinhavam, as
crianas tinham de ficar no solrio da casa, onde
havia um belo tapete rabe cor de esmeralda.
Elas chamavam aquilo de "hora do tapete verde".
Enquanto Gabby e Travis preparavam a comida e
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conversavam tranquilamente sobre os aconteci-
mentos do dia, ele se deliciava com a alegria que
ela trazia  sua vida.
      Travis imaginava se ele algum dia voltaria a
ter a oportunidade de cozinhar ao lado dela. Nas
primeiras semanas aps o acidente, ele ficou num
estado quase frentico, certificando-se de que a
enfermeira do turno da noite tinha o seu telefone
celular  mo. Depois de um ms, como Gabby j
estava respirando sem a ajuda de aparelhos, ela
foi transferida da UTI para um quarto particular,
e ele tinha certeza de que a mudana faria com
que ela despertasse. Mas os dias se passavam
sem maiores mudanas, e toda aquela energia que
ele tinha foi substituda por um medo silencioso
que lhe devorava por dentro, o que era ainda pior.
Gabby havia lhe dito uma vez que seis semanas
eram o prazo mximo - aps aquele perodo, as
chances de sair de um coma caam dramatica-
mente. Mas ele ainda mantinha a esperana. Ele
dizia a si mesmo que Gabby era uma me, que
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Gabby era uma guerreira, que Gabby era difer-
ente de todo o resto. Seis semanas se passaram;
mais duas semanas se seguiram. Ele sabia que,
com trs meses, a maioria dos pacientes que con-
tinuavam em coma era transferida para uma casa
de repouso para receber cuidados de longo prazo.
Aquele era o dia, e ele devia informar ao admin-
istrador do hospital o que desejava fazer. Mas
aquela no era a escolha que ele estava enfrent-
ando. Sua escolha tinha a ver com Kenneth e
Eleanor Baker, e, embora ele soubesse que no
podia culpar Gabby por traz-los para a vida
deles, ele ainda no sentia que estava pronto para
pensar no casal.
11 4. Programa televisivo que mostra um tribunal de
pequenas causas em que os casos so julgados pela juza
Judith Sheindlin. Exibido na TV americana desde 1996.
(N. T.)
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12 Prato tpico da regio sul dos Estados Unidos, feito com
arroz, camaro, ostras, presunto ou frango, temperado com
especiarias e ervas. (N. T.)
Captulo 18
A casa que eles construram era o tipo de lugar
onde Travis podia se imaginar passando o resto
da sua vida. Apesar de ser nova, havia um qu de
antiguidade desde o momento em que eles se
mudaram para l. Ele atribua aquilo ao fato de
que Gabby havia trabalhado duro para criar uma
casa que fazia com que as pessoas se sentissem
confortveis assim que a porta fosse aberta.
     Foi ela quem supervisionou os detalhes que
fizeram com que a casa ganhasse vida. Enquanto
Travis concebia a estrutura em termos de metra-
gem e materiais de construo que pudessem
sobreviver aos veres midos e ao sal da maresia,
Gabby introduziu elementos eclticos que ele
nunca havia considerado. Uma vez, enquanto a
casa estava sendo construda, eles passaram em
frente a uma antiga casa em uma fazenda, h
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muito tempo abandonada, e Gabby insistiu para
que ele parasse. Naquele ponto, ele j havia se
acostumado com os ocasionais rompantes de
entusiasmo que eram caractersticos de Gabby.
Ele fez o que ela pediu e, em pouco tempo, eles
estavam passando pelo que havia sido um batente
de porta. Eles andaram em pisos cobertos de
poeira e tentaram ignorar as trepadeiras que inva-
diam a casa atravs de paredes quebradas e
janelas abertas. Ao longo da parede oposta, en-
tretanto, havia uma lareira, coberta por uma
grossa camada de sujeira negra, e Travis
lembrava-se de pensar que, de algum modo,
Gabby sabia que aquela lareira estava ali. Ela se
agachou ao lado da lareira, correndo as mos
pelas laterais e por baixo da prateleira que a
emoldurava. - Est vendo? Eu acho que so
azulejos pintados  mo - disse ela. - Deve haver
vrias centenas deles, talvez mais. Voc con-
segue imaginar como isso era bonito quando
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novo? - Ela pegou na mo dele. - Podamos fazer
algo assim.
      Pouco a pouco, a casa ganhou detalhes que
ele nunca havia imaginado. Eles no se con-
tentaram simplesmente em copiar o estilo da
lareira; Gabby descobriu quem eram os propri-
etrios daquela fazenda, foi at a casa deles e os
convenceu a lhe venderem a lareira por menos do
que custaria para limp-la. Ela queria grandes vi-
gas de carvalho e um teto armado e curvo na sala
de jantar que combinasse com o beiral do telhado
da casa. As paredes eram de gesso ou tijolos,
cobertas com texturas coloridas. Algumas se
pareciam com couro, e todas elas remetiam a
obras de arte. Ela passou vrios fins de semana
procurando moblia antiga e objetos de decor-
ao, e s vezes parecia que a prpria casa sabia
o que ela estava tentando fazer. Quando encon-
trou um ponto no piso de madeira de lei que ran-
gia, ela andou para a frente e para trs, com um
grande sorriso em seu rosto, para ter certeza de
                                              508/627


que no estava imaginando aquilo. Ela adorava
tapetes, e quanto mais coloridos, melhor. Logo, a
casa tinha vrios tapetes espalhados gener-
osamente pelo piso.
      Ela tinha senso prtico tambm. A cozinha,
os banheiros e os quartos eram arejados, claros e
modernos, com grandes janelas emoldurando a
incrvel vista que tinham do oceano. O banheiro
do casal tinha uma banheira com ps imitando
garras de animais e um chuveiro cercado por um
boxe espaoso. Ela queria uma garagem grande,
com bastante espao para Travis. Imaginando
que eles passariam bastante tempo no alpendre,
que circundava a casa inteira, ela insistiu em in-
stalar uma rede de dormir e duas cadeiras de bal-
ano, junto com uma churrasqueira e uma rea
com mesas e cadeiras disposta de tal modo que,
mesmo durante uma tempestade, eles poderiam
se sentar ao ar livre sem se molhar. O efeito ob-
tido era o de que uma pessoa no saberia dizer se
estava mais confortvel do lado de dentro ou de
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fora da casa; era o tipo de casa onde algum po-
deria entrar com sapatos enlameados sem
qualquer problema. E, na primeira noite que pas-
saram em sua casa nova, deitados na cama de es-
paldar alto e dossel, Gabby se aconchegou nos
braos de Travis com uma expresso que trans-
bordava alegria, com um sussurro sedutor na voz:
- Este lugar, com voc ao meu lado,  onde eu
sempre vou querer estar.
     As meninas tambm estavam tendo alguns
problemas, mesmo que ele no falasse daquilo
quando estava com Gabby.
     No era de se surpreender,  claro, mas, na
maior parte do tempo, Travis simplesmente no
sabia o que fazer. Christine havia perguntado
mais de uma vez se a mame voltaria para casa,
e, embora Travis sempre lhe garantisse que sim,
sua filha parecia no ter tanta certeza, provavel-
mente porque Travis no tinha certeza se acred-
itava naquilo. As crianas tinham uma percepo
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aguada e, aos 8 anos, ela havia alcanado uma
idade em que j sabia que
o mundo no era to simples como costumava
imaginar.
     Ela era uma linda criana com belos olhos
azuis que gostava de usar tiaras no cabelo.
Sempre queria que seu quarto tivesse uma
aparncia organizada e se recusava a usar roupas
que no combinassem. No costumava chorar
nem gritar quando as coisas no lhe pareciam
certas; em vez disso, era o tipo de criana que or-
ganizava seus brinquedos ou escolhia um novo
par de sapatos. Mas, desde o acidente, ela se frus-
trava facilmente e os berreiros agora eram
comuns. Toda a famlia de Travis, inclusive
Stephanie, havia recomendado acompanhamento
psicolgico, e Christine e Lisa iam ao psiclogo
duas vezes por semana, mas as crises de choro
pareciam estar ficando piores. E, na noite anteri-
or, quando Christine foi para a cama, seu quarto
estava uma baguna.
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     Lisa, que sempre foi pequena para a sua id-
ade, tinha o cabelo da mesma cor do de Gabby e
geralmente era uma criana alegre. Ela tinha um
cobertor que levava consigo para toda parte e
seguia Christine pela casa como um cachorrinho.
Ela colocava adesivos em todas as suas pastas e
os trabalhos que fazia na escola geralmente
voltavam para casa cobertos de estrelas. Mesmo
assim, por muito tempo ela chorava antes de
dormir. No andar de baixo, Travis conseguia
ouvi-la chorando, e ele tinha de apertar o nariz
entre os olhos para evitar chorar com ela.
Naquelas noites, ele subia as escadas at o quarto
das meninas - desde o acidente, outra mudana
importante foi que elas quiseram passar a dormir
no mesmo quarto - e se deitava ao lado de Lisa,
acariciando-lhe o cabelo e ouvindo-a sussurrar:
"Estou com saudades da mame", sem parar,
eram as palavras mais tristes que Travis j tinha
ouvido. Engasgado a ponto de quase no
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conseguir falar, ele simplesmente dizia: - Eu sei.
Tambm sinto saudades.
     Ele no conseguia tomar o lugar de Gabby,
nem tentava; entretanto, aquilo deixava um vazio
no lugar que Gabby costumava ocupar, um vcuo
que ele no sabia como preencher. Como na
maioria dos casais com filhos, cada um deles
havia definido territrios em relao  criao
das crianas, conforme as especialidades de cada
um. Ele percebia que Gabby havia assumido uma
poro bem maior da responsabilidade, e se arre-
pendia daquilo agora. Havia inmeras coisas que
ele no sabia como fazer, coisas que Gabby fazia
parecerem fceis. Coisas pequenas. Ele podia
escovar os cabelos das meninas; porm, quando a
questo era fazer tranas, ele entendia o conceito,
mas no conseguia dominar a prtica. Ele no
sabia que tipo de iogurte Lisa queria quando pe-
dia "aquele com a banana azul". Quando um res-
friado atacava, ele ficava de p no corredor do
supermercado, observando as prateleiras com
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xaropes para tosse, imaginando se deveria com-
prar o xarope com sabor de uva ou de cereja.
Christine nunca vestia as roupas que ele separava
para ela. Ele no fazia ideia de que Lisa gostava
de usar sapatos com purpurina s sextas-feiras.
Ele percebeu que, antes do acidente, nem sabia os
nomes dos professores delas, ou em que parte da
escola se localizavam as salas de aula em que
elas estudavam.
     O Natal foi um dos piores dias, pois aquele
sempre foi o feriado preferido de Gabby. Ela ad-
orava todos os aspectos do fim do ano: decorar a
rvore, assar biscoitos e at mesmo fazer com-
pras. Travis ficava espantado com o fato de que
Gabby conseguia manter o bom humor enquanto
abria caminho por entre a multido em lojas de
departamentos, mas,  noite, depois que as meni-
nas haviam ido dormir, ela tirava os presentes
que eles haviam comprado do lugar onde es-
tavam escondidos e, juntos, eles os
                                             514/627


embrulhavam. Mais tarde, Travis os escondia
novamente no sto.
      No houve nenhuma alegria na poca de
festas daquele ano. Travis fez o melhor que con-
seguiu, forando o nimo mesmo que no
houvesse nenhum. Ele tentou fazer tudo que
Gabby fazia, mas o esforo de manter uma
fachada feliz era muito desgastante, especial-
mente porque nem Lisa nem Christine facilit-
avam as coisas para ele. No era culpa delas, mas
ele no sabia como reagir quando, no topo da
lista de presentes que cada uma queria ganhar,
estava um pedido para que a mame voltasse para
casa. Aquilo no podia ser substitudo por um
novo video game ou uma casa de bonecas.
      Nas ltimas semanas, as coisas haviam mel-
horado. Um pouco. Christine ainda abria seus
berreiros e Lisa ainda chorava  noite, mas elas
haviam se adaptado  vida na casa sem a me.
Quando elas chegavam em casa depois da escola,
no tinham mais o hbito de chamar por Gabby;
                                              515/627


quando caam e arranhavam seus cotovelos, auto-
maticamente vinham at ele para procurar um
band-aid. No desenho da famlia que Lisa havia
feito na escola, Travis viu apenas trs imagens;
ele teve de prender o flego antes de perceber
que havia outra imagem horizontal no canto, que
parecia ter sido acrescentada algum tempo de-
pois. Elas no perguntavam tanto a respeito da
me quanto antigamente e raramente a visitavam
no hospital. A situao ficava difcil quando elas
iam, pois no sabiam o que dizer ou mesmo
como agir. Travis entendia aquilo e tentava facil-
itar as coisas. - Apenas falem com ela - era o que
ele lhes dizia, e elas tentavam, mas as palavras
das meninas sumiam quando no recebiam nen-
huma resposta.
      Geralmente, quando elas iam ao hospital,
Travis fazia com que trouxessem coisas - pedras
bonitas que elas haviam achado no jardim, folhas
que haviam laminado e cartes que elas faziam 
mo, decorados com glitter. Mas at mesmo os
                                              516/627


presentes estavam permeados pela incerteza. Lisa
colocava seu presente sobre a barriga de Gabby e
depois se afastava; um momento depois, ela o
colocava mais perto da mo de Gabby. Mais
tarde, ela colocava o objeto na mesa de cabeceira.
Christine, por outro lado, no conseguia ficar
parada. Ela se sentava na cama e ficava de p ao
lado da janela; ela observava o rosto da me bem
de perto e, mesmo com tudo aquilo, nunca dizia
uma palavra.
      - O que aconteceu na escola hoje? - Travis
havia perguntado a ela na ltima vez que ela fora
ao hospital. - Tenho certeza de que sua me quer
saber de tudo que voc anda fazendo.
      Em vez de responder, Christine se virou
para ele. - Por qu? - perguntou ela, em um tom
triste de desafio. - Voc sabe que ela no con-
segue me ouvir.
      Havia uma cafeteria no andar trreo do hos-
pital e, na maioria das vezes em que Travis ia at
l, o que ocorria quase todos os dias, era para
                                              517/627


ouvir outras vozes que no a sua. Normalmente,
ele chegava no horrio do almoo e, durante as
ltimas semanas, comeou a reconhecer as pess-
oas que iam at l regularmente. A maioria eram
funcionrios do hospital, mas havia uma senhora
idosa que parecia estar l toda vez que ele
chegava. Embora nunca houvesse falado com ela,
Gretchen havia lhe dito que o marido daquela
senhora j estava na UTI quando Gabby foi hos-
pitalizada, um problema relacionado a diabetes;
e, sempre que via a mulher tomando uma tigela
de sopa, ele pensava no marido dela, em algum
quarto do hospital. Era fcil imaginar o pior: um
paciente ligado a uma dzia de mquinas, cirurgi-
as interminveis, possveis amputaes, um
homem que mal conseguia sobreviver. No era
da sua conta perguntar o que havia, e ele nem
tinha certeza se queria saber a verdade, pois ima-
ginava que no poderia sentir a preocupao que
sabia que precisaria demonstrar. Sua capacidade
de sentir empatia, pensava ele, havia evaporado.
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      Mesmo assim, ele a observava, curioso a re-
speito do que poderia aprender com aquela sen-
hora. Embora o n que ele sentia em seu es-
tmago nunca parecesse se afrouxar o bastante
para que ele conseguisse engolir mais do que al-
gumas mordidas de qualquer coisa, ela no
somente comia toda a sua refeio, como parecia
sabore-la com gosto. Enquanto ele achava im-
possvel se concentrar bastante tempo em outra
coisa que no fossem nas prprias necessidades e
na existncia diria de suas filhas, ela lia livros
durante o horrio de almoo e, mais de uma vez,
ele havia percebido que ela ria discretamente
com algum trecho que lhe divertia. E, ao con-
trrio dele, ela ainda conservava a capacidade de
sorrir, e sempre oferecia um sorriso s pessoas
que passavam pela sua mesa.
      s vezes, em meio ao sorriso, ele achava
que podia ver um trao de solido, mesmo
quando se reprimia por imaginar algo que
provavelmente no estava ali. Ele no conseguia
                                                519/627


parar de pensar a respeito do casamento dela.
Devido  idade, ele presumiu que eles j teriam
celebrado bodas de prata, ou talvez at mesmo de
ouro. Muito provavelmente tinham filhos, mesmo
que ele nunca os tivesse visto. Mas, alm da-
quilo, ele no conseguia intuir nada. Imaginava
se eles haviam sido felizes, pois ela parecia aceit-
ar a doena do marido sem reservas, enquanto
Travis parecia andar pelos corredores do hospital
como se um nico passo em falso fosse o
bastante para fazer com que ele desmoronasse no
cho.
     Ele imaginava, por exemplo, se o marido
daquela senhora havia plantado roseiras para ela,
algo que Travis havia feito para Gabby quando
ela engravidou pela primeira vez, com Christine
em seu ventre. Travis se lembrava da aparncia
dela, sentada na varanda com uma mo sobre a
barriga mencionando que o quintal precisava de
flores. Olhando para ela enquanto dizia aquilo,
Travis no podia negar seu pedido, assim como
                                            520/627


no podia respirar debaixo d'gua. Embora suas
mos estivessem arranhadas e as pontas dos de-
dos sangrassem quando ele terminou de plantar
as roseiras, as rosas desabrocharam no dia em
que Christine nasceu. Ele havia trazido um buqu
ao hospital.
     Travis imaginava se o marido dela a obser-
vava pelo canto dos olhos da mesma maneira que
ele observava Gabby quando suas filhas brin-
cavam nos balanos do parque. Ele adorava ver
como as feies de Gabby se iluminavam com
orgulho. Frequentemente, pegava na mo dela e
tinha vontade de segur-la para sempre.
     Ele se perguntava se o marido dela a achava
bonita logo ao acordar pela manh, com os ca-
belos embaraados, como acontecia com Travis
quando ele olhava para Gabby. s vezes, apesar
do caos organizado que sempre caracterizava as
manhs, eles simplesmente continuavam abraa-
dos na cama por mais alguns minutos, como se
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estivessem juntando foras para encarar o dia que
se iniciava.
      Travis no sabia se o seu casamento havia
sido especialmente abenoado ou se todos os
casamentos eram como o seu. Tudo o que sabia
era que, sem Gabby, ele estava totalmente per-
dido, enquanto outras pessoas, inclusive a mulher
na cafeteria, de algum modo encontravam fora
para seguir em frente. Ele no sabia se devia ad-
mirar a mulher ou sentir pena dela. Sempre des-
viava o olhar antes que ela percebesse que ele a
estava observando. Por trs dele, uma famlia en-
trou na cafeteria, conversando animadamente e
carregando bales; na caixa registradora, ele viu
um rapaz buscando por moedas em seus bolsos.
Travis empurrou sua bandeja, sentindo-se en-
joado. Ele havia comido apenas metade do seu
sanduche. Debateu se devia traz-lo consigo de
volta ao quarto, mas ele sabia que no con-
seguiria acabar de com-lo mesmo que o fizesse.
Ele se virou para a janela.
                                             522/627


     A cafeteria ficava em frente a uma pequena
rea arborizada, e ele observou o mundo em
mutao do lado de fora. A primavera no
tardaria a chegar e ele imaginou que pequenos
botes estariam comeando a se formar nos
canteiros. Nos ltimos trs meses, ele viu todos
os tipos de mudanas climticas a partir daquele
lugar. Ele observou chuva e sol e viu ventos for-
tes de 80 quilmetros por hora curvarem os pin-
heiros ao longe quase a ponto de quebr-los. H
trs semanas ele viu uma chuva de granizo,
seguida por um arco-ris espetacular que parecia
emoldurar os canteiros de azaleias. As cores, to
vvidas que pareciam quase ter vida prpria,
faziam-no pensar que a natureza s vezes man-
dava sinais, e que  importante lembrar que a
alegria sempre pode vir aps o desespero. Mas,
um momento depois, o arco-ris desapareceu e o
granizo voltou, e ele percebeu que a alegria, s
vezes, era apenas uma iluso.
Captulo 19
No meio da tarde, o tempo estava ficando
nublado e havia chegado a hora dos exerccios de
Gabby. Embora os exerccios tivessem sido feitos
durante a manh, e os exerccios da noite fossem
feitos por outra enfermeira, Travis perguntou a
Gretchen se ele poderia fazer o mesmo por ela
durante a tarde tambm.
      - Eu acho que ela iria gostar - respondeu a
enfermeira.
      Ela o acompanhou durante o processo,
certificando-se de que ele entendia que cada ms-
culo e cada articulao precisavam de ateno.
Enquanto Gretchen e as outras enfermeiras
sempre comeavam com as mos de Gabby,
Travis preferia comear pelos dedos dos ps. Ele
afastou o lenol e segurou o p dela cuida-
dosamente, flexionando o dedo menor para cima
                                             524/627


e para baixo algumas vezes, antes de fazer o
mesmo com o dedo que ficava ao lado.
      Exercitar o corpo de Gabby era um prazer
que Travis havia passado a apreciar. A sensao
da pele dela contra a sua prpria era o bastante
para reavivar vrias memrias: a maneira que ele
massageava os ps dela durante a gravidez, as
lentas e sensuais massagens nas costas  luz de
velas durante as quais ela parecia ronronar, mas-
sagens em seu brao na ocasio em que ela
estirou um msculo ao tentar levantar um saco
grande de rao com uma s mo. Por mais que
ele sentisse falta de conversar com Gabby, s
vezes ele acreditava que o simples ato do toque
era o que ele mais sentia falta. Ele demorou mais
de um ms para pedir permisso a Gretchen para
ajud-la com os exerccios e, durante aqueles mo-
mentos, sempre que massageava a perna de
Gabby, ele sentia como se estivesse se aproveit-
ando dela. No importava o fato de eles serem
casados; o que importava era que aquilo parecia
                                               525/627


ser uma ao egosta e unilateral, de certa forma
desrespeitosa em relao  mulher que ele
adorava.
      Mas isso...
      Ela precisava disso. Ela exigia isso. Sem o
exerccio, seus msculos iriam se atrofiar, e,
mesmo se ela acordasse - quando ela acordasse,
ele se corrigiu rapidamente - iria ficar perman-
entemente confinada  cama. Pelo menos era o
que ele vivia dizendo a si mesmo. No fundo, ele
sabia que tambm precisava daquilo, ao menos
para sentir o calor da pele de Gabby ou o suave
pulsar do sangue em seu punho. Era naqueles
momentos que ele tinha mais convico de que
ela iria se recuperar; o corpo dela estava simples-
mente consertando a si mesmo.
      Ele terminou com os dedos dos ps e passou
para os tornozelos; no fim, ele flexionou os joel-
hos, levando ambos at o trax dela e depois
esticando-os novamente. s vezes, deitada no
sof ou folheando alguma revista, Gabby
                                             526/627


inconscientemente alongava sua perna exata-
mente da mesma maneira. Era algo que uma
danarina faria, e ela faria aquilo com a mesma
graa e leveza.
     - Est se sentindo melhor agora, querida?
     "Me sinto tima. Obrigada. Eu estava me
     sentindo um pouco tensa."
     Ele sabia que havia imaginado a resposta,
que Gabby no havia se mexido. Mas a voz dela
parecia surgir de algum lugar indefinido, sempre
que ele a exercitava daquele jeito. s vezes ele
imaginava se estaria enlouquecendo. - Como es-
to as coisas?
     "Um tdio sem tamanho, se voc quer saber
a verdade. Ah, obrigada pelas flores, elas so
lindas. Voc as comprou no Frick's?"
     - Eu s compro flores l.
     "Como esto as meninas? Me fale a verdade
     desta vez."
     Travis comeou a exercitar o outro joelho. -
Elas esto bem. Elas esto com saudades de voc,
                                            527/627


est sendo difcil para elas. s vezes no sei o
que fazer.
     "Voc est fazendo o melhor que pode, no
? No  isso que sempre dizemos um para o
outro?"
     - Sim, tem razo.
     "Ento  exatamente o que eu espero que
voc faa. E elas vo ficar bem. Elas so mais
fortes do que parecem."
     - Eu sei. Elas herdaram isso de voc.
     Travis imaginou que ela o estava analis-
     ando, com uma expresso desconfiada.
     "Voc parece estar mais magro. Muito mais
     magro."
     - No tenho conseguido comer muito.
     "Estou preocupada com voc. Voc precisa
se cuidar. Faa isso pelas meninas. Por mim."
     - Eu sempre estarei aqui com voc.
     "Eu sei.  disso que tenho medo tambm.
     Voc se lembra de Kenneth e Eleanor
     Baker?"
                                             528/627


       Travis parou de flexionar. - Sim.
       "Ento voc sabe do que eu estou falando."
       Ele suspirou e comeou novamente. - Sei
sim.
     Em sua mente, o tom de voz dela ficou mais
suave. "Voc se lembra de quando levou todos
para acampar nas montanhas no ano passado?
Lembra da sua promessa de que as meninas e eu
iramos adorar a viagem?"
     Ele comeou a flexionar os braos e os de-
dos das mos. - Por que voc se lembrou disso?
     "Eu penso em vrias coisas aqui dentro. O
que mais eu posso fazer? De qualquer forma, vo-
c se lembra que, quando chegamos l, ns nem
nos incomodamos em montar o acampamento -
simplesmente descarregamos a caminhonete -,
mesmo que pudssemos ouvir o barulho de
troves ao longe, porque voc queria nos mostrar
o lago? E como ns tivemos de andar quase 1
quilmetro a p para chegar l? E que logo que
chegamos  beira do lago, o cu se abriu e aquele
                                            529/627


dilvio caiu em cima de ns? gua caindo a
cntaros do cu, como se estivssemos debaixo
de uma mangueira aberta. E, quando voltamos
para o lugar onde amos montar o acampamento,
tudo estava completamente encharcado. Eu fiquei
muito brava com voc e fiz voc nos levar para
um hotel."
     - Eu me lembro.
     "Me desculpe por aquilo. Eu no deveria ter
ficado to brava. Mesmo que tudo tenha sido sua
culpa."
     - Por que tudo sempre  minha culpa?
     Ele a imaginou piscando o olho enquanto
ele lhe exercitava o pescoo, fazendo-o girar
lentamente de um lado para o outro.
     "Porque voc sempre admite que tem culpa
     quando eu digo isso."
     Ele se curvou e lhe deu um beijo na testa.
     - Estou com muitas saudades de voc.
     "Eu tambm sinto saudades."
                                               530/627


     Ele sentiu o n na garganta se apertar ao ter-
minar a rotina de exerccios, sabendo que a voz
de Gabby comearia a desaparecer novamente.
Ele colocou seu rosto junto ao dela. - Voc sabe
que precisa acordar, no ? As meninas precisam
de voc. Eu preciso de voc.
     "Eu sei. Estou tentando."
     - Voc precisa se apressar.
     Ela no disse nada, e Travis percebeu que
havia forado a situao alm do limite.
     - Eu te amo, Gabby.
     "Eu tambm te amo."
     - Quer que eu faa alguma coisa? Que feche
as cortinas? Ou que traga alguma coisa de casa?
     "Pode ficar comigo mais um pouco? Estou
muito cansada."
     -  claro.
     "E segurar minha mo?"
     Ele assentiu, voltando a cobrir seu corpo
com o lenol. Ele se sentou na cadeira ao lado da
cama e pegou na mo dela. Do lado de fora, o
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pombo havia voltado e, mais acima, nuvens pesa-
das se moviam no cu, transformando-se em im-
agens de outros mundos. Ele amava sua esposa,
mas odiava o que havia acontecido com a vida
que ele tinha com ela, e amaldioava a si mesmo
por pensar daquela maneira. Beijou os dedos
dela, um por um, e trouxe aquela mo para perto
do prprio rosto. Ele a segurou contra o rosto,
sentindo o seu calor, e desejando que ela pudesse
fazer o menor dos movimentos, mas, quando
nada aconteceu, ele se afastou um pouco, e nem
percebeu que o pombo parecia estar olhando
diretamente para ele.
     Eleanor Baker era uma dona de casa de 38
anos, com dois filhos que ela adorava. H oito
anos, ela havia chegado ao pronto-socorro com
vmitos e reclamando de uma forte dor na parte
de trs da cabea. Gabby, substituindo o planto
de um amigo, estava trabalhando naquele dia,
embora fosse ela quem atendera Eleanor. Eleanor
foi internada, e Gabby no soube de nada a
                                              532/627


respeito dela at a segunda-feira seguinte, quando
percebeu que Eleanor havia sido transferida para
a UTI porque no acordou no domingo de man-
h. - Basicamente - disse uma das enfermeiras -
ela caiu no sono e no acordou mais.
      O coma de Eleanor foi causado por um caso
grave de meningite viral.
      Seu marido, Kenneth, um professor de
histria do ensino mdio na East Carteret High
School e que, de acordo com todos, era um cara
amigvel e bem-humorado, passava os dias no
hospital. Com o tempo, Gabby veio a conhec-lo;
no incio eram apenas algumas gentilezas aqui e
ali, mas, conforme o tempo passou, suas conver-
sas ficaram mais longas. Ele adorava sua esposa
e seus filhos. Sempre usava um suter limpo e
calas sociais quando vinha ao hospital, e bebia
litros e litros de Mountain Dew13. Ele era um
catlico devoto e Gabby frequentemente o encon-
trava orando ao lado da cama da sua esposa com
                                                 533/627


um rosrio nas mos. Seus filhos se chamavam
Matthew e Mark.
      Travis sabia de tudo aquilo porque Gabby
falava dele aps o trabalho. No no comeo, mas
depois de algum tempo, quando fizeram amizade.
Suas conversas eram sempre as mesmas, e Gabby
se perguntava como ele conseguia continuar a vir
ali a cada dia, e no que ele estaria pensando
quando se sentava em silncio ao lado da esposa.
      - Ele parece estar to triste, o tempo inteiro.
      - Isso acontece porque ele realmente est
triste. A esposa dele est em coma.
      - Mas ele fica l o tempo inteiro. E os filhos
dele?
      As semanas se transformaram em meses, e
Eleanor Baker acabou sendo transferida para uma
casa de repouso. Os meses se passaram e o coma
completou um ano, e depois outro. Vez por outra
ela fazia algum comentrio sobre Eleanor Baker,
sem falar que Kenneth Baker fazia compras no
mesmo supermercado que Gabby. Eles
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ocasionalmente se esbarravam e a conversa
sempre versava sobre o estado de Eleanor. Nunca
havia nenhuma mudana.
     Mas, no decorrer dos anos, conforme eles
continuavam a se esbarrar no supermercado,
Gabby percebeu que Kenneth havia mudado. -
Ela ainda est l - foi a maneira casual como ele
comeou a descrever a sua condio. Onde cos-
tumava haver uma luz em seus olhos quando ele
falava nela, agora havia apenas um olhar vazio.
Onde antes havia amor, agora parecia haver
apenas apatia. Seus cabelos negros haviam ficado
grisalhos em pouco mais de dois anos, e ele havia
ficado to magro que as roupas que usava pare-
ciam largas demais.
     No corredor onde ficavam os cereais, ou na
seo de comida congelada, Gabby no con-
seguia evitar encontrar com ele, e ela acabou se
tornando um tipo de confidente. Ele parecia pre-
cisar dela, precisava dizer a ela o que estava
acontecendo, e nos momentos em que eles se
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encontravam, Kenneth mencionava uma catstro-
fe aps a outra: que havia perdido seu emprego,
perdido sua casa, que mal podia esperar que seus
filhos sassem definitivamente da sua casa, que o
mais velho havia largado os estudos no ensino
mdio e que o mais novo havia sido preso nova-
mente por vender drogas. Novamente. Foi aquela
palavra que Gabby enfatizou quando falou com
Travis mais tarde. Ela tambm disse ter certeza
de que ele estava bbado quando o encontrou no
supermercado.
     - Eu me sinto mal por ele - disse Gabby.
     - Eu entendo como voc se sente - disse
Travis.
     Ela abaixou o tom de voz. - s vezes eu
acho que teria sido mais fcil se a esposa dele
tivesse morrido.
     Olhando pela janela, Travis pensou em Ken-
neth e Eleanor Baker. Ele no sabia se Eleanor
ainda estava na casa de repouso ou se ela ainda
estava viva. Desde o acidente, ele havia
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repassado aqueles dilogos em sua cabea quase
todos os dias, lembrando-se das coisas que
Gabby havia lhe dito. Ele imaginava se, de algum
modo, Eleanor e Kenneth Baker haviam sido
trazidos  sua vida e a de Gabby por uma razo.
Quantas pessoas, afinal de contas, conheciam al-
gum que esteve em coma? Parecia to...
fantstico, algo to improvvel quanto visitar
uma ilha cheia de dinossauros ou observar uma
nave aliengena explodir o Empire State
Building.
     Gabby, porm, trabalhava em um hospital, e
se havia alguma razo para que os Bakers en-
trassem na vida deles, qual seria? Para avis-lo
de que ele estaria destinado  runa? De que suas
filhas iriam se perder na vida? Aqueles
pensamentos o aterrorizavam, e era a razo pela
qual ele sempre se certificava de estar em casa
esperando quando suas filhas voltavam da escola.
Era a razo pela qual ele as levaria ao Busch Gar-
dens14 assim que as frias comeassem, e era a
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razo pela qual ele deixou Christine passar a
noite na casa da sua amiga. Ele acordava todas as
manhs pensando que, mesmo que elas est-
ivessem enfrentando dificuldades, o que era nor-
mal, ele ainda insistia para que se comportassem
em casa e na escola, e era a razo pela qual elas
eram colocadas de castigo em seus quartos
quando se comportavam mal. Tudo aquilo era o
que Gabby teria feito.
     A famlia de Gabby s vezes achava que ele
estava sendo duro demais com as garotas. Aquilo
no o surpreendia. Sua sogra, especificamente,
sempre foi o tipo de pessoa que julgava os outros.
Embora Gabby e seu pai conversassem no tele-
fone por uma hora, as conversas que Gabby tinha
com a me dela sempre eram curtas. No comeo,
Travis e Gabby passavam os feriados obrigatri-
os em Savannah, e Gabby sempre voltava para
casa estressada. Quando suas filhas nasceram,
Gabby finalmente disse a seus pais que queria
criar as prprias tradies em relao aos
                                              538/627


feriados, e que, embora ela adorasse visit-los,
seus pais teriam de ir a Beaufort. Eles nunca
foram.
     Depois do acidente, entretanto, os pais dela
se hospedaram em um hotel em Morehead City
para ficarem prximos da sua filha, e, no
primeiro ms, os trs frequentemente ficavam
juntos no quarto de Gabby. Embora eles nunca
dissessem que o culpavam pelo acidente, Travis
podia sentir aquilo no ar, pois seus sogros sempre
pareciam se manter reservados. Quando eles
ficavam com Christine e Lisa, era sempre longe
de casa - passeios para tomar sorvete e comer
pizza - e eles raramente ficavam na casa por mais
do que alguns minutos.
     Aps algum tempo eles tiveram de voltar e,
atualmente, s vezes eles iam aos fins de semana.
Quando isso acontecia, Travis tentava ficar longe
do hospital. Ele dizia a si mesmo que aquilo era
necessrio porque eles precisavam passar um
tempo a ss com sua filha, e aquilo era
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parcialmente verdade. O que ele no gostava de
admitir era que ele procurava se manter afastado
porque eles o lembravam constantemente, mesmo
que no tivessem a inteno de faz-lo, de que
ele era o responsvel por Gabby estar internada
naquelas condies.
     Seus amigos haviam reagido como ele es-
perava que fariam. Allison, Megan e Liz prepara-
vam jantares alternadamente durante as primeiras
seis semanas. Com o passar dos anos, elas se
aproximaram de Gabby, e s vezes parecia que
Travis tinha de confort-las. Elas apareciam com
olhos vermelhos e sorrisos forados, trazendo re-
cipientes de plstico cheios at o limite com
lasanhas ou guisados, guarnies e sobremesas
de todo tipo. Elas sempre faziam questo de men-
cionar que os pratos haviam sido preparados com
frango em vez de carne vermelha, para garantir
que Travis iria com-los.
     Elas eram particularmente boas com as men-
inas. No comeo, frequentemente abraavam as
                                               540/627


crianas quando elas choravam, e Christine
acabou se apegando a Liz. Liz tranava seus ca-
belos, a ajudava a fazer pulseiras com miangas e
geralmente passava meia hora com Christine no
jardim, chutando a bola de futebol de um lado
para o outro. Quando voltavam para dentro da
casa, elas comeavam a cochichar assim que
Travis saa da sala. Ele se perguntava o que elas
tanto conversavam uma com a outra. Con-
hecendo Liz, ele tinha certeza de que, se ela
achasse que o assunto era importante, lhe contar-
ia, mas geralmente ela simplesmente dizia que
Christine queria conversar. Com o tempo, ele
sentia gratido pela presena dela e um pouco de
inveja da relao que ela tinha com Christine.
      Lisa, por sua vez, aproximou-se de Megan.
Elas pintavam desenhos com lpis de cor na mesa
da cozinha ou sentavam-se lado a lado para assi-
stir  televiso; s vezes Travis percebia que Lisa
se aconchegava no corpo de Megan da mesma
forma que fazia quando estava com sua me. Em
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momentos como aquele, elas pareciam quase ser
me e filha, e, por um breve momento, Travis
sentia como se a famlia estivesse novamente
reunida.
      Allison, entretanto, era quem se certificava
de que as garotas entendiam que, mesmo que est-
ivessem tristes e irritadas, elas ainda tinham re-
sponsabilidades. Ela as lembrava de organizar os
brinquedos e livros nos seus quartos, ajudava-as
com as lies de casa e sempre as lembrava de
levar seus pratos at a pia. Ela era gentil em re-
lao a tudo aquilo, mas firme tambm. Embora
suas filhas s vezes se esquivassem das tarefas
domsticas nas noites em que Allison no apare-
cia, aquilo acontecia com uma frequncia menor
do que Travis esperava. Em um nvel incon-
sciente, elas pareciam perceber que precisavam
de ordem e regras em suas vidas, e Allison era
exatamente o que elas precisavam.
      Entre as meninas e sua me, que sempre es-
tava em casa toda a tarde e quase todos os fins de
                                              542/627


semana, Travis raramente ficava sozinho aps o
acidente, e eles conseguiam funcionar conjunta-
mente de uma maneira que ele simplesmente no
tinha condies de fazer. Ele precisava que suas
amigas fizessem aquilo por ele. Era tudo o que
ele podia fazer para conseguir se levantar da
cama pela manh e, na maior parte do tempo, ele
achava que estava  beira das lgrimas. O fardo
da culpa pesava sobre seus ombros, e no apenas
por causa do acidente. Ele no sabia o que fazer
ou onde deveria estar. Quando ele estava no hos-
pital, desejava estar em casa com suas filhas.
Quando ele estava em casa com suas filhas, dese-
java estar no hospital com Gabby. Nada parecia
estar certo.
      Entretanto, depois de seis semanas jogando
as sobras de comida na lata do lixo, Travis final-
mente disse s suas amigas que, embora elas
fossem muito bem-vindas em sua casa, se
quisessem continuar a vir, no iria mais precisar
que elas trouxessem o jantar. Ele tambm no
                                               543/627


queria que elas viessem todos os dias. Naquele
momento, com as vises de Kenneth Baker claras
em sua mente, ele sabia que tinha de tomar o
controle sobre o que havia restado da sua vida.
Ele tinha de se tornar o pai que ele era, o pai que
Gabby queria que ele fosse, e, pouco a pouco, ele
conseguiu. No foi fcil e, embora ainda
houvesse ocasies em que Christine e Lisa pare-
ciam sentir falta da ateno que recebiam dos
outros, Travis conseguiu compensar aquilo
demonstrando sua prpria dose de afeto. No era
como se tudo tivesse voltado ao normal, mas
agora, na marca dos trs meses, suas vidas eram
to normais quanto poderia se esperar. Ao assum-
ir a responsabilidade pelo cuidado das filhas,
Travis s vezes pensava que havia conseguido se
salvar.
     O lado ruim era que, desde o acidente, ele
tinha pouco tempo para Joe, Matt e Laird. Em-
bora eles ainda aparecessem em sua casa de vez
em quando para tomar uma cerveja depois que as
                                               544/627


meninas j estavam dormindo, as conversas eram
menos espontneas. Muitas vezes, tudo o que
eles diziam parecia estar... errado, de algum
modo. Quando eles perguntavam a respeito de
Gabby, ele no estava a fim de falar sobre ela.
Quando eles tentavam falar sobre alguma outra
coisa, Travis se perguntava por que eles pareciam
estar evitando falar sobre Gabby. Ele sabia que
no estava sendo justo, mas, quando ficava com
algum deles, ele sempre ficava abismado com as
diferenas que havia entre as vidas deles e a sua.
Apesar da gentileza e pacincia com a qual li-
davam com Travis, ele se apanhava pensando
que, dentro de algum tempo, Joe iria para casa e
se encontraria com Megan, e eles conversariam
em voz baixa na cama, abraados; quando Matt
colocava a mo em seu ombro, Travis imaginava
se Liz estava feliz por Matt ter ido at a sua casa
ou se ela precisava que ele estivesse em seu
prprio lar, cuidando de algo para ela. Seu rela-
cionamento com Laird era exatamente o mesmo,
                                             545/627


e, apesar da situao, ele frequentemente ficava
enraivecido sem motivo aparente quando estava
na presena deles. Embora ele fosse forado a
viver constantemente com algo impensvel, as
preocupaes de seus amigos podiam ser ligadas
e desligadas, e Travis no conseguia escapar da
sua fria em relao a toda aquela injustia. Ele
se odiava por pensar daquela maneira e tentava
esconder seu dio, mas percebia que seus amigos
notavam que as coisas haviam mudado, mesmo
que eles no tivessem certeza do que estava real-
mente acontecendo. Gradualmente, as visitas fo-
ram ficando cada vez mais curtas e infrequentes.
Ele tambm se odiava por causa daquilo, pela
sepaao que crescia entre ele e seus amigos, mas
no sabia como consertar as coisas.
      Quando estava a ss, ele refletia sobre o
dio direcionado aos seus amigos, embora sen-
tisse gratido em relao s suas esposas. Ele se
sentava no deque ponderando sobre tudo aquilo,
e, uma semana antes, percebeu que estava
                                                  546/627


olhando fixamente para a lua crescente, final-
mente aceitando o que ele sempre soube, desde o
incio. A diferena, ele sabia, tinha a ver com o
fato de que Megan, Allison e Liz concentravam o
apoio nas suas filhas, enquanto Joe, Matt e Laird
concentravam seu apoio nele. As meninas mere-
ciam aquilo.
     Ele, entretanto, merecia ser punido.
13 Refrigerante muito consumido nos Estados Unidos,
com alto teor de cafena. (N. T.)

14 Um dos maiores parques temticos dos Estados Unidos,
com ncleos nas cidades de Tampa (Flrida) e Williams-
burg (Virgnia). (N. T.)
Captulo 20
Sentado ao lado de Gabby, Travis olhou para o
relgio. J se aproximava das 14h30 e normal-
mente ele estaria se preparando para se despedir
de Gabby, de modo que pudesse estar em casa
quando as garotas voltassem da escola15. Hoje,
entretanto, Christine iria visitar uma de suas ami-
gas e Lisa havia sido convidada para uma festa
de aniversrio no aqurio municipal em Pine
Knoll Shores, e nenhuma das duas voltaria para
casa antes do horrio do jantar. O fato de que
suas filhas tinham seus prprios planos para
aquele dia era uma coincidncia bem-vinda, pois
ele precisaria demorar mais do que o habitual.
Mais tarde, ele iria se reunir com o neurologista e
o administrador do hospital.
      Ele estava ciente do motivo da reunio e
 no tinha dvidas de que os dois estariam com a
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maior dose de tristeza possvel, apoiada em tons
moderados e encorajadores. O neurologista lhe
diria que, como no havia mais nada que o hos-
pital pudesse fazer por Gabby, ela teria de ser
transferida para uma casa de repouso. Ele rece-
beria garantias de que, como a condio dela era
estvel, o risco seria mnimo e que um mdico a
examinaria semanalmente. Alm disso, ele
provavelmente seria informado de que os profis-
sionais que trabalhavam em casas de repouso
eram totalmente capazes de prestar os cuidados
de que ela precisaria diariamente. Se Travis
protestasse, o administrador provavelmente en-
traria na conversa e o lembraria de que, a menos
que Gabby estivesse na UTI, o plano de sade
cobriria o mximo de trs meses de internao
no hospital. Ele poderia tambm dizer que,
como o propsito do hospital era servir a
comunidade local, no havia mais espao para
mant-la ali em longo prazo, mesmo que ela
tivesse feito parte do quadro de funcionrios.
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 Realmente, no havia mais nada que ele pudesse
 fazer. Essencialmente funcionando como uma
 equipe naquela reunio, eles queriam se certifi-
 car de que as coisas seriam feitas do jeito deles.
     O que nenhum deles parecia perceber era
que a deciso no era to simples. Por baixo da
superfcie havia outra realidade - enquanto
Gabby estivesse no hospital, as pessoas presum-
iam que ela acordaria dentro de pouco tempo,
pois era ali que os pacientes em coma temporrio
ficavam. Pacientes em coma temporrio precis-
avam de mdicos e enfermeiras por perto para
monitorar as mudanas que indicariam as mel-
horas que eles sabiam que aconteceriam a
qualquer momento. Em uma casa de repouso, as
pessoas presumiriam que Gabby simplesmente
nunca mais iria acordar. Travis no estava pronto
para aceitar aquilo, mas parecia que no teria
escolha.
     Gabby, entretanto, tinha uma escolha, e, no
fim das contas, sua deciso no seria baseada no
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que o neurologista ou o administrador dissessem
a ele. Travis basearia sua deciso naquilo que ele
achava que Gabby gostaria.
      Do lado de fora da janela, o pombo havia
desaparecido, e Travis imaginou se ele teria ido
visitar outros pacientes, como um mdico an-
dando de quarto em quarto; e, se aquilo real-
mente acontecesse, se os outros pacientes nota-
vam o pombo da mesma forma que ele.
      - Me desculpe por ter chorado mais cedo -
sussurrou Travis. Ao olhar para Gabby, ele
observou que o peito dela subia e descia cada vez
que ela respirava. - Eu no consegui evitar.
      Ele no alimentava iluses de que ouviria a
voz dela desta vez. Aquilo s acontecia uma vez
por dia.
      - Sabe o que eu gosto em voc? - perguntou
ele. - Alm de praticamente tudo? - ele forou um
sorriso. - Gosto do jeito como voc cuida de
Molly. Ela est bem, e os quadris dela ainda es-
to firmes. Ela ainda gosta de se deitar na grama
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sempre que pode. Toda vez que eu a vejo fazendo
isso, me lembro dos primeiros anos em que est-
ivemos juntos. Lembra-se de quando costumva-
mos levar os cachorros at a praia para passear?
Quando amos cedo e podamos tirar as coleiras
deles para que eles pudessem correr? Aquelas
manhs eram sempre... relaxantes, e eu adorava
ver voc rindo quando perseguia Molly em crcu-
los, tentando bater no traseiro dela. Ela ficava
louca quando voc fazia isso; ficava com certo
brilho nos olhos, a lngua para fora da boca, es-
perando que voc encostasse nela.
      Ele fez uma pausa, percebendo, com certa
surpresa, que o pombo havia voltado. Ele devia
gostar de escut-lo conversando, concluiu Travis.
      - Foi a que eu percebi que voc seria uma
tima me. Por causa do jeito como voc agia
com Molly. Mesmo na primeira vez em que con-
versamos... - ele balanou a cabea, rememor-
ando o passado. - Acredite ou no, eu sempre
gostei do fato de que voc estava furiosa quando
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foi at a minha casa naquela noite, e no apenas
porque acabamos nos casando. Voc parecia uma
me ursa protegendo seu filhote.  impossvel
ficar to furiosa, a menos que voc seja capaz de
amar profundamente, e depois de observar como
voc cuidava de Molly - muito amor e carinho,
muita preocupao, e que no deixaria ningum
neste mundo trat-la mal -, eu sabia que voc ser-
ia exatamente daquele jeito com crianas.
      Ele deslizou seu dedo por cima do brao
dela. - Voc sabe o quanto isso significou para
mim? Saber o quanto voc ama nossas filhas?
Voc no faz ideia do quanto isso me confortou
durante todos esses anos.
      Ele aproximou seu rosto do dela. - Eu te
amo, Gabby, mais do que voc imagina. Voc 
tudo que eu sempre quis em uma esposa. Voc 
cada esperana e cada sonho que eu j tive, e vo-
c me fez mais feliz do que qualquer homem po-
deria sonhar em ser. No quero ter de abrir mo
disso. Eu no posso. Voc me entende?
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     Ele esperou por uma resposta, mas no
houve nada. Nunca havia nada, nem um sinal,
como se Deus estivesse lhe dizendo que o amor
que Travis sentia no era o suficiente. Olhando
fixamente para Gabby, ele repentinamente se
sentiu muito velho e muito cansado. Ajustou o
lenol, sentindo-se sozinho e distante da sua es-
posa, percebendo que era um marido cujo amor
por ela havia fracassado.
     - Por favor - sussurrou ele - voc tem de
acordar, querida. Por favor. Nosso tempo est
acabando.
     - Oi - disse Stephanie. Vestida com uma
camiseta e uma cala jeans, ela no se parecia em
nada com a profissional de sucesso que havia se
tornado. Morando em Chapel Hill, ela era a ger-
ente de projetos snior de uma empresa de bi-
otecnologia que crescia rapidamente. Entretanto,
nos ltimos trs meses, ela havia passado trs ou
quatro dias por semana em Beaufort. Desde o
acidente, ela era a nica pessoa com quem Travis
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realmente conseguia conversar. Ela era a nica
que conhecia os segredos dele.
     - Oi - disse Travis.


     Ela atravessou o quarto e se apoiou na later-
al da cama. - Oi, Gabby - disse ela, beijando-a no
rosto. - Voc est bem?
     Travis adorava o jeito como sua irm tratava
Gabby. Com exceo de Travis, ela era a nica
pessoa que sempre parecia estar confortvel na
presena de Gabby.
     Stepanie puxou outra cadeira e trouxe-a para
perto de onde Travis estava sentado. - E como es-
t voc, irmo mais velho?
     - Bem - ele disse.
     Stephanie lhe deu um olhar de cima a baixo.
- Voc est pssimo.
     - Obrigado.
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     - Voc no est se alimentando direito. - Ela
colocou a mo em sua bolsa e tirou um pacote de
amendoins. - Coma isto.
     - No estou com fome. Acabei de almoar.
     - Quanto?
     - O suficiente.
     - Coma, apenas para me deixar feliz. - Ela
usou os dentes para abrir a embalagem. -
Simplesmente coma estes amendoins e eu pro-
meto que vou calar a boca e no o incomodarei
novamente.
     - Voc diz isso toda vez que vem para c.
     - Fao isso porque voc continua com uma
aparncia pssima - ela inclinou a cabea em
direo a Gabby. - Aposto que ela disse a mesma
coisa, no foi? - Ela nunca havia questionado as
alegaes de Travis quando ele dizia que podia
ouvir a voz de Gabby. Ou, se ela o fez, seu tom
de voz no refletiu nenhuma preocupao em re-
lao quilo.
     - Disse, sim.
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      Ela o forou a pegar o pacote. - Ento pegue
os amendoins.
      Travis pegou o pacote e o colocou sobre o
colo.
      -Agora coloque alguns na boca, mastigue e
engula.
      Ela falava igual  me deles. - Algum j lhe
falou que voc  meio inconveniente, s vezes?
      - Eu ouo isso todos os dias. E acredite, vo-
c precisa de algum para ser inconveniente e
mandar em voc. Voc tem sorte de ter uma irm
como eu em sua vida. Sou uma bno para voc.
      Pela primeira vez no dia, ele soltou uma ris-
ada verdadeira. - Se voc diz, eu acredito. - Ele
despejou alguns amendoins na palma da mo e
comeou a mastigar. - Como vo as coisas entre
voc e Brett?
      Stephanie estava namorando com Brett
Whitney h dois anos. Um dos gerentes de fun-
dos mtuos mais bem-sucedidos do pas, ele era
incrivelmente rico, bonito e considerado por
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muitos o solteiro mais desejado do sul dos Esta-
dos Unidos.
      - Ainda estamos juntos.
      - Problemas no paraso?
      Stephanie deu de ombros. - Ele me pediu em
casamento outra vez.
      - E o que voc disse?
      - O mesmo que eu havia dito antes.
      - E como ele reagiu?
      - De maneira normal. Bem, ele fez aquela
cena dizendo "estou magoado e com raiva", mas
voltou ao normal depois de alguns dias. Passam-
os o ltimo fim de semana em Nova York.
      - Por que voc no se casa com ele de uma
vez?
      - Provavelmente eu me casarei.
      - Aqui vai uma dica, ento. Seria bom voc
dizer "sim" quando ele pedir a sua mo.
      - Por qu? Ele vai voltar a perguntar.
      - Voc parece ter muita certeza quando diz
isso.
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      - Tenho sim. E eu direi "sim" quando eu
tiver certeza de que ele quer se casar comigo.
      - Ele j pediu trs vezes. Voc ainda no
tem certeza?
      - Ele somente acha que quer se casar
comigo. Brett  o tipo de cara que gosta de de-
safios, e, neste momento, eu sou um desafio.
Desde que eu continue sendo um desafio, ele vai
continuar pedindo para eu me casar com ele. E,
quando eu souber que ele realmente est pronto,
 a que direi "sim".
      - Eu no sei...
      - Pode confiar em mim - disse ela. - Eu con-
heo os homens e tenho meus encantos. - Os ol-
hos dela brilharam com o luzir de alguma traves-
sura.- Ele sabe que eu no preciso dele, e isso
praticamente o mata de dio.
      - No - disse Travis. - Voc definitivamente
no precisa dele.
      - Ento, mudando de assunto, quando  que
voc vai voltar ao trabalho?
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     - Em breve - resmungou ele.
     Ela colocou a mo dentro do pacote de
amendoins e trouxe dois at a boca. - Voc sabe
que o nosso pai no  mais o garoto saltitante de
antigamente.
     - Eu sei.
     - Ento... que tal na prxima semana?
     Quando Travis no respondeu, Stephanie
cruzou as mos na frente do rosto. - Certo, aqui
est o que vai acontecer, j que voc obviamente
no pensou a respeito. Voc vai comear a apare-
cer na clnica e ficar l no mnimo at a uma hora
da tarde. Este  o seu novo horrio de trabalho.
Ah, e voc pode fechar a clnica ao meio-dia nas
sextas-feiras. Assim, nosso pai s vai ter de ir at
l quatro tardes por semana.
     Ele apertou os olhos. - D para ver que voc
est pensando nisso h um bom tempo.
     - Algum tem de fazer isso. E, para a sua in-
formao, no estou fazendo isso apenas pelo
nosso pai. Voc precisa voltar ao trabalho.
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        - E se eu achar que no estou pronto para
isso?
     - No faz a menor diferena. Voc vai tra-
balhar e pronto. Se no quer fazer isso por voc,
faa por Christine e Lisa.
     - Do que voc est falando?
     - Suas filhas. Lembra-se delas?
     - Eu sei quem elas so.
     - E voc as ama, certo?
     - Que tipo de pergunta  essa?
     - Ento, se voc as ama - disse ela, ignor-
ando a pergunta que ele fizera -, voc precisa
comear a agir como um pai de famlia nova-
mente. E isso significa que voc tem de voltar ao
seu emprego.
     - Por qu?
     - Porque tem de mostrar a elas que, no im-
porta quantas coisas horrveis aconteam na vida,
voc ainda tem de seguir em frente.  a sua re-
sponsabilidade. Quem mais ir ensin-las a agir
assim?
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     - Steph...
     - No estou dizendo que vai ser fcil. O que
estou dizendo  que voc no tem escolha. Afi-
nal, voc no deixou que elas desistissem, no
foi? Elas ainda esto na escola, no esto? Voc
ainda est cuidando para que elas faam a lio
de casa, no est?
     Travis no disse nada.
     - Ento, se espera que elas cuidem das suas
responsabilidades - e elas tm 6 e 8 anos,
somente -, voc vai ter de cuidar das suas. Elas
precisam ver que voc est voltando ao normal, e
o trabalho  uma parte disso. Desculpe. A vida 
assim.
     Travis balanou a cabea, sentindo seu dio
comear a lhe dominar. - Voc no entende.
     - Eu entendo perfeitamente.
     Ele trouxe os dedos at o lugar onde o nariz
se juntava com a testa e apertou. - Gabby ...
     Quando ele no continuou, Stephanie colo-
cou a mo no joelho dele. - Passional?
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Inteligente? Gentil? Moral? Engraada? Indul-
gente? Paciente? Tudo que voc imaginou querer
em uma mulher e uma me? Em outras palavras,
praticamente perfeita?
      Ele olhou para Stephanie, surpreso.
      - Eu sei - disse ela, em voz baixa. - Eu tam-
bm a amo. Eu sempre a amei. Ela no foi
somente a irm que eu nunca tive, mas minha
melhor amiga tambm. s vezes, parecia que ela
era a nica amiga de verdade que eu tinha. E vo-
c est certo - ela foi maravilhosa com voc e as
crianas. Voc no podia ter feito nada alm do
que j faz. Por que voc acha que eu continuo
vindo at aqui? No  somente por ela, nem por
voc.  por mim mesma. Eu tambm sinto
saudades dela.
      Sem saber como responder, ele no disse
nada. Em meio ao silncio, Stephanie suspirou.
      -Voc j decidiu o que vai fazer?
      Travis engoliu em seco. - No - admitiu ele.
- Ainda no.
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     - J faz trs meses.
     - Eu sei - disse ele.
     - E quando vai acontecer a reunio?
     - Daqui a meia hora.
     Observando seu irmo, ela aceitou aquilo. -
Certo. Bem, vou deixar voc pensar mais um
pouco a respeito. Vou dar uma passada na sua
casa e ver as meninas.
     - Elas no esto l, mas voltaro mais tarde.
     - Voc se importa se eu esperar por l?
     - Claro que no. Tem uma chave...
     Ela no deixou que ele terminasse. - Em-
baixo do sapo de gesso na varanda? , eu sei. E,
se voc estiver curioso a respeito disso, tenho
certeza de que a maioria dos ladres vai acabar
descobrindo tambm.
     Ele sorriu. - Amo voc, Steph.
     - Eu tambm amo voc, Travis. E voc sabe
que eu estarei aqui ao seu lado, no ?
     - Eu sei.
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     - Sempre. A qualquer momento que voc
precisar.
     - Eu sei.
     Olhando para ele, ela finalmente assentiu. -
Vou esperar at voc chegar, certo? Eu quero
saber o que vai acontecer.
     - Tudo bem.
     Levantando-se, Stephanie pegou sua bolsa e
a colocou por cima do ombro. Ela beijou o irmo
na testa.
     - At mais tarde, ento, Gabby - disse ela,
sem esperar uma resposta. Ela j estava saindo
pela porta quando ouviu a voz de Travis
novamente.
     - At onde devemos ir em nome do amor?
     Ela parou e olhou para trs. - Voc j me
perguntou isso antes.
     - Eu sei - hesitou Travis. - Mas estou per-
guntando a voc sobre o que voc acha que eu
deveria fazer.
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    - Ento eu lhe direi o que sempre digo. Que
quem deve escolher como lidar com isso  voc.
    - O que isso significa para mim?
    A expresso dela parecia quase perdida. -
No sei, Travis. O que voc acha que significa?
15 Nos Estados Unidos, o horrio letivo vai das 9 s 15
horas. (N. T.)
Captulo 21
J fazia um pouco mais de dois anos que Gabby
esbarrara com Kenneth Baker em uma daquelas
noites de vero pelas quais Beaufort era famosa.
Com a msica ao vivo tocando e dezenas de bar-
cos atracados nas docas, aquela noite parecia per-
feita para levar Gabby e as meninas at a cidade
para tomar sorvete. Gabby havia mencionado
casualmente que ela vira uma bela gravura em
uma das lojas pelas quais passaram. Depois de
tanto tempo juntos, ele j havia se acostumado
com as indiretas que ela lhe dava.
      - Por que voc no entra e d uma olhada
nela? - disse ele. - Eu cuido das meninas en-
quanto isso. V em frente.
      Ela ficou na loja mais tempo do que ele ima-
ginou que ela ficaria, e, quando voltou, tinha uma
expresso preocupada no rosto. Mais tarde,
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depois de voltarem para casa e colocarem as cri-
anas na cama, Gabby estava sentada no sof, e a
preocupao em seu rosto era aparente.
      - Est tudo bem? - perguntou ele.
      Gabby se virou no sof. - Eu encontrei Ken-
neth Baker mais uma vez hoje - admitiu ela. -
Quando voc estava pegando o sorvete para as
meninas.
      -  mesmo? E como ele est?
      Ela suspirou. - Voc tem noo de que a es-
posa dele j est em coma h seis anos? Seis
anos. D para imaginar o que isso deve represent-
ar para ele?
      - No, no consigo imaginar - disse Travis.
      - Ele parece um velho.
      - Tenho certeza de que eu envelheceria tam-
bm. Ele est passando por uma situao muito
difcil.
      Ela fez que sim com a cabea, sem perder o
ar de preocupao. - Ele parece ter raiva tambm.
 como se se ressentisse em relao a ela. E os
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filhos deles... - imersa em pensamentos, ela pare-
ceu se perder em meio  frase.
      Travis olhou fixamente para Gabby. - O que
voc est querendo dizer?
      - Voc me visitaria se uma coisa daquelas
acontecesse comigo?
      Pela primeira vez, ele sentiu uma pontada de
medo, embora no soubesse realmente por qu. -
 claro que eu a visitaria.
      A expresso no rosto dela era quase triste. -
Mas, aps algum tempo, voc me visitaria com
menos frequncia.
      - Eu iria visit-la todos os dias.
      - E, com o tempo, voc iria se aborrecer.
      - Eu nunca me aborreceria com voc.
      - Kenneth se aborrece em relao a Eleanor.
      - Eu no sou Kenneth - disse ele, bal-
anando a cabea. - Por que voc est falando
isso?
      - Porque eu amo voc.
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     Ele abriu a boca para responder, mas ela le-
vantou a mo para interromp-lo. - Deixe eu con-
cluir meu pensamento, est bem? - ela respirou
fundo, organizando seus pensamentos. - Quando
Eleanor chegou ao hospital, era bvio o quanto
Kenneth a amava. Foi o que notei quando con-
versvamos e, com o passar do tempo, acho que
ele me contou toda a histria da vida deles -
como eles se conheceram na praia no vero de-
pois da formatura; que, na primeira vez em que
ele a convidou para sair, ela recusou, mas,
mesmo assim, ele conseguiu que ela lhe desse o
nmero do seu telefone; que ele disse a ela que a
amava no aniversrio de 30 anos do casamento
dos pais dela. Mas ele no ficou apenas contando
histrias - parecia que ele estava revivendo
aqueles momentos repetidamente. De certa
forma, ele fazia com que eu me lembrasse de
voc.
     Gabby buscou a mo dele. - Sabe, voc faz a
mesma coisa. Voc sabe quantas vezes eu ouvi
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voc contar a algum sobre a primeira vez que
conversamos? No me entenda mal, eu adoro isso
em voc. Adoro o fato de que voc mantm essas
memrias vivas em seu corao, e que elas signi-
fiquem tanto para voc quanto para mim. E o que
acontece  que... quando voc relembra de tudo
isso, posso sentir que voc est se apaixonando
por mim novamente. De certa forma,  a coisa
mais bonita e emocionante que voc faz por mim.
- Ela fez uma pausa. - Bem, sem contar quando
voc limpa a cozinha nos dias em que estou
cansada demais para fazer isso.
      Apesar da seriedade do assunto, ele riu.
Gabby pareceu no notar.
      - Mas hoje Kenneth parecia to... amargo, e,
quando eu perguntei a respeito de Eleanor, eu
tive a sensao de que ele desejava que ela est-
ivesse morta. Quando comparo isso com os senti-
mentos que ele costumava ter em relao  es-
posa, e o que aconteceu com os filhos dele... 
terrvel.
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      Quando a voz dela enfraqueceu, Travis
segurou-lhe a mo. - Isso no vai acontecer
conosco.
      - No  disso que estou falando. A questo 
que eu no consigo viver sabendo que no fiz o
que deveria ter feito.
      - Do que voc est falando?
      Ela deslizou o polegar por cima da mo
dele. - Eu te amo muito, Travis. Voc  o melhor
marido, a melhor pessoa que eu j conheci em
toda a minha vida. E quero que voc me prometa
uma coisa.
      - Qualquer coisa que voc quiser.
      Ela olhou diretamente em seus olhos. - Eu
quero que voc prometa que, se alguma coisa as-
sim algum dia acontecer comigo, que voc vai
permitir que eu morra.
      - Mas ns j temos testamentos - respondeu
ele. - Deixamos tudo registrado quando fizemos
os testamentos e as procuraes.
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     - Eu sei - disse ela. - Mas nosso advogado se
aposentou e foi morar na Flrida. E, at onde eu
sei, ningum alm de ns trs sabe que eu no
quero que a minha vida seja prolongada caso eu
esteja em uma situao em que no possa tomar
as prprias decises. No seria justo colocar esse
fardo sobre as suas costas ou das meninas,
porque, com o tempo, o ressentimento seria inev-
itvel. Voc sofreria e as meninas tambm. Eu
me convenci disso hoje quando vi Kenneth, mas
no quero que voc se torne uma pessoa amarga
em relao a nada que tenhamos compartilhado.
Amo voc demais para permitir uma coisa des-
sas. A morte  sempre triste, mas tambm  inev-
itvel, e foi por essa razo que eu assinei o testa-
mento em vida. Porque eu amo vocs todos de-
mais. - A voz dela ficou mais suave, mas havia
mais determinao tambm. - E eu no quero ter
de falar aos meus pais ou s minhas irms sobre a
deciso que tomei. A deciso que tomamos.
Quero ter de procurar outro advogado e ter de
                                              573/627


reescrever os documentos. Quero poder acreditar
que voc vai fazer o que eu desejo que voc faa.
E  por isso que preciso que voc me prometa
que honrar meus desejos.
     Aquela conversa parecia meio surreal para
Travis. - Certo... tudo bem - disse ele.
     - No, no assim. Quero que voc me pro-
meta; quero que voc jure.
     Travis engoliu em seco. - Eu prometo fazer
exatamente o que voc quer que eu faa. Eu juro.
     - No importa o quo difcil isso possa ser?
     - No importa o quo difcil isso possa ser.
     - Porque voc me ama.
     - Porque eu te amo.
     - Sim - disse ela. - E porque eu te amo
tambm.
     O testamento em vida que Gabby havia
assinado no escritrio do advogado era o docu-
mento que Travis havia trazido ao hospital. Entre
outras coisas, ele especificava que os aparelhos e
sondas de alimentao deveriam ser desligados e
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desconectados aps doze semanas. Hoje era o dia
em que ele deveria fazer a sua escolha.
     Sentado ao lado de Gabby no hospital, Trav-
is lembrou-se da conversa que teve com ela
naquela noite. Ele se lembrou do juramento que
fez. Ele repetiu aquelas palavras uma centena de
vezes durante as ltimas semanas e, conforme a
marca dos trs meses se aproximava, ele percebia
que estava ficando cada vez mais desesperado,
desejando que ela acordasse. Assim como
Stephanie, e era por isso que ela iria esper-lo em
sua casa quando ele voltasse. H seis semanas ele
havia contado a Stephanie sobre a promessa que
fizera a Gabby; a necessidade de compartilhar
aquilo havia ficado quase insuportvel.
     As seis semanas seguintes se passaram sem
nenhum alvio. Gabby no somente no fez um
nico movimento, como no mostrava sinais de
recuperao em nenhuma das suas funes cereb-
rais. Embora ele tentasse ignorar o bvio, o
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relgio continuava avanando, e a hora da de-
ciso havia chegado.
      s vezes, durante suas conversas imaginri-
as com ela, ele tentava fazer com que ela mu-
dasse de ideia. Ele argumentava que a promessa
no havia sido justa; que a nica razo pela qual
ele havia concordado com aquilo era a improbab-
ilidade de que pudesse acontecer, algo em que ele
nunca acreditou realmente. Ele confessou que, se
tivesse a capacidade de prever o futuro, teria
rasgado os documentos que ela assinou no es-
critrio do advogado. Mesmo que ela no fosse
capaz de responder, ele ainda no conseguia ima-
ginar uma vida sem a presena dela.
      Ele nunca seria como Kenneth Baker. No
sentia nenhuma amargura em relao a Gabby, e
nunca sentiria. Ele precisava dela, precisava da
esperana que sentia quando estavam juntos. Ele
se sentia revigorado quando a visitava. Mais
cedo, naquele dia, ele estava exausto e letrgico;
conforme o dia progrediu, seu senso de
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comprometimento havia se fortalecido, deixando-
o com a certeza de que ele teria capacidade de rir
com suas filhas, de ser o pai que Gabby queria
que ele fosse. Funcionou por trs meses, e ele
sabia que poderia fazer aquilo para sempre. O
que no sabia era como poderia viver sabendo
que Gabby estava morta. Por mais estranho que
aquilo parecesse, havia uma previsibilidade re-
confortante na nova rotina da sua vida.
     Do lado de fora da janela, o pombo andava
para a frente e para trs, fazendo Travis pensar
que a ave estivesse ponderando a deciso com
ele. Havia momentos em que ele sentia uma es-
tranha sensao de familiaridade em relao
quele pombo, como se ele estivesse tentando lhe
dizer alguma coisa, embora ele no fizesse ideia
do que poderia ser. Certa vez, ele havia trazido
um pouco de po, mas no tinha se dado conta de
que a tela nas janelas o impediria de jogar algu-
mas migalhas para fora. Em p diante do vidro, o
pombo olhou para o po que ele tinha nas mos,
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arrulhando suavemente. Ele voou para longe um
momento depois e, mais tarde, voltou para passar
o resto do dia ali. Depois daquele dia, o pombo
no voltou a demonstrar medo dele. Travis podia
dar batidinhas no vidro que o pombo continuaria
no lugar. Era uma situao curiosa que lhe dava
algo em que pensar enquanto estava sentado no
silncio do quarto. O que ele queria perguntar ao
pombo era o seguinte: eu devo me tornar um
assassino?
     Seus pensamentos inevitavelmente o
levavam quela questo, e era o que o diferen-
ciava de outras pessoas que deviam honrar os
desejos descritos em testamentos. Elas estavam
fazendo a coisa certa; suas escolhas estavam en-
raizadas na compaixo que sentiam por seus
entes queridos. Para ele, entretanto, a escolha era
diferente, mesmo que as razes fossem lgicas.
Se A e B fossem corretos, ento C tambm seria.
Mas, com a sua racionalizao de que havia
cometido uma sequncia de erros, o acidente no
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deveria ter ocorrido; se o acidente no houvesse
ocorrido, no haveria o estado de coma. Ele foi o
responsvel pelos ferimentos que ela sofreu, mas
ela no havia morrido. E agora, apresentando al-
guns documentos que ele trazia no bolso, ele po-
deria terminar o servio. Podia ser o responsvel
pela morte da sua esposa. A diferena fazia seu
estmago se revirar; a cada dia, conforme a de-
ciso se aproximava, ele comia cada vez menos.
s vezes, parecia que Deus no queria apenas
que Gabby morresse, mas que Travis soubesse
que era o nico culpado por aquilo.
      Ele tinha certeza de que Gabby negaria
aquilo. O acidente foi apenas isso - um acidente.
E foi ela, no ele, quem tomou a deciso sobre o
perodo de tempo em que aceitaria ser alimentada
por uma sonda. Mesmo assim, ele no conseguia
se livrar do peso esmagador da responsabilidade
que tinha, pela simples razo de que ningum
alm de Stephanie sabia o que Gabby queria. No
fim, a escolha recairia unicamente sobre ele.
                                              579/627


     A luz cinzenta da tarde deu um tom mel-
anclico s paredes. Ele ainda se sentia paralis-
ado. Tentando ganhar tempo, tirou as flores do
parapeito da janela e as trouxe para perto da
cama. Ao pous-las sobre o peito de Gabby e se
sentar, Gretchen apareceu na porta. Ela entrou
lentamente no quarto; verificando os sinais vitais
de Gabby, no disse uma palavra. Anotou alguma
coisa no pronturio e deu um breve sorriso. H
um ms, quando ele estava exercitando os ms-
culos da sua esposa, Gabby havia mencionado
que tinha certeza de que Gretchen se sentia at-
rada por ele.
     - Ela vai nos deixar hoje? - ele ouviu
Gretchen perguntar.
     Travis sabia que ela estava se referindo 
transferncia para uma casa de repouso; pelos
corredores, Travis ouvira murmrios de que
aquilo aconteceria em breve. Mas havia mais
naquela pergunta do que Gretchen poderia
                                                580/627


compreender, e ele no conseguiu reunir foras
para responder.
     - Vou sentir falta dela - disse a enfermeira. -
E vou sentir falta de voc tambm.
     A expresso dela estava transbordando
compaixo.
     - Estou sendo sincera. Eu trabalho aqui h
mais tempo do que Gabby, e voc devia ter
ouvido as coisas que ela costumava falar sobre
voc. E sobre as crianas tambm. Dava para per-
ceber que, embora ela adorasse o emprego,
sempre ficava feliz no fim do expediente, quando
era hora de ir para casa. Ela no era como o resto
de ns, que ficvamos animados simplesmente
pelo fato de o dia de trabalho ter chegado ao fim.
Ela ficava animada, pois iria para casa e se re-
uniria com a sua famlia. Eu realmente admirava
isso nela e o fato de que ela tinha uma vida
assim.
     Travis no soube o que dizer.
                                               581/627


      Ela suspirou, e Travis pensou ter visto ind-
cios de lgrimas. - Me parte o corao v-la desse
jeito. E voc tambm. Voc sabia que todas as
enfermeiras do hospital sabem que voc mandava
rosas para a sua esposa sempre que era seu
aniversrio de casamento? Quase todas as mul-
heres aqui desejavam que seus maridos ou
namorados fizessem coisas assim. E, depois do
acidente, a maneira como voc a tratou... eu sei
que voc est triste e com raiva, mas vi voc
fazendo os exerccios com ela. Eu ouvia o que
voc dizia e...  como se voc e ela tivessem uma
ligao que no pode ser quebrada.  desolador,
mas, mesmo assim, lindo de se ver. E me sinto
muito mal pelo que vocs dois esto passando.
Estou rezando por vocs todas as noites.
      Travis sentiu sua garganta se fechar.
      - Acho que o que eu estou tentando dizer 
que vocs dois me fazem acreditar que o ver-
dadeiro amor realmente existe. E que nem
mesmo as horas mais difceis podem tirar isso de
                                              582/627


vocs. - Ela parou, sua expresso revelou que
pressentia ter falado demais, e se virou. Um mo-
mento depois, quando Gretchen estava a ponto de
sair do quarto, Travis sentiu que ela colocou a
mo sobre seu ombro. Era quente e leve, e ficou
ali por apenas alguns instantes, depois sumiu.
Travis estava novamente sozinho, enfrentando a
sua escolha mais uma vez.
      A hora havia chegado. Olhando para o rel-
gio, ele sabia que no poderia mais esperar. Os
outros o estavam aguardando. Ele atravessou a
sala para fechar as cortinas. O hbito fez com que
ele ligasse a televiso. Embora soubesse que as
enfermeiras a desligariam mais tarde, ele no
queria deixar Gabby sozinha em um quarto mais
silencioso do que uma tumba.
      Frequentemente, ele havia se imaginado
tentando explicar como aquilo havia acontecido.
Ele podia ver a si mesmo balanando a cabea,
sem acreditar, enquanto se sentava na mesa da
cozinha com seus pais. - Eu no sei por que ela
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acordou - ele se ouvia dizer. - At onde eu sei,
no h uma resposta mgica. Foi como todas as
outras vezes que eu a visitei... tirando o fato de
que ela abriu os olhos. - Ele imaginava que sua
me estaria chorando com lgrimas de alegria,
conseguia at mesmo se ver telefonando para os
pais de Gabby. s vezes, aquilo tudo era to
claro, como se realmente houvesse ocorrido, e ele
segurava a respirao, vivenciando e experiment-
ando a sensao de se maravilhar.
     Entretanto, ele agora duvidava que aquilo
seria possvel e, do outro lado do quarto, olhou
para ela. Quem eram eles, Gabby e Travis? Por
que as coisas haviam acontecido daquela
maneira? Houve uma poca em que ele poderia
ter respostas razoveis para aquelas perguntas,
mas aquela poca j estava distante. Atualmente,
ele no sabia de nada. Acima dela, a luz fluores-
cente emitia um zumbido baixo, e ele pensou no
que faria. Ele ainda no sabia. O que ele sabia era
que ela ainda estava viva, e, onde h vida, sempre
                                                584/627


h esperana. Ele se concentrou nela, imaginando
como uma pessoa to prxima e to presente po-
dia ficar to distante.
      Hoje, ele teria que fazer a sua escolha. Dizer
a verdade significaria que Gabby iria morrer;
mentir significaria que o desejo de Gabby lhe ser-
ia negado. Ele queria que ela lhe dissesse o que
fazer e, vindo de algum lugar ao longe, ele podia
imaginar a resposta dela.
      "Eu j lhe disse, querido. Voc j sabe o que
deve fazer."
      A escolha, porm, ele queria argumentar,
havia sido baseada em premissas falhas. Se ele
pudesse voltar no tempo, nunca teria feito aquele
juramento, e imaginou que ela poderia no ter pe-
dido aquilo. Ela teria tomado a mesma deciso se
ela soubesse que ele seria o responsvel pelo
acidente que a deixou em coma? Ou se ela
soubesse que tirar as sondas de alimentao e
observ-la definhar at a morte iria certamente
matar uma parte dele? Ou se ele dissesse a ela
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que acreditava que podia ser um pai melhor se
ela continuasse viva, mesmo que nunca se
recuperasse?
      Era mais do que ele conseguia suportar, e
ele sentia sua mente comeando a gritar. "Por fa-
vor, acorde!" O eco parecia fazer com que cada
tomo do seu corpo vibrasse. "Por favor, querida.
Faa isso por mim. Por nossas filhas. Elas precis-
am de voc. Eu preciso de voc. Abra os olhos
antes de eu ir, enquanto ainda h tempo..."
      E, por um momento, ele pensou que viu um
leve pestanejar; juraria que viu um movimento.
Ele estava com a voz embargada demais para
falar, mas como sempre, a realidade voltou a re-
inar, e ele sabia que tudo havia sido uma iluso.
Sobre a cama, ela no havia se movido um mil-
metro, e, olhando para ela em meio s lgrimas,
ele sentiu sua alma comeando a morrer.
      Ele precisava ir, mas havia mais uma coisa
que ele tinha de fazer. Como todas as pessoas, ele
conhecia a histria da Branca de Neve, do beijo
                                               586/627


do Prncipe Encantado que quebrou o feitio ma-
ligno. Era o que ele pensava toda vez que saa do
hospital para voltar para casa, mas aquela noo
agora lhe parecia imperativa. Era sua ltima
chance, a derradeira. Ele sentiu uma pequena
fagulha de esperana ao pensar que daquela vez
as coisas poderiam ser diferentes. Embora seu
amor por ela sempre estivesse presente, a
sensao de trmino no estava, e talvez aquela
combinao constitusse a frmula mgica que
faltava. Ele se endireitou e se aproximou da
cama, tentando se convencer de que desta vez iria
dar certo. O beijo, diferente de todos os outros,
encheria os pulmes dela com a vida. Ela soltaria
um gemido e teria uma confuso momentnea,
mas iria perceber o que ele estava fazendo. Ela
sentiria que a vida de Travis estava invadindo a
sua. Ela sentiria a plenitude do amor que ele tinha
por ela e, com uma paixo que o surpreenderia,
ela corresponderia ao beijo.
                                              587/627


     Ele se inclinou em direo a ela, com os ros-
tos bem prximos, e pde sentir o calor da respir-
ao de Gabby se mesclando  sua. Fechou os ol-
hos para afastar as lembranas de milhares de
outros beijos e tocou os lbios dela com os seus.
Sentiu uma espcie de fagulha e, finalmente, sen-
tiu que ela lentamente estava voltando para ele.
Ela era o ombro amigo que o consolava em tem-
pos difceis, ela era a voz no travesseiro ao lado
dele  noite. Estava funcionando, pensou ele,
realmente estava funcionando... e, com o corao
comeando a acelerar no peito, ele finalmente
percebeu que nada havia mudado.
     Afastando-se, tudo que ele pde fazer foi
deslizar seus dedos pela face dela. Sua voz estava
rouca, no muito mais do que um sussurro.
     - Adeus, querida.
Captulo 22
At onde uma pessoa deve ir em nome do amor?
     Travis ainda estava revirando aquela per-
gunta em sua mente quando estacionou em frente
a sua casa, mesmo j tendo tomado sua deciso.
O carro de Stephanie estava parado ali tambm,
mas, com exceo da sala de estar, o resto da
casa estava escuro. Uma casa vazia seria demais
para ele suportar.
     O frio estava difcil de aguentar quando
Travis saiu do carro, e ele fechou os botes da
sua jaqueta. A lua ainda no havia surgido no
cu, e as estrelas brilhavam; se ele se con-
centrasse, sabia que iria conseguir se lembrar dos
nomes das constelaes que Gabby recitou para
ele certa vez. Ele deu um breve sorriso,
lembrando-se daquela noite. A lembrana era to
clara quanto o cu que ele via acima de si, mas
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ele se esforou para afast-la, sabendo que no
teria a fora necessria para suportar aquilo. No
naquela noite.
      O gramado brilhava com a umidade do or-
valho, o prenncio de que haveria uma geada
forte naquela noite. Ele teria de se lembrar de tir-
ar as luvas e cachecis das meninas dos armrios
para que elas no precisassem correr atrs da-
quilo na manh seguinte.
      Stephanie se virou quando o viu entrar. Ele
podia sentir que ela estava tentando ler a sua ex-
presso. Ela foi em direo ao irmo.
      - Travis - disse ela.
      - Oi, Steph. - Ele tirou a jaqueta, percebendo
que no se lembrava qual era o caminho que
havia tomado para chegar em casa.
      - Voc est bem?
      Ele demorou um momento para responder. -
      No sei.
      Ela colocou uma mo sobre seu brao. Sua
      voz era suave. - Quer beber alguma coisa?
                                               590/627


     - Um copo d'gua seria timo.
     Ela parecia estar aliviada por poder fazer al-
guma coisa por ele. - Eu volto em um segundo.
     Ele se sentou no sof e inclinou a cabea
para trs, sentindo-se to esgotado como se
tivesse passado o dia inteiro no oceano, lutando
contra as ondas. Stephanie voltou  sala e lhe en-
tregou o copo.
     - Christine ligou. Ela vai se atrasar um pou-
co. Lisa j est a caminho de casa.
     - Tudo bem - disse ele. Travis baixou a
cabea antes de olhar para o retrato da famlia.
     - Quer conversar sobre o que houve?
     Ele bebeu um gole da gua, percebendo o
quanto sua garganta havia ficado seca. - Voc
pensou na pergunta que eu lhe fiz l no hospital?
Sobre at onde uma pessoa deve ir em nome do
amor?
     Ela considerou a pergunta por um momento.
- Eu me lembro de ter respondido.
     - Voc respondeu. Mais ou menos.
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      - O qu? Est dizendo que a minha resposta
no foi boa o bastante para voc?
      Ele sorriu, grato porque Stephanie ainda
conseguia conversar com ele da maneira habitual.
- O que eu realmente queria saber era o que voc
teria feito se estivesse no meu lugar.
      - Eu sabia o que voc queria - disse ela, hes-
itante. - Mas... no sei, Travis, realmente no sei.
No consigo me imaginar tendo de tomar uma
deciso dessas e, para ser honesta, acho que nin-
gum consegue - ela exalou. - s vezes eu
preferiria que voc nunca tivesse me contado.
      - Provavelmente eu no deveria ter contado.
Eu no tinha o direito de colocar esse peso sobre
os seus ombros.
      Ela balanou a cabea. - No foi isso que eu
quis dizer. Eu sei que voc tinha de conversar
com algum a respeito da situao, e fico feliz
por voc ter confiado em mim. Mas  que isso
fez com que eu me sentisse horrvel em relao
ao que voc estava passando. O acidente, seus
                                             592/627


prprios ferimentos, preocupaes com as suas
filhas, sua mulher em coma... e depois ter de
fazer uma escolha sobre dever ou no honrar os
desejos de Gabby?  demais para uma s pessoa.
      Travis no disse nada.
      - Estou preocupada com voc - acrescentou
ela. - Eu quase no tenho dormido desde que vo-
c me contou.
      - Me desculpe.
      - No se desculpe. Eu  que deveria lhe
pedir desculpas. Eu devia ter me mudado para c
assim que tudo aconteceu. Deveria ter ido visitar
Gabby com mais frequncia. Deveria ter estado
por perto sempre que voc precisava de algum
para conversar.
      - Est tudo bem. Eu fico feliz por voc no
ter se afastado do seu emprego. Alm disso, voc
estava aqui por muito mais tempo do que ima-
ginei que estaria.
      - Eu me sinto muito mal pelo que voc est
      passando.
                                              593/627


     Ele colocou o brao ao redor dela. - Eu sei -
     disse ele.
     Juntos, eles se sentaram, em silncio. Ao
fundo, Travis ouviu o barulho do aquecedor en-
quanto Stephanie suspirava. - Quero que voc
saiba que, no importa o que voc decidiu, eu es-
tou do seu lado, est bem? Eu sei, mais do que
praticamente qualquer pessoa, o quanto voc ama
Gabby.
     Travis se virou para a janela. Atravs do
vidro, ele conseguia ver as luzes das casas dos
seus vizinhos brilhando na escurido. - Eu no
consegui fazer o que ela queria - disse ele,
finalmente.
     Ele tentou organizar seus pensamentos. - Eu
achei que conseguiria e at cheguei a ensaiar as
palavras que ia dizer aos mdicos quando pedisse
a eles que retirassem as sondas. Sei que isso  o
que Gabby queria, mas... no final, no fui capaz
de faz-lo. Mesmo que eu passe o resto da minha
vida visitando-a na casa de repouso, ainda assim
                                               594/627


ser uma vida melhor do que uma que eu possa
passar ao lado de qualquer pessoa. Eu a amo de-
mais para deixar que ela se v.
      Stephanie lhe deu um sorriso plido. - Eu sei
- disse ela. - Eu percebi no seu rosto quando voc
entrou pela porta.
      - Voc acha que eu fiz a coisa certa?
      - Sim - respondeu ela, sem hesitar.
      - Por mim ou por Gabby?
      - Por vocs dois.
      Ele engoliu em seco. - Voc acha que ela vai
acordar algum dia?
      Stephanie olhou o irmo nos olhos. -
Acredito que sim. Eu sempre acreditei nisso.
Vocs dois... tem algo misterioso na relao de
vocs. Na verdade, quase tudo. O jeito como vo-
cs se olham, o jeito como ela relaxa quando vo-
c coloca a mo no ombro dela, o modo como
vocs dois parecem saber o que o outro est
pensando... tudo isso sempre me pareceu ex-
traordinrio.  por isso que eu continuo deixando
                                              595/627


o casamento para depois. Eu sei que quero algo
como isso que vocs dois compartilham e no
tenho certeza de que encontrei. No sei nem se
um dia encontrarei. E com um amor assim...
dizem que qualquer coisa  possvel, no ? Voc
ama Gabby e Gabby ama voc, e eu no consigo
imaginar um mundo onde vocs dois no estejam
juntos. Juntos como deveriam estar.
     Travis deixou que sua cabea absorvesse
     aquelas palavras.
     - O que vai acontecer a seguir, ento? - per-
     guntou ela. - Precisa de ajuda para queimar
     o testamento?
     Apesar da tenso, ele riu. - Talvez mais
     tarde.
     - E o advogado? Ele no vai voltar para lhe
     pressionar, no ?
     - Faz anos que no tenho notcias dele.
     - Viu?  outro sinal de que voc fez a coisa
     certa.
     - Acho que sim.
                                              596/627


      - E as casas de repouso?
      - Ela vai ser transferida na semana que vem.
Preciso resolver as questes burocrticas.
      - Precisa de ajuda?
      Ele massageou suas tmporas, sentindo-se
incrivelmente cansado. - Sim, acho que  uma
boa ideia.
      - Ei - disse ela, dando-lhe um leve empur-
ro. - Voc tomou a deciso certa. No se sinta
culpado a respeito de nada. Voc fez a nica
coisa que podia fazer. Ela quer viver. Ela quer a
chance de voltar para voc e para as meninas.
      - Eu sei. Mas...
      Ele no conseguiu terminar a sentena. O
passado havia ficado para trs, e o futuro ainda
iria se desdobrar, e ele sabia que deveria con-
centrar sua vida no presente... mesmo assim, o
dia a dia da sua existncia lhe parecia infindvel
e insuportvel.
      - Estou com medo - admitiu ele, finalmente.
                                          597/627


     - Eu sei - disse ela, puxando-o para mais
perto. - Tambm estou com medo.
Eplogo
Junho de 2007
A paisagem tristonha do inverno deu lugar s
cores vivas do fim da primavera, e, sentado na
varanda atrs da casa, Travis podia ouvir ps-
saros. Dezenas, talvez centenas, estavam cham-
ando e piando, e frequentemente uma revoada de
andorinhas deixava as rvores onde haviam se
aninhado, voando em formaes que quase pare-
ciam coreografadas.
     Era uma tarde de sbado e Christine e Lisa
ainda estavam brincando no balano que Travis
havia construdo com uma corda e um pneu e
pendurado na rvore na semana anterior. Como
queria um arco longo e lento para as meninas,
diferente dos balanos comuns, ele havia cortado
alguns dos galhos mais baixos antes de prender a
corda na parte mais alta da rvore. Passara uma
                                              599/627


hora inteira naquela manh empurrando o bal-
ano e ouvindo as suas filhas gritando e rindo
com alegria; quando ele terminou, a parte de trs
da sua camiseta estava ensopada de suor. E as
meninas ainda queriam mais.
     - Deixem o papai descansar por alguns
minutos - disse ele, sem flego. - O papai est
cansado. Por que vocs no brincam um pouco
sozinhas por enquanto?
     A decepo ficou clara no rosto delas, mas
durou apenas alguns momentos. Logo elas es-
tavam rindo e gritando novamente. Travis as ob-
servava no balano, com a boca se abrindo em
um pequeno sorriso. Ele adorava o tom musical
da risada delas, e v-las brincando juntas ac-
alentava o seu corao. Ele esperava que elas
permanecessem sempre amigas, assim como
eram agora. Ele gostava de acreditar que, se ele e
Stephanie servissem de referncia, elas ficariam
ainda mais prximas no futuro. Pelo menos era o
que ele esperava. A esperana, como ele
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aprendeu,  tudo o que uma pessoa tem, e nos l-
timos quatro meses ele havia aprendido a aceit-
la.
     Desde que fez a escolha, sua vida havia
gradualmente voltado a certa normalidade. Ou
pelo menos algo parecido com isso. Com
Stephanie, ele visitou algumas casas de repouso.
Antes dessas visitas, a concepo que ele tinha
das casas de repouso era pontilhada por erros de
julgamento. Ele imaginava que eram lugares mal
iluminados e imundos, onde pacientes confusos e
balbuciantes vagavam pelos corredores no meio
da noite e eram vigiados por agentes de segur-
ana  beira de uma psicose. Nada daquilo pro-
vou ser verdadeiro. Pelo menos no nos lugares
que ele e Stephanie visitaram.
     Em vez disso, os lugares, em sua maioria,
eram bem iluminados e arejados, administrados
por homens e mulheres de meia-idade que
usavam terno e gravata e levavam seu trabalho a
srio, e que se esforavam ao mximo para
                                              601/627


provar que suas instituies eram mais higinicas
que a maioria das casas e que sua equipe de fun-
cionrios era atenciosa, cuidadosa e profissional.
Durante as visitas, enquanto Travis imaginava se
Gabby ficaria feliz em um lugar como aquele ou
se ela seria a paciente mais jovem da instituio,
Stephanie fazia as perguntas mais incisivas. Ela
perguntava sobre os registros criminais dos fun-
cionrios e procedimentos de emergncia, ou
sobre como a casa de repouso lidava com as re-
clamaes. Ao andar pelos corredores, ela
deixava claro que estava ciente de cada regula-
mentao e cdigo previstos em lei. Ela expunha
situaes hipotticas que poderiam vir a aconte-
cer e perguntava como a equipe de sade e o
diretor lidariam com elas. Perguntava quantas
vezes Gabby seria exercitada e movida na cama
durante o dia, para prevenir a formao de es-
caras. s vezes, Travis pensava que ela agia
como um promotor de justia tentando condenar
algum por um crime e, embora ela mexesse com
                                             602/627


os brios de alguns diretores, Travis ficava grato
por sua vigilncia. Em seu estado mental, ele no
conseguiria pensar de forma racional, mas sabia
que ela estava fazendo todas as perguntas
necessrias.
     No final do processo, uma ambulncia trans-
feriu Gabby para uma casa de repouso que ficava
a poucos quarteires do hospital, administrada
por um homem chamado Elliot Harris. Harris no
havia impressionado somente Travis, mas
Stephanie tambm, e ela preencheu todos os doc-
umentos no escritrio dele. Ela havia insinuado -
podia ser verdade ou no - que conhecia algumas
pessoas importantes do poder judicirio estadual,
e assegurou-se de que Gabby ficaria em um belo
quarto individual com vista para um ptio.
Quando Travis a visitava, ele empurrava a cama
at a janela e afofava os travesseiros. Ele ima-
ginava que ela gostava dos sons que vinham do
ptio, onde amigos e famlias se reuniam, e tam-
bm da luz do sol. Ela havia dito aquilo para ele
                                               603/627


certa vez, quando ele exercitava suas pernas. Ela
tambm havia dito que entendia a escolha que ele
fez e que estava feliz por ele haver decidido
daquela maneira.
      Depois de instal-la na casa de repouso e
passar a maior parte da semana seguinte com ela
enquanto ambos se aclimatavam ao novo ambi-
ente, ele havia voltado a trabalhar. Aceitou a sug-
esto de Stephanie e comeou a trabalhar at o
incio da tarde, quatro dias por semana; seu pai
tomava conta do restante do dia. Ele no havia
percebido o quanto sentia falta da interao com
outras pessoas e, almoando com seu pai,
descobriu que conseguia comer quase toda a re-
feio. Trabalhar regularmente significava que
ele tinha de adaptar as visitas  casa de repouso
ao seu novo horrio. Depois de levar as meninas
at o ponto do nibus escolar, ele ia at a casa de
repouso e passava uma hora ali; depois do tra-
balho, ele passava outra hora com Gabby antes
que suas filhas voltassem para casa. s sextas,
                                              604/627


ele ficava ali a maior parte do dia, e nos fins de
semanas passava ali algumas horas. Aquilo de-
pendia da programao e dos planos das meninas,
algo em que Gabby provavelmente teria insistido.
s vezes, nos fins de semana, elas queriam
visit-la com ele, mas, na maioria das vezes, elas
no queriam ir at l ou no tinham tempo para
isso, por causa dos jogos de futebol, festas ou
porque saam para patinar. De alguma forma,
sem ter a deciso sobre a vida ou a morte de
Gabby em suas mos, a distncia entre elas no
incomodava Travis tanto quanto antigamente.
Suas filhas estavam fazendo o que era necessrio
para melhorar e seguir com a vida, assim como
ele. Ele havia vivido o bastante para saber que as
pessoas lidavam com a dor de diferentes maneir-
as, e, pouco a pouco, todos comearam a aceitar
suas novas vidas. At que certa tarde, nove sem-
anas depois de Gabby ter sido transferida para a
casa de repouso, o pombo apareceu em sua
janela.
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     No incio, Travis no acreditou no que es-
tava vendo. Para ser honesto, ele nem tinha cer-
teza de que era o mesmo pssaro. Quem poderia
dizer com certeza? Cinza, preto e branco com ol-
hos escuros - e na maioria das vezes uma praga -,
todos eles pareciam iguais. E, mesmo assim, ol-
hando para ele... Travis sabia que era o mesmo
pombo. Tinha de ser. Ele andava de um lado para
o outro, no tinha medo de Travis quando ele se
aproximava do vidro e arrulhava de uma forma
que parecia... familiar, de certa forma. Um mil-
ho de pessoas diriam que ele estava louco, e
uma parte dele sabia que essas pessoas estavam
certas. Mesmo assim...
     Era o mesmo pombo. No importa o quanto
isso pudesse parecer loucura.
     Ele o observou, embasbacado. No dia
seguinte, trouxe um pouco de po de forma e
colocou alguns pedaos no peitoral da janela. De-
pois daquele dia, ele olhou pela janela regular-
mente, esperando que o pombo voltasse, mas ele
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nunca retornou. Nos dias que se seguiram quela
visita, ele percebeu que a ausncia do pombo o
deixou deprimido. s vezes, em momentos de
maior reflexo, ele gostava de pensar que o
pombo havia simplesmente voltado para ver
como eles estavam, para ter certeza de que Travis
ainda estava cuidando de Gabby. Era isso, dizia
Travis a si mesmo, ou o pssaro veio para dizer-
lhe que no desistisse; que, apesar de tudo, a
escolha que ele fizera era a opo certa.
      Sentado na varanda dos fundos da sua casa,
lembrando aquele momento, ele ficou impres-
sionado por poder olhar para as suas filhas felizes
e vivenciar ele mesmo uma boa parte da alegria
que elas sentiam. Ele mal conseguia reconhecer
aquela sensao de bem-estar, a impresso de que
tudo estava bem no mundo. Teria a visita do
pombo anunciado as mudanas que tomaram
conta da vida daquela famlia? Travis supunha
que refletir sobre tais coisas era parte da natureza
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humana e imaginou que contaria a sequncia da
histria pelo resto de sua vida.
      Foi isso o que aconteceu: no meio da man-
h, seis dias depois que o pombo havia reapare-
cido, Travis estava trabalhando na sua clnica.
Em uma das salas havia um gato doente; em
outra, um filhote de doberman que precisava de
vacinas. Na terceira sala, Travis estava suturando
um cachorro que era um cruzamento de labrador
com golden retriever, que havia se cortado en-
quanto tentava rastejar por baixo de arames
farpados. Ele terminou de suturar o ltimo ponto,
amarrou a linha e estava comeando a informar o
dono sobre como manter o ferimento livre de in-
feces quando uma assistente entrou na sala sem
bater na porta. Travis se virou, surpreso com a
interrupo.
      -  Elliot Harris - disse ela. - Ele precisa
falar com voc.
      - Pode anotar o recado? - perguntou Travis,
olhando para o cachorro e o dono.
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     - Ele disse que no pode esperar.  urgente.
     Travis desculpou-se com o cliente e disse a
sua assistente que cuidasse das coisas enquanto
ele atendia o telefone. Foi at o escritrio e
fechou a porta. No telefone havia uma luz pis-
cando, avisando que Harris aguardava para falar
com ele.
     Pensando naquela ocasio, ele no tinha cer-
teza sobre o que esperava ouvir. Sentia, en-
tretanto, uma sensao de que algo sinistro estava
para acontecer quando levou o telefone at a
orelha. Era a primeira - e a nica - vez que Elliot
Harris havia ligado para ele no escritrio. Ele se
endireitou e apertou o boto.
     - Aqui  Travis Parker - disse ele ao
telefone.
     - Dr. Parker, aqui  Elliot Harris - disse o
diretor. A voz dele era calma, e Travis no con-
seguiu detectar nenhum indcio do motivo do
telefonema. - Eu acho que o senhor devia vir at
a casa de repouso assim que possvel.
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     No curto silncio que se se seguiu, um mil-
ho de pensamentos passaram pela mente de
Travis: Gabby havia parado de respirar; a situ-
ao dela havia piorado; de algum modo, toda a
esperana havia desaparecido. Naquele instante,
Travis segurou o telefone com fora, como se es-
tivesse tentando evitar o que quer que fosse dito a
seguir.
     - Gabby est bem? - ele perguntou, final-
mente. As palavras pareciam estar engasgadas.
     Houve mais uma pausa, provavelmente
apenas um segundo ou dois. Um piscar de olhos
que demorou anos, era como ele o descreveria
hoje; mas as duas palavras que se seguiram fizer-
am com que ele deixasse o telefone cair.
     Ele estava estranhamente tranquilo quando
saiu da clnica. Pelo menos foi isso que seus as-
sistentes lhe disseram mais tarde: que no con-
seguiram perceber nada do que havia acontecido
quando olharam para ele, e que Travis no deu
nenhum indcio do que havia acontecido. Eles
                                             610/627


disseram que o haviam observado quando ele
passou em frente ao balco da recepo. Todos,
desde a equipe de funcionrios at as pessoas que
traziam seus animais at a clnica, sabiam que a
esposa de Travis estava na casa de repouso.
Madeline, que tinha 18 anos e trabalhava na re-
cepo, olhou-o com olhos arregalados quando
ele se aproximou da sua mesa. Naquela altura,
quase todos na clnica sabiam que algum havia
ligado da casa de repouso. Em cidades pequenas,
as notcias se espalham rapidamente.
      - Pode ligar para o meu pai e pedir que ele
venha me substituir? - perguntou Travis. - Eu
preciso ir at a casa de repouso.
      - Claro que sim - respondeu Madeline. Ela
hesitou. - Voc est bem?
      - Voc poderia me levar at l? Acho que eu
no estou em condies de dirigir.
      - Claro - disse ela assustada. - Deixe-me
apenas ligar para o seu pai, est bem?
                                             611/627


     Enquanto ela teclava os nmeros, Travis
parecia estar paralisado. A sala de espera estava
em completo silncio. At mesmo os animais
pareciam saber que algo havia acontecido. Ele
ouviu Madeline falando com seu pai como se ela
estivesse muito distante; na verdade, ele mal
tinha noo de onde estava. Foi somente quando
Madeline desligou o telefone e lhe disse que seu
pai chegaria em pouco tempo que Travis pareceu
reconhecer seus arredores. Ele viu o medo no
rosto de Madeline. Talvez porque fosse jovem e
no conseguisse manter a calma, ela fez a per-
gunta em que todos pareciam estar pensando.
     - O que houve?
     Travis viu a empatia e a preocupao estam-
padas no rosto das pessoas. A maioria delas o
conhecia h anos; algumas o conheciam desde
que ele era pequeno. Alguns, entre eles a maioria
da equipe de funcionrios, tambm conheciam
Gabby, e, depois do acidente, todos passaram por
um perodo parecido com um luto. Aquilo no
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era da conta de ningum, mas de repente era,
porque as razes de Travis estavam aqui. Beaufort
era a casa deles, e, olhando em volta, ele recon-
hecia a curiosidade de todas aquelas pessoas
como algo parecido com o amor entre parentes.
Mesmo assim, ele no sabia o que dizer a elas.
Ele havia imaginado mais de mil vezes como este
dia seria, mas agora, entretanto, parecia que tudo
era novo. Ele conseguia ouvir a prpria respir-
ao. Se concentrasse intensamente, achava que
poderia at mesmo sentir seu corao batendo no
peito; mas seu pensamento parecia estar longe
demais para fazer sentido, ou mesmo para ser
traduzido em palavras. Ele nem sabia ao certo em
que pensar. Imaginava se havia escutado Harris
corretamente, ou se tudo havia sido um sonho;
ele imaginou se, de algum modo, havia com-
preendido mal. Em sua mente, ele revivia a con-
versa, buscando significados ocultos, tentando
encontrar a realidade por trs das palavras, mas,
por mais que tentasse, parecia no conseguir se
                                               613/627


concentrar o bastante para sentir a emoo que
deveria. O terror o impedia de sentir o que quer
que fosse. Mais tarde, ele descreveria a sensao
que sentiu como se equilibrar em uma corda
bamba, com a felicidade total de um lado e a
perda total do outro, e ele estava parado no meio,
pensando que um nico movimento errado em
qualquer direo faria com que ele casse no
abismo.
     Na clnica, ele colocou sua mo no balco
para se apoiar. Madeline deu a volta no balco
com as chaves do carro na mo. Travis olhou em
volta da sala de espera; depois, para Madeline, e
por ltimo para o cho. Quando levantou os ol-
hos, tudo o que ele conseguiu fazer foi repetir ex-
atamente o que ouvira ao telefone alguns mo-
mentos antes.
     - Ela acordou.
     Doze minutos depois, aps trinta mudanas
de faixa e trs semforos que estavam definitiva-
mente amarelos, ou talvez at mesmo vermelhos,
                                              614/627


Madeline estacionou o carro na porta da casa de
repouso. Travis no havia dito uma palavra desde
que entrou no carro, mas sorriu em agradeci-
mento ao abrir a porta.
     O percurso no ajudou a aliviar sua mente.
A esperana que tinha parecia estar alm de
qualquer coisa, e ele estava com um enorme
entusiasmo. Ao mesmo tempo, no conseguia se
afastar da ideia de que, de algum modo, ele havia
entendido errado o que lhe fora dito no telefone.
Talvez ela tivesse acordado por um instante e est-
ivesse novamente em coma; talvez algum
tivesse visto alguma informao errada. Talvez
Harris tivesse se referido a alguma condio
obscura que melhorava a funo cerebral, em vez
do bvio. A cabea dele girava, alternando
cenrios de esperana e desespero conforme ele
se encaminhava para a entrada.
     Elliot Harris o aguardava e parecia ter um
maior controle sobre si mesmo do que Travis
imaginava poder exercer.
                                               615/627


     - J telefonei para o mdico e o neurologista
e eles estaro aqui em alguns minutos - disse ele.
- Por que voc no vai at o quarto dela?
     - Ela est bem, no ?
     Harris, um homem que Travis mal conhecia,
colocou uma mo em seu ombro, convidando-o a
entrar. - V v-la - disse ele. - Ela est pergunt-
ando por voc.
     Algum segurou a porta aberta para que ele
entrasse - no importa
o quanto tentasse, ele no conseguia se lembrar
se era um homem ou uma mulher - e Travis en-
trou no prdio. Uma curva  direita o levou s es-
cadas, e ele subiu rapidamente, ficando mais
cambaleante conforme subia. No segundo andar,
ele abriu a porta e viu que havia uma enfermeira
e um assistente de enfermagem que pareciam es-
tar esperando por ele. Como ambos tinham uma
expresso entusiasmada, ele presumiu que de-
viam t-lo visto chegando e queriam lhe dizer o
que estava acontecendo, mas ele no parou, e eles
                                              616/627


o deixaram passar. Ao dar o prximo passo, ele
sentiu que suas pernas iriam fraquejar. Apoiou-se
contra a parede para se endireitar por um mo-
mento e depois deu mais um passo em direo ao
quarto de Gabby. Ao se aproximar, ele ouviu o
murmrio de pessoas conversando. Na porta, ele
hesitou, desejando que tivesse pelo menos pen-
teado o cabelo, mas isso no importava. Ele en-
trou no quarto, e o rosto de Gretchen se iluminou.
     - Eu estava no hospital ao lado do mdico
quando ele recebeu a mensagem e simplesmente
tinha de vir aqui e ver com os meus prprios
olhos.
     Travis nem sequer a ouviu. Em vez disso,
ele s conseguiu registrar a presena de Gabby,
sua esposa, sentada na cama, com uma aparncia
fraca. Ela parecia estar desorientada, mas o sor-
riso em seu rosto quando ela o viu lhe disse tudo
que ele precisava saber.
     - Eu sei que vocs dois tm muito o que
conversar... - dizia Gretchen, ao fundo.
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     - Gabby? - sussurrou Travis, finalmente.
     - Travis - grunhiu ela. A voz de Gabby pare-
cia diferente, arrastada e rouca pela falta de uso,
mas era realmente a voz dela. Travis foi lenta-
mente at a cama, seus olhos nunca se afastando
dos dela, sem perceber que Gretchen j havia
sado do quarto, fechando a porta atrs de si.
     - Gabby? - repetiu ele, quase sem acreditar.
Em seu sonho, ou no que ele achava ser um
sonho, ele observava conforme ela movia sua
mo da cama at pous-la em cima da barriga,
como se aquilo necessitasse de toda a fora de
que ela dispunha.
     Ele se sentou na cama ao lado dela.
     - Onde voc estava? - perguntou ela, balbu-
ciando as palavras, mas mesmo assim cheias de
amor, cheias de vida. Acordada. - Eu no sabia
onde voc estava.
     - Estou aqui agora - disse Travis, e
desmanchou-se em lgrimas, com os soluos
vindo aos borbotes. Ele se inclinou em direo 
                                              618/627


Gabby, ansiando por sentir seu abrao. E, quando
sentiu a mo dela em suas costas, ele comeou a
chorar ainda mais. Ele no estava sonhando.
Gabby o estava abraando; ela sabia quem ele era
e o quanto ela significava para ele. Era real. Era
tudo o que ele conseguia pensar. Desta vez, era
real.
      Como Travis no estava disposto a sair do
lado de Gabby, seu pai o substituiu na clnica por
mais alguns dias. Apenas recentemente ele vol-
tara a ter algo parecido com um trabalho em
tempo integral, e em fins de semana como
aquele, com suas filhas correndo e rindo no
jardim e Gabby na cozinha, ele s vezes se
pegava procurando detalhes do ano anterior. As
lembranas que ele tinha dos dias que passou no
hospital pareciam borradas e enevoadas, como se
ele estivesse apenas um pouco mais consciente
do que Gabby.
      Gabby no voltou do coma sem consequn-
cias,  claro. Ela havia perdido muito peso, seus
                                                619/627


msculos haviam se atrofiado, e certo entorpeci-
mento persistia na maior parte do lado esquerdo
do corpo. Demorou alguns dias at que ela con-
seguisse ficar de p sem apoio. A terapia era irrit-
antemente lenta; at hoje ela passava algumas
horas por dia com o fisioterapeuta e, no comeo,
frequentemente ficava frustrada por no con-
seguir fazer as coisas mais simples. Ela detestava
sua aparncia esqulida ao espelho e comentou
mais de uma vez que parecia ter envelhecido
quinze anos. Era nesses momentos que Travis lhe
dizia que ela era linda e que nunca tivera tanta
certeza de alguma coisa em sua vida.
     Christine e Lisa demoraram um pouco para
se acostumar. Na tarde em que Gabby acordou,
Travis pediu que Elliot Harris telefonasse para
sua me para que ela pudesse pegar as crianas
na escola. A famlia se reuniu uma hora mais
tarde, mas, quando entraram no quarto, parecia
que nem Lisa nem Christine queriam chegar
perto da me. Em vez disso, elas se agarravam a
                                               620/627


Travis e respondiam a qualquer pergunta que
Gabby lhes fizesse com monosslabos. Levou
meia hora at que Lisa finalmente subisse na
cama para ficar ao lado da me. Christine no se
abriu at o dia seguinte, e mesmo assim ela
manteve suas emoes a distncia, como se est-
ivesse encontrando Gabby pela primeira vez.
Naquela noite, depois que Gabby havia sido
transferida de volta para o hospital, Travis trouxe
as filhas de volta para casa e Christine perguntou
se "a mame havia voltado de verdade ou se ela
iria dormir de novo". Embora os mdicos
tivessem deixado claro que aquilo provavelmente
no aconteceria, eles no haviam excludo a pos-
sibilidade completamente, pelo menos naquele
primeiro momento. Os medos de Christine eram
um reflexo dos medos de Travis. Sempre que ele
avistava Gabby dormindo ou simplesmente des-
cansando depois de um dia mais puxado na fisi-
oterapia, ele sentia seu estmago se retorcer, e
sua respirao se acelerava, e ele a cutucava
                                               621/627


gentilmente, com um medo cada vez maior de
que ela no voltasse a abrir os olhos. E, quando
ela finalmente reagia, ele no conseguia disfarar
seu alvio e gratido. Embora Gabby aceitasse
aquela ansiedade no incio, ela admitia que
aquela ideia lhe dava arrepios tambm, aquilo
comeou a lhe dar nos nervos. Na semana anteri-
or, com a lua j alta no cu e os grilos cantando,
Travis comeou a acariciar seu brao enquanto
ela estava deitada ao lado dele. Ela abriu os olhos
e os focou no relgio, percebendo que j passava
das trs da manh. Um momento depois, ela se
sentou na cama e lhe deu um olhar duro.
      - Voc tem de parar de fazer isso! Eu pre-
ciso dormir. Preciso de sono regular e sem inter-
rupes, como todas as outras pessoas do mundo!
Estou exausta, d para entender? Eu me recuso a
viver o resto da minha vida sabendo que voc vai
ficar me cutucando a cada hora at eu acordar!
      Foi o comentrio que ela fez; nem poderia
ser classificado como uma discusso, pois ele
                                              622/627


nem teve tempo de responder antes que ela vol-
tasse a se deitar na cama e se virasse de costas
para ele, resmungando em voz baixa. Para Travis,
aquilo pareceu algo to... tpico de Gabby que ele
respirou aliviado. Se ela no se preocupava mais
a respeito de voltar a entrar em coma, e jurava
que no se preocupava, ento ele sabia que no
deveria fazer aquilo tambm. Ou pelo menos ele
podia deix-la dormir em paz. Agora, no meio da
noite, ele simplesmente escutava a respirao
dela e, ao perceber as diferenas no ritmo, difer-
enas que no ocorriam quando ela estava em
coma, ele finalmente era capaz de se deitar e vol-
tar a dormir.
      Todos estavam se ajustando, e ele sabia que
aquilo iria demorar um bom tempo. Muito tempo.
Eles ainda tinham de conversar sobre o fato de
terem ignorado o testamento feito em vida, e ele
se perguntava se chegariam a fazer aquilo. Ele
ainda tinha de contar a Gabby sobre as conversas
imaginrias que teve com ela enquanto ela estava
                                                 623/627


no hospital, e ela tinha pouco a dizer sobre o
coma. No se lembrava de nada: nenhum aroma,
nenhum som da televiso, nem do toque dele. - 
como se o tempo tivesse simplesmente...
desaparecido.
     Mas no era um problema para ela. Tudo es-
tava como devia estar. Por trs de si, ele ouviu a
porta se abrir e ento se virou; a distncia, ele po-
dia ver Molly deitada sobre o gramado ao lado da
casa; Moby, j velho, estava dormindo em um
dos cantos. Travis sorriu quando Gabby espiou
suas filhas, notando sua expresso contente. En-
quanto Christine empurrava Lisa no balano de
pneu, ambas rindo com alegria, Gabby se sentou
na cadeira de balano ao lado de Travis.
     - O almoo est pronto - disse ela. - Mas
acho que vou deix-las brincar por mais alguns
minutos. Elas parecem estar se divertindo muito.
     - Esto mesmo. Mais cedo, elas acabaram
comigo.
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     - Voc acha que, quando Stephanie chegar
aqui mais tarde, podemos ir at o aqurio? E
comer uma pizza? Estou morrendo de vontade de
comer pizza.
     Ele sorriu, pensando que poderia ficar
naquele momento para sempre. - Parece uma
tima ideia. Ah, isso me lembra... sua me ligou
enquanto voc estava no chuveiro.
     - Vou ligar de volta para ela daqui a pouco.
Tenho de ligar para o tcnico do aquecedor tam-
bm. Eu no consegui deslig-lo no quarto das
meninas ontem  noite.
     - Acho que consigo consert-lo.
     - Acho que no consegue no. Da ltima vez
que voc tentou consert-lo, ns tivemos de com-
prar um novo, lembra-se?
     - Eu me lembro que voc no me deu tempo
suficiente.
     - Sim, sim - provocou ela. Gabby piscou o
olho. - Voc quer almoar aqui fora ou na sala de
jantar?
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     Ele fingiu pensar na pergunta, sabendo que
no era realmente importante. Do lado de dentro
ou de fora da casa, o importante era que todos es-
tariam juntos. Ele estava com a mulher e as filhas
que amava, e quem iria precisar ou querer al-
guma coisa alm daquilo? O sol brilhava in-
tensamente, as flores estavam se abrindo, e o dia
passaria com uma tranquilidade impossvel de
imaginar no inverno anterior. Era somente um dia
normal, um dia como outro qualquer. Mas, acima
de tudo, um dia em que cada coisa estava exata-
mente como devia ser.
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